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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

É lenta a reconstrução da esfera política



A década do desencanto

Cada época tem um afeto que lhe caracteriza.

Nos anos noventa, ele foi a euforia: marca de um mundo supostamente sem fronteiras, pós-ideológico e animado pelas promessas da globalização capitalista. Na primeira década do século 21 os ataques terroristas aos EUA conseguiram transformar o medo em afeto central da vida social. O discurso político reduziu-se a pregações, cada vez mais paranoicas, sobre segurança, perda de identidade e fim necessário da solidariedade social.

No entanto, 2011 começou com uma mudança fundamental na dimensão afetiva. Pois novos laços sociais paulatinamente apareceram levando em conta a força produtiva do desencanto. Este é um dado novo. Desde o final dos anos 70, as sociedades capitalistas não tinham mais o direito de acreditar na produtividade do desencanto. Fomos ensinados a ver, no desencanto, um afeto exclusivamente ligado aos fracassados, depressivos e ressentidos; nunca aos produtores de novas formas.

Em "Suave é a Noite", Scott Fitzgerald apresenta um de seus personagens dizendo que sua segurança intacta era a marca de sua incompletude. Tal personagem nunca sentira a quebra de suas certezas, a desarticulação de seus valores, por isto ele continuava incompleto. Ele não tinha o desencanto necessário para explorar, sem medo, a plasticidade do novo.

Os novos personagens que entraram em cena na política mundial a partir deste ano não têm esse problema. Aqueles que transformaram 2011 no ano das revoltas sabem que todo verdadeiro movimento sempre começa com a mesma frase: "Não acreditamos mais". Não acreditamos mais em suas promessas de desenvolvimento social, de resolução de conflitos dentro dos limites da democracia parlamentar, de consumo para todos. Sempre demora para que tal frase se transforme em um: "Agora sabemos o que queremos". Tal demora é o tempo que o desencanto exige para maturar sua produtividade. Como sempre, essa maturação chegará quando menos esperarmos.

Mas todo acontecimento vem sempre acompanhado de um contra-acontecimento. Se o grande acontecimento de 2011 foi essa nova economia afetiva no campo político, o grande contra-acontecimento ocorreu na Grécia e na Itália: a expulsão dos políticos do centro de decisão em prol de meros estafetas do sistema financeiro.

Como se, de um lado, tivéssemos em marcha a dinâmica de reconstrução do político. De outro, sua anulação completa através da falácia gerencial de empregados do Goldman Sachs travestidos de primeiros-ministros. Estas são as duas vias às quais a década que agora nasce será confrontada.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Publicado hoje na Folha.  

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Brasil supera a Inglaterra: já somos a sexta economia


O Brasil superou o Reino Unido e ocupa agora o posto de sexta maior economia do mundo, reportou o jornal britânico The Guardian, citando uma equipe de economistas. A crise bancária de 2008 e a subsequente recessão deixou o Reino Unido no sétimo lugar em 2011, atrás da maior economia da América do Sul, que cresceu rapidamente no rastro das exportações para a China e Extremo Oriente.
"O Brasil tem batido os países europeus no futebol por um longo tempo, mas batê-los em economia é um fenômeno novo. Nossa tabela de classificação econômica mundial mostra como o mapa econômico está mudando, com os países asiáticos e as economias produtoras de commodities subindo para a liga, enquanto nós, na Europa, recuamos", afirmou o chefe-executivo do Centro de Pesquisa para Economia e Negócios (CEBR, em inglês) do Reino Unido, Douglas McWilliams, segundo o jornal.
O CEBR prevê que a Rússia e a Índia deverão se beneficiar de um aumento do crescimento durante os próximos 10 anos, levando a economia do Reino Unido a cair para a oitava posição. O órgão também estima que a economia francesa recuará num ritmo ainda mais rápido que a do Reino Unido, ficando com o nono lugar entre as maiores economias do mundo. Segundo o órgão, a Alemanha também declinará para a sétima colocação em 2020.
A União Europeia continuará a ser o maior bloco comercial coletivo do mundo, embora uma recessão deva atingir o crescimento mundial no próximo ano, prevê o CEBR. Segundo o The Guardian, previsões recentes do centro apontam que o crescimento mundial recuará para 2,5% em 2012, uma revisão em baixa da previsão feita em setembro. O centro alertou, no entanto, que em um cenário envolvendo "a saída de um ou mais países da zona do euro, defaults soberanos e falência e resgate de bancos poderá provocar uma desaceleração ainda maior do crescimento da economia mundial em 2012, para 1,1%.
Já as economias emergentes, que viram seus mercados acionários despencarem nos últimos meses, à medida que os investidores avaliavam as consequências da crise do euro, vão recuperar a sua dinâmica, projeta o CEBR. Segundo o centro, a economia brasileira deverá crescer 2,5% em 2012, após avançar 2,8% neste ano. A China terá expansão de 7,6%, a Índia, de 6%, e a Rússia, de 2,8%.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Bimbalham os badalos da cristandade!



Uma criação do Terry Gilliam (ex-Monty Python), no seu velho e original ofício de animador surreal da vidinha pequeno-burguesa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

No Te Va Gustar



NTVG é uma banda uruguaia: da murga ao rock.

Talvez o último artigo do professor Vladimir, na Folha



O inimigo da moral

O maior inimigo da moralidade não é a imoralidade, mas a parcialidade.

O primeiro atributo dos julgamentos morais é a universalidade. Pois espera-se de tais julgamentos que sejam simétricos, que tratem casos semelhantes de forma equivalente. Quando tal simetria se quebra, então os gritos moralizadores começam a soar como astúcia estratégica submetida à lógica do "para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei".

Devemos ter isso em mente quando a questão é pensar as relações entre moral e política no Brasil. Muitas vezes, a imprensa desempenhou um papel importante na revelação de práticas de corrupção arraigadas em vários estratos dos governos. No entanto houve momentos em que seu silêncio foi inaceitável.

Por exemplo, no auge do dito caso do mensalão, descobriu-se que o esquema de corrupção que gerou o escândalo fora montado pelo presidente do maior partido de oposição. Esquema criado não só para financiar sua campanha como senador mas (como o próprio afirmou em entrevista à Folha) também para arrecadar fundos para a campanha presidencial de seu candidato.

Em qualquer lugar do mundo, uma informação dessa natureza seria uma notícia espetacular. No Brasil, alguns importantes veículos da imprensa simplesmente omitiram essa informação a seus leitores durante meses.

Outro exemplo ilustrativo acontece com o metrô de São Paulo. Não bastasse ser uma obra construída a passos inacreditavelmente lentos, marcada por adiamentos reiterados, com direito a acidentes mortais resultantes de parcerias público-privadas lesivas aos interesses públicos, temos um histórico de denúncias de corrupção (caso Alstom), licitações forjadas e afastamento de seu presidente pela Justiça, que justificariam que nossos melhores jornalistas investigativos se voltassem ao subsolo de São Paulo.

