O resultado é hilário. A única semelhança existente é que tanto Tarso, quanto Yeda, ambos caminham para a frente e sentam-se para trás.
Diário Gauche
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Foto-legenda: O primeiro-ministro da Itália, Mario Monti (foto), declarou ontem (3/2) que o emprego fixo acabou, e que os jovens tem que se habituar a trocar de emprego ou até mesmo de país, se for o caso, para exercer um trabalho novo e diferente.
Foto-legenda: O primeiro-ministro da Itália, Mario Monti (foto), declarou ontem (3/2) que o emprego fixo acabou, e que os jovens tem que se habituar a trocar de emprego ou até mesmo de país, se for o caso, para exercer um trabalho novo e diferente.
"E ademais, que monotonia! - exclamou Mario Monti. "É muito mais bonito, mudar e aceitar novos desafios", diz o primeiro-ministro, demonstrando um senso estético apurado com relação ao emprego dos outros, ele que sempre foi um tecnocrata empregado do banco de investimentos Goldman Sachs Group, um dos grandes operadores mundiais na escalada de especulação de moedas e papéis que motivaram a atual crise estrutural do capitalismo.
Ironicamente, Monti, quando foi escolhido primeiro-ministro, por negociação do ex-ministro Berlusconi e dos banqueiros credores da dívida italiana, também foi empossado como Senador Vitalício da Itália. Portanto, presume-se que quem detenha um cargo público, vitalício e sem passar por eleição livre e popular, logo deve estar preparado para comentar sobre o tédio do emprego fixo alheio.
Outro dado curioso do nosso pândego Mario Monti: ele é patrono do famigerado Museu Egipcio de Turim, uma vez que se diz admirador e amante da arte antiga egípcia. Como se sabe, no século 19, vários países europeus, especialmente a Inglaterra e a Itália, subtrairam/roubaram grande parte do patrimônio cultural do Egito, levando-o para os seus respectivos países, onde hoje expõem o legado africano com a maior cara-de-pau, numa demonstração cabal e comprovada do colonialismo de pilhagem e destruição que praticavam há pouco mais de cem anos.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
ZH insiste em comparar governo Tarso com o governicho Yeda
O resultado é hilário. A única semelhança existente é que tanto Tarso, quanto Yeda, ambos caminham para a frente e sentam-se para trás.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Mitterrand ignorou o autoritarismo do senso comum e venceu
Escala
F
Na
década de 50, o filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969) uniu-se
a um grupo de psicólogos sociais norte-americanos para desenvolver
um estudo pioneiro sobre o potencial autoritário inerente a
sociedades de democracia liberal, como os Estados Unidos.
O
resultado foi, entre outras coisas, um conjunto de testes que
permitiam produzir uma escala (conhecida como Escala F, de
"fascismo") que visava medir as tendências autoritárias
da personalidade individual.
Por
mais que certas questões de método possam atualmente ser
revistas, o projeto do qual Adorno fazia parte tinha o mérito de
mostrar como vários traços do indivíduo liberal tinham profundo
potencial autoritário.
O que explicava
porque tais sociedades entravam periodicamente em ondas de histeria
coletiva xenófoba, securitária e em perseguições contra minorias.
O que Adorno
percebeu na sociedade norte-americana vale também para o Brasil. Na
semana passada, esta Folha divulgou pesquisa mostrando como a grande
maioria dos entrevistados apoia ações truculentas como a internação
forçada para dependentes de drogas e intervenções policiais
espetaculares como as que vimos na cracolândia.
Se houvesse
pesquisa sobre o acolhimento de imigrantes haitianos e sobre a
posição da população em relação à ditadura militar, certamente
veríamos alguns resultados vergonhosos.
Tais pesquisas
demonstram como a idealização da força é uma fantasia fundamental
que parece guiar populações marcadas por uma cultura contínua do
medo.
É preferível
acreditar que há uma força capaz de "colocar tudo em ordem",
mesmo que por meio da violência cega, do que admitir que a vida
social não comporta paraísos de condomínio fechado.
Sobre qual atitude
tomar diante de tais dados, talvez valha a pena lembrar de uma
posição do antigo presidente francês François Mitterrand
(1916-1996).
