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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O quanto a mídia se recusa a refletir sobre o que pensam os brasileiros



Pensamento brasileiro
No último domingo, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa a respeito do posicionamento ideológico dos brasileiros. Essa não foi a primeira vez que pesquisas dessa natureza foram feitas pelo instituto, mas foi a primeira vez que questões econômicas ligadas à função do Estado, às leis trabalhistas e à importância de financiar serviços públicos apareceram. O resultado foi simplesmente surpreendente.

Se você ler os cadernos de economia dos jornais e ouvir comentaristas econômicos na televisão e no rádio, encontrará necessariamente o mesmo mantra: os impostos brasileiros são insuportavelmente altos, as leis trabalhistas apenas encarecem os custos e, quanto mais o Estado se afastar da regulação da economia, melhor. Durante décadas foi praticamente só isso o que ouvimos dos ditos "analistas" econômicos deste país.

No entanto décadas de discurso único no campo econômico foram incapazes de fazer 47% dos brasileiros deixarem de acreditar que uma boa sociedade é aquela na qual o Estado tem condição de oferecer o máximo de serviços e benefícios públicos.

Da mesma forma, 54% associam leis trabalhistas mais à defesa dos trabalhadores do que aos empecilhos para as empresas crescerem, e 70% acham que o Estado deveria ser o principal responsável pelo crescimento do Brasil.

Agora, a pergunta que não quer calar é a seguinte: por que tais pessoas praticamente não têm voz na imprensa econômica deste país? Por que elas são tão sub-representadas na dita esfera pública?

A pesquisa ainda demonstra que, do ponto de vista dos costumes, os eleitores brasileiros não se diferenciam muito de um perfil conservador. O que deixa claro como suas escolhas eleitorais são eminentemente marcadas por posições ideológicas no campo econômico. 

Uma razão a mais para que tais posições possam ter maior visibilidade e estar em pé de igualdade com as posições econômicas liberais hegemônicas na imprensa brasileira.

É claro que haverá os que virão com a velha explicação ressentida: o país ama o Estado devido à "herança patrimonialista ibérica" e à falta de empreendedorismo congênita de seu povo. Essa é a velha forma de travestir egoísmo social ressentido e preconceituoso com roupas de bricolagem histórica.

Na verdade, o povo brasileiro sabe muito bem a importância da solidariedade social construída por meio da fiscalidade e da tributação dos mais ricos, assim como é cônscio da importância do fortalecimento da capacidade de intervenção do Estado e da defesa do bem comum. Só quem não sabe disso são nossos analistas econômicos, com suas consultorias milionárias pagas pelo sistema financeiro.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. 

sábado, 30 de novembro de 2013

"Jango", o documentário, na íntegra



Documentário imperdível do diretor Sílvio Tendler. Música de Milton Nascimento e Wagner Tiso. 

Entenda o golpe civil-militar de 1964 e, por conseguinte, o Brasil de hoje. 

Mudam os personagens e seus nomes, a luta de classes é a mesma.

"A semana acaba no domingo..." Ponto alto da MPB



Jorge Ben, 1970.




quinta-feira, 21 de novembro de 2013

José Dirceu e o anjo de Drummond






Ideais audaciosos, altos sacrifícios, impulsos heróicos, tudo se dissipará em meio à rotina trivial e monótona de fazer compras e votar”.
                          Perry Anderson


Depois de ser cassado, José Dirceu desabafou de forma reveladora: “Foi como se eu perdesse minha própria vida”. 

Para além da sua falta de amizade com a boa sintaxe, José Dirceu briga não só com o pensamento de esquerda, mas sobretudo com qualquer pensamento. 

A entrevista que concedeu aos jornalistas, no dia seguinte à cassação, tem a profundidade de um aipim. 

Não há pensamento, só a repetição exaustiva do mantra defensivo, “não há provas contra mim”, e a hipostasia do parlamento. Como se o parlamento fosse a instituição absoluta para o exercício da democracia. Cotejar a revogação dos seus direitos políticos com a perda da própria vida é mais que um exagero, é tolice denunciadora da uma concepção aguada de política, de democracia, e de si próprio.

Muito bem, de fato inexistem provas contra o senhor Dirceu. Mas em caso de punição, que caisse atirando, como bom combatente. Dissesse tudo que pensa sobre o parlamento e o sistema representativo. Basta recolher as análises agudas – nunca desmentidas – de Rousseau, de Marx, de Rosa de Luxemburg, de Gramsci, de Karel Kosik, de Perry Anderson, de István Mészaros, e tantos outros, para demonstrar a natureza decaída do sistema político que representa (simula) a democracia entre nós. Mas Dirceu está desarmado de pensamento. Ele que tivera espírito de “comissário”, agora se comporta como “bela alma”, conforme a classificação de Karel Kosik. “Comissário”, para Kosik, é o burocrata político que, se acreditando revolucionário, quer impor seus princípios dogmáticos e indiscutíveis aos outros. E a “bela alma” – simetricamente oposta – é um ser retraído pelo temor de se perverter com a ação política, o que se revela inútil, pois sua passividade acaba por igualmente corrompê-lo face a convivência passiva com o mal.

Na entrevista de José Dirceu, não há um grão de crítica essencial à instituição que acabara de baní-lo por dez anos da política chapa-branca. Nem essencial, nem superficial. 

É aí que o espírito de “comissário” se dissolve na passividade da “bela alma”. Tem uma frase dele na entrevista que é cristalina: “Sou apenas o Zé Dirceu. Me sinto muito bem como Zé Dirceu”. Visivelmente, agora ele é um ser reconciliado com a sua consciência. Viveu grande parte da vida aturdido por uma moral bipartida: estar revolucionário ou ser liberal. O longo processo de cassação na Câmara Federal lhe apaziguou o espírito em conflito, a identidade liberal é a condição harmônica da sua “bela alma”.