Agora volta a discussão sobre o processo de privatização do governo FHC. Na época, as denúncias de malversações se avolumaram, algumas apresentadas por esta Folha. Mas vimos um festival de "engavetamento" de pedidos de investigação pela Procuradoria-Geral da União, assim como CPIs abortadas por manobras regimentais ou sufocadas em seu nascedouro. Ou seja, nada foi, de fato, investigado.

O povo brasileiro tem o direito de saber o que realmente aconteceu na venda de algumas de suas empresas mais importantes. Não é mais possível vermos essa situação na qual uma exigência de investigação concreta de corrupção é imediatamente vista por alguns como expressão de interesses partidários. O Brasil será melhor quando o ímpeto investigativo atingir a todos de maneira simétrica.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Publicado hoje na Folha.  

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O automóvel é o grande vilão do desenvolvimento sustentável



Mobilidade versus carrocentrismo

Ampliar espaços de circulação para automóveis individuais é enxugar gelo, como já bem perceberam os responsáveis pelas mais dinâmicas cidades

Automóveis individuais e combustíveis fósseis são as marcas mais emblemáticas da cultura, da sociedade e da economia do século 20.

A conquista da mobilidade é um ganho extraordinário, e sua influência exprime-se no próprio desenho das cidades. Entre 1950 e 1960, nada menos que 20 milhões de pessoas passaram a viver nos subúrbios norte-americanos, movendo-se diariamente para o trabalho em carros particulares. Há hoje mais de 1 bilhão de veículos motorizados. Seiscentos milhões são automóveis.

A produção global é de 70 milhões de unidades anuais e tende a crescer. Uma grande empresa petrolífera afirma em suas peças publicitárias: precisamos nos preparar, em 2020, para um mundo com mais de 2 bilhões de veículos.

O realismo dessa previsão não a faz menos sinistra. O automóvel particular, ícone da mobilidade durante dois terços do século 20, tornou-se hoje o seu avesso.

O desenvolvimento sustentável exige uma ação firme para evitar o horizonte sombrio do trânsito paralisado por três razões básicas.

Em primeiro lugar, o automóvel individual com base no motor a combustão interna é de uma ineficiência impressionante. Ele pesa 20 vezes a carga que transporta, ocupa um espaço imenso e seu motor desperdiça entre 65% e 80% da energia que consome.

É a unidade entre duas eras em extinção: a do petróleo e a do ferro. Pior: a inovação que domina o setor até hoje consiste muito mais em aumentar a potência, a velocidade e o peso dos carros do que em reduzir seu consumo de combustíveis.

Em 1990, um automóvel fazia de zero a cem quilômetros em 14,5 segundos, em média. Hoje, leva nove segundos; em alguns casos, quatro.

O consumo só diminuiu ali onde os governos impuseram metas nesta direção: na Europa e no Japão.

Foi preciso esperar a crise de 2008 para que essas metas, pela primeira vez, chegassem aos EUA. Deborah Gordon e Daniel Sperling, em "Two Billion Cars" (Oxford University Press), mostram que se trata de um dos menos inovadores segmentos da indústria contemporânea: inova no que não interessa (velocidade, potência e peso) e resiste ao que é necessário (economia de combustíveis e de materiais).

Em segundo lugar, o planejamento urbano acaba sendo norteado pela monocultura carrocentrista. Ampliar os espaços de circulação dos automóveis individuais é enxugar gelo, como já perceberam os responsáveis pelas mais dinâmicas cidades contemporâneas.

A consequência é que qualquer estratégia de crescimento econômico apoiada na instalação de mais e mais fábricas de automóveis e na expectativa de que se abram avenidas tentando dar-lhes fluidez é incompatível com cidades humanizadas e com uma economia sustentável. É acelerar em direção ao uso privado do espaço público, rumo certo, talvez, para o crescimento, mas não para o bem-estar.

Não se trata - terceiro ponto - de suprimir o automóvel individual, e sim de estimular a massificação de seu uso partilhado. Oferecer de maneira ágil e barata carros para quem não quer ter carro já é um negócio próspero em diversos países desenvolvidos, e os meios da economia da informação em rede permitem que este seja um caminho para dissociar a mobilidade da propriedade de um veículo individual.

Eficiência no uso de materiais e de energia, oferta real de alternativas de locomoção e estímulo ao uso partilhado do que até aqui foi estritamente individual são os caminhos para sustentabilidade nos transportes. A distância com relação às prioridades dos setores público e privado no Brasil não poderia ser maior.

Artigo de Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da FEA, do Instituto de Relações Internacionais da USP e pesquisador do CNPq e da Fapesp. Publicado hoje na Folha

Ipea lança quatro livros sobre Comunicação



O Ipea e a Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom), com a participação da EdUFRJ, EdUFAL, EdiPUCRS, lançaram os livros Nelson Werneck Sodré, um perfil intelectual, escrito pela antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros (Maceió/Rio de Janeiro, EdUFAL e EdUERJ, 2011), Brasil Democrático: Comunicação e Desenvolvimento (Brasília, Ipea, 2011), de autoria do professor José Marques de Melo. Este último, resultado da parceria do Instituto e da Socicom, foi apresentado também na 2ª Conferência do Desenvolvimento do Ipea, em Brasília, como parte do debate realizado em novembro com 11 entidades de pós-graduação sobre Comnicação e desenvolvimento.

No lançamento no Rio de Janeiro, também foi apresentada a coletânea organizada por José Marques de Melo e Sônia Jaconi - Luitgarde, uma voz dos silenciados (São Paulo, Intercom, 2011), além da nova edição do clássico História da Imprensa no Brasil (São Paulo e Porto Alegre, 2011), publicada pela Intercom, em parceria com a EdiPUCRS.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Ocidente no seu labirinto


Valores ocidentais

Quando o discurso político alcança seu nível mais raso, os "valores ocidentais" aparecem. Normalmente, eles são utilizados para expor "aquilo pelo qual lutamos", aquilo que pretensamente faria a diferença e a superioridade moral de nossa forma de vida - esta que encontraria sua melhor realização no interior das sociedades democráticas liberais.

Nesse sentido, mesmo quando criticamos nossas sociedades ocidentais, não seríamos capazes de sair do horizonte normativo que define o conjunto de seus valores.

Pois se, por exemplo, criticamos a falta de liberdade e a injustiça social, seria sempre em nome de valores que ainda não se realizaram, mas a respeito dos quais nós, ocidentais, saberíamos, de antemão, seu sentido.

Para aqueles que impostam a voz na hora de falar em nome dos valores ocidentais, não há conflitos a respeito do que liberdade, justiça e autonomia significam.

Não passa pela cabeça deles que talvez estejamos diante de palavras que não têm conteúdo normativo específico, mas são algo como significantes vazios, disputados por interpretações divergentes próprias a uma sociedade marcada por antagonismos fundamentais.