Quando foi eleito
pela primeira vez, em 1981, Mitterrand prometera abolir a pena de
morte na França. Todas as pesquisas de opinião demonstravam, no
entanto, que a grande maioria dos franceses era contrária à
abolição.
Mitterrand (foto) ignorou
as pesquisas. Como se dissesse que, muitas vezes, o governo deve
levar a sociedade a ir lá aonde ela não quer ir, lá aonde ela
ainda não é capaz de ir. Hoje, a pena de morte é rejeitada pela
maioria absoluta da população francesa.
Tal exemplo
demonstra como o bom governo é aquele capaz de reconhecer a
existência de um potencial autoritário nas sociedades de democracia
liberal e a necessidade de não se deixar aprisionar por tal
potencial.
Artigo
do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Publicado
hoje na Folha.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
A revolta da burguesia assalariada
Embora os protestos sociais em curso nos países ocidentais
desenvolvidos pareçam indicar o renascimento de um movimento emancipatório
radical, uma análise mais detalhada nos compele a elaborar uma série de
distinções precisas que, de alguma forma, embaçam essa clara imagem. Três
coisas caracterizam o capitalismo de hoje: a tendência de longo prazo de
transformação do lucro em renda (em suas duas principais formas: a renda do
“conhecimento comum” privatizado e a renda pelos recursos naturais); o papel
estrutural mais forte do desemprego (a própria chance de ser “explorado” em um
emprego duradouro é percebida como um privilégio); e a ascensão de uma nova
classe que Jean-Claude Milner chama de “burguesia assalariada” [Veja
Jean-Claude Milner, Clartes de tout, Paris, Verdier, 2011].
Para explicar a relação entre estas características,
comecemos com Bill Gates: como ele se tornou o homem mais rico do mundo? Sua
riqueza não tem nada a ver com o custo de produção daquilo que a Microsoft
vende (pode-se até mesmo argumentar que a Microsoft paga a seus trabalhadores
intelectuais um salário relativamente alto), isto é, a riqueza de Gates não é o
resultado de seu sucesso em produzir bons softwares por preços mais baixos do
que seus concorrentes ou por uma “maior exploração” de seus trabalhadores
intelectuais contratados. Se este fosse o caso, a Microsoft teria ido a
falência há muito tempo: as pessoas teriam optado massivamente por programas
como Linux que são de graça e, de acordo com especialistas, de melhor qualidade
que os programas da Microsoft. Por que, então, existem milhões de pessoas que
ainda compram Microsoft? Porque a Microsoft se impôs como um padrão quase
universal, “quase” monopolizando o setor, uma espécie de personificação direta
daquilo que Marx chamou de General Intellect (Intelecto Coletivo), o
conhecimento coletivo em todas as suas dimensões, da ciência ao prático know
how. Gates se tornou o homem mais rico em algumas décadas através da
apropriação da renda pela permissão de que milhões participem na forma do
“intelecto coletivo” que ele privatizou e controla.
Deve-se transformar criticamente o aparato conceitual de
Marx: por causa de sua negligência em relação à dimensão social do “intelecto
coletivo”, Marx não vislumbrou a possibilidade de privatização do próprio
“intelecto coletivo”. É isto que está no coração da luta contemporânea pela
propriedade intelectual: a exploração tem cada vez mais a forma de renda, ou,
como diz Carlo Vercellone, o capitalismo pós-industrial é caracterizado pelo
“tornar-se renda do lucro” [Veja Capitalismo cognitivo, editado por Carlo
Vercellone, Roma, manifestolibri, 2006].
Em outras palavras, quando, por conta
do papel crucial do “intelecto coletivo” (conhecimento e cooperação social) na
criação de riqueza, as formas de riqueza se tornam cada vez mais
desproporcionais em relação ao tempo de trabalho diretamente empregado na
produção, o resultado não é, como Marx parecia esperar, a autodissolução do
capitalismo, mas a transformação gradual do lucro gerado pela exploração da
força de trabalho em renda apropriada pela privatização do “intelecto
coletivo”.
O mesmo acontece com os recursos naturais: sua exploração é
uma das maiores fontes de renda hoje, acompanhada da luta permanente pra saber
quem ficará com esta renda – os povos do Terceiro Mundo ou as corporações
ocidentais (a suprema ironia é que, para explicar a diferença entre força de
trabalho – que, em seu uso, produz mais-valia sobre seu próprio valor – e
outras mercadorias – que somente consomem seu próprio valor em seu uso e,
portanto, não envolvem exploração -, Marx menciona como exemplo de uma
mercadoria ordinária o petróleo, a própria mercadoria que hoje é a fonte de
extraordinários “lucros”…).
