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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Folha começa a corrigir rota com a realidade factual


José Serra e Gilmar Mendes flagrados em relações cordiais do tipo buarqueanas

Seguindo a máxima segundo a qual "quem tem jornal tem medo", a Folha do grupo Frias (que fez parte da logística da repressão policial-militar durante a ditadura) começa a corrigir a rota da sua mais recente aventura golpista. A manchete de hoje da Folha (fac-símile acima) já embica e converge com a realidade dos fatos, dizendo que a candidata Dilma estancou a queda apontada dias atrás pelo instituto Datafrias e interpretada pela própria Folha e seus celetistas como um indício claro e definitivo de que o segundo turno era líquido e certo.

Chama a atenção igualmente a desfaçatez com que o candidato Serra conseguiu uma ligação telefônica com o ministro do STF, um reconhecido militante tucano, Gilmar Mendes, durante o julgamento do recurso do PT contra a obrigatoriedade de apresentação dos dois documentos na hora de votar, domingo próximo.

Segundo a própria Folha, ontem "Serra pediu que um assessor telefonasse para Mendes pouco antes das 14h, depois de participar de um encontro com representantes de servidores públicos em São Paulo. A solicitação foi testemunhada pelos repórteres da Folha.

No fim da tarde, Mendes pediu vista (mais prazo para análise), adiando o julgamento. Sete ministros já haviam votado pela exigência de apresentação de apenas um documento com foto, descartando a necessidade do título de eleitor.

A obrigatoriedade da apresentação de dois documentos é apontada por tucanos como um fator a favor de Serra e contra sua adversária, Dilma Rousseff (PT). A petista tem o dobro da intenção de votos de Serra entre os eleitores com menos escolaridade" - recorda a matéria da Folha.

Nos últimos dias, depois que o presidente Lula criticou duramente a imprensa brasileira, a Folha vem modificando lentamente a sua cobertura eleitoral, fez várias matérias explicando/justificando o próprio comportamento editorial, e hoje dá esse destaque para a conversa de compadres entre Serra e o ministro Gilmar Mendes, reveladora de promiscuidade pré-republicana, que ilustra bem o conceito de Sérgio Buarque acerca do "brasileiro cordial".

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Pena que a Folha não teve o descortino e a tenacidade, que lhe são peculiares, de entrevistar o seu mais ilustre "especialista" em Estado de Direito, que é o jurista Hélio Bicudo (foto), acerca das relações de compadrio carnal entre o candidato da direita (apoiado por Bicudo) e um douto ministro do Supremo, exercitadas ontem, em plena sessão de julgamento de uma matéria cujo interessado número um é o próprio Serra.

Previdência coloca mais de 23 milhões de idosos acima da linha de pobreza

A mobilidade social vertical foi pra valer no Brasil

Os benefícios da Previdência Social no país colocaram acima da linha da pobreza mais de 23 milhões de pessoas idosas acima de 60 anos de idade, em 2009, enquanto em 2008 estavam nessa linha divisória 22,6 milhões de idosos.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio 2009 (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Considera-se abaixo da linha da pobreza o contingente populacional que ganha abaixo de meio salário mínimo por mês.

Ainda de acordo com a pesquisa, mais de 81% dos idosos acima de 60 anos de idade contam com cobertura previdenciária, o que representa mais de 17,7 milhões de pessoas, 500 mil a mais do que o número levantado em 2008.

A pesquisa aponta que, no conjunto dos trabalhadores, 42,2% da população, ou 78,2 milhões de pessoas, estariam na linha da pobreza se não houvesse o pagamento de benefícios previdenciários, em todas as idades.

Os números foram apresentados durante reunião do Conselho Nacional de Previdência Social (Conasp). A informação é da Agência Brasil.

Pelo fim da pobreza e pela dignidade dos brasileiros


Vote Dilma 13 Presidente_Tarso 13 Governador do RS_Raul Pont 13400 Deputado Estadual_Pepe Vargas 1301 Deputado Federal

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Hoje, em 13 países europeus há protestos de massa


O motivo são as medidas recessivas dos governos para combater a crise

Sindicatos da Espanha anunciaram que 70% dos trabalhadores do país aderiram nesta quarta-feira a uma greve geral que está afetando fábricas e serviços públicos.Os sindicatos disseram que 10 milhões de pessoas, ou mais de metade da força de trabalho, aderiram à greve. Menos de 30% das escolas estão funcionando. Os aeroportos e trens estão praticamente paralisados. 

O protesto é a resposta dos sindicatos ao pacote de reformas trabalhistas, aprovado pelo governo socialista do primeiro-ministro, José Luis Rodriguez Zapatero, no passado mês de junho.

A greve geral, a sétima paralisação da história da Espanha, começou à meia-noite e afeta principalmente o setor industrial.

Hoje, em Bruxelas, Bélgica
Além da Espanha, trabalhadores de outros países também protestam nesta quarta-feira contra medidas tomadas pelos governos para combater a crise econômica.

Foram registradas manifestações nas capitais da Bélgica (foto ao lado), Portugal, Itália, Letônia, Lituânia, República Checa, Chipre, Sérvia, Romênia, Polônia, Irlanda e França.

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O inusitado da coisa é que os governos dos países europeus quebrados estão adotando as mesmas medidas, agora de forma mais acentuada, que levaram as suas economias ao atual quadro de caos e incerteza.

Foto: Um grande banco irlândes quebrou esta semana e pede ajuda ao governo da Irlanda, que por sua vez está com um deficit maior do que a Grécia. A Europa está sob o efeito dominó. Os próximos são Portugal e Itália.

O bom rock charrua



A banda La Vela Puerca: compro aire/y si es puro/pago mucho mas... desde Montevideo.

Conviver com os neo-incluídos está ficando insuportável


Investigação sobre o entendimento humano

A Escócia deu duas contribuições inestimáveis à humanidade: o aguardente chamado uísque e o pensamento de David Hume (ou Home). O subtítulo meio besta deste modesto post refere, aliás, a uma obra do nosso Hume (ou Home), An Enquiry Concerning Human Understanding. Sou um admirador do cara porque ele foi um sujeito sobretudo corajoso (se dizia ateu em pleno século 18, quando hoje ainda é pecado falar nisso), além de muito inteligente, especulativo, inquieto, curioso e com uma colaboração extraordinária para o pensamento ocidental, para Kant, para o constructo empírico da chamada democracia republicana estadunidense, etc.

Depois eu digo por que motivo estou falando de Hume (ou Home). Agora eu quero pegar a outra ponta do barbante que amarra fragilmente este post. Dizer do quanto eu gostei do artigo de Diana Corso, reproduzido logo aqui abaixo. Um texto sintético mas com grande espessura e densidade. Diana está falando (e bem) da velha categoria mobilidade social vertical. Um fenômeno escasso (deserto) no Brasil há pelo menos seis longas décadas. Objeto de estudo para uma geração de pesquisadores sociais e políticos, pelos próximos quarenta anos, certamente. Conquista (provisória) do que eu chamo comumente de lulismo de resultados. Muitos perguntam do por quê "de resultados". De "resultados" e "provisório" porque não são (ainda) conquistas permanentes, irreversíveis, cumulativas em seus efeitos, conducentes a novas reformas e - o principal - orientadas para o socialismo. Não são. De qualquer forma, representam um marco de transposição do velho esquema das oligarquias, mérito exclusivo do presidente Lula, com o auxílio de Dilma Rousseff.

Mas eu também não quero falar precisamente sobre isso. Fiz estes dois pequenos prefácios apenas para contar um episódio pedestre, quase corriqueiro, que aconteceu comigo, mas que ilustra bem a mudança social que estamos vivenciando, e sobre o qual ainda estamos meio tontos e baratinados. Afinal, não é a coruja de Minerva que alça o vôo ao entardecer?