Por isso, se há algo que determina o que há de mais importante na tradição ocidental é exatamente a ideia de que não temos clareza a respeito do que nossos valores significam. 


Pois o que nos leva a criticar aspectos fundamentais de nossa sociedade não é um deficit a propósito da realização de valores, mas um sentimento que Freud bem definiu como mal-estar, ou seja, um sofrimento indefinido que nos lembra a fragilidade de toda normatividade social extremamente prescritiva.

Isso talvez nos explique por que os gregos, estes que teriam inventado a democracia ocidental com seus valores, na verdade, legaram-nos apenas um valor fundamental: a suspeita de si.

Uma suspeita que se manifesta por meio da exigência de saber acolher o que nos é estranho, o que não porta mais nossa imagem, o que não tem mais a figura de nossa humanidade.

Quem leu as tragédias de Sófocles sabe como sua questão fundamental é o que ocorre quando a pólis não sabe mais acolher o que ainda não tem lugar no interior de nossas formas de vida.

Por outro lado, quando Ulisses, o herói de Homero, perdia-se em sua errância sem fim, suas palavras para os habitantes de outras terras eram sempre a exigência de abrigar o estrangeiro.

Por isso, o melhor que temos a fazer diante dos que sempre pregam os valores ocidentais é lembrá-los das palavras de Nietzsche: "Muitas vezes, é necessário saber se perder para poder encontrar-se".

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Publicado hoje na Folha

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Terra: no limite do 'habitável'

A dimensão política da doença, segundo Canguilhem


Saúde e doença

Depois de anos no ostracismo, a obra de um dos mais originais filósofos do século 20 começa a ser publicada de maneira integral. Para além do circuito restrito de especialistas em filosofia da biologia e da medicina, poucos conhecem Georges Canguilhem (1904-95).

Mas a publicação de suas "Obras Completas" tem a força de revelar um pensador original capaz de renovar problemas clássicos da filosofia, como a relação entre natureza e liberdade, bem como questionar ideias clínicas e médicas que pareciam independentes de toda e qualquer filosofia.

Numa era como a nossa, noções como saúde, doença e sofrimento psíquico têm também uma dimensão política. Não apenas porque servem para justificar modelos de intervenção social, mas porque expõem o que entendemos por uma vida bem-sucedida, com seus valores.

Não sofremos só por termos algum tipo de deficit ou excesso em relação a variáveis fisiológicas. Sofremos por não conseguirmos realizar valores e normas sociais que compreendemos como necessárias para nossa autorrealização.

Nesse sentido, o pensamento de Canguilhem é profícuo por fornecer uma visão renovada sobre o que significa saúde e doença. Normalmente, acreditamos que um organismo doente é mal adaptado, incapaz de se relacionar com seu meio. Ou seja, a saúde aparece como um modo de adaptação às determinações normativas do ambiente. 

Versões de tal noção foram exaustivamente usadas por várias escolas de psicologia.

Canguilhem fornece uma ideia nova. Na verdade, um organismo doente é aquele completamente adaptado a seu meio. Por isso, ele não suporta nenhuma modificação, ele a vivencia necessariamente como catástrofe. 

Na defesa de sua rigidez e fixidez, erguem-se fronteiras e limites que não podem, em momento algum, ser transpostos.

Já uma vida saudável é aquela não completamente adaptada, por isso, mais flexível e capaz de relacionar-se às mudanças. Ela é capaz de acolher o que ainda desconhece, produzindo novas normas e valores que, mostrando-se mais produtivas do que as anteriores, indicarão caminhos inesperados para o desenvolvimento.

Durante toda a sua obra, Canguilhem mostrou como tais ideias dizem muito a respeito de como compreendemos a razão, a racionalidade e seus limites.

Ele nos abriu portas para uma reflexão diagnóstica sobre a vida social e seus desafios. Por isso, nada mais justo do que voltar a lê-lo e descobrir como o seu pensamento influenciou alguns dos maiores pensadores do século 20, como Foucault, Lacan, Deleuze, entre outros.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Publicado ontem na Folha.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A obsessão por ‘austeridade econômica’ é querer apagar o incêndio com gasolina



Matando o euro

Pode o euro ser salvo? Não faz muito tempo, disseram que o pior resultado possível seria um calote da Grécia. Agora, um desastre muito maior que isso parece altamente provável.

Embora os líderes da Europa insistam em que o problema são os gastos excessivos nos países devedores, o problema real está nos gastos insuficientes na Europa como um todo. E os esforços dos líderes, exigindo austeridade cada vez maior, vêm tendo um papel importante em agravar a situação.

Nos anos que antecederam a crise de 2008, a Europa, assim como a América, teve bancos descontrolados e acúmulo acelerado de dívida. Na Europa, porém, boa parte dos empréstimos foi feita entre países, com recursos da Alemanha fluindo para o sul. Eles eram vistos como de baixo risco: afinal, os destinatários operavam com o euro.

A maior parte desses empréstimos foi para o setor privado, não para governos. Só a Grécia acumulou grandes deficits nos anos bons.

Então a bolha estourou. Os gastos privados nos países devedores caíram fortemente. E a pergunta que os líderes deveriam ter feito era como impedir que aqueles cortes nos gastos provocassem desaceleração econômica em toda a Europa.

Ao invés disso, porém, eles reagiram ao aumento inevitável dos deficits, movido pela recessão, exigindo que todos os governos - não só os dos países devedores - reduzissem gastos e elevassem impostos. Os avisos de que isso aprofundaria a recessão foram rejeitados.

Espere, há mais. Durante os anos de dinheiro fácil, os salários e preços no sul da Europa subiram substancialmente mais que os do Norte. Essa divergência precisa ser revertida, ou com queda nos preços no Sul ou com elevação no Norte.

E isso faz diferença: se o Sul for forçado a abrir caminho para a competitividade à custa de deflação, pagará alto preço em termos de emprego e agravará seus problemas de dívida. A chance de êxito seria bem maior se o desnível fosse corrigido com elevação dos preços no Norte.

Mas, para isso, os responsáveis políticos teriam de aceitar inflação temporariamente mais alta na zona do euro como um todo. E eles já deixaram claro que não aceitarão.

Os mercados já perderam a confiança no euro como um todo. Não é difícil entender. A combinação de austeridade para todos e um banco central morbidamente obcecado com a inflação torna essencialmente impossível os países endividados escaparem de sua armadilha de dívida; logo, ela é uma receita de calotes sobre dívidas, corridas a bancos e colapso generalizado.

Na América, assim como na Europa, a economia está sendo puxada para baixo por devedores inadimplentes. Também aqui precisamos de políticas fiscais e monetárias expansivas, que sustentem a economia enquanto esses devedores lutam para recuperar sua saúde financeira. No entanto, aqui também o discurso público é dominado por obcecados por deficit e inflação.