Aqui também não faz sentido vincular as altas e
baixas do preço do petróleo com altos e baixos custos de produção ou preços do
trabalho explorado – custos de produção são negligenciáveis, o preço que
pagamos pelo petróleo é a renda que pagamos para os proprietários deste recurso
por conta de sua escassez e oferta limitada.
A consequência deste crescimento na produtividade alavancado
pelo impacto exponencialmente crescente do conhecimento coletivo é a
transformação do papel do desemprego: embora o “desemprego seja estruturalmente
inseparável da dinâmica de acumulação e expansão que constitui a própria
natureza do capitalismo enquanto tal” [Fredric Jameson, em Representing
Capital, Londres, Verso Books, 2011, p. 149], o desemprego adquiriu atualmente
um papel qualitativamente diferente. Naquilo que, possivelmente, é o ponto
extremo da “unidade dos opostos” na esfera da economia, é o próprio sucesso do
capitalismo (crescimento produtivo etc.) que produz desemprego (produz mais e
mais trabalhadores inúteis) – o que deveria ser uma benção (menos trabalho duro
necessário) se torna uma sina.
O mercado global é, assim, em relação a sua
dinâmica imanente, “um espaço no qual todos já foram, um dia, trabalhadores
produtivos, e no qual o trabalho, em todos os lugares, foi aos poucos
retirando-se do sistema” [Fredric Jameson, em Valences of the Dialetic,
Londres, Verso Books, 2009, p. 580-1]. Isso é, no atual processo de
globalização capitalista, a categoria dos desempregados adquire uma nova
qualidade além da clássica noção de “exército industrial de reserva”: devemos
considerar em relação a categoria do desemprego “aquelas enormes populações,
que ao redor do mundo foram ‘expulsas da história’, que foram deliberadamente
excluídas dos projetos modernizadores do capitalismo de primeiro mundo e
apagadas como casos terminais sem esperança” [Jameson, em Representing Capital,
p. 149]: os assim chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou
de desastres ecológicos, presos a “rancores étnicos” pseudo-arcaicos, objetos
da filantropia e das ONGs, ou (frequentemente os mesmos personagens) da “guerra
contra o terror”.
A categoria dos desempregados deve assim ser expandida para
agregar uma população de largo alcance, dos temporariamente desempregados,
passando pelos não mais empregáveis, até pessoas vivendo nas favelas e outras
formas de guetos (todos aqueles desconsiderados pelo próprio Marx como
“lúmpem-proletariado”) e, finalmente, áreas inteiras, populações ou estados
excluídos do processo capitalista global, como os espaços em branco nos mapas
antigos.
Mas esta nova forma de capitalismo não traz também uma nova
perspectiva de emancipação? Nisto reside a tese de Hardt e Negri em Multidão:
guerra e democracia na Era do Império [Rio de Janeiro: Record, 2005] onde eles
pretendem radicalizar Marx, para quem o capitalismo corporativo altamente
organizado já era uma forma de “socialismo dentro do capitalismo” (uma espécie
de socialização do capitalismo, com os proprietários tornando-se cada vez mais
supérfluos), de maneira que seria necessário apenas cortar a cabeça do
proprietário nominal e nós teríamos socialismo.
Para Hardt e Negri, entretanto,
a limitação de Marx foi estar historicamente limitado ao trabalho industrial
mecanicamente industrializado e hierarquicamente organizado, razão pela qual a
sua visão de “intelecto coletivo” seria como uma agência central de
planejamento; somente hoje, com a elevação do trabalho imaterial ao padrão
hegemônico, a transformação revolucionária se torna “objetivamente possível”.
Esse trabalho imaterial se desdobra entre dois pólos: trabalho (simbólico)
intelectual (produção de ideias, códigos, textos, programas, figuras etc. por
escritores, programadores…) e trabalho afetivo (aqueles que lidam com afecções
corpóreas, de médicos a babás e aeromoças).
