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Foto-legenda: Sagira Ansari, de 11 anos (à direita), enrola cigarros de tabaco com a sua família, em casa, no estado indiano de Bengala Ocidental, em 26 de janeiro último.

Sagira é uma entre milhões de crianças trabalhadoras nos recantos mais escondidos da Índia profunda. Muitas crianças trabalham em indústrias perigosas mas cruciais para a economia indiana: nas olarias que abastecem a indústria da construção civil, nos campos encharcados de pesticidas que produzem os alimentos da Índia, um país com 800 milhões de almas, ou fazendo cigarros com as mãos e respirando o pó do tabaco de forma permanente.

Sagira e sua família ganham cerca de 1,5 dólar para cada um mil cigarros enrolados, o que representa algo como 150 dólares/mês, de trabalho de toda a família, inclusive as crianças. Rafiq Maqbool/AP

quarta-feira, 21 de março de 2012

Jorge Gerdau constitui um grande erro político da presidenta Dilma




A manchete principal do jornal Folha de S. Paulo informa que a presidenta Dilma convocou 27 grandes empresários brasileiros com a finalidade de cobrar-lhes investimentos, face ao desempenho pífio do PIB brasuca no ano passado. A iniciativa da presidenta cumpre uma tarefa política de dupla finalidade: mostrar dinamismo reativo do Planalto quanto à necessidade premente de acelerar o investimento produtivo - única maneira de gerar emprego e riqueza social - e, ao mesmo tempo, empanar a crise institucional provocada pelas (eternas) insatisfações da base aliada - leia-se PMDB.

Muito bem, muito correto, não fora o nome escolhido pela presidenta para coordenar a reunião com os campeões do PIB brasileiro: Jorge Gerdau. O empresário do setor siderúrgico assessora a presidenta na área de gestão e competitividade e, segundo o diário da família Frias, "ajudou a elaborar a lista" que irá se entrevistar com Dilma. Gerdau ocupa um cargo não-remunerado no Planalto e se refestela em uma sala próxima ao gabinete presidencial no recinto mesmo do Poder Executivo nacional.

A decisão de guindar Jorge Gerdau à condição em que se encontra no centro do poder planaltino é um equívoco grosseiro da presidenta Dilma. Um mega engano político, uma rombuda insensatez econômica e uma rotunda imprudência institucional.

Jorge Gerdau é um símbolo das estrepolias privatistas do tucanato no País, adquiriu a preço de cachaça ruim, em 1992, a antiga Aços Finos Piratini, fundada pelo então governador Brizola, em Charqueados, no Rio Grande do Sul. Gerdau assumiu a direção da aciaria e de plano demitiu cerca de 60% dos 3 mil trabalhadores da siderúrgica sulina. Hoje, o Rio Grande importa aço plano e para construção mecânica (que serve para indústria automotiva, ônibus, máquinas e equipamentos agrícolas, indústria naval e indústrias de energia eólica e outras).

Um dos grandes gargalos do desenvolvimento produtivo no RS - hoje - é a falta de aço, e o "planaltino" Jorge Gerdau se recusa a investir no seu estado de origem, onde fez a sua acumulação primitiva e de onde se projetou como boss do aço em inúmeros países de três continentes. Gerdau prefere investir no Canadá. A presidenta Dilma talvez não saiba disso, mas se sabe, agrava o seu espetacular erro político em convidá-lo para tão importantes missões do governo brasileiro.

Voltaremos ao assunto.

segunda-feira, 12 de março de 2012

“Os Descendentes” e a alienação da vida cotidiana



De chegada quero dizer que “Os Descendentes” é um grande filme. O roteiro e a direção estão a cargo de Alexander Payne, que dá um tratamento leve – mas comprometido – a temas complexos da vida cotidiana. O personagem que o tempo inteiro está em cena é Matt King, herdeiro de um baronato de terras no valioso Havaí, onde nasceu o presidente estadunidense Barack Obama. Informe-se que o arquipélago foi descoberto pelos portugueses, mas os EUA, depois de invadirem militarmente as ilhas no finalzinho do século 19, anexaram ao seu território. Hoje, é um dos tantos estados dos EUA.

King, vivido pelo correto George Clooney, é um advogado rico, que não amadureceu, tem duas filhas muito jovens, e a mulher vive seus últimos dias em coma profundo, depois de um grave acidente de lancha, possivelmente durante uma bebedeira tão juvenil quanto irresponsável.