Portanto, na próxima vez em que você ouvir alguém afirmar que, se os EUA não reduzirem os gastos, vamos nos converter numa Grécia, sua resposta deve ser que, se de fato reduzirmos gastos enquanto a economia está em depressão, vamos nos converter numa Europa. Na realidade, já estamos a meio caminho.

Artigo do economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008. Publicado no último sábado 3/12, na Folha.  

Marilena Chaui imperdível


Em Porto Alegre, na quarta-feira 7/12.

Protofascismo de volta na Espanha


Mariano Rajoy (foto abaixo) é o atual (recém eleito) primeiro-ministro da Espanha, do Partido Popular, agremiação protofascista que reúne todo o que resta da velha guarda franquista, bem como o seu ideário ultramontano, racista e conservador. 
  

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Novela global faz confusão grosseira com o RS



Recebo mensagem da nossa leitora Maria Margareth R. Gouveia:

“Dia desses estava vendo a novela global ‘A Vida da Gente’, trama que se passa supostamente em Porto Alegre. Na hora flagrei dois erros grosseiros da Globo, sempre tão cuidadosa dos detalhes de suas novelas. Numa, um personagem que parece ser jornalista ou escritor procura nas páginas do 'Diário Gaúcho' a resenha crítica de seu novo livro sobre literatura. Em outra passagem, as pessoas comentam que irão à cidade da região metropolitana de Porto Alegre, cujo nome é 'Sapucaí do Sul'.

Primeiro lugar, o 'Diário Gaúcho' é um diário popularesco e ordinário, não traz crítica nem de futebol, pois cada clube tem o seu colunista plenamente identificado, que dirá de literatura. Segundo lugar, a tal cidade se chama Sapucaia do Sul e não Sapucaí do Sul [...]”.

Grato, Maria Margareth!  

O patético Lupi e o partido sem alma



Entrevista da historiadora Marly da Silva Motta, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), publicada no Estadão, de ontem, 20 de novembro de 2011.

Entre a criação do PDT por Brizola, em 1980, e as recentes denúncias no Ministério do Trabalho, o que ainda existe do trabalhismo brasileiro?

Uma das características mais interessantes da redemocratização era o que fazer com a herança trabalhista da República democrática de 1946 a 1964. Era uma herança disputada por correntes políticas que englobavam setores variados, o que, aliás, foi uma característica do trabalhismo: mantinha um perfil ideológico afinado com a esquerda, mas tinha muitos seguidores diferentes. Há interpretações e depoimentos que dizem que, ao contrário do que imaginamos, Brizola não queria o PTB. Ele queria incorporar às bandeiras tradicionais do trabalhismo - carteira de trabalho, férias remuneradas, CLT - valores mais modernos. Dar uma nova cara ao trabalhismo do PTB. Brizola se apresentou como vítima (quando perdeu a legenda para Ivete Vargas), mas não achou ruim se livrar um pouco da parentela Vargas, que era a marca do trabalhismo. Quis incorporar uma nova marca, o PDT, só que tinha de enfrentar as urnas. E a tradição de competição eleitoral trazida do trabalhismo era dos grandes líderes, de puxadores de voto.

O PDT acabou marcado por esse domínio de um grande líder. Por quê?

Os limites da modernidade esbarraram na visão personalista, carismática, centralizadora, que era a marca do antigo PTB. Brizola talvez seja o exemplo máximo, mas era uma geração formada nessa visão. Quando passou a olhar a possibilidade da Presidência, que Brizola sempre teve em mente, o PT foi na direção da capilaridade, para entrar, via Igreja e movimentos sociais, no interior do País e em outras regiões. O PDT não fez. Provavelmente essa terá sido a grande diferença do projeto nacional do PT que deu certo e do fracasso do PDT. Brizola buscou sustentação nos grandes centros.

E o PT tinha base no movimento sindical. Foi o maior prejuízo para o PDT?

Brizola teve enormes dificuldades com o movimento sindical organizado. Subestimou a entrada do PT. Achava que ia ser recebido de braços abertos pela tradição trabalhista e foi surpreendido. E o PT acabou se apoderando da base sindical. Em certo momento (no fim dos anos 80), começou a haver uma dissensão no PDT entre os velhos trabalhistas e o grupo com uma visão mais modernizadora, com representação não apenas pela via partidária, mas pela via dos movimentos sociais. O trabalhismo passou a ser associado ao que era velho. E os grupos do PDT mais ligados a movimentos sociais, como Saturnino Braga, se afastaram.

E como Lupi emerge no partido?

Acho que veio por esse viés da tradição trabalhista. Centralizador, pessoa simples, o jeito do povo. Brizola não tinha instrumentos políticos para aglutinar tendências diferentes. Ao contrário do Lula, Brizola não soube conciliar, conviver. Resultado: o grupo socialista saiu do PDT e ficaram os trabalhistas que não tinham acesso a outros partidos.

Se não fosse a proximidade com Brizola, Lupi teria destaque no PDT?

Na União Soviética, tinha um termo, apparatchik, para aqueles quadros que não têm muita cultura, mas circulam em torno dos grandes líderes. Boris Yeltsin era um apparatchik. Lupi se aproxima do lado do PDT formado por pessoas que não se expressam bem, não têm fervor ideológico e, nessa condição, é um bom membro partidário, organizador, extremamente fiel a Brizola. Faz lembrar o papel do Gregório (Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas) com o Getúlio. Ele penteava o cabelo de Getúlio e chegou a ser influente na era Vargas. Quando o PDT foi perdendo expressão, permaneceram, de um lado, pessoas como Miro Teixeira, que tem atuação independente e eleitorado próprio, e de outro ascenderam pessoas como o Lupi. Se a gente olhar por um lado, foi uma democratização do partido. É uma pessoa de pouca instrução, que não conhece muito bem as regras do comportamento político, que choca.

O fato de ser presidente do PDT foi decisivo para Lupi chegar ao Ministério do Trabalho?

A verdade é que a questão do trabalho não é decidida no Ministério do Trabalho. As grandes discussões trabalhistas passam por outras instâncias do governo e pela relação direta entre Lula e as lideranças sindicais. Lula botou o PDT no Ministério do Trabalho porque é um partido de tradição trabalhista, o Lupi tem esse perfil, supostamente é afinado com os pobres, com a classe C. Mas as decisões não passam pelo ministério. O ministério acaba ficando nesse jogo de ONGs, de capacitação de trabalhadores. Certamente se isso (as denúncias) acontecesse no governo Lula, não daria em nada. Lula logo ia dizer que era preconceito, que estavam batendo no Lupi porque ele é pobre, porque fala mal, porque é feio. O problema não é esse. Acho que esse caso está tendo repercussão porque Lupi é o sétimo (ministro a cair, se deixar o ministério). Se fosse o primeiro, em um estalar de dedos teria saído, porque ele não tem força no PDT.

Mesmo sendo o presidente licenciado do partido?

Você tem claramente dois PDTs, que continuam uma tendência que vem desde sua formação. Quando Brizola morreu e não havia substituto, o espaço começou a ser articulado por um tipo de liderança como o Lupi, que não veio pelo carisma.