Frequento sempre que posso (neste ano, cada vez menos) uma incerta confraria etílico-gastronômica, aqui em Porto Alegre. Nesses redutos, como vocês sabem, há uma convenção tácita que interdita temas que possam trincar a coesão fraca do grupo. Política partidária, é um deles. Entretanto, um dos confrades, mais por ingenuidade do que por qualquer outra coisa, insiste em mandar-me mensagens cabeludas sobre a escolaridade de Lula, bem como garantias irretorquíveis de que Dilma não é bem assim aquela deusa que estaria apta a guardar o fogo sagrado da moralidade pública, etc. A cruzada do confrade já dura muitos meses. Sempre fiquei no meu quadrado, ignorando tudo. Eis que senão quando, recebo um artigo do teólogo Leonardo Boff, ex-Marina, agora apoiando Dilma. Estranhei muito, li o artigo do homem que desafiou o Ratzinger. Nada. Nada que confirmasse as mensagens anteriores do confrade. Já estava deletando-a quando, finalmente, notei o título do e-mail: "Escândalo envolvendo Lula". De imediato lhe respondi, na linha hilário-cínica do inigualável professor Hariovaldo Almeida Prado. Apontei o engano e parabenizei-o pelo trabalho voluntário e patriótico de denunciar o criptolulismo, o ateísmo, o vermelhismo e os que desvalorizam a moral tradicional, etc. Ele se desculpou pelo engano de ter mandado um texto que não correspondia à intenção do título da mensagem, e frisou que não fazia exatamente um trabalho voluntário, no sentido de que exercia apenas um amadorismo de web e tal. Repliquei com redobrada inspiração hariovaldiana, e talvez errei a mão: expressei vivas congratulações pela sua abnegação e manifestei surpresa, se o trabalho não é voluntário, logo é remunerado, então solicitei uma participação nesse trabalho remunerado, eu também estava precisando de dinheiro, um extra sempre cai bem, essas coisas. Até o momento, ele não me respondeu. Acho que passei do ponto.

David Hume (1711-1776)
Agora é preciso identificar o perfil do sujeito. A rigor, são dois, uma dupla quixotesca às avessas. Eles andam sempre juntos (não, não são bibas), trabalham na mesma instituição da área médica, ambos são pesquisadores, dois cientistas com doutorado. O que, para essa breve avaliação, é um agravante. Ambos vieram de um estrato social muito baixo. Estudaram com grande esforço e determinação. Nos Estados Unidos e na rua Padre Chagas seriam chamados de "vencedores". Detalhe importante: ambos foram petistas. Viraram o fio depois da crise de 2005, também conhecido como "esquema mensalão". O mentor do cruzado das mensagens provocativas é um sujeito com apreciável formação. Fez pós-doutorado na Inglaterra, fez estudos que duraram vários anos numa famosa instituição científica de Paris e quando volta à Porto Alegre, faz mestrado em filosofia, quando escreve uma tese sobre David Hume (ou Home). Claro, o velho David é vastíssimo e complexo. Um cara da área médica vai se interessar certamente pelos aspectos do método científico do escocês genial. Hoje, o sujeito é professor de Filosofia da Ciência e fomentador oculto de pequenos agentes protofascistas, inflados pelo ressentimento e obnubilado pela mais completa ignorância sobre a política e suas consequencias na vida cotidiana. Apesar de todo esse alpinismo social e cognitivo, são dois sujeitos que experimentam, cada um a seu modo, uma tragédia existencial sem precedentes. Se adornaram de conhecimento e títulos (discutíveis), mas vivem nus e primitivos - simbolicamente, comem cru - como o mais esquecido e pulguento dos lúmpens urbanos.

Neste sentido, é inquietante que o cara tenha escolhido o velho e bom escocês David para
objeto de sua tese de mestrado em filosofia. David é um sujeito que discutiu um pouco (bastante) esses temas dos quais são vítimas os nossos dois quixotes invertidos. A questão da moral é uma delas, afinal, os caras abandonam o petismo por motivações estritamente moralistas e despolitizantes.

Quanto ao ótimo artigo da psicanalista Diana Corso, eu só acrescentaria aquilo que representa essa dupla impagável dos meus confrades, qual seja, a absoluta negação do direito de ascenso social por parte das massas brasileiras. O lulismo de resultados elevou a condição econômica de mais de 50 milhões de pessoas (23 milhões que sairam do lumpesinato para a condição de pobreza + 30 milhões que sairam da pobreza e ascendem ao consumo padrão classe média). Isto precisa ser interditado, na cabeça dos meus confrades. O raciocínio de jerico lhes informa e "ilumina" a novíssima opção protofascista: "De que adianta a gente ter estudado e vencido? Hoje, qualquer ignorante e preguiçoso consegue o mesmo, por outras vias. Lula está premiando a quem não merece, a quem não se esforçou como nós, a quem é ignorante e grosseiro como o próprio Lula".

Isto posto, para esses dois pacóvios ilustrados e materialmente confortáveis, votar no José Serra (foto ao lado), agora, é uma desforra de classe, uma revanche social contra a gravíssima ameaça dos que vêm de baixo, sem mérito, sem lenço, sem documentos, sem títulos, sem aguardente escocês e, sobretudo, sem David Hume (ou Home).

Para mim, essa é a tragédia existencial de uma fina camada de brasileiros (a ambiguidade é proposital). Conviver com os neo-incluídos é insuportável.

Os mais ricos não querem o fim das senzalas no Brasil


Saudosa senzala

O Brasil mudou muito nesses últimos anos, e nem todos prestamos atenção ou nos demos conta, para bem ou para mal não somos os mesmos. Especialmente as classes C e D são as novas protagonistas num país que não estava acostumado com isso, agora elas compram, estão mais visíveis. Pequenos detalhes, como ter um telefone que era caro e difícil, hoje é barato e banal, estão acessíveis a geladeira nova, a TV maior, o trânsito está entupido por novos carros. Prestações e carnês enchem as lojas e esvaziam as prateleiras.

Entre os irritados com a conjuntura atual, encontram-se alguns economistas que, em seus termos misteriosos, fazem previsões de que pagaremos caro pelos dias de fartura. Sei lá, sou ignorante de suas sabedorias. Mas há outro tipo de gente incomodada com a situação atual, e esses, sim, me exasperam: são os viúvos do sistema de castas, que tinham um sem-número de pobres à mercê de suas roupas velhas, pequenas esmolas e favores de senhor da casa-grande. Essa senzala invisível está sendo erradicada do coração dos mais humildes, mas sobrevive na memória recente dos mais abastados e não é fácil abrir mão dela.

A diferença social fazia de qualquer remediado de classe média um senhor feudal, sua vida era mais admirável, seus bens mais reluzentes, seus filhos mais promissores. Hoje, o filho de uma empregada doméstica pode disputar vaga na universidade federal com o da patroa que estudou em escolas caras, graças ao sistema de cotas, o que enche esta última de indignação, e ambas podem ter o mesmo modelo de celular. Mesmo entre os intelectuais, uma miséria digna e consciente lhes parece mais atraente do que essas novas hordas de entusiastas consumidores, de quem lamentam a banalidade de horizontes.