Um espírito ingênuo e inconformado com o desfecho do caso José Dirceu pode ainda objetar: “Mas o que queriam que ele dissesse, depois de cassado?”

Ora, todos sabemos que as motivações para cassá-lo foram de natureza política e não pelo envolvimento moral com as trapalhadas delubianas e valerianas. Foi cassado um espectro de Dirceu, o velho Dirceu – que se presumia de esquerda – que foi banido do País junto com dezenas de revolucionários autênticos. A direita brasileira, os donos do Brasil, não se conformam que “aquela gente” hoje esteja no poder. Mesmo que “aquela gente” não seja mais a mesma ideologicamente, e a agenda econômica seja autenticamente neoliberal. A revista “Veja” estampa esse recalque azedo todas as semanas, em todas as suas páginas gravadas de letras e ódio de classe.

Então, o que o velho Dirceu deveria dizer na sua entrevista coletiva?

Estou sendo banido de uma instituição pré-republicana e que não representa a vontade soberana da população brasileira. Aqui nesse parlamento a democracia é uma simulação, onde prevalecem os interesses mais fisiológicos e mais atrasados.

Poderia citar Rousseau que, já no século 18, apontava a impotência do sistema representativo para dar voz à vontade popular. Poderia citar Perry Anderson, para quem o sistema representativo reduziu o cidadão à anêmica condição de consumidor diário e eleitor esporádico, e que tal cidadania é uma fraude e uma sonegação de direitos.

Poderia citar Gramsci e suas elaboradas considerações sobre o que ele acremente denominava de “cretinismo parlamentar” e as imposturas pseudodemocráticas do sistema representativo-parlamentar.

Poderia reclamar pela reforma político-eleitoral que o Congresso brasileiro malocou sabe-se lá em que ordem de prioridade, e ao implementá-lo, certamente, deve apresentar uma reedição das felpudas raposices parlamentares de sempre: um corpo representativo de deputados e senadores em si e para si, com as exceções de praxe (que no caso presente não somam cem parlamentares). Dizer, a plenos pulmões, que a esfera política é demasiadamente importante para ser conduzida por uma casta parlamentar tutelada pelos donos do capital. Dizer que o governo Lula ficou refém do fisiologismo dos congressistas por não ter encaminhado uma reforma político-eleitoral autêntica e que, neste sentido, é um avalista passivo da atual crise. Dirceu, finalmente, poderia citar o velho Dirceu, o dos “ideais audaciosos, dos altos sacrifícios, e dos impulsos heróicos”. Mas, pena, Dirceu não é mais Dirceu. Apareceu uma versão invertida do anjo torto de Drummond e disse-lhe:

“Vai, Dirceu, vai ser liberal na vida!”

E ele foi. No rosto, já sem a máscara revolucionária, estampou-se um sorriso resignado mas feliz. Aos 59 anos, finalmente, descobriu a sua verdadeira identidade.


Artigo de Cristóvão Feil, publicado em Dezembro de 2005, por ocasião da cassação do mandato parlamentar de José Dirceu.

sábado, 16 de novembro de 2013

Geraldo Pereira, um gigante do samba







O grande compositor e intérprete Geraldo Pereira morreu aos 37 anos, em 1955, depois de brigar com o famoso malandro e transformista Madame Satã, na Lapa, Rio.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Com uma oposição fuleira, só resta Dilma


O vazio político
Até agora, Dilma Rousseff deveria agradecer a Deus pelos concorrentes que se apresentam à Presidência da República. Para eles, as manifestações de junho, em larga medida, não existiram. Continuam construindo discursos e estabelecendo prioridades como se estivéssemos na década de 90, com seus arroubos liberais. Dessa forma, Dilma aparece como a candidatura mais à esquerda no páreo.

Quando a população foi às ruas em junho, ouvimos um conjunto de exigências que acabaram por se destacar. Certamente, ninguém saiu gritando slogans em defesa do sacrossanto tripé econômico: câmbio flutuante, superavit primário e meta inflacionária. Na verdade, o povo falou, com força, que queria priorizar um outro tripé, a saber, o social: transporte público de qualidade, educação pública "padrão Fifa" e saúde pública sem subfinanciamento.

Nesse sentido, não é por acaso que as mais recentes manifestações giram em torno do sucateamento da profissão de professor em escolas públicas.

O governo esboçou uma reação mínima ao requentar duas propostas que já circulavam: o programa Mais Médicos e a vinculação da renda do pré-sal à educação e à saúde. Em si, as propostas eram boas e mereciam ser implementadas, mesmo que a segunda não passasse de promessas em cima de lucros potenciais, que demorarão anos para entrar nos cofres da União. Uma estranha maneira de responder à urgência das ruas com promessas de longo prazo.

No entanto não se ouviu praticamente nada dos outros candidatos até agora no páreo.
Nenhuma proposta minimamente ousada sobre o fortalecimento dos serviços públicos e as modalidades de capitalização do Estado para tanto. Todos eles preferiram seguir o mesmo figurino e centrar seus discursos em tópicos como a diminuição do pretenso estatismo do governo, a reiteração do eterno mantra dos impostos altos e a criação de melhor ambiente para investimentos estrangeiros. Os mesmos que já apareceram em outras eleições e foram derrotados.

Era de esperar que alguém lembrasse, ao menos, dos nossos absurdos nacionais, como a ausência de uma fiscalidade que sirva de base de combate à desigualdade econômica e a inacreditável oligopolização de nossa economia atual.

Mesmo a respeito da reinvenção de uma democracia com forte densidade popular e menos mediações institucionais, outro tópico claramente posto pelas manifestações, não se ouviu, até agora, nenhuma proposta concreta. Dessa forma, cria-se um verdadeiro vazio político, que beneficia indiretamente quem está no governo.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O gaúcho Pateta, dos estudios Walt Disney



A partir de 1941, os estudios Disney se envolveram com o Departamento de Estado do Governo Roosevelt para fins de investida comercial na América do Sul. Os mercados europeus estavam fechados pela guerra, assim, os EUA precisavam de parceiros comerciais na própria América, bem como em fazer aliados e estreitar relações com os governos do Brasil e da Argentina, especialmente.

