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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O pré-sal e o enigmático futuro brasileiro



Ler este artigo do respeitado professor Carlos Lessa é fundamental para entender sobre a cobiçada riqueza do litoral brasileiro. Saber sobre quem está do lado de quem nesta luta de classes aberta e renhida que se estabelece no País e fora dele. Confirmar, por exemplo, que a ANP é entreguista, mesmo sendo dirigida (talvez por causa disso) por um dirigente do PC do B, Haroldo de Lima.


Toda profissão tem cacoetes lingüísticos. O geólogo brasileiro denomina os campos submarinos de petróleo existentes abaixo de um enorme e espesso lençol de sal de pré-sal. O geólogo ordena o mundo de baixo para cima. O sal dificulta e encarece a extração, porém preserva um óleo leve e de ótima qualidade.

Fortes evidências levam a crer que há 130 milhões de anos começou o desquite entre África e América do Sul. No meio, surgiu um lago que, crescendo, dá origem ao Atlântico Sul. O material orgânico foi sepultado debaixo do sal; posteriormente, outros elementos se depositaram. A combinação de temperatura e pressão converteu a matéria orgânica em petróleo. Movimentos tectônicos deslocaram o sal; parte do petróleo migrou para cima das "janelas" de sal. A Petrobras localizou campos submarinos nestas janelas: Namorado, Marlin, Roncador e toda uma peixaria permitiram a auto-suficiência deste combustível. O óleo dessas jazidas não é o melhor - é pesado - porém é nosso; está em nossa fronteira marítima, pertence à Petrobras, e o Brasil é líder em tecnologia e ambições em águas profundas.

A Petrobras foi em frente. Perfurou ao longo do mar, desde Espírito Santo até a Bacia de Santos, em busca do pré-sal. Tudo leva a crer que Existam campos no mar em uma área de até 800 quilômetros de extensão por 200 quilômetros de largura. As estimativas oscilam entre 30 e 50 bilhões de barris no pré-sal - não é um delírio nacional, esta é a avaliação do Credit Suisse.

Hoje temos 14 bilhões de barris provados. Com Tupi, Carioca, Júpiter e seus "compadres", chegaríamos às reservas atuais da Rússia e da Venezuela. O óleo do pré-sal é leve. O Brasil pode confiar nos geólogos, cientistas, engenheiros e tecnólogos que desenvolveremos a tecnologia para estes campos muito profundos e com espessas camadas de sal. Ao Eldorado Verde da Amazônia, descobrimos um Azul, no pré-sal; um novo Eldorado pelo brasileiro e para o brasileiro. Este é o sonho. Pode-se converter em um pesadelo.

Os EUA consomem 25% do petróleo do mundo. O grande poluidor bebe, todos os anos, sete bilhões de barris. Tem reservas pequenas, apenas para quatro anos. Por isto, tem tropas na Arábia Saudita (260 bilhões de barris de reservas), e frotas navais no Oceano Índico; estimulou o conflito latente entre sunitas e xiitas, promoveu Saddam Hussein e deu fôlego a Bin Laden. Com o primeiro, alimentou o ódio ao Irã (100 bilhões de barris); com o segundo, sustentou a rebelião dos afegãos contra a URSS. Após o 11 de setembro, destruiu os talibãs e, desde então, acusou o Iraque (100 bilhões de barris) de dispor de armas nucleares. Destruído Saddam, não se descobriu nenhum armamento não convencional. Transferiu, imediatamente, para o Irã a acusação de estar se nuclearizando. Os EUA mergulharam de ponta-cabeça no Oriente Médio, pois têm sede de petróleo - aliás, a China e a Índia também.

Até o pré-sal brasileiro, o Novo Mundo não poderia saciar os EUA; o México já foi depredado (tinha 52 bilhões de reservas e hoje está com 17). O Canadá tem muita areia betuminosa (custos extremamente elevados de extração). A Venezuela tem reservas insuficientes para a sede norte-americana. Alguns países ficaram sem petróleo: a Indonésia exportou, participou da Opep e vendeu seu óleo a US$ 3 o barril, hoje importa aUS$100 o barril. O Reino Unido não é mais exportador de petróleo no Mar do Norte; bebeu e vendeu demais. Este é o pano de fundo de um possível pesadelo geopolítico. Não interessa ao Brasil que o Atlântico Sul se converta num Oriente Médio.