Um ser humano se torna o que é porque outro lhe faz espelho, contraponto. A miséria de uns auxilia a que a imagem de outros pareça mais faustosa, são papéis que se complementam. Melhores índices de qualidade de vida em um país, portanto, não têm motivo para agradar a todos, mesmo que seja por motivos inconfessáveis, inconscientes. Estamos muito longe da igualdade social com que sempre sonhei, mas esse novo quadro, aliado ao fato de que os candidatos mais importantes neste pleito são oriundos das fileiras da luta contra a ditadura, me deixa de bom humor. Gosto de ver a política viva, embora ela costume aparecer apenas trajada de escândalos, prefiro-a paramentada de promessas. Além disso, nunca esqueço que as eleições diretas foram uma árdua conquista, por isso, elas ainda me produzem certa emoção, simplesmente por existirem

Artigo de Diana Corso, psicanalista. Publicado hoje no jornal Zero Hora.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O cadente jornalismo brasileiro

Santiago, via Grafar

Só Lula pode garantir a vitória já


Que o PT cumpra com a sua única e finalística função: fazer votos

Lula não pode mais sair da TV e do rádio até sábado. Sua presença é decisiva. A famosa bala de prata é da situação, é de Lula, não é da oposição de direita. O instituto Frias/Datafolha está apontando a possibilidade de segundo turno. Acreditando ou não, é preciso trabalhar contra a verdade e a mentira pregada pelos adversários do Brasil.

Lula joga um papel fundamental nestas últimas horas de campanha. Onde estão seus 80% de popularidade? Certamente, não foram monopolizados integralmente por Dilma, mas encontram-se espalhados inadvertidamente em candidaturas anti-Lula, também. Portanto, sua presença permanente nos programas que ainda restam no horário eleitoral de rádio e tevê deve ser o antídoto contra o golpismo imanente da direita, seja via candidatura Serra, seja via o genérico da direita, Marina Silva.

O segundo turno não nos interessa, mas se for inevitável será enfrentando com gana e determinação. Ocorre que a vitória no primeiro turno seria o elemento mitigador contra as más companhias e parceiros de ocasião. Teria o condão de diminuir a força dos aliados parasitas, contingência necessária para aplacar minimamente as aberrações do nosso atual modelo político-eleitoral.

De resto, é torcer (e votar) para que o PT cumpra com a sua única e finalística função - já que as demais ficaram extraviadas nos descaminhos e atalhos da vida - que é o objetivo eleitoral. É decisivo que o Partido dos Trabalhadores seja eficaz e efetivo na singular virtude que lhe resta: captar votos para eleger uma bancada numerosa e capaz de fazer o enfrentamento - pelo menos numérico e quantitativo - com as oligarquias, os lóbis dinheiristas, os carreirismos e as deformações oportunistas de todos os matizes ideológicos, especialmente as do campo popular e democrático.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Quem matou Walter Benjamin?



Suicídio por pressão do nazifascismo ou assassinato a mando de Stálin?

Walter Benjamin foi o cara da crítica à ideologia do progresso, essa ilusão embriagadora do nosso tempo. Embora, cada vez menos ilusão e cada vez menos embriagadora.

Hoje, dia 27, completam-se 70 anos da morte de Walter Benjamin (1892-1940). Judeu-alemão e marxista, foi encontrado morto quando, fugindo do nazismo, tentava escapar da França ocupada para a Espanha dominada pelos fascistas de Francisco Franco. Do baú que levava consigo, contendo manuscritos que foram deixados apodrecer pela água e pelo tempo numa cela subterrânea de Port Bou, nunca saberemos o conteúdo.

Da obra legada, partiu a primeira tentativa importante de crítica à ideologia do progresso – acrescentando o pessimismo à teoria da revolução, com conceitos premonitórios que Marx, no estágio de desenvolvimento da produção industrial na sua época não poderia ter apontado. No "Livro das Passagens Parisienses" Benjamin fala do desenvolvimento de um materialismo histórico que iria abolir radicalmente a idéia de progresso.

Para Benjamin (foto), a revolução, ou seja, o processo de emancipação do proletariado criado pela produção industrial, tinha deixado de ser determinada pelo desenvolvimento das forças produtivas, mas seria antes uma interrupção abrupta de um processo catastrófico. Note-se que isto estava sendo dito em 1929, cujo indicador era o aperfeiçoamento crescente das técnicas industriais militares – isto é, para retomar a sua imagem, como apagar um pavio fumegante antes que o fogo da tecnologia ficasse incontrolável e provocasse uma explosão fatal à civilização humana (expresso no ensaio “Sentimento Único” 1928) – “apenas podemos ter confiança ilimitada na IG Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Luftwaffe” dizia em “O Surrealismo”.

Walter Benjamin reconhece contudo a contribuição positiva do desenvolvimento dos conhecimentos e das técnicas, mas recusa-se a considerá-las, de forma mecânica, como um progresso humano. Sem negar o potencial emancipador da tecnologia moderna, ele preocupou-se com o seu domínio social, pelo controle da sociedade sobre as suas relações com a Natureza. A sociedade sem classes do futuro deverá colocar um fim não somente na exploração do homem pelo homem, mas também na exploração da Natureza, substituindo as formas destruidoras da tecnologia atual por uma nova modalidade de trabalho, “que longe de explorar a natureza, pode fazer nascer dela as criações virtuais adormecidas no seu seio” [em “Teses sobre o Conceito de História” (1940)]. Recusando uma escrita da história em termos de progresso – que seria o elogio acrítico da “civilização” e da “produtividade” – ele propõe-se interpretá-la do ponto de vista das suas vítimas, das classes e povos esmagados pelo carro triunfal dos vencedores. Nesta perspectiva, o progresso aparece como uma tempestade maléfica que distancia a humanidade do paraíso original e que fez da história “uma catástrofe que continua a empilhar ruína sobre ruína”.

Para o pessimista Benjamin, a Revolução perdeu o papel de locomotiva da História para passar a ser o sinal de emergência que a humanidade puxa antes do trem se despencar no abismo profundo.



O vídeo lá do alto é o trailer de um documentário realizado recentemente.

O diabo de calça curta


Dra. Sandra Cureau seria uma criatura do terrível Dr. Moreau, o que transformava animais em homens/mulheres?

The Island of Dr. Moreau é um romance de ficção científica de H.G.Wells lançado originalmente em 1896.

O enredo fala de um médico que cria criaturas monstruosas em uma ilha tropical. Moreau é um cientista obcecado pela idéia de transformar animais em homens através de cirurgias e hipnose. A chamada vivissecção é o crime de que Moreau é acusado ao fazer suas experiências dolorosas em animais. Isto o leva a se refugiar na ilha onde desenvolve as suas idéias. Há, nesta obra, toda uma discussão sobre religião, ética, ciência, behaviorismo e evolução. As informações são da Wiki.

Pela unidade da América Latina



Quando Lula sair do governo em 1º de janeiro próximo, estará com tudo para iniciar uma longa jornada de luta pela unidade internacionalista da América Latina. Uma unidade não só dos mercados, como propõe o Mercosul, mas sobretudo de aproximação cultural, política e de convergências mútuas na defesa dos nossos interesses regionais e geoestratégicos.

O vídeo acima registra a "Noche de Latinoamérica en la Fiesta del Bicentenario", em 22 de maio de 2010, em Buenos Aires. Aí estavam Víctor Heredia, Los Jaivas, Toto La Momposina, León Gieco (autor desta música), Gilberto Gil, Pablo Milanes, Gustavo Santaolalla, Mundo Alas, Jaime Ross e o nosso compositor guasca Raul Ellwanger.

O futuro governo Tarso Genro


Tem tudo para fazer um governo de reconstrução do Rio Grande, mas...

Parece que a conjunção dos astros e estrelas no firmamento em combinação com a massa majoritária dos eleitores sul-rio-grandenses estão a indicar que o futuro governador do RS será mesmo Tarso Genro.

Os fatos sugerem que o candidato da Unidade Popular combinou com os astros, com os eleitores e - de lambuja - com os russos, para não perder a anedota do saudoso Mané Garrincha.