Disney foi usado para tais finalidades, por isso criou dois personagens para agradar os sulamericanos. Foram criados o Joe Carioca (Zé Carioca) e El Gaucho Goofy (Pateta Gaúcho), este já existia, mas foi redesenhado como um tipo cowboy dos pampas com a finalidade de fazer-se simpático ao povo argentino.

Como se vê, o uso político-comercial do gaucho (ou gaúcho) foi uma ideia anterior aos jovens estudantes do Colégio Júlio de Castilhos de Porto Alegre, quando, na década de 1950, resolveram dar um perfil mais definido ao “tipo ideal” (Weber) do Rio Grande do Sul.

Os jovens sulinos, representados basicamente por Paixão Cortes e Barbosa Lessa, estavam inventando uma tradição, como tantas outras que se criam mundo afora, à guisa de suporte de feitos heróicos para fins de coesão social, mitos políticos (comumente de direita, como Joana D'Arc na França) e mesmo meros produtos comerciais passíveis de virarem fetiches mercadológicos.

Vejam que a própria ideia já é de segunda mão, os rapazes do Julinho chegaram tarde ao mercado do gaucho. Disney chegou primeiro.
  

sábado, 5 de outubro de 2013

Edward Hopper e os preâmbulos do fim do mundo



Obras do pintor estadunidense Edward Hopper (1882-1967). Foi o pintor que soube colher no traço, na cor e na iluminação, com as quais compõem as suas obras, a forma humana da solidão, da incomunicabilidade, e do silêncio ao redor.

As figuras humanas de Hopper parece que sofrem um mal-estar suave, mas definitivo, irrecorrível e infinito. 

Ele brigou com os vanguardistas da pintura abstrata como Jackson Pollock ( 1912-1956), por exemplo, porque via nesta expressão artística uma forma de esconder a opressão humana de nosso tempo. Para Hopper, abstrato é o sentimento (a solidão, por exemplo), e não a sua arte pictórica. 

O tratamento que Hopper dá à luz é belo, único e intrigante, ele consegue imagens que quase sugerem o final dos tempos, a luz que precede a hecatombe, a luz que antecede ao cessar definitivo do sol. Arrisco a afirmar que Hopper é um pintor escatológico. 

Já a fotografia da grande Dorothea Langer (1895-1965), outra forma de expressão artística, vai também na mesma direção, agora estimulada pela Grande Depressão da década de 1930, nos Estados Unidos. A inspiração é a mesma, mas com linguagens técnicas distintas. 





Cesária Évora e Salif Keïta, juntos




E aqui abaixo, somente a voz de Salif Keïta, o cantor albino do Mali (África Ocidental)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A psiquiatrização da vida cotidiana e a velha moral conservadora


A moral psiquiátrica
Há alguns meses, as livrarias, enfim, receberam a última versão do "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)".

Ainda sem tradução em português, o "Manual" foi objeto de críticas virulentas vindas até mesmo de psiquiatras que trabalharam em versões anteriores dele, como Allen Frances. As acusações giravam em torno da verdadeira "psiquiatrização da vida cotidiana" que a profusão de categorias clínicas produzidas pela nova versão do "Manual" parece acarretar.

Longe de ser uma discussão que interessa apenas profissionais da área de saúde mental, a querela em torno do DSM-5 é uma questão social da mais alta importância, pois define como valores sociais travestidos de normalidade médica são naturalizados. Ela não pode ser esquecida.

Tomemos, a título de ilustração, um exemplo. Quem abrir a página 667 da versão inglesa do DSM-5 encontrará o peculiar "transtorno de personalidade histriônica".

Seus oito critérios diagnósticos, que definem se alguém tem ou não o referido transtorno, comportam as seguintes pérolas: sente-se desconfortável em situações nas quais não é o centro das atenções; tem comportamento inapropriadamente provocativo e sedutor; usa constantemente a aparência para chamar a atenção; é sugestionável; tem um estilo de fala excessivamente impressionista; tem expressões exageradas de sentimentos e considera as relações mais íntimas do que realmente são.

Talvez você pergunte se, afinal de contas, esses são critérios clínicos de definição de transtornos ou simplesmente critérios morais sobre comportamento, que tentam esconder sua verdadeira natureza.

Afinal, qual o marcador para definir "estilo de fala impressionista", "expressões exageradas de sentimentos", a não ser o que o assentimento social e seu psiquiatra entendem como tal? Mas, se este for o caso, não estaria o psiquiatra a dar lugar à figura do bom e velho educador?

De fato, não é difícil perceber como, nesses "critérios diagnósticos", encontram-se todos os clichês crassos sobre o comportamento feminino que assombravam a antiga categoria clínica de "histeria", com sua "feminilidade teatralizada": a verdadeira base para o dito transtorno de personalidade histriônica.

Alguém poderia imaginar que tais "personagens morais" a habitar o mais avançado tratado de psiquiatria, resultado de anos de trabalho árduo e caro, não são simples desvios de rota a serem expurgados nos próximos anos, mas sintomas que mostram a verdade de todo o projeto.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. 

domingo, 22 de setembro de 2013

Plenária RS dos Movimentos Sociais


Quinta-feira, 26 de setembro, 18h, em Porto Alegre, rua General Câmara, 424 - Sindicato dos Bancários.

Organizações de 19 estados brasileiros estiveram presentes na Plenária dos Movimentos Sociais, realizada de 14 a 15 de setembro, em São Paulo (SP). 

Com a participação do movimento negro, das pastorais sociais da Igreja Católica, da rede evangélica Fale, ao lado de CUT, MST, UNE, MAB, Marcha Mundial de Mulheres, Levante Popular da Juventude, entre outras entidades, partidos, movimentos populares e sindicais, a reunião firmou o compromisso e definiu as linhas para um Plebiscito Popular. 