A primeira pergunta que ocorre é: o petróleo do pré-sal é nosso? Logo depois: até quando? O neoliberalismo já promoveu nove rodadas de leilões. A ANP - instituição que no passado seria denominada de "entreguista" - pretendeu acelerar uma nova rodada nos blocos do pré-sal. Com clarividência, o presidente Lula suspendeu a rodada e solicitou à ministra-chefe da Casa Civil que estudasse uma nova legislação de regulamentação da economia do petróleo. Creio que Lula anteviu um possível "Iraque" em nosso território. O presidente sabe que a Petrobras pode, técnica e financeiramente, desenvolver Tupi e outros campos do pré-sal. Sabe que não se brinca com soberania na "Amazônia azul". Nossa Marinha de Guerra precisa do submarino nuclear; nossa Aeronáutica precisa de mísseis e da Base de Alcântara, porém quem garante que não seremos acusados de belicismo?

Conheço a ministra Dilma desde os tempos da Unicamp. Sei que é nacionalista e bem preparada; ela sabe que o preço do barril irá subir tendencialmente. É uma boa "aplicação financeira" manter petróleo conhecido e cubado como uma reserva estratégica; rende mais que os Títulos de Dívida Pública norte-americanos. Um fundo soberano, alimentado com uma parcela das reservas cambiais de nosso Banco Central, poderia subscrever ações e financiar a Petrobras. É mais estratégica esta "aplicação" do que apoiar o Tesouro dos EUA. Dilma sabe que a China fura poços e os mantém lacrados, preferindo beber petróleo importado em troca de suas exportações. Certamente, a regulamentação não será elevar royalties e contribuições especiais sobre o petróleo extraído do pré-sal por companhias estrangeiras.

A premissa maior é reassumir a Petrobras como empresa estratégica para o futuro desenvolvimento brasileiro e escudo protetor de uma geopolítica potencialmente ameaçadora. Para tal, é necessário retirar da companhia sua medíocre missão atual: "honrar seus acionistas". Aliás, o Dr. Meirelles, com o desejado fundo soberano, poderia converter o Banco Central em "acionista", recomprando as ações que os governos liberalizantes venderam para estrangeiros.

A diretoria da Petrobras, em vez de saber a cotação da ação em Wall Street, deveria estar articulada com o presidente da República, expondo ao Brasil o modo de manter o Eldorado em nossas mãos.

Artigo de Carlos Lessa, professor-titular de economia brasileira da UFRJ, publicado no jornal Valor.

14 comentários:

Omar disse...

Dá uma olhada:
http://doomar.blogspot.com/2008/09/brasileiro-o-mais-feliz-do-mundo.html#links

Anônimo disse...

O Brasil vai precisar de um Vladimir Putin para manter o controle do pré-sal. Quem seria ele?

Ary da Silva Martini disse...

Ainda bem que o petróleo não está em terra, no lado brasileiro da tríplice fronteira. Corrigindo um equívoco: Bin Laden é agente americano (até hoje). De acordo com as necessidades e a natureza do trabalho, ele é sacado para o serviço. Entre a opinião de Carlos Lessa e a do professor Bautista Vidal, fico com a última. Ontem o JN insinuou que o petróleo pode ser um mau negócio, que dependendo do custo da extração não vale a pena mexer, etc e tal. Pode um troço desses?

Carlos Eduardo da Maia disse...

Não vi ontem o JN, mas se ele disse isso mesmo é um imenso absurdo. O Brasil tem que colocar seus dutos no pré sal e sou favorável a aplicação desses recursos integralmente no combate à miséria, investindo e muito na educação e formação desse povo para a cidadania e mercado de trabalho e sem ranços ideológicos.

Juarez Prieb disse...

Combate à miséria, Maia?

Aí o primeiro genro, o pardal Davidovich Zylbersztajn vai alegar que é "miserabilíssimo" e reivindicar o seu quinhão.

Anônimo disse...

Ontem os mentirosos deram "tchauzinho" para uns U$ 500 bilhões nas alucinadas previsões sobre as riquezas recônditas do pré-sal. O preço do petróleo, exatamente no dia do espetáculo midiático promovido pelo governo, desabou para U$ 105 o barril. Terá sido o impacto das mãos sujas do demagogo nas cotações internacionais? A realidade é que se o Brasil tiver tanto petróleo quanto o imbecil anda bradando, em estado de pré-loucura, o resultado será um só: queda de preço, por excesso de oferta.