Confirmando a vitória, empossado no Piratini, o futuro governador tem tudo para fazer um governo de reconstrução do Rio Grande, assolado que foi não só pelas sete pragas do Egito, mas contou com decisiva e deletéria ajuda de ex-governadores, tão retóricos quanto irresponsáveis. Com exceção, claro, de Olívio Dutra, que esboçou um projeto de reação, mas foi vítima do ódio mais irracional e mesmo do espírito de Macbeth que encarnou em Tarso, quando este protagonizou a desconstituição do seu companheiro de partido numa convenção petista mais que fratricida, porque suicida. Mas isto, convenhamos, é passado. Tarso Genro exorcizou o seu pequeno e ambicioso Macbeth interno ao passar grande parte da atual campanha fazendo o périplo da autocrítica em todos os rincões do estado. Aliás, ele começa a construir a vitória que ora ameaça se materializar, seja no primeiro, seja no segundo turno, quando une o PT e logra refazer velhas alianças no âmbito da esquerda guasca.

O Rio Grande do Sul parece ter entendido que não pode continuar a ser o último vagão da locomotiva chamada Brasil. De antiga vanguarda, em muitos aspectos da formação social e política brasileira, o Rio Grande atual vive de arrasto, sem energias, há mais de duas décadas, por pura opção política de uma elite regional passadista e ignorante, refém de lendas e mitos que mal conseguem parar em pé.

A vitória de Tarso, caso se confirme, significa o aggiornamento do Rio Grande com o Brasil. Para tanto, é de prever que o futuro governador faça esforços para montar um governo de grande coalizão política no estado. Para além dos atuais limites da Unidade Popular não é de estranhar se Tarso Genro trouxer novos coadjuvantes para ajudá-lo a governar o combalido estado sulino, operando um calculado mimetismo do bem sucedido - eleitoralmente - lulismo de resultados nacional.

Já se vê que com dois ou três gestos de boa vontade, nada mais que isso, o Rio Grande do Sul voltará a dialogar com o Brasil e a União Federal. A reconstrução de canais e vias do debate federativo, emperrado e enferrujado nos últimos oito anos, é uma exigência imediata e incontornável tanto do Piratini quanto do Planalto. Com recursos fluindo, projetos consistentes demandando rubricas orçamentárias esquecidas, relações convergentes entre agentes políticos afins e unicidade nos propósitos administrativos e gerenciais, o Rio Grande e o Brasil podem acabar com a guerra fria subterrânea e surda que predominou nos últimos anos nas relações entre Porto Alegre e Brasília.

O Rio Grande do Sul sob o comando de Tarso Genro tem tudo para dar certo, só não pode apostar que a obsoleta mídia local, porta-voz das piores desesperanças e dos maiores malogros (vide o melancólico yedismo de fracassos), seja parceira nesta longa jornada de reconstrução do estado. Afinal, por mais bem sucedida que seja uma coalizão de governo, especialmente no âmbito da democracia formal, nenhum dos nossos generosos propósitos será capaz de cancelar a velha luta de classes. Por algum lado, por alguma fresta do real, esta luta inexorável, essa filha diabólica da contradição, irá aflorar, especialmente se as grandes reformas locais forem implementadas (para se atualizarem com o Brasil). Pois, não temos a menor dúvida, que a vanguarda do atraso estará com o dedo em riste e a voz encharcada de ressentimentos nas páginas dos jornais, nas rádios e tevês do estado a combater o que irá contabilizar como perdas e danos aos seus privilégios mais caros.

Aí então, o governador Tarso se arrependerá amargamente por não ter se calado em 23 de setembro de 2010 quando garantiu que temos uma imprensa regional independente e um exemplo de mídia para o Brasil. Não é com retórica obediente (de aroma sabujo) que se dá solução para um problema central no atual cenário regional degradado em que vivemos.

domingo, 26 de setembro de 2010

Registro para a posteridade




Quer dizer então que temos uma imprensa independente futebol clube no RS? Exemplo edificante para o país?

Espera-se que Tarso Genro não tenha que engolir suas próprias palavras logo mais, no exercício do Poder Executivo estadual.

De qualquer forma, fica o registro.  

Mango Ramil


Vitor Ramil, de Pelotas, canta Mango, com versos do poema campeiro de João da Cunha Vargas (1900-1980), um vate xucro do Rio Grande. A coisa 'tá pedindo um bombo leguero e uma gaitinha botoneira diatonal, não acham?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Hoje tem grande comício em Porto Alegre

Todos lá!

E a Petrobras não quebrou...


Mais um fracasso do PIG!

Para quem presta a atenção no noticiário econômico e nos "especialistas" da mídia cabocla, esta há 90 dias vem torcendo pelo fracasso da capitalização da Petrobras. Os cadernos de economia do PIG estão coalhados de gente remunerada pelos chamados "mercados", essa entidade fantasmática e mercurial que habita algum lugar entre o solo pátrio e o Divino Celestial. Outro dia, escutei um desses fuinhas especialistas dizer no canal Globo News que os papéis da Petrobras não têm futuro porque agora "nós vivemos na busca por sustentabilidade e que a energia fóssil não tem lugar nesse mundo verde". Os caras viraram "verdes"! E continuou: "os vazamentos do Golfo do México vão impor preços de produção inadmissíveis para quem explora off shore e em águas profundas". Ou seja, a Petrobras é um caso perdido, o pré-sal é uma quimera, vamos abandonar essa sucata obsoleta e danosa ao planeta e entregar para as "sete irmãs" que - estes sim - saberão explorar petróleo e gás no Brasil, blablablablá...

Agora, vamos ler a notícia que interessa, e que contraria de forma antagônica a esses filhotes de Fernando Henrique com cobra d'água:

O Conselho de Administração da Petrobras estabeleceu na noite de ontem (23) que o preço das ações ordinárias da megaoferta pública que a estatal está fazendo para se capitalizar será de R$ 29,65, enquanto as ações preferenciais serão de R$ 26,30. Com a operação, a Petrobras arrecadou R$ 120,36 bilhões, a maior oferta de ações já registrada no mundo. A informação é da Agência Brasil.

O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, participou da reunião por meio de uma teleconferência, já que estava em Nova York, nos Estados Unidos, onde a oferta de ações da estatal começa amanhã (24). Também nesta sexta-feira, as ações da Petrobras serão lançadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), na abertura do pregão, que contará com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A oferta das ações da Petrobras na Bovespa começa na segunda-feira (27).

O processo de capitalização da Petrobras para a exploração de petróleo e gás natural nos blocos do pré-sal começou no último dia 13, com a reserva de ações para os atuais acionistas da companhia, incluindo os cotistas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), dos Fundos de Investimentos e os próprios empregados da estatal. O prazo para a reserva deste grupo terminou na quarta-feira passada (22).

No aviso feito ao mercado, no dia 3 de setembro, a Petrobras informou a oferta de 2,17 bilhões de novas ações ordinárias (com direito a voto) e de 1,58 bilhão de novas ações preferenciais (sem direito a voto).

Com o começo da mega oferta de ações, a Petrobras segue as regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que não permite que a empresa se pronuncie durante o processo que será concluído no próximo dia 30.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Lula diz que imprensa deveria assumir "categoricamente" que tem candidato e partido


"Temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse país", afirma o presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a fazer críticas à imprensa brasileira em entrevista nesta quarta-feira (23) ao portal Terra.

"A imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido, que falasse. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada. Muitas vezes fica explícita no comportamento que eles têm candidato e gostariam que o candidato fosse outro. Tiveram assim em outros momentos. Acho que seria mais lógico, mais explícito. Mas, eles preferem fingir que não têm lado e fazem críticas a todas as pessoas que criticam determinados comportamentos e determinadas matérias", disse.