Ao todo, cerca de 70 organizações sociais aprovam a convocatória ao povo para opinar sobre a necessidade de uma Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o sistema político brasileiro.

Ficou definido que o lançamento nacional do Plebiscito será em Brasília, no dia 15 de novembro de 2013 e o seu desfecho no ano de 2014, com a coleta de votos durante a Semana da Pátria, de 01 a 07 de setembro. É tempo suficiente para realizar um trabalho de conscientização em todo o país. “É fundamental o envolvimento da base das organizações que constroem essa aliança, para construir o plebiscito nacional por meio da construção de comitês”, afirma Raul Amorim, do MST.

Recentemente, a Carta Compromisso da Semana Social Brasileira (SSB), que declara apoio expresso à exigência de uma Constituinte Exclusiva, indica a potencialidade do tema e todos os setores sociais que se podem somar a mais esta luta.

“As manifestações de rua que acontecem no país desde junho deixam um alerta para a sociedade. Não é mais possível negar os direitos e a participação dos cidadãos/as invisibilizados/as”, avisa a Carta.

domingo, 15 de setembro de 2013

A Bienal do Mercosul. A bienal de um não-lugar




“Sem dúvida, o nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser.” 

(Ludwig Feuerbach in Prefácio da segunda edição de A essência do cristianismo).

Reflitamos um pouco sobre a Bienal do Mercosul, que ora se realiza em Porto Alegre. É um evento muito importante, por isso precisamos avaliar a sua expressão e significado; sem entrar em méritos formalistas ou conteudistas, e muito menos fazer juízo de gosto. 


Que mensagens nos traz? Millôr dizia que quem traz mensagens são os Correios, pois bem, que mensagens simbólicas (e essas os Correios jamais trarão) a 4ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul pode nos oferecer. Mercosul? 

É em Porto Alegre ou no Mercosul? E Mercosul é uma geografia, um nome próprio de lugar? Não seria Cone Sul? Mercosul, até onde se sabe, tem a ver com mercado, com trocas comerciais de mercadorias e serviços, etc. Então, o que artes visuais e cultura tem a ver com mercado, ou com o nosso desmilinguido Mercado Comum do Cone Sul, apelidado de Mercosul?

Muita coisa, muito mais do que se pensa ou adivinha. 

Para além de ser uma criação cultural, a arte é uma dimensão do pensamento do homem sobre si e sobre a natureza. Arte é, sobretudo, reflexão e expressão. Provoca, como diz Hegel, o “nosso juízo”, aguça o nosso sentido crítico, faz enxergar as contradições e até mesmo a essência das coisas, por trás das aparências. A arte é uma pedra de amolar a nossa intuição e a nossa percepção. Através da arte o nosso espírito faz malhação. 


Ficamos mais ativos (e menos passivos), mais agudos, mais negativistas (como antítese de positivista), mais afiados em face ao homem, à natureza, aos recortes da vida e à curva do tempo. 

Mas será que podemos generalizar? Isso não é histórico, vale em qualquer tempo e lugar? Existe genuinidade e autenticidade nisso tudo? Tudo que se autonomeia “arte” é efetivamente arte? Jean Baudrillard diz que vivemos em um tempo de simulacro e semantização. 


Vivemos um tempo de falsificação e disfarce; um tempo de mudança no significado das palavras, dos enunciados e discursos. O excesso de realidade dissolveu o real. O real é um espaço inútil, cassado de realidade. A realidade não é o real, é uma representação do real, cujo objetivo é a produção de verdades (a ideologia). As coisas engoliram seus espelhos. É a morte da ilusão, da imaginação e da criatividade. 

Vivemos sob o império da lei do valor – seu ídolo e novo Moloch, a mercadoria. O dinheiro é a mercadoria divinizada do mundo globalitário. O sujeito central é o dinheiro - “a vida do que está morto se movendo em si mesma”, no dizer de Hegel. 

Há mais de 50 anos, os estudos de Adorno-Horkheimer sobre o que eles denominaram indústria cultural já apontavam esse fenômeno da instrumentalização da obra de arte pela estrutura mercantil. O mercado – esse ente fantasmagórico, que desde o início do capitalismo tudo transforma, informa, desforma e conforma – adotou a obra de arte como mais um instrumento de realização da mercadoria. A arte esbatida em cálculo frio. A autonomia, condição da obra de arte genuína, perde-se nos desvãos heterônomos da imitação e do fingimento. 


Arte inautêntica, teu nome agora é kitsch, cuja função não é mais abrir portas fechadas, mas vagar errante por portas abertas. Sua espontaneidade e frescor estão corrompidos pela nova função social de valor de troca. Consome-se arte como se consome iogurte: com prazo de validade. É entretenimento e distração garantidos – ou o seu dinheiro de volta! Não é assim que os vendedores ambulantes operam o pregão? 

A revolução burguesa promoveu o desencantamento do mundo substituindo o mito pela razão e a magia pela ciência. E a arte, até então aprisionada na jaula de ferro das finalidades mitológicas e religiosas, conquista a sua emancipação. Infelizmente uma conquista que não foi definitiva e nem duradoura. Vê-se novamente submetida, agora a uma segunda servidão. O state of the art da arte contemporânea é a reificação rebaixada da mercadoria. 


Ao perder sua “aura” (W. Benjamin), se coisifica em objetos seriados, de moda e consumo. É de bom tom associar uma marca comercial, industrial ou financeira à arte e à cultura em geral. É o velho mecenato com roupa nova. Agora, numa situação invertida: outrora, o mecenas promovia a arte, patrocinando o artista; hoje, o mecenas instrumentaliza a “arte” para promover-se a si próprio e a seus produtos mercantis. A obra de arte é uma coisa lateral ao negócio em si. Assim, o mecenato reduz-se a um composto de marketing

Não raras vezes, recebe incentivos do Estado, através de renúncia ou diferimento fiscal. O Estado arbitra em socializar o custo do financiamento da cultura-arte-mercadoria entre todos os contribuintes, em nome de uma transcendência que não logra mais se realizar. A viagem da realização do capital tem mais paradas hoje do que nunca. Em cada uma dessas paradas, o capital transfigura tudo ao seu redor. 