O trabalho imaterial é hoje
hegemônico no sentido preciso em que Marx proclamou que, no capitalismo do
século XIX, a produção industrial em larga escala era hegemônica, como a cor
específica dando o tom da totalidade – não quantitativamente, mas cumprido um
papel chave, emblematicamente estrutural.
Assim, o que surge é um inédito vasto
domínio dos “comuns”: conhecimento compartilhado, formas de cooperação e
comunicação etc. que não podem mais ser contidos na forma da propriedade
privada – por quê? Na produção imaterial, os produtos já não são objetos
materiais, mas novas relações sociais (interpessoais) – em suma, a produção
imaterial já é diretamente biopolítica, produção de vida social.
A ironia é que Hardt e Negri se referem aqui ao próprio
processo que os ideólogos do capitalismo “pós-moderno” celebram como a passagem
da produção material para a simbólica, da lógica centralista-hierárquica para a
lógica da autopóiese e da auto-organização, cooperação multi-centralizada etc.
Negri é aqui efetivamente fiel a Marx: o que ele tenta provar é que Marx estava
certo, que a ascensão do intelecto coletivo é, em longo prazo, incompatível com
o capitalismo.
Os ideólogos do capitalismo pós-moderno estão afirmando
exatamente o oposto: é a teoria marxista (e sua prática) que permanecem dentro
dos limites de uma lógica hierárquica e sob controle centralizado do Estado, e
assim não conseguem lidar com os efeitos sociais da nova revolução
informacional.
Existem boas razões empíricas para esta afirmação: de novo, a
suprema ironia da história é que a desintegração do Comunismo é o exemplo mais
convincente da validade da tradicional dialética marxista entre forças
produtivas e relações de produção com a qual o marxismo contou na sua tentativa
de superar o capitalismo. O que arruinou efetivamente os regimes Comunistas foi
sua inabilidade em acomodar-se à nova lógica social sustentada pela “revolução
informacional”: eles tentaram dirigir esta revolução com um novo projeto de
planejamento estatal centralizado de larga escala.
O paradoxo, assim, é que aquilo
que Negri celebra como chance única de superação do capitalismo, é exatamente o
que os ideólogos da “revolução informacional” celebram como ascensão de um novo
capitalismo “sem fricção”.
A análise de Hardt e Negri possui três pontos fracos que, em
sua combinação, explicam como o capitalismo pode sobreviver ao que deveria ser
(em termos marxistas clássicos) uma nova organização da produção que o tornaria
obsoleto. Ela subestima a extensão do sucesso do capitalismo contemporâneo
(pelo menos em curto prazo) de privatizar o “conhecimento comum”, assim como a
extensão com que, mais do que a burguesia, são os próprios trabalhadores que se
tornam “supérfluos” (número cada vez maior deles torna-se não somente
desempregado, mas estruturalmente inempregável).
Além disso, mesmo que seja
verdade, em princípio, que a burguesia está progressivamente se tornando
desfuncional, deve-se qualificar esta afirmação – desfuncional para quem? Para o próprio capitalismo.
Isto quer dizer que, se o velho capitalismo envolvia idealmente um empreendedor
que investia dinheiro (seu ou emprestado) em produção organizada e dirigida por
ele próprio, recolhendo o lucro, hoje está surgindo um novo tipo ideal: não
mais o empreendedor que possui sua própria empresa, mas o gerente especialista
(ou um conselho administrativo presidido por um CEO) de uma empresa de
propriedade dos bancos (também dirigidos por gerentes que não possuem os
bancos) ou investidores dispersos.
Neste novo tipo ideal de capitalismo sem
burguesia, a velha burguesia desfuncional é refuncionalizada como gerentes
assalariados – a nova burguesia recebe cotas, e mesmo se ela possui uma parte
na empresa, eles recebem as ações como parte da remuneração pelo trabalho
(“bônus por sua gerência bem sucedida”).
Esta nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas da
forma mistificada daquilo que Milner chama de “mais-salário”: em geral, a eles
é pago mais do que o salário mínimo do proletário (este ponto de referência
imaginário – frequentemente mítico – cujo único verdadeiro exemplo na economia
global de hoje é o salário de um trabalhador numa sweat-shop na China ou na
Indonésia), e é esta diferença em relação aos proletários comuns, esta
distinção, que determina seu status. A burguesia no sentido clássico, assim,
tende a desaparecer.