Todos os que aparecem na tela de “Os Descendentes” são indivíduos imaturos e despreparados para a vida adulta. Mesmo o veterano pai da comatosa mulher de Matt King, apesar de avançado nos anos, dá um soco no olho de um menino, por este ter dito um disparate imbecil acerca de sua mulher portadora do mal de Alzheimer. Repito: todos são juvenis, homens e mulheres improvisados para a vida adulta.

Vejam os muitos primos do protagonista vivido por George Clooney: herdeiros de uma riqueza ancestral, baseado na posse de uma terra usurpada aos nativos, aparentemente não trabalham, flanam por aí com copos na mão, camisas havaianas (sim, no Havaí, se usam camisas havaianas!) esperando ficarem mais ricos do que já são. A cena – quase no final – na qual os primos se reúnem para decidir sobre a venda de suas terras, deliberação essa que cabe ao advogado da família, Matt King, é risível e urdida com leveza pelo diretor Alexander Payne, com simplicidade e objetividade, mostrando-os em grupo, nunca individualmente, como uma pequena manada, todos em traje informalíssimo (alguns com camisas havaianas), aguardando bovinamente o momento em que poriam a mão em mais bufunfa, talvez nem mesmo sabendo o quê fazer com aqueles excessivos dólares.

Quando Matt King/George Clooney recebe a notícia do médico sobre o estado clínico terminal de sua mulher, parece que ele acorda de um longo sono letárgico, na direção oposta da mulher, portanto. Essa condição é confirmada quando sua filha de 17 anos lhe informa que a mãe/esposa estava tendo um caso afetivo com um corretor de imóveis. King ao ser informado da aventura da mulher corre desabalado pelas ruas do bairro residencial onde mora, uma cena entre o hilário e o tenso, porque o diretor é um craque e consegue fundir elementos aparentemente conflitivos num mesmo trecho narrativo e faz disso enlevo, arte e fruição, dotando a cena de grande densidade e força dramática.

Nestas pequenas soluções de roteiro é que o cara mostra o talento, seja de diretor, seja de roteirista mesmo. Outra cena que impacta, agora pela beleza plástica e poética, é quando Alex, a filha mais velha de King, recebe a notícia da irreversibilidade do estado da mãe e, na piscina, submerge chorando, o que parece agravar tanto o sufoco que sente quanto a depressão do momento. Cinema, como dizia Hitchcock, é mais imagem que palavra. As palavras são acessórios de uma linguagem narrativa fundada sobretudo na imagem e no impacto visual.

Quando se confirma que a mulher de King não tem volta, que basta desligar os aparelhos para que ela finalmente morra, todos os personagens crescem em cena, o pai, as duas filhas, e até o namoradinho de Alex, a fiha de 17 anos. O rapaz é a imbecilidade andante, uma versão engordurada de Beavis e Butthead, e no entanto, subitamente passa a ingressar na fileira dos adultos.

Esse, a meu ver, é o traço essencial do filme de Alexander Payne. A expressão descendente, em latim, significa o "que desce". Todos descem e chapinham na depressão e na mediocridade cotidiana, até que Payne coloque a inflexão catártica determinada pelo coma da mulher do protagonista principal. A partir daí ocorre o ascenso, a subida, a progressão existencial no rumo da autoconsciência, da lucidez e da desalienação da vida cotidiana. Matt King já não quer mais vender a terra ancestral, em que pese a pressão dos primos. Ele não quer mais se comportar como um ser mecânico que cumpre de forma alienada com um roteiro secreto onde não há reflexão, onde não há espaço para a dúvida e por conseguinte para a liberdade. King já não está mais disposto a fazer o que o sogro espera dele, o que os primos esperam dele, ou o que a sociedade espera dele. 

Ele que fora "um homem devorado por seus papéis", como diz a socióloga Agnes Heller, dá uma cambalhota moral-existencial e começa a entender o que está a sua volta. A consciência de King agora quer fazer a "condução da vida" para buscar a auto-realização através da autofruição da personalidade. O personagem de Clooney quer elevar-se acima de si mesmo, onde o cume disso é representado pela catarse (purgação) da conjugação de fatos cotidianos inexoráveis e esmagadores para qualquer indivíduo.