Em novembro de 1967, Guy Debord já alertava que “a cultura tornada integralmente mercadoria deve se tornar mercadoria vedete da sociedade espetacular”; constatou, igualmente, que “a cultura deve desempenhar na segunda metade do século 20 o papel motor no desenvolvimento da economia, equivalente ao do automóvel na primeira metade e ao das ferrovias na segunda metade do século 19”. Para Debord, o “espetáculo” é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: “o mundo que se vê é o seu mundo”. 

Não se trata de defender a arte como função pedagógica, como quiseram Platão e Aristóteles, e muito menos de fazer proselitismo por uma perspectiva de arte engajada, como instrumento da revolução mundial, como quiseram os stalinistas, de resto, outro simulacro crivado de ideologia; mas da arte concebida como expressão alegórica e simbólica que parte do velho terreno do instituído para os novos horizontes do instituinte. E o agente dessa viagem ao mundo do novo, ao mundo do admirável, do terrível, do sublime e do espantoso é o artista, que no dizer de Kant é um “animal incomparável”. 


O artista autêntico é o visionário do novo e o tradutor do hoje. Seu trabalho de criação é o de transfigurar a realidade para termos acesso a ela. Como lembra Marilena Chaui, o artista “desequilibra o instituído e o estabelecido, descentra formas e palavras, retirando-as do contexto costumeiro para fazer-nos conhecê-las numa outra dimensão, instituinte ou criadora”. 

O artista é o inventor criativo de um outro mundo: o mundo das formas e dos volumes, das cores e das massas, dos sons e dos gestos, dos ritmos e das palavras. Esse outro mundo ilusório é o espelho traduzido em rude caligrafia do nosso mundo sensível. Um espelho por vezes quebrado, onde os infinitos fragmentos refletem os enigmas do nosso tempo. 

A Bienal de Porto Alegre (esse deveria ser o seu orgulhoso nome) é resultado das veleidades de uma instituição chamada Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, cuja direção toda ela é formada por empresários de diversos ramos de negócios do Sul. 


Não é por descuido que o presidente da Fundação seja um banqueiro; ainda que não seja um banqueiro “federal”, apenas um banqueiro “municipal”, como diria Drummond. De qualquer forma, é simbólico que um punhado de negociantes sejam os formuladores de uma exposição dessa natureza e calibre, e de que a denominem de um lugar utópico, um não-lugar, chamado Mercosul, e não Porto Alegre, o que seria mais justo e, sobretudo, mais poético. 

Visitando a exposição e verificando a capacidade expressiva dos seus artistas fica-se com uma sensação de hiato entre a exposição em si e seus proponentes da Fundação. Não há convergência, os caminhos acontecem em direções opostas. 

Quem sabe a próxima edição da Bienal já ocorra sem o atual nome kitsch, para não dizer “fake”; e que a Fundação Bienal deixe de ser um clube de milionários municipais para universalizar os seus conceitos culturais e artísticos e proceder a um aggiornamento dos seus estatutos. 

Afinal, a Bienal ainda não aprendeu nada com a Bienal? 

Artigo de Cristóvão Feil, sociólogo e editor do blog Diário Gauche. Este texto foi publicado originalmente no portal Carta Maior, em 24 de outubro de 2003. Pode-se medir o alegado caráter vanguardista da Bienal de Porto Alegre pelo fato de que um artigo - escrito há dez anos - ainda tenha validade e seja atual. 


A foto acima foi extraída do vídeo "Invenções Caseiras" que se encontra no portal da Nona Bienal do Mercosul. "Nona" tem a ver com vovó?

domingo, 8 de setembro de 2013

O Bob Dylan de Brejo da Cruz



Grande Zé Ramalho! "Knockin' on Heaven's Door" é um single de Bob Dylan, lançado na trilha sonora do filme Pat Garrett & Billy the Kid (1973). 

E que camisa bonita, essa do Zé! Camisa de antropófago: comedor de gente. O inglês do Zé fica situado em algum ponto entre Sir Laurence Olivier e Joel Santana. 

sábado, 7 de setembro de 2013

Quando o consumidor derrota o cidadão


Quando somente a violência faz sentido

Vivemos hoje num mundo em que nem mesmo o senso comum faz sentido. Essa assertiva é de Hannah Arendt, ainda da década de 1950, mas faz-se atual - cada vez mais - nos dias do terceiro milênio. O colapso do senso comum de nossos dias indica que a filosofia e a política acabaram tendo o mesmo destino: a crescente perda de relevância em favor da economia, da dinheirização da vida cotidiana e do consumo como instância principal das relações sociais, deslocando em definitivo a cidadania, a solidariedade, a própria política, enfim.

Na década de 1970, Florestan Fernandes (Sociedade de classes e subdesenvolvimento) já nos alertava sobre a disjuntiva entre desenvolvimento econômico e estabilidade política nos Estados nacionais. Essa disjuntiva nem sempre é evidente, ao contrário, está quase sempre mascarada ou à sombra do fluxo principal da vida social no capitalismo pós-concorrencial.

As mobilizações de massa ocorridas no Brasil, especialmente no último mês de junho, servem, pois, para tirar o véu escuro da luta de classes que surdamente insiste em mostrar a sua existência, mesmo que por fenômenos nem sempre legíveis e claros.

O lulismo ousou mexer com a então estagnada estrutura de classes sociais do País. Há segmentos e frações de classe que estavam aí desde o Brasil-Colônia, o Brasil escravocrata. Ilustrativo disso é a recentíssima - deste ano de 2013 - legislação de direitos às empregadas domésticas, uma ponta do século 18 que insistia ainda em vigir no século 21. Ainda assim, não foram poucos que protestaram contra esse abuso, muitas vezes alegando - cinicamente - que estavam protegendo os/as próprias beneficiários dos novos direitos.