Segundo ele, o que acontece muitas vezes é que "uma crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática". "Ou seja, como se determinados setores da imprensa estivessem acima de Deus e ninguém pudesse ser criticado. Escreveu está dito, acabou e é sagrado, como se fosse a Bíblia sagrada. Não é verdade. A posição de um presidente é tomada como ser humano, jornalista escreve como ser humano, juiz julga como ser humano. Ou seja, temos um padrão de comportamento e julgamento e, portanto, todos nós estamos à mercê da crítica."

Lula disse ainda que, nesse momento do Brasil, é um "absurdo" falar em falta de liberdade de comunicação. "Nesse momento do Brasil! Eu duvido, duvido. Eu quero até que vocês coloquem em negrito isso aqui: Eu duvido que exista um país na face da Terra com mais liberdade de comunicação do que neste país, da parte do governo. Agora, a verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse país. A verdade é essa. A verdade é que você viaja pelo Brasil e você tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais."

A entrevista dura 55 minutos, assista aqui.

Embargo a Cuba é ilegítimo, diz Amorim na reunião da ONU


O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, condenou hoje (23), na abertura da 65ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o bloqueio a Cuba em vigor há 38 anos por imposição dos Estados Unidos. Amorim chamou o embargo de “ilegítimo bloqueio”. A informação é da Agência Brasil.

Recentemente o presidente de Cuba, Raúl Castro, anunciou a demissão de mais de 500 mil funcionários públicos e a abertura econômica na tentativa de conter as dificuldades no país.

O bloqueio a Cuba envolve restrições econômicas, financeiras, políticas e diplomáticas. De acordo com o governo cubano, as medidas se tornaram mais intensas nos governos norte-americanos dos presidentes Bill Clinton, George W. Bush e agora de Barack Obama. Os cubanos reivindicam, inclusive, que filiais estrangeiras de empresas dos Estados Unidos negociem com Cuba.

No último fim de semana, antes de seguir para os Estados Unidos, Amorim esteve em Cuba. Em Havana, o chanceler se reuniu com o presidente Raúl Castro e várias autoridades cubanas. Nas conversas, o ministro disse que o Brasil está disposto a intensificar as parcerias com o país.

Uma das ideias é repassar a experiência e o conhecimento sobre desenvolvimento de pequenas e médias empresas, para diminuir o número de informais na economia de Cuba. Amorim costuma afirmar que o diálogo próximo e permanente entre Cuba e Brasil permite que os brasileiros sejam interlocutores diferenciados na busca do fim do bloqueio ao país.

No último dia 17, o ministro das Relações Exteriores de cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, acusou Obama de reforçar o embargo. Segundo o chanceler, as severas restrições fizeram Cuba acumular, ao longo dos anos, um prejuízo de US$ 751,3 bilhões.

Parrilla se queixou de que o embargo impede Cuba de “exportar e importar” bens e serviços livremente. De acordo com ele, o país tem limitações para negociar utilizando como moeda o dólar, assim como não pode usar bancos estrangeiros nem acesso ao crédito de instituições norte-americanas.

Foto acima: vista aérea da capital cubana, Havana.

Politicamente, isolados. Tecnologicamente, obsoletos

Pequena crônica da mídia zumbi

A campanha eleitoral da mídia contra a candidatura Dilma ultrapassou dois limites: 1) do decoro, 2) da democracia formal.

Agindo com naturalidade na função desviante de partido político, admitido por uma executiva-celetista da Folha e dirigente da corporação midiática, a imprensa brasileira acaba de se identificar como o último reduto golpista do País. Nem os milicos, a espoleta de 1964, nem o empresariado civil, os fomentadores de 1964, nem a Igreja, a justificação moral de 1964, acompanham a escalada invertida do baronato midiático ao abismo regressista.

Agora, o isolamento da mídia é a consequencia lógica da sua opção política. Com um agravante: do gueto a que se submetem - voluntariamente - dificilmente sairão. O chamado formato imprensa - seja jornal, revista, rádio ou televisão - está sendo posto em cheque pelas novíssimas tecnologias de comunicação social, agora não mais estática e apassivadora, mas participativa, interativa e, sobretudo, plural, tanto no meio, quanto no alcance de novos atores e objetos sociais.

Por isso, o golpe como último instrumento político, a conspiração continuada contra a democracia e as regras formais do contrato social. Cada vez mais eles se inabilitam à convivência democrática. Politicamente, isolados. Ideologicamente, órfãos (especialmente depois de setembro de 2008). Tecnologicamente, obsoletos. A mídia zumbi, tropeçando no próprio atraso, renegando o futuro inexorável, marcha lentamente para o museu da nossa memória do improvável.

Acima, capa da revista Veja, da semana passada: imbatível! Uma das coisas mais bregas, esteticamente. É de filme B, anexo XYZ. A corruptela polvo-povo é um exemplo de mau gosto poético-sem-poesia, acrescido de imaginação zero. A interjeição "Caraca! Que dinheiro é esse?" é risível. Vai virar bordão para ilustrar o nível pantanoso da pauta da direita na presente eleição de 2010.      

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Presidente Mujica nega porto a navios ingleses


Governo uruguaio atende pedido dos argentinos

O governo uruguaio negou ontem a entrada no porto de Montevideo de uma fragata da marinha britânica. O barco é parte da frota que custodia e transporta vìveres e combustíveis às ilhas no sul do Oceano Atlântico, atualmente com soberania inglesa, mas reclamada pela Argentina como seu território nacional.

As Malvinas, chamadas de Falklands pela Inglaterra, foram motivo de guerra entre a Argentina e a Inglaterra, no ano de 1982. A primeira-ministra Margaret Thatcher endureceu posição com a ditadura militar argentina então sob o comando do general Leopoldo Galtieri. Houve guerra de algumas semanas, a Argentina sofreu derrota humilhante e a ditadura caiu meses depois.

O barco HMS Gloucester D-96 havia solicitado há uma semana a autorização para aportar em Montevideo. O pedido foi rechaçado pelo Ministério de Relações Exteriores do Uruguai, alegando concordância com a política de apoio à soberania argentina sobre as ilhas Malvinas.

Em 2006, a chancelaria argentina pediu aos países vizinhos do Cone Sul que não facilitem o acesso a portos e aeroportos de barcos e aviões britânicos com destino às Malvinas (foto ao lado). Em 2007, o presidente Tabaré Vázquez também já havia negado porto aos ingleses em trânsito para o sul do Atlântico.

O tema volta à pauta política porque a Inglaterra está começando a explorar o petróleo na plataforma marítima das Malvinas.

Esse gauchismo acanalhado deixa qualquer um vexado




Pior: essa coisa é uma cópia rebaixada da publicidade da cerveja canadense Molson, uma água rançosa, a rigor.

A operadora de telefonia móvel deveria sustar o pagamento desta peça fake e constrangedora.

Bento Gonçalves andou pelo Palácio Piratini?


Inebriada pelas "façanhas", lendas e fantasias paranóicas que ouviu nas últimas semanas por ocasião dos festejos setembrinos de 1835/45, a governadora Yeda também se deu o direito de proferir os seus disparates, que para ela é tão natural quanto respirar. Em Zero Hora de hoje, Sua Excelência afirmou que Bento Gonçalves da Silva teria pisado no chão do seu gabinete do Palácio Piratini, sede do Poder Executivo sul-rio-grandense. A matéria do jornal dá como verdadeira a afirmação ignorante da governadora, mas deveria puxar um pequeno box com a constrangedora didática rebessiana "Para seu filho entender", e dizer que Bento morreu em 1847, e o Piratini começou a ser projetado e construído já no início do século 20.