Há um provérbio dos índios Guaranis, habitantes autóctones do Brasil meridional que diz o seguinte: Quando se corre muito, há que parar e esperar pela alma”. King/Clooney "corre" muito no filme "Os Descendentes", então pára para refletir e esperar a sua alma. Ele precisa reencontrar a sua humanidade perdida, recompor os cacos do seu ser genérico, remontar a sua integridade moral e reconstituir-se como homem completo. Goethe dizia que todo homem pode ser completo, inclusive na sua cotidianidade.

A belíssima cena de despedida de Matt King da mulher vegetativa no leito de morte é um ponto alto do cinema contemporâneo: ele já está mudado, sem rancor, elevado, terno, adulto, comovido (sem pieguice) e ao mesmo tempo realista e íntegro - desalienado, enfim. 

sábado, 10 de março de 2012

Resistência, tortura e morte durante o regime civil-militar brasileiro



Livro mostra crimes de tortura praticados durante a ditadura civil-militar no Brasil
A partir de extensa pesquisa bibliográfica realizada ao longo de cinco anos, o psicanalista e escritor sul-rio-grandense Adail Ivan de Lemos traz a público o mecanismo de repressão do regime militar brasileiro que durou 21 anos no país (1964-1985). 
“Desafia o nosso peito — resistência, tortura e morte durante o regime militar brasileiro” é todo baseado em artigos que comprovam como agia o sistema repressivo montado pelo regime militar. Em uma espécie de inventário sobre a tortura, a obra mostra como eram presos os suspeitos de atividades políticas contrárias ao governo civil-militar.
A ideia do autor é de que o livro seja fonte para advogados, jornalistas, historiadores e pesquisadores, além de servir como subsídio de investigação para a Comissão da Verdade — grupo criado, por lei sancionada pela presidente Dilma Rousseff, para apurar os crimes políticos cometidos durante a ditadura militar. Tarso Genro assina o prefácio da obra.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Serra, Cerra, Çerra, Çerrote



Este programa foi ao ar na noite de 01 de março de 2012. Serra, como se pode notar, está cada vez mais Cerra, quase passando a Çerra. O eterno candidato a tudo representa a quintessência da direita brasileira: arrogante, estreito e exageradamente ambicioso (na razão inversa da sua capacidade intelectual e cognitiva).

quinta-feira, 1 de março de 2012

O passado não conhece o seu lugar, está sempre presente



Responsabilização
O Christopher Hitchens disse certa vez que se fizera uma promessa: não leria mais nada escrito pelo Henry Kissinger até que fossem publicadas suas cartas da prisão. O Hitchens já morreu, o Kissinger continua escrevendo (seu último livro é sobre a China) e são poucas as probabilidades de que venha a ser julgado, o que dirá preso, pelo que aprontou – no Chile e no Vietnã, por exemplo. Sua posteridade como estrategista geopolítico e conselheiro de presidentes está assegurada, ele morrerá sem ser responsabilizado por nada e não serão seus inimigos que escreverão seu epitáfio.

O juiz espanhol Garzón, aquele que mandou prender o Pinochet, estava mexendo com o passado franquista da Espanha, também atrás de responsabilização, e bateu de frente com a reação. Recorreram a um tecnicismo de legalidade duvidosa para barrá-lo. Lá também se invoca uma Lei da Anistia para impedir uma investigação dos crimes da ditadura. Anistia não anula responsabilização. A partir do tribunal de Nuremberg que julgou a cúpula nazista no fim da II Guerra Mundial, passando pelos julgamentos de tiranos em cortes internacionais desde então, o objetivo buscado é a responsabilização, que não tem nada a ver com retribuição, vingança ou mesmo justiça. Até hoje discute-se a legalidade formal, de um ponto de vista estritamente jurídico, dos processos em Nuremberg, mas era impensável, diante da enormidade do que tinha acontecido, e sob o impacto das primeiras imagens dos corpos empilhados nos campos de concentração nazistas recém liberados, que eles não se realizassem. Alguma forma de responsabilização era uma necessidade histórica. Com alguma grandiloquência se poderia dizer que a consciência humana a exigia.

A tal Comissão da Verdade que se pretende no Brasil responderia à mesma exigência histórica, além da necessidade de completar a história individual de tantos cujo destino ainda é desconhecido. A julgar pela rapidez com que, aos primeiros protestos de evangélicos e bispos católicos, o Gilberto Carvalho correu para lhes dizer que a posição do governo em relação ao aborto continuaria retrógrada como a deles, pode-se duvidar da disposição do governo para enfrentar a reação que virá, como na Espanha do Garzón, ao exame do nosso passado e à responsabilização dos seus desmandos. Vamos torcer para que, neste caso, a espinha do governo seja mais firme.