Eis, pois, um enclave mental francamente escravagista impregnado na cabeça de ditos modernos e descolados. Isso nos mostra que não podemos esquecer que o capitalismo, para além dos mercados, é antes de tudo, um produtor de fetiches, ideologias, mitos e representações da verdade. A ganga bruta deste minério ideológico é o senso comum, essa verdade pedestre que vagueia pelas ruas e coloniza as pessoas com certezas absolutizantes e definitivas, mas que raramente duram trinta dias. Pois, mesmo o senso comum já está desgastado e sem sentido, como afirma Arendt.

Se o espírito do homem comum já não pode mais confiar nem no senso comum, em quê pode confiar? Se a cidadania há muito foi interditada pelo desgaste continuado da política, em quem confiar? Ora, o homem enxotado do acolhimento cidadão, tem encontrado abrigo - ainda que falso e provisório - no seio cálido do consumo para todas as classes de renda. O consumismo é a sequência lógica da disputa entre o setor público versus setor privado, incentivado pela propaganda da ideologia neoliberal nos últimos 30 anos.

É aí que queremos chegar, neste brevíssimo artigo. As grandes mobilizações urbanas no Brasil de 2013 está mais informada pelo consumo do que pela cidadania. Os requerimentos das massas urbanas (tão fragmentadas quanto a soma das distintas tribos que a compõe) têm a aparência e um fraco aroma das categorias políticas, mas se comportam como desejo de consumo de um rol de necessidades por inovação autorreferente e até narcísica. Aí está uma vitória da propaganda neoliberal em nosso meio, onde se verifica um hibridismo entre as mobilizações típicas de históricas conjunturas anticapitalistas, mas com ingredientes próprios do seu contrário: a ideologia neoliberal materializada em formatos da ordem hegemônica do último capitalismo.

Aqui, é de dar razão ao sociólogo Wolfgang Streeck quando ele afirma que as manifestações políticas de massa hoje estão reduzindo a política ao entretenimento. Em junho, ouvi uma mãe perguntar ao filho adolescente qual inscrição havia no cartaz que ele portava na passeata do qual participara, ao que o filho respondeu, com ar ingênuo, mas eufórico: "Não sei o que estava escrito, mãe!"

Entre um videogame e outro, manifestação de rua como pura diversão, ou nova esfera de sociabilidade efêmera e sem compromissos de qualquer ordem. Veja que não há discurso, não há carro-de-som, não há panfleto (o grande meio de comunicação do discurso político, protorrevolucionário, desde o século 19), não há palavra. Aristóteles definia o homem como um ser politico, dotado de fala, portador de um discurso simbólico.

Essa definição vale para o cidadão, mas não vale para o consumidor - esse novo homem unidimensional que emerge da promessa neoliberal sem passado e sem futuro, pulsando num tempo mítico, eterno presente autorreferenciado, nulo de humanidade e sentido - como os animais.

Assim e agora, só a violência se impõe e faz sentido, trazendo nexo à existência.

Artigo de Cristóvão Feil, sociólogo, texto publicado originalmente na edição de setembro/2013 do Jornalismo B (em papel).


terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Ministério da Cultura confirma a indistinção geral entre arte, entretenimento e mercadoria



O preço da cultura

Diante da repercussão a respeito da decisão de permitir que estilistas financiassem desfiles de moda por meio da Lei Rouanet, o Ministério da Cultura procurou se defender.

Usando um raciocínio eminentemente estratégico, em que as palavras de ordem são a importância econômica da cultura e seu papel na ampliação do poder do Brasil no jogo internacional, o MinC acabou por demonstrar a rendição final da política cultural brasileira aos argumentos do mais crasso economicismo.

Primeiro, ninguém discute que, de uma certa forma, moda é cultura, assim como telenovelas, futebol e práticas sexuais. Todos são modos de produção simbólica de valores.

Uma definição, porém, tão genérica de cultura não tem função alguma para a construção de políticas focadas de Estado. Muito menos a alegada definição de que aquilo que colabora para a internacionalização do Brasil e a divulgação de sua simbologia deve ser financiado. Pelo argumento, a TV Globo pode pedir isenção fiscal para as suas próximas telenovelas.

Como não podia deixar de ser, é no campo da cultura que se vê, de forma mais brutal, a deposição de toda e qualquer aspiração crítica e contestadora de certa esquerda brasileira. Fala-se em "quebra de paradigma", mas o Ministério da Cultura apenas implementa o paradigma, cada vez mais hegemônico, de indistinção geral entre arte, entretenimento e mercadoria.

Afinal, há de chamar de "gato" um gato. Estilistas são, acima de tudo, comerciantes donos de loja que organizam sua produção a partir da sensibilidade às demandas de mercado e a exigências de máxima rentabilização de seu capital. Mas grupos de teatro não são empresas, escritores não são comerciantes e um quadro não é uma mercadoria, mesmo que tenha um preço.

As políticas culturais foram criadas exatamente para garantir autonomia para a produção artística contra sua colonização pela lógica mercantil, contra sua restrição à condição de mero entretenimento "cool", além de pensar formas de impedir a consolidação de práticas de dirigismo cultural.

Contudo, para que algo dessa natureza fosse possível, estruturas como a Lei Rouanet deveriam ser radicalmente modificadas. 

Um bilhão e duzentos mil reais foram perdidos pelo Estado para que empresas fizessem políticas de marketing às custas do erário, financiando, principalmente, musicais, Oktoberfest, festas gastronômicas, atividades da torcida do Palmeiras e, agora, desfiles de moda.

