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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sábado, 13 de setembro de 2008

Artigo


E agora, general Jobim?

Em um dia dos anos 80, Raymundo Faoro (bem sabia eu que me faria muita falta quando se foi há cinco anos) disse: “Acho que um conterrâneo meu, Nelson Jobim, é figura interessante”. Naquele tempo eu ancorava um programa intitulado Jogo de Carta, na TV Record ainda da família Machado de Carvalho. Ia ao ar toda segunda, durou de setembro de 1984 a abril de 1987, foi cassado pelo ministro das Comunicações do governo Sarney, Antonio Carlos Magalhães. Passei da conta ao entrevistar Leonel Brizola.

Depois do elogio de Faoro, convidei Jobim para o programa. Veio, grave, ponderado, progressista (esta era palavra muito usada então). Mas não se passou muito tempo para que Faoro retificasse sua opinião. Usou uma frase que surgiria anos após na boca de Fernando Henrique Cardoso, só que infinitamente menos abrangente, ou melhor, bastante específica: “Esqueça o que eu disse a respeito do tal de Jobim”.

Não apurei as razões do grande amigo. Mas hoje imagino que as dúvidas de Faoro deslizassem na encosta do caráter, sem deixar de incursionar pela zona miasmática onde sopram a vaidade e o provincianismo na ausência de senso de humor. De fato, quando hoje tropeço na monumental figura do ministro da Defesa acondicionado dentro de uma farda militar de campanha, experimento a sensação de que ele pertence à categoria dos imortais, isentos de qualquer consciência do efêmero.

Jobim foi decisivo para o afastamento de Paulo Lacerda da direção da Abin, afastamento no mínimo desairoso para um veterano policial de conduta impecável. Argumento fatal brandido pelo ministro: agentes da Abin grampearam o presidente do STF, Gilmar Mendes. Ponto final? Para o presidente Lula, sim. Lacerda imediatamente saiu pela porta dos fundos. A verdade factual, entretanto, é bem outra.

Com imediatez quase igual somaram-se as provas irrefutáveis de que a agência dos 007 nativos não dispõe de equipamento para efetuar interceptações telefônicas, a corroborar os primeiros esclarecimentos prestados pelo general Jorge Felix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e pelo próprio Lacerda. Que fazer agora com a vítima de uma acusação falsa? E com o acusador?

A resposta parece óbvia: chame-se de volta Paulo Lacerda, suspenda-se a suspensão. E puna-se de alguma forma a prosopopéia de Jobim. Trata-se de decisões que cabem ao presidente da República. O mesmo que se curvou diante do presidente do Supremo e do seu ministro da Defesa.

Artigo do jornalista Mino Carta, publicado na revista semanal CartaCapital, que vai às bancas hoje.

4 comentários:

Ary da Silva Martini disse...

Cadê o áudio que foi degravado?

Fabrício disse...

Jobim, além de integrante da quadrilha do Dantas (DD não tem influência por causa do dinheiro, mas pelas relações não-republicanas que mantèm com pessoas da hierarquia de Jobim), é indigente moral. Mua caráter, no popular.
Pior é que o problema não é ele, mas quem o banca. Lula, no caso. O presidente, aliás, acaba de sentir na pele como funciona a escala axiológica de Jobim.

Anônimo disse...

Entre algumas das muitas sabedorias que uma sociedade deve desenvolver é a de conseguir separar os símbolos tecidos pela manipulação, daqueles que legitimamente lhe cabem como valor. Tenho acompanhado a trajetoria desta figura - cada vez mais comprometedora e comprometida - de Jobim e cada vez mais seu caráter corroído vai despencando ladeira abaixo a imagem de lisura que tentou construir. Sorte que nem sempre as fábricas de ilusões funcionam!!!
Marco

Anônimo disse...

É só ver o preço das passagens aéreas e ver a quem este "gajo" serve.

Claudio Dode

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