Os capitalistas reaparecem como um subconjunto dos
trabalhadores assalariados – gerentes qualificados para ganhar mais por sua
competência (razão pela qual a “avaliação” pseudo-científica que legitima os
especialistas a ganharem mais é crucial hoje em dia). A categoria dos
trabalhadores que recebem mais-salário não está, obviamente, limitada aos
gerentes: ela se estende a todos os tipos de especialistas, administradores,
funcionários públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais, artistas…
O excesso que eles recebem tem duas formas: mais dinheiro (para gerentes etc.),
mas também menos trabalho, isto é, mais tempo livre (para alguns intelectuais,
mas também para setores da administração estatal).
O procedimento de avaliação que qualifica alguns
trabalhadores para receberem mais-salário é, claramente, um mecanismo
arbitrário de poder e ideologia sem nenhuma ligação séria com a competência
real – ou, como diz Milner, a necessidade de mais-salário não é econômica, mas
política: para manter uma “classe média” com o propósito de estabilidade
social.
A arbitrariedade da hierarquia social não é um erro, mas todo o seu
propósito, de forma que a arbitrariedade da avaliação cumpre um papel homólogo
à arbitrariedade do sucesso de mercado. Isto é, a violência ameaça explodir não
quando existe muita contingência no espaço social, mas quando se tenta eliminar
esta contingência. É neste nível que se deve buscar pelo que se pode chamar de,
em termos um tanto vagos, a função social da hierarquia. Jean-Pierre Dupuy [em
La marque du sacre, Paris, Carnets Nord, 2008] concebe a hierarquia como um dos
quatro procedimentos (“dispositivos simbólicos”) cuja função é fazer com que a
relação de superioridade não seja humilhante para os subordinados: a hierarquia
(a ordem externamente imposta de papéis sociais em clara contraposição ao valor
imanente dos indivíduos – eu, portanto, experimento meu menor status social
como totalmente independente do meu valor intrínseco); a desmistificação (o
procedimento crítico-ideológico que demonstra que as relações de
superioridade/inferioridade não estão fundamentadas na meritocracia, mas são
resultado de lutas objetivamente ideológicas e sociais: meu status social
depende de processos sociais objetivos, não de méritos – como diz Dupuy
sarcasticamente, a desmistificação social “cumpre o mesmo papel, em nossas
sociedades igualitárias, competitivas e meritocráticas do que a hierarquia nas
sociedades tradicionais” [p. 208] – isto nos permite evitar a conclusão
dolorosa de que “a superioridade do outro é o resultado de seus méritos e
conquistas”; a contingência (o mesmo mecanismo, porém sem a sua forma
crítico-social: nossa posição em escala social depende de uma loteria natural e
social – sortudos são aqueles que nascem com melhores disposições e em famílias
ricas); a complexidade (superioridade ou inferioridade dependem de um processo
social complexo independente das intenções ou méritos dos indivíduos – digamos,
a mão invisível do mercado pode causar o meu fracasso ou o sucesso do meu
vizinho, mesmo que eu tenha trabalhado muito mais e seja muito mais
inteligente).
Ao contrário do que parece, todos estes mecanismos não contestam
ou sequer ameaçam a hierarquia, mas a tornam palatável, uma vez que “o que
desencadeia o turbilhão da inveja é a ideia de que o outro merece a sua sorte e
não a ideia oposta, a única que pode ser abertamente expressa” [p.211]. Dupuy
extrai desta premissa a conclusão (óbvia, para ele) de que é um grande erro
pensar que uma sociedade que seja justa e que se perceba como justa será assim
livre de todo o ressentimento – ao contrário, é precisamente em tal sociedade
que aqueles que ocupam posições inferiores encontraram uma válvula de escape
para seu orgulho ferido em violentas explosões de ressentimento.
Aí reside um dos maiores impasses da China hoje: o objetivo
ideal das reformas de Deng Xiaoping era introduzir um capitalismo sem burguesia
(como classe dominante); agora, entretanto, os líderes chineses estão descobrindo
dolorosamente que o capitalismo sem hierarquia estável (conduzida pela
burguesia como nova classe) gera permanente instabilidade – portanto, que
caminho tomará a China?