Pergunte, no entanto, quanto desse dinheiro foi direcionado à construção de conservatórios de música, bibliotecas ou em auxílio a saraus literários na periferia

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A estética da demagogia



Este vídeo-clipe é - formalmente - muito bonito. Colocar criança no centro de qualquer imagem sempre resulta bonito e tocante, por isso é demagógico. O sujeito não erra jamais. É como usar pôr do sol na fotografia. Fica óbvio, embora belo. Ninguém erra quando enquadra criança na estética da imagem. Ninguém erra quando enquadra pôr do sol (ou alvorada, o que dá no mesmo) na estética da imagem.

Já o cantor e compositor israelense Asaf Avidan persegue uma estética musical igualmente fácil: ele fica em algum lugar próximo a Janis Joplin, Robert Plant e o igualmente judeu Bob Dylan. Tem talento, mas poderia se afastar destes três ícones do mundo pop-rock.

Ganhará ele, e ganharemos nós, quando ele se distanciar dessa estética da demagogia.

É um vídeo-clipe bonito? Sim, mas prefiro o belo que ousa, que arrisca, que inova e rompe o véu tênue do experimentado.

Sim, uma outra medicina é possível: o grande medo do Conselho Federal de Medicina



O Conselho Federal de Medicina (e suas filiadas regionais) são entidades colonizadas por dois senhores: os grandes laboratórios farmacêuticos internacionais e os planos de saúde parasitários e inúteis.

Essa corporações médicas, assim como as escolas de medicina das Universidades brasileiras estão orientadas por uma lógica de mercado, onde ganhar dinheiro a qualquer custo é lícito, elogioso e uma meta a ser perseguida.

O programa "Mais Médicos" do governo Dilma provoca tanto ódio de classe no meio médico porque representa uma alternativa à medicina de mercado predominante hoje no Brasil. O "Mais Médicos" afirma que uma outra medicina é possível. Uma medicina preventiva e comunitária, que pode representar o fim do receituário irresponsável de ministrar drogas e medicamentos de forma indiscriminada e a esmo, com o exclusivo intuito comercial de aumentar o faturamento dos grandes laboratórios fabricantes de remédios que nada curam.

E os planos de saúde, que contribuição dão para qualificar a saúde do povo brasileiro? Como sabemos, a contribuição é nula.

Os planos de saúde - muitas vezes, arapucas para enganar incautos e desesperados - não estimulam a medicina preventiva. Ao contrário, fazem dos pacientes contribuintes passivos de uma ciranda que enriquece poucos e traz prejuízos financeiros e humanitários para milhões de brasileiros desassistidos e carentes de serviços de saúde.

No ano de 2012, os planos de saúde - são mais de 1.500 planos no Brasil - recolheram cerca de 95 bilhões de reais dos brasileiros. Esse dinheiro - todos sabemos - vai para os bolsos de alguns poucos espertalhões que não tem o menor compromisso com a qualificação da saúde pública do Brasil. É essa gente que combate o programa "Mais Médicos", que controla a corporação médica no País inteiro, que mobiliza médicos e médicas ignorantes (e racistas) para vaiar e insultar os médicos estrangeiros (foto abaixo) que irão tratar das populações dos rincões mais distantes do Brasil.

O governo Dilma está propondo um outro tipo de exercício da medicina no Brasil. Com isso, o campo da saúde e da medicina passa a ser disputado por uma alternativa real aos valores egoísticos daqueles que entendem a saúde como um mero mercado para ganhar dinheiro e enriquecer alguns oportunistas e negocistas.

A direita brasileira e os jogadores do mercado de saúde não admitem é isso: que o campo onde eles eram hegemônicos seja disputado por uma medicina humanitária, preventiva e comunitária.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

“A riqueza desmistificada” - o livro




A posse da riqueza substantiva não apenas garante rendas excepcionais mas também viabiliza privilégios indevidos, impunidade e poder desmedido.

É extremamente difícil obter informações precisas sobre a composição das classes abastadas e sobre as formas pelas quais elas asseguraram a apropriação material da riqueza e a hegemonia política.

A mitificação da riqueza leva a santificar seus detentores, considerados pela opinião pública como superiores, impolutos, inquestionavelmente merecedores de suas rendas e patrimônios.

Como totem e tabu, a riqueza possui dimensões arcanas. Arcano, neste caso, não remete a sentidos místicos ou esotéricos. Etimologicamente, arcano é sinônimo de misterioso ou enigmático, de algo importante conhecido ou compreendido por poucos.

Este livro busca contribuir para a superação da mitificação ideológica que sacraliza pseudoelites, revelando os sofismas que legitimam a riqueza. Demonstrar as práticas dos agentes que operam contra o bem comum é um requisito para a construção de uma sociedade justa, verdadeiramente livre e fraterna.


Trecho da apresentação do livro de Antonio David Cattani, “A riqueza desmistificada”.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Consulta pública sobre "reforma política" e prioridades do orçamento RS



Nos dias 6 e 7 de agosto (terça e quarta-feira) ocorrerá a votação da Participação Popular para a construção da peça orçamentária de 2014 do Estado do Rio Grande do Sul. 

Neste ano, além da priorização de projetos por região, também haverá uma consulta pública sobre um tema geral: Reforma Política. Haverá votação em urna física e pela internet.

Mais informações, acesse aqui: http://www.participa.rs.gov.br/

Condenação, sem julgamento


sábado, 3 de agosto de 2013

Valdir Verona e Rafael De Boni, viola e acordeão



Dois queras macanudos de Caxias do Sul (RS).

Helena Meirelles, a viola pantaneira




Em 1993, foi eleita pela revista estadunidense Guitar Player (com voto de Eric Clapton), como uma das cem melhores instrumentistas do mundo, por sua atuação nas violas de seis, oito, dez e doze cordas. Morreu em 2005, aos 81 anos. 

No vídeo, a partir do minuto 4:48, Helena dá um depoimento sobre parte pitoresca (e cruel) de sua vida de tocadora de viola em casas noturnas do Mato Grosso. 

sábado, 27 de julho de 2013

Nosso formulismo político-eleitoral é baseado em um sistema-pântano


A privatização do parlamento brasileiro


O parlamento brasileiro não é republicano. Para ser republicano deveria deixar de ser privativo das classes proprietárias. 