Que futuro imagina para o PDT?

Acho que vai ficar como o DEM. O PFL perdeu o nome e perdeu a alma. O PDT manteve o nome, mas perdeu a alma.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

New York, New York!



A cantada e decantada democracia estadunidense já não é mais a mesma. No vídeo, as imagens da nova New York, agora envolta nas brumas cinzas da brutalidade policial e do deficit crescente nos direitos e garantias individuais e coletivas (para usar o jargão economicista da banca).

Os Estados Unidos e a Eurolândia estão com os quatro pés na esteira do regressismo civilizacional. Quando a dupla do barulho Merkozy (Merkel + Sarkozy) afirma, num jogral sinistro - sem enrubescer - que "o processo eleitoral, agora, seria muito perigoso", tudo fica envolto na incerteza, subsumido ao caos financeiro que destroi as relações sociais e nos joga para o passado, que supunhamos que havíamos superado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Candidatura própria se fortalece no PT de Porto Alegre


Nota Política de Tendências e Militantes

A tese da candidatura própria do PT de Porto Alegre é hoje uma realidade vitoriosa. Estivemos junto com o PT municipal, através da sua direção e com a base partidária, desencadeando um processo de debate de conjuntura e diretrizes programáticas que afirmou a necessidade e a legitimidade da candidatura do PT.

Defendemos sempre a unidade partidária, através de um processo de debate e diálogo internos, para construir a nossa candidatura à prefeitura de Porto Alegre de maneira consensual, evitando a realização de prévias.

Neste sentido, o companheiro Raul Pont colocou o seu nome a disposição do Partido para fortalecer a tese da candidatura própria, dando densidade política à tese e para construir a unidade partidária e a busca do consenso, condição para uma campanha vitoriosa.

No início do mês de outubro tivemos um ato a favor da candidatura própria quando a militância do PT, em pleno horário de meio-dia, superlotou o auditório da sede municipal, apontando que o PT não podia abrir mão do seu protagonismo nas eleições 2012. No final de outubro, uma plenária com mais de 800 militantes e simpatizantes do Partido não deixou dúvidas, aclamou e consagrou a tese da candidatura própria.

A base partidária não concorda com o PT ser vice num papel de coadjuvante a exemplo do que já ocorre no Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Um Partido que tem a maior bancada na Câmara de Vereadores e as maiores Bancadas Estadual e Federal e uma inserção reconhecida nos diversos movimentos sociais não pode virar as costas para isso. Por isso, entendemos que o Partido não pode abrir mão do seu papel central e protagonista, que construiu quando por 16 anos governou a capital, acumulando ricas e variadas experiências de gestão e participação popular. Através das políticas públicas definidas com o Orçamento Participativo, os conselhos setoriais, os movimentos sociais e de quatro congressos da cidade, construiu resultados importantes na melhoria da qualidade de vida da população e na construção da cidadania. A realização do Fórum Social Mundial, em Porto alegre, é um exemplo emblemático da importância da nossa gestão na cidade para o mundo.

Portanto, a candidatura do PT a Prefeitura de Porto Alegre não é uma invenção de uma cúpula partidária. A tese da candidatura própria é a expressão política e social da militância partidária e da sociedade.  Agora, queremos resgatar este acúmulo e construir o futuro da nossa cidade, implementando um programa de governo com desenvolvimento econômico e social ambientalmente sustentável com democracia participativa e popular. Conceitos esses, que estiveram expressos e foram vitoriosos em lutas recentes ocorridas na cidade, que combinaram a luta por direito à moradia digna com a preservação da natureza.

Por tudo isto, reafirmamos a tese vitoriosa da candidatura própria com unidade partidária e inscrevemos o companheiro Raul Pont como pré-candidato do Partido a Prefeito de Porto Alegre, para a decisão do encontro municipal do PT no dia 3 de dezembro.

“A vitória do PT em Porto Alegre passa por um amplo debate com a militância partidária e com a população na construção de um programa de governo democrático e popular, buscando a constituição de uma política de alianças no campo popular e com os movimentos sociais” (Carta a Porto Alegre).

Porto Alegre, 16 de novembro de 2011

Assinam: Democracia Socialista, Esquerda Democrática, PT Amplo e Democrático e outros militantes do PT
Foto do evento de hoje na sede do PT de Porto Alegre

Documentário sobre o grande intelectual brasileiro Celso Furtado



Este documentário – O Longo Amanhecer - nos aproxima da obra intelectual de Celso Furtado (1920-2004).

O vídeo de 72 minutos (na íntegra) mostra a atualidade do economista, que sempre pensou o Brasil no contexto internacional do capitalismo contemporâneo, verificando o quanto o chamado “subdesenvolvimento” a que estivemos submetidos foi uma política intencional das nossas elites para fazer funcionar um País para apenas 10% de sua população. Hoje, felizmente superamos essa fase de submissão do Brasil aos centros dinâmicos do capital, mas ainda há muito caminho a percorrer. Estamos apenas no começo do processo de autonomização das nossas potencialidades. Muita política haverá de passar sob essa ponte. 

Uma releitura do que Celso Furtado escreveu sobre o subdesenvolvimento (anos 60) mostra claramente sua atualidade. Utilizando o raciocínio estruturalista e o método histórico, Furtado chega a conclusões do tipo: "o subdesenvolvimento é ... um processo histórico autônomo", não constituindo "uma etapa necessária ... de formação das economias capitalistas"; "a única tendência visível é para que os países subdesenvolvidos continuem a sê-lo"; "o desenvolvimento do século XX vem provocando uma concentração crescente da renda mundial", com "uma ampliação progressiva do fosso entre as regiões ricas e os países subdesenvolvidos"; "o subdesenvolvimento é a manifestação de complexas relações de dominação-dependência entre povos, [tendendo] a autoperpetuar-se sob formas cambiantes"; tudo isso requerendo "a tomada de consciência da dimensão política da situação de subdesenvolvimento", com a formação de "centros nacionais de decisão válidos".

Inscrição da pré-candidatura de Raul Pont


É hoje, quarta-feira, em Porto Alegre! 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A propósito do ‘assassinato econômico’ da Grécia...


Veja ou re-veja (já postamos esse documentário aqui) o filme acima. São 1h47 de um documentário imperdível – feito em 2008 - sobre os métodos do capital financeiro que aplasta o mundo no momento, embora seja um fenômeno que já dure cerca de três décadas.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O legado de um mundo em decomposição e ocaso


O debate sobre a reforma política requer um preâmbulo bem estruturado onde no centro do debate esteja a própria política, visando banir a hegemonia esgotadora do capital financeiro que nos subjuga há três longas décadas  

Quem ainda acredita no mito do progresso, pode muito bem acreditar na lenda do Papai Noel, na infantilização comercial da festa religiosa da Páscoa cristã, etc. Está mais que provado que o avanço das tecnologias no auxílio à reprodução do capital não logra êxito mecânico nas esferas da democracia, da República e no fazer político.