Mais genericamente, esta é possivelmente a razão pela
qual (ex-)comunistas reaparecem como os mais eficientes gestores do
capitalismo: sua histórica inimizade com a burguesia enquanto classe se encaixa
perfeitamente na tendência do capitalismo contemporâneo em direção a um
capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os casos, como Stalin disse a
muito tempo, “os quadros decidem tudo” (está surgindo também uma diferença
interessante entre a China de hoje e a Rússia: na Rússia os quadros
universitários eram ridiculamente mal pagos, eles de fato se confundiam com os
proletários, enquanto na China eles são bem remunerados com um “mais-salário”
como meio de garantir sua docilidade).
Além disso, esta noção de “mais-salário” também nos permite
lançar novas luzes sobre os atuais protestos “anti-capitalistas”. Em tempos de
crise, o candidato óbvio para “apertar os cintos” são os níveis mais baixos da
burguesia assalariada: uma vez que o seu mais-salário não cumpre nenhum papel
econômico imanente, a única coisa que permite diferenciá-los do proletariado
são seus protestos políticos.
Embora estes protestos sejam nominalmente
dirigidos pela lógica brutal do mercado, eles efetivamente protestam contra a
gradual corrosão de sua posição econômica (politicamente) privilegiada.
Lembremos da fantasia ideológica favorita de Ayn Rand (de seu Atlas Shrugged),
a de “criativos” capitalistas em greve – esta fantasia não encontra sua
realização perversa nas greves de hoje, que em sua maioria são greves da
privilegiada “burguesia assalariada” motivada pelo medo de perder seu privilégio
(o excedente sobre o salário mínimo)? Não são protestos proletários, mas
protestos contra a ameaça de ser reduzido à condição proletária. Isto quer
dizer: quem ousa se manifestar hoje, quando ter um emprego permanente já se
tornou um privilégio?
Não os trabalhadores mal pagos (no que sobrou) da
indústria têxtil etc. mas o estrato de trabalhadores privilegiados com empregos
garantidos (muitos da administração estatal, como a polícia e os fiscais da
lei, professores, trabalhadores do transporte público etc.). Isto também vale
para a nova onda de protestos estudantis: sua maior motivação é o medo de que a
educação superior não mais lhes garanta um mais-salário na vida futura.
Está claro, obviamente, que o enorme renascimento dos
protestos no último ano, da Primavera Árabe ao Leste Europeu, do Occupy Wall
Street à China, da Espanha à Grécia, não devem definitivamente ser
desconsiderados como uma revolta da burguesia assalariada – eles guardam
potenciais muito mais radicais, de forma que devemos nos engajar numa análise
concreta caso a caso.
Os protestos estudantis contra a reforma universitária em
curso no Reino Unido são claramente opostos às barricadas do Reino Unido em
agosto de 2011, este carnaval consumista de destruição, a verdadeira explosão
dos excluídos. Em relação aos levantes do Egito, pode-se argumentar que, no
começo, houve um momento de revolta da burguesia assalariada (jovens bem
educados protestando contra a falta de perspectiva), mas isto foi parte de um
amplo protesto contra um regime opressivo.
Entretanto, até que ponto o protesto
conseguiu mobilizar trabalhadores e camponeses pobres? Não seria a vitória
eleitoral dos islâmicos também uma indicação da base social estreita do
protesto secular original? A Grécia é um caso especial: nas últimas décadas
surgiu uma nova “burguesia assalariada” (especialmente na administração estatal
superdimensionada) graças à ajuda financeira e empréstimos da União Europeia, e
muitos dos protestos atuais, mais uma vez, reagem à ameaça de perda destes
privilégios.
Além disso, esta proletarização da baixa “burguesia
assalariada” vem acompanhada do excesso oposto: as remunerações irracionalmente
altas dos grandes executivos e banqueiros (remunerações economicamente
irracionais, uma vez que, como demonstraram as investigações nos Estados
Unidos, elas tendem a ser inversamente proporcionais ao sucesso da empresa).
É
verdade, parte do preço pago por essa super remuneração é o fato dos executivos
ficarem totalmente disponíveis 24 horas por dia, vivendo assim num estado de emergência
permanente.
Mais do que submeter estas tendências a uma crítica moralista,
deveríamos interpretá-las como a indicação de como o próprio sistema
capitalista não é mais capaz de encontrar um nível interno de estabilidade
autorregulada e de como esta circulação ameaça sair do controle.
