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Foto da francesa Vivian Dorothea Maier (1926-2009).

quarta-feira, 25 de junho de 2014

À unidade latinoamericana no futebol (e na política)




Jan Garbarek interpreta "Hasta Siempre". Um registro artístico pálido do que pode ser a unidade latinoamericana em favor de um mundo sustentável e harmônico, para todos. 

Lembrando que a arte sempre aponta para o futuro. caso contrário, não é arte, pode ser (geralmente, é) entretenimento.    



terça-feira, 24 de junho de 2014

Desconhecer Foucault é estar exilado de nosso próprio tempo



A era da suspeita

Na quarta-feira (25/6), a morte de Michel Foucault completará 30 anos. Um dos mais influentes filósofos da segunda metade do século 20, Foucault produziu uma obra inovadora por seu método e por seus objetos. Obra cuja influência só aumentou desde sua morte, chegando hoje à condição de incontornável.

Não há setor das ciências humanas, da filosofia à história, da crítica literária aos estudos de comunicação, do direito à sociologia no qual não encontraremos problemas foucaultianos em operação. Na verdade, Foucault se transformou em um desses autores cujo desconhecimento implica divórcio profundo a respeito dos modos de pensamento que marcam nossa época. Quer dizer, desconhecer Foucault é estar exilado de nosso próprio tempo.

De fato, Michel Foucault conseguiu produzir dois feitos notáveis: complexificar nossa compreensão a respeito dos mecanismos de funcionamento do poder e injetar uma desconfiança profunda a respeito do pretenso realismo de conceitos e práticas científicas, em especial no campo das ciências humanas e das práticas clínicas.

Como se não fosse o bastante, seus últimos trabalhos compõem uma reflexão sistemática a respeito de um modo de autonomia e governo de si que abre caminhos para a reflexão ética distantes daqueles que a filosofia moderna conheceu, com sua fixação pelas figuras jurídicas da lei, do tribunal e da norma universalizável. Dessa forma, nasce uma experiência filosófica na qual epistemologia, ética e teoria social caminham de forma compacta.

Foi Foucault quem mostrou, de maneira mais sistemática, que nada entenderemos do poder enquanto o pensarmos a partir da temática da dominação das vontades, ou seja, o exercício do poder como sobreposição de uma vontade à outra. A verdadeira dimensão decisiva do poder se encontra nas disciplinas que sujeitam a todos por meio de instituições como a família, as prisões, as escolas, empresas, o Estado.

Tais disciplinas não são fruto da vontade de uma classe ou de um grupo. Elas resultam, na verdade, de uma vontade de saber que, ao mesmo tempo, nos sujeita e nos constitui. Ela está presente em nossos discursos científicos e na maneira por meio da qual eles moldam nossas vidas, organizam nossos conceitos de saúde e de doença, de sexualidade, de normalidade e de patologia, de regra e de desvio.

Dessa forma, Foucault deu instrumentos para que nossa época desenvolvesse sua capacidade de suspeita e desconfiança em relação a suas próprias ideias de progresso e de esclarecimento. Por isso, ele será sempre um dos nossos mais claros contemporâneos.


Artigo do professor Vladimir Safatle.

Fotografia: ao fundo, Sartre, com um olho em Foucault (calvo) e outro em Deleuze. 

sábado, 7 de junho de 2014

Entenda como e por que o Brasil quebrou três vezes com FHC



É preciso ver (ou lembrar) as explicações de FHC - o Farol de Alexandria - sobre o buraco econômico no qual eles meteram o País por três vezes consecutivas, em apenas oito anos.

É preciso ver (ou lembrar) um jornalista da BBC chamando às falas o ex-presidente Cardoso - o Farol de Alexandria - sobre os 600 processos criminais que o ex-Procurador Geraldo Brindeiro engavetou nos oito anos do tucano no Planalto. 

É preciso ver (ou lembrar) o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, puxar as orelhas de FHC - o Farol de Alexandria - em um importante foro internacional sobre a forma irresponsável como FHC conduziu a economia do Brasil. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Exumar: lembrar do que estava esquecido



A recente exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart, deposto por um golpe civil-militar no dia primeiro de abril de 1964, remete-nos a diversas considerações derivadas.

Estão envolvidos no caso, elementos de disputa de classe pela memória histórica, pelo reconhecimento da dignidade de um presidente que, morto no exílio, veio a ser enterrado no Brasil, quase como um clandestino, e sobretudo, o papel da chamada Comissão Nacional da Verdade, bem como o seu desempenho no cumprimento de seu propósito original.

Assim como o frio habita o gelo, a luta de classes habita a sociedade capitalista. A disputa de classes é uma condição intrínseca, essencial, do modo de produção capitalista. Essa disputa ocorre em todos os campos da vida social. A memória do passado é um campo de disputa. A representação que fazemos do passado é um espaço de intensa e renhida luta. Os símbolos e o imaginário social do presente estão impregnados daquilo que resulta deste embate por narrativas que expliquem os fatos à luz da razão e das conveniências sociais, culturais, políticas e econômicas. Com isso a desmemória e o esquecimento são pontos a favor do status quo, para não dizer do conservadorismo, reacionário e decadente, do qual o Brasil é tão exuberante, desde sempre.

Lutar contra o esquecimento foi o objetivo primordial da chamada Comissão da Verdade, do Brasil, a exemplo do que foi realizado no Uruguai, Argentina e Chile, com sucesso. Mas a nossa Comissão preferiu outro caminho. Até o momento não se sabe qual. O seu desempenho é confuso e diversionista. Ao invés de promover um debate nacional que encaminhe a anulação da Lei de Anistia, preferiu o espetáculo mórbido de exumar o presidente Jango, um fato de discutíveis resultados, a não ser o de recebê-lo com honras de estadista em Brasília, o que é elogiável.

Enquanto nos países do Cone Sul os militares foram julgados por seus crimes de lesa humanidade (o ditador Videla morreu recentemente na cadeia), no Brasil, os militares e policiais civis, agentes do Estado que cometeram graves crimes, continuam absolutamente impunes e muitos – como o coronel Brilhante Ustra – escrevem livros e fazem declarações atrevidas, justificando seus atos genocidas (como se eles tivessem gerado e obedecido a um Direito particular e provisório, portanto, não-Republicano, durante o tempo em que estiveram no poder).

A responsabilização desses agentes públicos deve ser feita com base no Código Penal, já que seus crimes não podem ser considerados políticos. O crime político é aquele praticado para atingir o Estado, e não pelo Estado, ou por funcionários públicos (militares e policiais) em nome do Estado.

A Universidade de Minnesota, dos EUA, realizou em 2008, um estudo onde analisou cem países que passaram pela transição entre governos autoritários e democráticos. Concluiu-se que nos países onde houve punição para os atos cometidos contra os direitos humanos o grau de violência policial é menor, ao contrário dos países onde isso não ocorreu, certamente pela sensação de impunidade. Não vamos muito longe, pessoas presas por ocasião das recentes manifestações de rua em Porto Alegre, foram interrogadas com questionamentos muito semelhantes aos métodos da repressão policial-militar da ditadura 1964/1985.

A todas essas já se vê que a exumação de Jango é um caso absolutamente isolado. Falta exumar a ditadura e resgatar o nosso direito republicano à memória. Enquanto isso não acontecer, nossa democracia estará incompleta.

Artigo de Cristóvão Feil, publicado originalmente no impresso “Jornalismo B”, em dezembro de 2013.

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