Pois, sem responsabilização, as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora.
Artigo de Luis Fernando Veríssimo, publicado hoje no jornal O Globo.

"O passado não conhece o seu lugar, está sempre presente" - é uma das frases definitivas de Mário Quintana, o maior poeta menor do Rio Grande do Sul.  


Presidenta Dilma determina punição a treze generais de pijama



O fato é inédito. A presidente Dilma Rousseff decidiu aplicar uma "repreensão" aos 98 militares da reserva que assinaram um novo manifesto reafirmando as críticas feitas a ela por não ter censurado suas ministras que pediram a revogação da Lei de Anistia.

No meio da tarde de ontem 
Dilma determinou ao ministro da Defesa, Celso Amorim, que os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica aplicassem a repreensão a todos os signatários do novo manifesto (o primeiro havia partido do Clube Militar), "nos limites do regulamento disciplinar". O texto diz também que não reconhece a autoridade do ministro Celso Amorim.

Conforme a lei 7.524, de 17 de julho de 1986, assinada pelo ex-presidente 
José Sarney, os militares da reserva podem se manifestar politicamente e não estão sujeitos a reprimendas.

O general de Exército da reserva, 
Gilberto Barbosa de Figueiredo, ex-comandante Militar da Amazônia e ex-presidente do Clube Militar, o único quatro estrelas a assinar a nota, até o início da noite de ontem não tinha sido comunicado da repreensão. Ele disse ao Estado que, se receber a repreensão vai consultar seu advogado para possivelmente recorrer da punição, que considera "inaceitável". "Se eles não dessem pelota pro fato, ele já tinha se encerrado. Mas não vou aceitar ser cerceado do meu direito de expressar minha opinião", afirmou.

presidente Dilma, ao tomar conhecimento que novo manifesto estava sendo publicado, desta vez com a assinatura de 98 militares, sendo 13 generais, determinou a Amorim que checasse qual a importância e influência de cada um dos assinaram a nota. Assim que recebeu a informação, avisou a Amorim que mandasse os comandantes repreender quem subscrevera o documento.

No meio da tarde, 
Amorim convocou os três comandantes do Exército, Enzo Peri, da Marinha, Moura Neto, e da Aeronáutica, Juniti Saito, determinando que aplicassem punição aos 98 signatários do documento, a fim de "cortar o mal pela raiz".

No novo "alerta à Nação", informado pela Folha de S.Paulo, intitulado 
Eles que venham, por aqui não passarão, os militares avisam que o Clube Militar "é uma associação civil, não subordinada a quem quer que seja, a não ser à sua diretoria". A informação é do Estadão de hoje.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O esgotamento dos modelos liberais de governo



O retorno da política
Em abril, a Europa será palco de duas importantes eleições: o primeiro turno da eleição presidencial francesa e a eleição legislativa na Grécia. Ambas ocorrerão sob o signo do agravamento da crise socioeconômica na zona do euro e do esgotamento de modelos liberais de governo.

A França, sob Nicolas Sarkozy, iniciou um dos mais impressionantes processos, na sua história recente, de desmonte do serviço público, de restrição orçamentária e de redução de impostos para ricos.

Sarkozy havia prometido "aumentar o poder de compra das famílias", diminuir o desemprego por meio da flexibilização do trabalho e colocar a economia francesa em rota de crescimento. 

Nada disso foi feito. Em seu lugar, o governo francês divertia-se em expulsar ciganos e criar o Ministério da Imigração e Identidade Nacional, enquanto inúmeros estudos da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) demonstravam a importância da imigração como motor de sustentação da economia europeia.

A situação política francesa parecia o pior dos mundos. Enquanto Sarkozy e François Hollande, candidato do PS (Partido Socialista), digladiam-se na conquista do primeiro lugar, cresce o inacreditável. O FN (Front National), um partido xenófobo, racista, representante da pior tradição da extrema-direita europeia, chegou à casa dos 20%. Não é difícil compreender que, quando o medo torna-se o afeto político central, a extrema-direita sempre capitaliza.

Mas não deixa de ser interessante um movimento político que muitos julgavam impossível. Uma coalizão de agrupamentos de esquerda conseguiu lançar um candidato com densidade eleitoral, Jean-Luc Mélénchon (foto), que chega a 10% das intenções de voto. Um partido à esquerda do PS com dois dígitos de intenção de voto é algo que não ocorre na França desde 1981.