Cel

Anônimo disse...

Cel continua torcendo contra o Brasil só para massagear o teu ego imbecil.

Enquanto os norte americanos tiverem que promover guerras cada vez mais caras para saquear o petroleo do oriente médio o preço vai ser daí para maior.

Claudio Dode

Anônimo disse...

Eu acho que é fundamental um posicionamento político sério e para isto é fundamental a base ideológica.

O contrário disto é a falcatrua política embalada na cretinece do Fukuyama e outros terroristas economicos a serviço do "mercado".

Mas ranço "ideológico" é o prejuizo que o sociólogo impigiu ao Brasil entregando as descobertas da Petrobras, feitas em anos de pesquisa patrocinadas pelo povo brasileiro, a ganacia de grupos internacionais (que aplicam o terrorismo no oriente médio e onde mais possam saquear) explorarem sem muito esforço.

Basta lembrar que quando o Geisel fez os contratos de risco não acharam nada.

Pura bandalheira!

Claudio Dode

Anônimo disse...

Ontem o imbecil entrou em transe. E avisou que, até 2017, o Brasil vai investir R$ 2 trilhões a mais só por causa do pré-sal, mesmo que a Petrobras já tenha provado que produção em larga escala só em 2014. A que preço e a que margem, ninguém sabe. Somente em três meses, o petróleo foi a U$ 155 e agora já está em U$ 105 o barril. Com as mãos lambusadas de óleo, assim como quando mentiu que o Brasil tinha alcançado a auto-suficiência em petróleo - o déficit da conta petróleo está em R$ 5 bilhões até a metade do ano -, o imbecil demonstrava acreditar nos próprios chutes. Não existe matemática possível para justificar estes números. Nem sondas e plataformas que possam garantir a produção. Este comportamento risível deve ser a tal maldição do ouro negro, a tal febre do petróleo. Ou é apenas o retrato de um imbecil discursando para um país de idiotas. Um imbecil em estado de pré-loucura.
Cel

Ary da Silva Martini disse...

Cel: essa maneira educada, gentil e delicadea é "de berço, fruto de papai e mamãe ou foi falquejada em bancos escolares"? Voc~e não pdoeria dizer tudo isso de outra forma? Faça um esforço, afinal, esse teu "linguajar" exige resposta que, com certeza, o gerente do Blog irá censurar. Não te parece?

Anônimo disse...

Cel: será mais benvindo(a) se fizeres este comentário no blog do Reinaldo Azevedo ou do Maia.
Aqui estás fora de casa e é muito favor ser mais educado(a).
Maria Lúcia

Anônimo disse...

Cel:

O maior imbecil é aquele que acha que é esperto.

Especificamente o teu caso. Não sabes nada e fica dizendo bobagens com relação a auto-suficiência.

A auto suficiência é uma realidade, e com sobras.

Não podes, mesmo que seja um anseio intimo, querer ligar diretamente a produção de petróleo com a balança de pagamentos, muito menos se não pegares um ano completo.

Até pela a variação de preços pode ver que está sujeito a realizar diferenças.

O Brasil de antes do Lula produzia (e produz) oleo pesado que suas refinarias não refinavam. Então exporta petróleo pesado e importa leve. Nisso a culpa é dos imbecis de antes que não conseguiam ver a realidade. Ai já tens uma diferença que é a do preço do petróleo pesado para o petróleo leve.

Para teu contrôle é bom observar que o preço do petróleo varia de acordo com a violência, inclusive do custo desta violência, que o maior consumidor tenta arrancar o petróleo dos produtores . Além de histórico é atual e está em toda a midia.

Para completar procura ler alguma coisa sobre a variação do dolar e com certeza vais encontrar mais uma causa para esta diferença.

Anônimo disse...

O Mollusco Bebum conseguiu com que os Xeiques baixassem o preço do petróleo.

Ary da Silva Martini disse...

Cel escreve um coisa e Lula diz outra. Tenho uma certeza e uma dúvida. A certeza: um deles sabe de coisas que o outro não sabe. A dúvida: será que Lula leu o que Cel escreveu? Lula, tendo lido, entendeu o recado de Cel? Se Lula entendeu, por que não deu ouvidos ao Cel? Lula, ao ignorar Cel, estaria em seu juízo perfeito?

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