O meio milhar de parlamentares de Brasília estão a serviço de um mosaico de interesses econômicos. Apenas menos de cem têm alguma preocupação com o chamado interesse público, fundado em matriz republicana. Esse dado indesmentível é a usina dos sucessivos escândalos que abalam o País. Acrescido do fato de o Poder Executivo ser refém desses interesses particularistas. 

Na raiz disso está um formulismo eleitoral que desmembra a maioria conquistada na votação majoritária daquela votação pulverizada obtida na escolha proporcional de deputados. 

A chamada governabilidade é fruto bichado que resulta do aliciamento de votos junto aos deputados mais sensíveis à força das prebendas e dos mimos. Tudo fica rebaixado ao nível das sarjetas. A República é apenas um nome, o que conta é a veniaga.

A agudização da crise política, para além da tarefa de separar o justo do meliante, deve apontar as saídas que superem esse quadro histórico de conseqüências degradantes.


Mais que o petismo, o lulismo, que empalmou nominalmente o poder em 2003, paga o preço por ter seguido os passos malditos da tradição brasileira. Não quis ousar fazer a reforma político-eleitoral por comodismo ou por conveniência de alguns quadros e dirigentes (e intelectuais orgânicos dessa condução deletéria) que já eram estranhos às bandeiras do partido. Preferiram a adesão incondicional ao sistema-pântano. 

Darwin ensinou que as espécies sempre procuram buscar o seu habitat de origem; podem até migrar, mas um dia voltam para casa. O modelo de alianças adotado para garantir a “governabilidade” reforça a tese de que ninguém contraria a sua natureza, a sua pulsão vital. Não há força racionalista que seja capaz de impedir o impulso primitivo de certos indivíduos.

Thomas Hobbes, no século 17, entendeu que o Estado seria essa força de coerção do “estado de natureza” de indivíduos e grupos. Mas, e quando o Estado está anômico, desprovido de instrumentos e regramentos que coibam a ação continuada dos malfeitores sociais? Ora, há que dotá-lo desses aparatos, sob pena de graves responsabilidades históricas recairem sobre os condutores do Estado, marcando-os com as tintas do esquecimento e do desprezo popular. 


A reforma política

A conjuntura crítica que vivemos hoje no Brasil aponta a necessidade de uma reforma político-eleitoral urgente. O modelo político-eleitoral-partidário brasileiro está esgotado, incapacitado para dar frutos sãos, só aberrações e deformidades. A forte influência do poder econômico corrompe as regras do jogo, onde a democracia formal transfigurada é uma caricatura de si própria. A representação pública deixa de ser popular e pública para ser a representação de setores e lobbies de interesses econômico-financeiros, num processo de crescente privatização de blocos inteiros do parlamento brasileiro.
No quadro atual, o presidente da República, embora tenha logrado conseguir cerca de 62% dos votos dos eleitores e, portanto, reunindo numericamente soberania e legitimidade suficiente para desenvolver e implementar seu projeto político, na prática está refém daqueles parlamentares privatizados. 


Como superar isso? Com uma reforma política, com as seguintes modificações:

Voto em lista pré-ordenada

Partidos ou federações de partidos apresentam uma lista de candidatos, do presidente da República a senadores e deputados. A lista mais votada elege o presidente e tantas cadeiras no parlamento quanto for o percentual alcançado nas urnas. Se esse sistema eleitoral estivesse vigorando em 2002, o candidato Lula, que então alcançou 62% das preferencias de voto, teria no Congresso 62% de deputados e senadores relativamente ao total de vagas existentes. Estaria, portanto, em tese, assegurado ao Executivo os votos necessários à aprovação democrática dos seus projetos de governo. A lista de candidatos proporcionais seria pré-ordenada, conforme disputa democrática interna nas convenções partidárias, e os critérios de preenchimento dos lugares na lista seria de livre deliberação do partido e seus militantes, ou da federação partidária do qual ele faça parte. 


Financiamento público de campanhas

Financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais. Estima-se o valor de sete reais por eleitor o custo para o orçamento público de campanhas eleitorais, num total de 900 milhões para um pleito nacional como o do ano de 2002. A estimativa do custo total da campanha de 2002, somando os gastos de todos os partidos em todos os Estados da Federação, foi ao redor de 9 bilhões de reais. Nessas alturas astronômicos voam somente os pássaros agourentos da corrupção e da privatização de mandatos parlamentares. 


Auditoria de campanhas

Auditoria pública durante a campanha eleitoral para verificação de balanço e caixa dos partidos. As campanhas seriam auditadas pela Justiça Eleitoral (e outras instituições públicas de apoio) 90 dias antes do pleito, 60 dias antes do pleito, e 30 dias antes do dia da votação geral. As prestações de contas depois do pleito seriam feitas até o trigésimo dia do mesmo, com auditagem geral de todo o processo eleitoral e divulgação na internet dos resultados parciais e totais.


Outras medidas podem ser acrescentadas a esse alinhavo mínimo. Lula, no seu discurso de posse, em janeiro de 2003, falou sobre a necessidade de uma reforma político-eleitoral. Não moveu uma palha para fazê-la, sucumbiu aos desígnios dos acontecimentos que estão lhe abreviando a passagem pela vida pública. 


Com ou sem Lula, o Brasil precisa de uma República suficientemente forte para resistir aos ataques de bárbaros e malfeitores. Em Brasília, os primeiros aromas de orégano já prenunciam um grande acordo para acomodar parlamentares faltosos de todos os grandes partidos. Poucos são os apontados e muitos serão os impunes. E somente uma autêntica reforma político-eleitoral pode apontar para horizontes menos sombrios. 

Artigo de Cristóvão Feil, publicado originalmente no portal Carta Maior, no dia 29 de agosto de 2005. Como se pode ver, continua muito atual, depois de quase oito anos.  

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