O chamado “progresso” (um dos grandes fetiches do Iluminismo), por si só, não nos leva a lugar algum. Ao contrário, nas últimas três décadas, com o advento esmagador da hegemonia do capital financeiro globalizado, nós assistimos à erosão de muitas conquistas que tínhamos como definitivas. No campo dos direitos humanos houve retrocesso evidente, admitido até pelos que o violaram, como o governo dos Estados Unidos e seus aliados da Otan na Europa. Com a ameaça terrorista internacional (metade real, metade mito, criado justamente pelos interessados no retrocesso institucional) foram suprimidos diversos direitos individuais, forjados mecanismos de vigilância/controle/monitoramento dos cidadãos, o uso da tortura e da prisão ilegal sem processo de julgamento, vimos o reforço das bases militares dos EUA, hoje mais de mil unidades, nos cinco continentes, onde impera o arbítrio, a força bruta e as regras de ocasião.

Nos Parlamentos, seja no Brasil, seja nos EUA, na Europa, ou na Ásia, predominam os representantes dos grandes interesses econômicos aliados das estratégias geopolíticas que sustentam a força dos bancos de um lado, e um permanente clima de tensão internacional que contribui para as guerras de conquistas, especialmente de petróleo e gás, sustentado por lobbies da velha aliança industrial-militar que orientam a Casa Branca, desde sempre.

Para suprir ou mitigar a ilegitimidade político-institucional e o flagrante abuso do poder econômico que achata a cidadania e seus direitos violados e elege o consumidor como sujeito privilegiado da farsa democrática, avulta cada vez mais a força das midias e da publicidade contemporâneas no mundo todo.

Hoje, o chamado espaço público é cada vez mais o espaço da publicidade e da mídia – como porta-vozes e justificadores ideológicos de um mundo rarefeito de democracia mas coalhado de mercadorias, onde os direitos coletivos de cidadania cedem vez à mera capacidade individual de consumo. Discutimos (ou somos induzidos a fazê-lo) muito mais moda, tendências, novas tecnologias e gadgets da hora (iPod, iPad, artefatos inúteis) do que direitos fundamentais, voto, expressão política, garantia de conquistas, esgotamento da democracia representativa, etc.

Neste sentido, me parece que falta ao debate sobre a pretendida (e sempre adiada, pelos motivos acima referidos) reforma política esse grande preâmbulo introdutório do tema. Discutir reforma política, assim, solta no ar, suspensa sobre a névoa cinzenta das nossas interrogações e incertezas, me parece quase uma irresponsabilidade. A reforma política, mais que algumas modificações nas regras eleitorais e de representação parlamentar, deve significar a reintrodução da própria política no centro do debate contemporâneo, para bem além dos economicismos reducionistas pautados pela banca. Deve significar o deslocamento e o próprio banimento da hegemonia do capital financeiro, depois de trinta anos de esmagamento da política, substituída que foi pelos truques manjados dos econometristas de fórmulas matemáticas que nos legaram esse mundo em decomposição e ocaso. 
 
Artigo de Cristóvão Feil, publicado originalmente na edição 31 da publicação impressa Jornalismo B, que circula em Novembro/2011.

Foto: quadro de Jean Michel Basquiat em galeria.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um mundo perturbado que precisa terminar de morrer


A verdadeira crise

E se, para além da crise econômica, política e ambiental que parece atualmente ser um fantasma a assombrar as sociedades capitalistas, outra crise estivesse à espreita?

Uma crise ainda mais brutal, dotada da força de abalar os fundamentos da normatividade existente. Lembremos como Max Weber mostrou que o advento do capitalismo trazia, necessariamente, a constituição de uma forma de vida marcada por um modo específico de relação aos desejos e ao trabalho.

Tal forma de vida, cuja face mais visível era a ética protestante do trabalho, baseava-se em um modo de articular autonomia como autogoverno, unidade coerente das condutas e da liberdade como capacidade de afastar-se dos impulsos naturais. Ou seja, ela trazia no seu bojo a criação da noção moderna de indivíduo.

Mas, e se estivéssemos hoje às voltas com uma profunda crise psicológica advinda do colapso dessa noção tão central para as sociedades capitalistas modernas?

Uma crise psicológica significa aumento insuportável do sofrimento psíquico devido à desestruturação de nossas categorias de ação e de orientação do desejo.

O sociólogo Alain Ehrenberg havia cunhado uma articulação consistente entre a atual epidemia de depressão e um certo "cansaço de ser si mesmo".

Por sua vez, boa parte dos transtornos psíquicos mais comuns (como os transtornos de personalidade narcísica e de personalidade borderline) são, na verdade, as marcas da impossibilidade dos limites da personalidade individual darem conta de nossas expectativas de experiência.

É possível que, longe de serem meros desvios patológicos, estes sejam alguns exemplos de uma crise em nossos modelos de conduta que crescerá cada vez mais.

Conhecemos um momento histórico no qual uma crise psicológica dessa natureza ocorreu. Momento marcado pela retomada do ceticismo e de um desespero tão bem retratado nos quadros do pintor Hieronymus Bosch (detalhe de pintura, ao lado).

Ele só foi superado por processos históricos, fundamentais para o aparecimento da individualidade moderna, nomeados, não por acaso, de Renascimento e de Reforma.

Tais palavras nos lembram que algo estava irremediavelmente morto e desgastado. Algo precisava renascer e ser reformado.

Talvez estejamos entrando em uma outra longa era de crise psicológica onde veremos nossos ideais de individualidade e de identidade morrerem ou, ao menos, algo fundamental de tais ideais morrer.

O problema é que, algumas vezes, a morte dura muito tempo. Algumas vezes, precisamos de acontecimentos que ocorrem duas vezes para, enfim, terminarmos de morrer.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da USP. Publicado na edição de ontem da Folha.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Esmagada pelos bancos, Grécia quer agora retomar sua soberania



O fuzilamento da Grécia

Se eu fosse do Itamaraty, sempre tão cioso do respeito à soberania de todos os países, apresentaria um protesto veemente ao G20 contra a flagrante violação da soberania da Grécia.

O que se está fazendo com o berço da democracia é uma intervenção brutal. Não é de hoje, mas tornou-se exponencial a partir do instante em que seu primeiro-ministro, George Papandreou (foto), exerceu o legítimo direito de anunciar a convocação de um plebiscito para que os gregos decidam se aceitam ou não a ajuda europeia, condicionada a um ajuste rigoroso.

É uma opinião compartilhada, por exemplo, por Sven Böll, da revista alemã "Der Spiegel", que está longe de ser porta-voz do PSOL: "Os gregos, para mudar um pouco, decidirão por eles próprios como eles e seu país caminharão. (...) Por cerca de um ano e meio, este país, antes orgulhoso, tem estado sob administração estrangeira; não é mais de fato um Estado soberano".