Sem medo de chamar de gato a um gato e de estigmatizar as derivas racistas e isolacionistas da extrema-direita, Mélénchon conseguiu empurrar para a defensiva um partido que cresceu moldando impunemente a pauta do debate político e se colocando como defensor das classes baixas contra o "cosmopolitismo" dos burocratas de Bruxelas.

Em um impressionante debate na TV entre os dois representantes do extremo político, a candidata do FN, Marine Le Pen, preferiu ler ostensivamente jornais diante das câmeras a responder às acusações do candidato da esquerda.

Isso demonstra como vale a pena relembrar uma frase visionária de Jean Baudrillard: "Melhor morrer pelos extremos do que pelas extremidades". Em momentos de grave crise, deixar que o discurso da ruptura seja monopolizado pela extrema-direita é fazer prova de suicídio político.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Publicado hoje na Folha.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Dilma reage rápido e desmonta "indignação" de militares recalcitrantes



Os presidentes dos Clubes Militares foram obrigados ontem a publicar uma nota desautorizando o texto do "manifesto interclubes" que criticava a presidente Dilma Rousseff por não censurar duas de suas ministras que defenderam a revogação da Lei da Anistia. Logo depois, porém, tanto o comunicado original como o desmentido foram retirados do site em que foram divulgados.
Dilma não gostou do teor da nota por não aceitar, segundo assessores do Planalto, qualquer tipo de desaprovação às atitudes da comandante suprema das Forças Armadas.

A presidente convocou o ministro
Celso Amorim (Defesa) para pedir explicações. Ele se reuniu com os comandantes das três Forças, que negociaram com os presidentes dos clubes da Marinha, Exército e Aeronáutica a "desautorização" da publicação do documento, divulgado no site do Clube Militar no dia 16, como revelou o Estado na terça-feira.

No dia seguinte, houve a reunião de 
Amorim com os comandantes das três Forças e uma conversa com a presidente. Paralelamente a essa movimentação, os comandantes telefonaram aos presidentes dos três clubes a fim de que a nota crítica a Dilma fosse suprimida.

Ontem, o "comunicado interclubes" foi retirado do site no início da tarde. Por volta das 16 horas, foi divulgado um outro texto, em que os presidentes desautorizavam o comunicado anterior. Esse desmentido, porém, não chegou a ficar meia hora no ar. O
Clube do Exército, para tentar encerrar a polêmica, retirou a nota e o desmentido, mas a celeuma já estava criada.

Apesar de terem sido obrigados a recuar e, com isso, não criar uma crise militar, os presidentes dos clubes não se conformam com as críticas que têm recebido e temem que a Comissão da Verdade só ouça um dos lados na hora de trabalhar.

Os presidentes dos clubes da Aeronáutica, brigadeiro 
Carlos de Almeida Baptista, e da Marinha, almirante Ricardo da Veiga Cabral, disseram que em momento algum quiseram criticar a presidente. Para eles, a nota foi uma "precipitação", no momento em que os principais assuntos para a categoria são a defasagem salarial e a necessidade de reaparelhamento das Forças.

O almirante 
Veiga Cabral, no entanto, classificou como "provocação" as falas das ministras das Mulheres, Eleonora Menicucci, e dos Direitos Humanos, Maria do RosárioEleonora, em seu discurso de posse no início do mês, teria tecido "críticas exacerbadas aos governos militares". Já Maria do Rosário teria incentivado, mais de uma vez, que pessoas que se considerassem atingidas por fatos ocorridos durante a ditadura poderiam ingressar com ações na Justiça.

"Não podemos ficar parados. É natural que haja uma reação porque não é possível ficarmos sendo desafiados de um lado e engolirmos sapo de outro. A vida é assim, a cada ação tem uma reação", comentou. O almirante ressalvou que embora os militares, mesmo na reserva, estejam sujeitos ao Estatuto dos Militares, "os clubes não estão subordinados ao Poder Executivo".

Depois de ressaltar também a "independência" dos Clubes Militares, lembrando que "não é o governo nem os comandos" que mandam na instituição, o brigadeiro 
Baptista endossou as palavras do almirante que "estranhou" as declarações das duas ministras.

"Não quero tocar fogo, mas não podemos admitir que queiram amordaçar os clubes. Não podem e não vão conseguir fazer isso", disse. A informação está no
Estadão de hoje.

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