De qualquer forma, nada mal para uma pessoa sabidamente bronca e refratária ao aprendizado. Mas e o quê dizer de um paisano que se intitula antropólogo, bichão das tradições sulinas, e tem o hábito de andar fantasiado como um Bento-Gonçalves-de-hospício, afirmar em um artigo recente (sábado passado, publicado em ZH) que o Tratado de Ponche Verde (março de 1845) não significou nem a "derrota" nem a "rendição" dos estancieiros farrapos?

A harmônica fusão do quarteto Cuatrero



Desde a província de Formosa, nordeste da Argentina.

As verdadeiras ameaças à liberdade de expressão no RS


Trampas guascas

Algumas perguntas sem resposta, aqui no Rio Grande do Sul:

Liberdade de expressão ameaçada (1): quem são os jornalistas que tinham acesso privilegiado às informações do aparato de segurança do RS?

Liberdade de expressão ameaçada (2): Quanto os jornais Zero Hora e Correio do Povo receberam em publicidade do Banrisul no governo Yeda?

Liberdade de expressão ameaçada (3): por que a mídia gaúcha não dedicou uma linha ao “braço midiático da fraude no Detran”?

Liberdade de expressão ameaçada (4): quem são os jornalistas que receberam “senhas” especiais do governo Yeda?

Os jornalistas auto-intitulados "independentes e isentos" do estado não têm resposta a nenhuma das questões listadas acima. Por quê será?

Texto pescado do blog RS Urgente, menos os títulos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Cristina Kirchner vai pedir a prisão imediata dos donos dos jornais Clarín e La Nación


O governo argentino prepara denúncia contra os donos dos dois principais jornais do país, Clarín e La Nación, por homicídio e cumplicidade no sequestro e nas torturas sofridas por membros da família Graiver durante a ditadura (1976-1983). A herdeira do Grupo Clarín, Ernestina Herrera de Noble (na foto, de verde), de 85 anos, já teria contra si, de acordo com o jornal portenho Perfil, um pedido de "detenção imediata" tramitando nos tribunais de La Plata, capital da Província de Buenos Aires. As informações são da agência Efe.

A denúncia - vista pela oposição como mais um sinal da perseguição política radical lançada pela presidente Cristina Kirchner contra os meios de comunicação - refere-se ao papel que os donos dos dois jornais teriam desempenhado em 1976. Na época, eles compraram a empresa Papel Prensa, que fornece matéria-prima para o Clarín e o La Nación, beneficiados por uma venda vantajosa depois que a herdeira da empresa, Lidia Papaleo Graiver, foi presa e torturada pelos militares. O marido dela, David Graiver, que teria ajudado a financiar o grupo radical de esquerda Montoneros, morreu num misterioso acidente de avião antes da transação. A versão de que os dois jornais se beneficiaram dos crimes para assumir o controle da empresa que abastece 75% do mercado interno é respaldada por Lidia, viúva de David Graiver.

O embate entre governo e imprensa cresce no momento em que a Argentina se aproxima das eleições presidenciais de 2011.

Ontem, milhares de manifestantes saíram às ruas de Buenos Aires para protestar contra a imprensa e o Judiciário. Eles pedem que os juízes da Corte Suprema apliquem a Lei de Meios, que restringe o direito de um grupo de mídia controlar mais de um veículo na mesma cidade.


Leia mais no post Papel Prensa, o fordismo nos crimes de lesa humanidade, publicado aqui neste blog DG, em 26 de agosto último.  

Elogio à boçalidade



Eleito, o presidente ou a presidente vai ter que negociar com tipos como esse

Oportunistas, descuidistas, aventureiros e futuros parlamentares-balcão-de-negócio estão agindo neste momento para se eleger no dia 3 de outubro próximo. Tudo dentro da lei. A nossa legislação político-eleitoral permite e estimula candidatos como esse do vídeo acima.

Caso Dilma Rousseff se eleja, terá que negociar com uma aberração dessas aí. Mesmo detentora de um capital político lastreado em cerca de 70 milhões de votos, no mínimo, conquistados de eleitores e eleitoras que confiaram na sua plataforma eleitoral séria, consequente, exequível, democrática e republicana. Mas, ainda assim, terá que negociar o apoio junto a muitos congressistas temerários, despolitizados, mal-intencionados, lúmpens mesmo, todos fruto de uma legislação obsoleta e inadequada para sustentar os fundamentos de uma democracia formal baseada na vontade da maioria. Assim, a maioria absoluta conquistada nas urnas é relativizada pela necessidade de depender de um Congresso formado por pequenos déspotas do próprio capricho e apetite unipessoal.

Essa deformidade da nossa democracia formal tem que acabar. A reforma política é necessária já no primeiro semestre de 2011.

PS: o candidato 1102 concorre pela agremiação partidária PP (Partido Progressista, ex-Arena, aglomerado partidário que apoiava a ditadura 64-85), pelo estado de São Paulo.

Lula aceita se confrontar com a mídia conservadora



Tirar Dilma da linha de tiro é o objetivo lulista

Com a clara intenção de tirar a candidata Dilma Rousseff da linha de tiro, Lula chama para si a artilharia midiática da direita. Cumpre assim a promessa que fez quando lançou a ex-chefe da Casa Civil à sua própria sucessão. Já se vê que o presidente não está sendo somente o cabo eleitoral que exalta os aspectos positivos e edificantes de sua escolhida, mas também o apoiador que se coloca como alvo para que os adversários diminuam suas invectivas e ranços de classe contra exclusivamente a candidata governista.

Lula, apesar de suas muitas falhas e conciliações no exercício do poder, mostra que é imbatível na política tanto do varejo quanto do atacado. Tanto que ele conseguiu algo que poucos governantes mundiais tiveram êxito, anular completamente a oposição partidária. [Há quatro semanas, o candidato preferencial desta oposição, José Serra, é um rematado zumbi eleitoral, sem discurso, desnorteado, pautado apenas pelo noticiário forjado da mídia amiga.] Motivo pelo qual a mídia conservadora - quase a totalidade dos meios de comunicação no Brasil - pintou-se para a guerra eleitoral e conseguiu forjar algumas armadilhas formadas por cavacos juntados das contradições e complexidades do gigantesco Estado brasileiros agravado por um sistema político que, em nome da governabilidade, forçam alianças bisonhas e deixam o governo à mercê de uma quase aventura. Exemplo: ontem se descobriu que havia um coronel na direção dos Correios. Contar como esse militar chegou à direção de uma estatal de entrega de correspondências e logística será sem dúvida uma epopeia narrativa, tamanha são as peripécias arranjadas pelas alianças de quem quer governar mas não logra maioria no Congresso.

Nas eleições de 2006, Lula foi eleito com 62% dos votos válidos, mas pelas deformadas regras político-eleitorais brasileiras não conseguiu maioria no Parlamento, ficando refém do oportunismo dos partidos aos quais se aliou para viabilizar a famigerada governabilidade.

Estamos, pois, diante de duas hipertrofias que impedem o aperfeiçoamento da nossa democracia formal, e exigem mudanças imediatas, a saber:

1) A mídia que opera como partido político, por isso e por outros motivos estruturais, necessitando de uma reforma que revise a sua legalidade/ilegalidade - em especial as concessões de rádio e TV. Ações políticas que direcionem de forma mais democrática as verbas estatais, o fortalecimento de uma rede nacional de emissoras de rádio e televisão (a Agência/TV Brasil é lenta, ineficaz e pequena para o nosso tamanho territorial), a horizontalização, o barateamento e a qualificação da banda larga da internet, o fortalecimento e a capitalização da Telebrás como forma de contenção dos preços artificiais e elevação da qualidade dos serviços dos oligopólios das teles privadas, etc.