Dizer algo parecido das repúblicas bananeiras latino-americanas de tempos atrás não chocaria ninguém. 

Constatá-lo a respeito de um país europeu é de uma gravidade que parece escapar às análises centradas apenas no sobe-e-desce das Bolsas, no vaivém do risco-país ou nos aspectos financeiros do caso.

O fato é que a Grécia, sob intervenção europeia, só fez regredir nesse ano e meio, qualquer que seja o indicador para o qual se olhe. Cito um, talvez o mais dramático: o número de suicídios nos cinco primeiros meses do ano aumentou 40% na comparação com os cinco primeiros meses de 2010.

Robert Kuttner, em "The American Prospect", encontra nessa tragédia a explicação para o gesto de Papandreou de fazer o anúncio do plebiscito:

"Papandreou está simplesmente cansado de ser o agente da destruição econômica de seu próprio país nas mãos dos banqueiros. Está também cansado da impopularidade política que vem com seu papel de corretor da austeridade".

Kuttner desconfia, além disso, que o premiê resiste a eventual truque da banca para driblar o corte de 50% na dívida grega, decidida pelos europeus há uma semana.

Que truque? Usar os juros sobre os novos papéis da dívida e os prazos de maturidade para diminuir o prejuízo.

Escreve Kuttner: "Ele está jogando a única carta que tem: se os banqueiros refugarem no alívio da dívida a que se comprometeram em princípio, a Grécia dará o calote. E Papandreou quer que a decisão seja feita pelo povo grego e não pelos burocratas".

Do que se pode acusar Papandreou é de não ter tomado decisão parecida antes, no início das negociações para o primeiro pacote.

Tudo indica que ele se deixou levar pela infernal gritaria dos mercados de que, se a Grécia não pagasse integralmente sua dívida, estaria condenada aos infernos para todo o sempre -o mesmo cantochão que se gritou no caso da Argentina, faz dez anos, e se revelou falso.

Agora talvez seja tarde: escrevo vendo, pela TV, Papandreou sentado ante o pelotão de fuzilamento formado pelo presidente Nicolas Sarkozy, pela chanceler Angela Merkel, pelos líderes da Comissão Europeia e pela diretora-gerente do FMI.

Artigo do jornalista Clóvis Rossi, surpreendentemente contrário à posição editorial de seus patrões da Folha. Publicado hoje na Folha. Ele escreve direto de Cannes, onde se realiza a reunião do G20, agora ‘esquentada’ pela crise da crise grega, com a decisão digna de "terrorista internacional", como está sendo interpretado pela mídia serviçal dos bancos, do referendo popular proposto pelo primeiro-ministro grego. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

TV a cabo: vigarice e desrespeito ao consumidor


Mais do mesmo na TV a cabo

Não estou nem um pouco animada com a perspectiva de controle de todo o segmento de TV por assinatura pelas empresas de telefonia. O que é ruim, na melhor das hipóteses, continuará claudicante, uma vez que as operadoras de telefonia fixa e móvel destacam-se negativamente nos rankings de reclamação dos consumidores.

A perspectiva, então, é de mais concentração de mercado nas mãos de quem já não respeita o cliente em suas atividades atuais.

Hoje, o consumidor pena para conseguir migrar para pacotes de TV digital, oportunidade da qual as empresas se aproveitam para impor contratos mais caros e com menos canais, ou com menor qualidade.

Também empurram ponto extra para quem não o solicitou, sob a alegação de isenção de pagamento. Na verdade, nas letras miúdas, fica claro que a fatura virá mais adiante, geralmente dentro de um ano.

O consumidor Anderson Martins Borges teve dissabores com a Sky ao mudar de endereço. Foram mais de dois meses para que a empresa fizesse a nova instalação, período em que marcou e não cumpriu atendimentos técnicos.

Cancelar o serviço? Só se pagasse multa. Os desrespeitos continuaram com espera na linha para ouvir desculpas esfarrapadas e agendamentos descumpridos. Mas a conta de R$ 300 chega direitinho, mensalmente.

Outra consumidora escolheu contratar a TVA ao alugar um apartamento e foi induzida a adquirir o combo de TV por assinatura, acesso à banda larga e telefone para que a mensalidade pesasse menos no orçamento.

Embora tenha comprado um pacote, as instalações foram feitas isoladamente, em três dias. E, para sua surpresa, a TV a cabo veio com ponto adicional. Quando reclamou, sofreu com artifícios da operadora que a lei do SAC se propunha a banir: sua ligação foi passada para vários atendentes, esperou muito tempo na linha e teve de refazê-la algumas vezes.

Ao final, foi informada de que teria de entregar o receptor do ponto extra -que não contratara- na empresa. Algo como ser obrigada a devolver um cartão não solicitado à agência bancária.

A arquiteta S.M. também se incomodou muito ao tentar, sem sucesso, cancelar a assinatura da Net. Recebeu oferta de 30% de desconto, que não aceitou. Foi combinado, então, que os aparelhos seriam retirados, mas não foram. Semanas depois de a operada assegurar que havia cancelado o serviço, chegou nova fatura.

Esses são apenas alguns exemplos de como as empresas tratam seus assinantes, o que poderá até piorar, porque as teles terão, em seu domínio, telefonia, TV a cabo e acesso à banda larga. Ou seja, mais poder com pouca concorrência.

Dificilmente, então, melhorarão a programação, hoje entediante para quem contrata o serviço, pois os filmes se repetem com intensidade irritante. Os melhores filmes e jogos de futebol só são disponíveis por "pay-per-view" - comprados à parte. Ao mesmo tempo, cresce a quantidade de comerciais nas emissoras pagas.

Há muitas queixas de demora na visita técnica, de cobranças indevidas, de dificuldade para fazer reclamações por telefone e de falhas nos combos.

Nada diverso do que ocorre no acesso à banda larga prestado pelas teles, que é lento e sofre frequentes interrupções.

Má perspectiva para os assinantes, que podem esquecer o sonho de bons pacotes por preços mais competitivos. Também não devem apostar em melhores serviços.

Com a troca de controle da TVA e da Net, respectivamente, para Telefônica e Telmex (Embratel), haverá apenas mudanças de razões sociais do duopólio.

A Anatel deveria, ao menos, cobrar uma transformação radical nas relações com os consumidores para autorizar as alterações de controle acionário.

As operadoras são tão semelhantes, e atuam de maneira tão similar, que os brasileiros, provavelmente, só tenham na TV paga a opção de trocar seis por meia dúzia. Mais do mesmo, portanto, em preços, em serviços e em qualidade.

Artigo da advogada Maria Inês Dolci, especializada em direito do consumidor e coordenadora institucional da ProTeste Associação de Consumidores. Publicado hoje na Folha

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

ZH faz editorial em favor da bandalheira dos pedágios


É escandaloso o empenho do grupo RBS ao se autoinvestir como porta-voz das concessionárias de estradas no RS. A colunista da chamada “Página 10”, edição de hoje, faz um esforço comovedor para defender as empresas que exploram os pedágios no estado (quase sempre empreiteiras maquiadas de concessionárias de estradas).