Artigo do filósofo Slavoj Žižek. Traduzido por Chrysantho Sholl e Fernando Marcelino.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Pinheirinho tucano: misoginia, porrete e destruição
Toda essa violência contra famintos e famintas em nome de quê? Da restituição de posse da área a um sujeito moralmente suspeito - doleiro e especulador imobiliário - chamado Naji Nahas, que volta e meia está metido com as piores e mais sujas notícias do business-mundo-cão brasuca.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
A velha marmita rançosa da mídia brasileira
O jornal britânico Financial Times, uma das bíblias do
neoliberalismo, caiu na real, e está fazendo uma série de matérias sobre a
crise estrutural do capitalismo, se dando a liberdade de cogitar que estamos
experimentando o limiar de um novo sistema de produção, mesmo não se sabendo ao
certo aonde iremos.
Esse não é qualquer jornal, o FT é
uma publicação que circula desde 1888, tem uma tiragem diária de 2,1 milhões de
exemplares, circula em 140 países e tem agências editoriais em 50 países.
Corte rápido.
O diário paulistano O Estado de S. Paulo estampou em suas
páginas no dia 23 de janeiro último um artigo do ex-ministro da Fazenda,
Maílson da Nóbrega, onde ele afirma que os altos ganhos salariais são um dos
fortes fatores da atual crise econômica da eurolândia. Pronto, sobrou para os assalariados! É inacreditável que a
essa altura da crise alguém ainda atribua a mesma a motivações que não as das
finanças hipertrofiadas, o descontrole do crédito e a desregulação geral da
atividade econômica, em especial a liberdade de ação dos grandes capitais
bancários na Europa e no mundo todo.
Observem que enquanto um jornal de
reputação internacional – podemos questionar a sua afiliação político-ideológica
– trata da crise de forma direta, frontal e corajosa, o outro, um jornal
provinciano como o Estadão, insiste
em manter um séquito de especialistas em produzir vianda requentada, como se
fora algo fresco e atual, para assuntos tão relevantes como a crise do
capitalismo.
Essa é a grande dificuldade da
mídia brasileira: servir marmita rançosa como se estivesse oferecendo peixe
fresco grelhado sobre folhas tenras. O problema não é o proselitismo de direita
tout court, o problema é o
proselistismo de direita, proferido por velhos funcionários da ditadura
civil-militar (como Maílson e tantos outros) envolto no papel engordurado do palpite
manjado, da opinião pessoal e interessada travestida de vontade geral e
republicana.
Prestem atenção, a mídia está
coalhada de indivíduos, colunistas, apresentadores, leitores de telepromter e outros quetais que estão
ali para expressarem as vozes dos seus donos (ou dos seus patrões e dos amigos
dos seus patrões), entretanto querem representar o papel de porta-vozes do
universal, do democrático e do espírito de nosso tempo.
Ainda bem que eles são péssimos
atores e atrizes.
Coisas da vida.
Artigo de Cristóvão Feil,
publicado originalmente no blog Jornalismo B, agora em campanha de assinatura da
sua publicação em papel. Prestigie e contribua com o Jornalismo B.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
ZH dá nova vida à ex-governadora Yeda, a impagável
Robespierre foi alcunhado “o
incorruptível”. Já ex-governadora Yeda ficou conhecida como “impagável”, apenas. Não dá
para entender direito o motivo, mas o grupo RBS de alguma forma quer lembrar da
dona Yeda, protagonista de um governo estadual tão repleto de trapalhadas quanto
vazio de realizações. Aliás, ainda não lemos nem ouvimos nada acerca de autocrítica - ou algo do gênero - por ter criado/apoiado governicho tão deserto.
Passada a tragédia do quadriênio
estrabulega, ficou a comicidade do comportamento nonsense e a confirmada desconexão verbal da ex-governadora tucana.
A matéria de ZH deste domingo, consegue alçar dona Yeda ao cume da tolice, tem
momentos da mais completa incógnita sobre o que a tucana está querendo
comunicar. Exemplo: “Eu quis cursar economia pela paixão que tenho por história
e geografia.”
Vá entender!
Coisas da vida.
Cai de maduro: Schettino é Screttino
O álibi do capitão Schettino é ótimo: - Eu escorreguei no escuro e cai dentro do bote salva-vidas, aí não tive como voltar!
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