2) A necessidade urgente de uma reforma política completa e radical. Financiamento público das campanhas eleitorais. Voto em programa com lista de candidatos anexa, vinculando o programa do candidato majoritário (para o Executivo) com a lista de candidatos aos Parlamentos (Congresso, Câmaras municipais, Assembleias estaduais). Tais medidas seriam um desestímulo à proliferação de candidatos avulsos, sem nenhum compromisso programático, não raro aventureiros e aproveitadores da tolerância excessiva da nossa atual fórmula político-eleitoral. Um tipo como o palhaço Tiririca de São Paulo - e centenas de outros pelo Brasil afora - é filho da atual deformidade da lei vigente. A presente situação favorece o surgimento de aberrações políticas, desestimula a participação e se constitui numa incubadora permanente de crises.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Querência



Por um 20 de Setembro menos lendário, menos ideologizado e menos valorização do valor.

domingo, 19 de setembro de 2010

Lula reconhece - afinal - que a imprensa se comporta como partido político



Tomara que não seja tarde

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou ontem (18) a imprensa brasileira. Ao discursar em Campinas, durante comício da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, Lula disse que algumas reportagens publicadas por jornais e revistas do país são uma “vergonha”. De acordo com ele, alguns veículos de imprensa se comportam, neste momento de campanha eleitoral, como partidos políticos. A informação é da Agência Brasil.

“Tem dia que determinados setores da imprensa brasileira chegam a ser uma vergonha”, disse o presidente. “Se o dono do jornal lesse o seu jornal ou o dono da revista lesse a sua revista, eles ficariam com vergonha do que eles estão escrevendo exatamente neste momento.”

Segundo o presidente, algumas publicações “destilam ódio e mentiras” sobre o governo porque não se conformam com as realizações de seu mandato. Lula disse também que alguns jornais e revistas do país se comportam como partidos políticos, mas não assumem que têm posição [político-partidária].

Apesar disso, Lula reafirmou ser contra censurar a imprensa. De acordo com o presidente, os cidadãos é que devem escolher as suas fontes de informação. “Não sou eu quem vou censurá-la [a imprensa]. É o telespectador, o ouvinte e o leitor que vão escolher aquilo que presta e aquilo que não presta.”

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Cada vez mais se faz necessário no Brasil uma Lei de Meios, como ora está sendo discutido e votado na Argentina, por iniciativa do governo Cristina Kirchner. Não se trata de diminuir nenhum milímetro a propalada liberdade de informação, nem a liberdade de imprensa. Mas, sim, disciplinar e regular a liberdade de empresa. Das empresas de comunicação, hoje aglomeradas e controladas pelas mãos de poucas famílias ricas e decadentes. São empresas de comunicação que, inclusive, estão fora da lei, porque detém o controle desmesurado (e ilegal) de emissoras de rádio e televisão, muito acima da cota legal permitida pelas normas de concessões públicas.

O governo Lula nunca quis discutir esse tema, foi leniente e não entendeu o caráter antidemocrático dos grandes monopólios de comunicação, todos eles com a marca indelével do golpe de 1964 nas suas militâncias políticas. Agora, está sendo vítima precisamente da excessiva liberdade (ou libertinagem) de que dispõem as empresas que exploram o business das mídias no Brasil.

Leia também o post Somos, sim, e daí? - confessa uma executiva da Folha, publicado aqui neste blog em 31 de março último.

sábado, 18 de setembro de 2010

A bala de prata está na linha de montagem


A propósito da metáfora conhecida como "bala de prata", a ser usada pela direita como último e desesperado recurso (golpista) para barrar o crescimento inexorável da candidatura Dilma e tentar um segundo turno, eu tenho umas perguntas a fazer.

As perguntas são as seguintes:

Uma pessoa míope pode atirar com arma de fogo, acertar e matar alguém?

Uma pessoa com grau acentuado de miopia pode fazer treinamento com armas de fogo? E mesmo que o faça, pode ter boa mira?

Uma pessoa com grau acentuado de miopia pode participar de ações armadas?

Os frenéticos boatos que circulam nos meios político-eleitorais dão o devido nexo ao que está tratado acima.

O papa não é pop


Daniel Paz & Rudy

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O rock charrua da banda La Vela Puerca



Globo-Folha: a voz do crime no Brasil



Criminoso condenado é o herói da mídia golpista

Pela primeira vez, os golpistas midiáticos associaram diretamente o nome de Dilma Rousseff a um suposto delito.

O golpe veio em "cadeia nacional", pelo JN, da boca de um criminoso comum, julgado e condenado.

Era receptador de cargas roubadas e lidava com dinheiro falsificado.

Já passou dez meses atrás das grades.

Admite que no passado foi filiado ao PSDB.

Esse bandido virou celebridade na Folha de S. Paulo, que exibe dele uma foto posada, produzida por Letícia Moreira num chiaroscuro ao estilo Van der Goes (foto acima).

No quadro de 19 cm x 24 cm, o ladrão cafajeste virou galã.

No horário jornalístico nobre da TV, foi tratado como demiurgo.

Ganhou cerca de um minuto para desfiar acusações confusas contra Erenice e Dilma.

Ou seja, Folha e Globo se transformaram em canal de locução do crime.

Mesmo assim, provavelmente não serão processados.

Nenhum policial, procurador ou magistrado se levantou, até agora, para questionar a conversão de veículos de comunicação em armas de destruição moral.

O cidadão tampouco pode contar com o Governo Federal e com o PT, sempre tímidos e incapazes de agir contra as gangues midiáticas e seus novos atores, agora recrutados no sistema carcerário.

O episódio da demissão de Erenice Guerra constituiu-se em grave erro estratégico.

Tolerar o avanço da bandidagem midiática pode ser trágico, mesmo que se vença a eleição.

Ou destruímos o golpismo midiático ou o golpismo midiático vai destruir o Brasil.

Artigo do jornalista Mauro Carrara

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Honduras não é aqui!


A partir de hoje, sente-se um clima de Honduras no ar. Mas Honduras não é aqui.

A mídia não deve, não pode, não levará essa.

Haverá reação.

A guerra civil instalada dentro do próprio Serra


Guerra Civil

É contra mim que luto
Não tenho outro inimigo.

O que penso
O que sinto
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço

Absurda aliança
De criança
E de adulto.

O que sou é um insulto
Ao que não sou
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.

Não me dou por vencido
Nem convencido
E agrido em mim o homem e o menino

Miguel Torga (1907-1995), poeta português

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Esse poema dedicado ao Serra, é de justiça. Dias atrás, nós dedicamos um poema de Cecília Meireles à Dilma Rousseff. Setores emplumados e de vasto bico reclamaram da ousada e irregular parcialidade deste blog DG. Está promovido, pois, o reequilíbrio poético na floresta.

Nem os leitores de O Globo acreditam em O Globo


A suspeita sobre a mídia brasileira tende a se alastrar mais e mais

O jornal da família Marinho fez uma enquete para saber a opinião dos seus leitores sobre a isenção/neutralidade/imparcialidade da mídia brasuca acerca da cobertura da presente corrida eleitoral à presidência.

Vejam o resultado acima (pescado em O Globo): 52,39% acham que a mídia favorece mais o José Serra, não por acaso o queridinho de O Globo e dos demais grandes e médios jornais, tevês e rádios deste imenso Brasil.

O interessante é que essa gente não engana mais ninguém. Ao contrário, paira uma suspeita permanente, uma nuvem sombria carregada de interrogações e/ou indiferença, sobre a cobertura diária da mídia brasileira. Haja vista que não colou nenhuma das invectivas e factoides manipulados pela chamada grande imprensa durante os últimos sete anos e meio contra o governo Lula. E não colou somente porque Lula é um teflon, como o carimbam seus detratores, mesmo porque o grande ascenso da popularidade do presidente foi ocorrendo lentamente para se cristalizar de 2007 em diante. Mas mesmo antes de 2007, nada do que foi usinado pela mídia obteve acolhimento da população. O único êxito parcial (e provisório) deles foi o segundo turno em 2006. Sem mencionar a brutal queda das audiências de televisão e afundamento das tiragens dos jornais impressos. A migração dos anunciantes de serviços e mercadorias para mídias alternativas, em especial na web, é um fator que expõe com mais crueza o fenômeno da decadência da mídia tradicional. Este fato, talvez, seja o mais importante, porque deixa claro que o próprio mercado publicitário está dizendo não ao nosso carcomido baronato midiático.    

Esses elementos dão bem o tom e o grau do grave isolamento social da mídia, deixando evidente que eles falam para um leitorado/eleitorado muito restrito, cada vez mais afunilado, não só em quantidade, mas sobretudo em estreiteza da visão de mundo, ineficácia ideológica, obsolescência política e um abismal atraso cultural.

Luis Fernando Veríssimo dá uma chinelada em José Serra, o boçal


Aos poucos o candidato José Serra mostra facetas ocultas de sua personalidade. Semana passada, numa sabatina promovida pelo jornal O Globo destapou outro vão obscuro das suas muitas luas psíquicas, a boçalidade, sinônimo de ignorância, estupidez e, como disse Dilma em outro debate, Serra faz questão de exibir uma certa arrogância mesclada com autossuficiência. O que acentua mais ainda a boçalidade mostrada em O Globo.

Hoje, publicado em vários jornais do País, o escritor Luis Fernando Veríssimo dá uma chinelada em José Serra. Leia abaixo:

Foster Dulles


Não pude ir à sabatina dos candidatos à Presidência feita por colunistas e leitores de O Globo na semana passada, mas mandei perguntas por e-mail. Respondendo à minha pergunta sobre se, caso ele fosse eleito, a política externa brasileira voltaria a ser a que era antes do governo Lula, mais alinhada com os Estados Unidos, Serra respondeu que teria uma política própria, presumivelmente diferente da política do Fernando Henrique também. Mas antes fez um preâmbulo, lembrando o livro O Senhor Embaixador, em que, segundo Serra, meu pai se revela um admirador de John Foster Dulles, secretário de Estado americano que foi o grande estrategista da Guerra Fria com a União Soviética, famoso pela sua doutrina do “brinkmanship”, ou a arte de levar as confrontações até a beira de uma guerra quente, sem dar o passo fatal. “No caso da família Verissimo, houve uma alternância”, disse Serra, pois o filho, eu, “passou para o lado contrário em matéria de questão externa”. Não entendi: o lado contrário do que, da Guerra Fria? Posso garantir que não sou pelo alinhamento da nossa política externa com a União Soviética contra o Foster Dulles, mesmo se conseguíssemos encontrar os dois ainda vivos, e mesmo que meu desejo valesse alguma coisa.


Como eu, o Serra deve ter lido O Senhor Embaixador há algum tempo. Não surpreende que não se lembre bem do que leu. Foster Dulles foi, sim, uma figura admirável, do ponto de vista puramente literário. Incorporava um certo tipo de aristocracia americana que durante algum tempo fez do Departamento de Estado o seu feudo fechado e do anticomunismo sua principal faina intelectual. Depois, esse patriciado estanque foi substituído por tecnocratas tipo McNamara, que deram o passo fatal além da beira e empurraram o país para o abismo do Vietnã. Nenhum tinha aquela empáfia de nascença que caracterizava Dulles e seus pares e mal camuflava sua arrogância. Meu pai não admirava a política de Dulles, Serra. Um personagem do livro expressa sua opinião sobre Dulles como a fascinante figura literária que foi.


O Senhor Embaixador foi baseado, em boa parte, na experiência do meu pai como diretor de assuntos culturais da União Pan-Americana, ligada à Organização dos Estados Americanos, em Washington, de 1953 a 1956. A personalidade que, este sim, ele mais admirou no período foi Alberto Lleras Camargo, ex-presidente da Colômbia pelo Partido Liberal que dirigiu a OEA até 54 e saiu do cargo fazendo um famoso discurso em que desancava a intromissão americana em assuntos internos da América Latina e propunha um novo relacionamento, não submisso, dos latinos com os Estados Unidos. Lleras Camargo foi o primeiro estadista latino-americano da sua estatura e com suas credenciais a dizer coisa parecida. Recomendo ao Serra que, quando tiver tempo, leia Solo de Clarineta, vol.1, livro de memórias do meu pai, para saber com que figuras ele realmente simpatizou, na época, e com quem concordava.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

No Brasil, o ditador Videla estaria todos os dias sendo adulado na TV



O contraste entre Brasil e Argentina, no quesito memória histórica e cidadania

O ditador Jorge Rafael Videla se definiu ontem como um preso político, e denunciou que se sente intimidado, que teme pela sua segurança e de sua família e considerou que as afirmações de ex-membros da organização Montoneros durante um ato público no qual recordaram seus tempos de militância constituem "uma ameaça à sociedade de reinstaurar a violência para obter ganhos políticos". A informação é do diário portenho Página/12, edição de hoje.

As declarações do ex-militar condenado à prisão perpétua como maior responsável pelo genocídio argentino [entre 1976 e 1983] aconteceram durante uma audiência judicial por crimes de torturas e morte de presos políticos da Unidade Penitenciária 1, depois que o Tribunal Oral Federal 1 de Córdoba havia confirmado como integrante pleno o vogal José María Pérez Villalobo, cuja imparcialidade fora questionada pelo ex-major Gustavo Adolfo Alsina, apontado por vários sobreviventes como um dos mais crueis torturadores do Terceiro Corpo do Exército. [...]

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Faço questão de trazer essa notícia fresca sobre o ditador Videla, que agora reclama por direitos civis, mesmo na condição de condenado pela Justiça argentina por bárbaros crimes contra esses mesmos direitos civis, que ele pisoteou e ignorou.

Vejam o contraste entre Argentina e Brasil, no quesito memória histórica e cidadania. No país vizinho, o sanguinário ditador está condenado à prisão perpétua, seus velhos companheiros, torturadores, assassinos, genocidas, etc., estão sendo julgados, um a um. No Brasil, um ex-agente menor da comunidade de informações, um sujeito que foi condenado por roubo de patrimônio público, um ratinho ladrão de queijo, é procurado pelo diário Folha de S. Paulo para passar suas impressões - pertinentes e acuradas - sobre a personalidade da candidata Dilma Rousseff. O editor da Folha que bolou esta "genial" pauta o fez por verificar que o ex-agente fora um dos destacados pelo aparelho de repressão do Estado para seguir e bisbilhotar Dilma depois que esta saiu de uma prisão de três anos durante a ditadura. Logo, o verme estava habilitado - segundo a editoria de política da Folha - para analisar o perfil psicológico da candidata lulista. A que ponto chegamos!

Se o Brasil tivesse revisado e passado a limpo (via Judiciário) os crimes cometidos durante a ditadura, como fez e segue fazendo a Argentina, o Uruguai, e o Chile, não estaríamos frente a essa aberração histórica: um desqualificado agente-roedor servir de testemunha idônea na tentativa vil de um órgão de imprensa querer desconstituir a candidata que não representa os interesses deste mesmo jornal.

A coisa foi tão bisonha que os dois jornalistas autores da matéria erraram tudo, erraram a data, erraram o governo autor da condenação da ratazana, erraram a mão e não lograram êxito no que se propunham. Mais uma página lamacenta do subjornalismo brasileiro.

O ditador Videla deve nos olhar com ânimo e admiração. Aqui, ele estaria livre e solto, paparicado diariamente nos jornais e tevês, vociferando suas patologias mentais contra os inimigos das ditaduras e das oligarquias.

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