O verdadeiro editorial em favor da bandalheira dos pedágios chega ao requinte de informar que “as concessionárias estão irritadas” com o governo Tarso Genro. E a colunista não fica nem corada, com esse evidente empenho "desinteressado" em favor das empreiteiras/concessionárias. 


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Marxismo, hoje

Em Porto Alegre.

Obama fará qualquer negócio para se reeleger



Obama prepara guerra com Irã


A administração Obama anunciou duas semanas atrás que um desastrado vendedor de carros usados iraniano-americano conspirou com um agente do governo americano que se fazia passar por representante de cartéis de drogas mexicanos para assassinar o embaixador saudita em Washington.

O anúncio suscitou reações altamente céticas de especialistas de todo o espectro político aqui.

Mas, mesmo que parte dessa história se revele verdadeira, o tratamento dado a acusações desse tipo é inerentemente político. Por exemplo, a comissão sobre o 11 de Setembro do governo investigou as ligações entre os atacantes e a família reinante saudita, mas se negou a trazer a público os resultados.

A razão disso é óbvia: existe sujeira ali, e Washington não quer criar atritos com um aliado-chave. E não esqueça que se trata de cumplicidade com um ataque em solo americano que matou 3.000 pessoas.

Contrastando com isso, a administração Obama deu grande destaque à especulação um tanto quanto dúbia de que "os mais altos escalões do governo iraniano" teriam tido envolvimento com a alegada conspiração. O presidente Obama então anunciou que "todas as opções estão sobre a mesa", o que é um conhecido código indicativo de possível ação militar. Trata-se de um discurso extremista e perigoso.

O professor da Universidade de Michigan Juan Cole, respeitado estudioso do Oriente Médio, aventou a hipótese de Obama estar procurando um confronto militar para ajudá-lo a se reeleger, diante de uma economia estagnada e do alto índice de desemprego. É possível, com certeza. Lembre que George W. Bush usou o período que antecedeu e preparou a Guerra do Iraque para conquistar as duas Casas do Congresso na eleição de 2002.

Ele nem precisou partir para a guerra. O período de preparação dos espíritos para a guerra funcionou perfeitamente para ele alcançar sua meta principal: todos os problemas mais importantes para os eleitores - a recuperação sem empregos, a seguridade social, os escândalos corporativos - sumiram do noticiário durante a temporada eleitoral. Os assessores do presidente Obama com certeza entendem essas coisas.

É claro que essa especulação mais recente, dando a entender que pode levar a uma ação militar, pode ser apenas parte da preparação de longo prazo para a guerra contra o Irã. Uma vez que isso é feito, é difícil impedir a guerra de acontecer; e, uma vez lançadas essas guerras, elas são ainda mais difíceis de concluir, como demonstram dez anos de guerra inútil no Afeganistão.

É por isso que iniciativas internacionais para fazer recuar a marcha em direção à guerra, como a proposta de troca de combustível nuclear feita por Brasil e Turquia em 2010, são tão importantes.

Recentemente o governo iraniano se propôs a parar de enriquecer urânio se os EUA fornecerem urânio para seu reator de pesquisas médicas, de que precisa para tratar pacientes com câncer. Esse urânio não poderia ser usado para armas.

O Brasil é um dos poucos países que têm a estatura internacional e o respeito necessários para ajudar a desativar esse confronto. Só podemos esperar que ele faça mais tentativas de poupar o mundo de mais uma guerra horrível.

Artigo do economista Mark Weisbrot, codiretor do Center for Economic and Policy Research, em Washington. Publicado hoje na Folha

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RS lança comitê contra o veneno na alimentação



É hoje!


Depois dos Estados de Santa Catarina, Rio de Janeiro e Sergipe, chegou a vez do Rio Grande do Sul realizar o lançamento do Comitê Estadual da Campanha Permanente contra o uso de Agrotóxicos e pela Vida. Será hoje, segunda-feira, dia 24 de outubro, às 18h30min no auditório da Emater/RS, e será aberto ao grande público.

O evento se iniciará com a exibição do documentário “O agrotóxico está na mesa”, de Silvio Tendler. Na sequência, haverá a palestra da Prof. Dra. Magda Zanoni, bióloga e socióloga, que organizou, junto do francês Gilles Ferment, o livro “Transgênicos para Quem? Agricultura, Ciência, Sociedade” (MDA, Coleção NEAD Debate) lançado em 2011. Ao seu lado, irão compor a mesa, representantes da Via Campesina e da Emater/RS.
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O Brasil é o primeiro colocado no ranking mundial do consumo de agrotóxicos. Mais de um milhão de toneladas de venenos foram jogados nas lavouras em 2010, de acordo com os dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola.

Com a aplicação exagerada de produtos químicos nas lavouras do país, o uso de agrotóxicos está deixando de ser uma questão relacionada especificamente à produção agrícola e se transforma em um problema de saúde pública e preservação da natureza.

O consumo de agrotóxicos cresce de forma correspondente ao avanço do agronegócio, modelo de produção que concentra a terra e utiliza  quantidades crescentes de venenos para garantir a produção em escala industrial.

Desta forma, o uso excessivo dos agrotóxicos está diretamente relacionado à atual política agrícola do país, que foi adotada a partir da década de 1960. Com a chamada Revolução Verde, que representou uma mudança tecnológica e química no modo de produção agrícola, o campo passou por uma “modernização” que impulsionou o aumento da produção, mas de forma extremamente dependente do uso dos pacotes agroquímicos [adubos, sementes melhoradas e venenos].

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), na última safra foram vendidos mais de 7 bilhões de dólares em agrotóxicos. Todo este mercado se concentra nas mãos de apenas seis grandes empresas transnacionais, que controlam mais de 80% do mercado dos venenos. São elas: Monsanto, Syngenta, Bayer, Dupont, DowAgrosciens, e Basf.

Nesse quadro, os agrotóxicos já ocupam o quarto lugar no ranking de intoxicações. Ficam atrás apenas dos medicamentos, acidentes com animais peçonhentos e produtos de limpeza. Essas fórmulas podem causar esterilidade masculina, formação de catarata, evidências de mutagenicidade (câncer), reações alérgicas, distúrbios neurológicos, respiratórios, cardíacos, pulmonares, no sistema imunológico e no sistema endócrino, ou seja, na produção de hormônios, desenvolvimento de câncer, dentre outros agravos à saúde humana.

domingo, 23 de outubro de 2011

Crítica de Tarso Genro fere sensibilidade "democrática" da RBS



O jornal Zero Hora publicou um editorial neste sábado (22) manifestando “estarrecimento” pelo que chama de “ataque desfechado pelo governador Tarso Genro ao jornalismo investigativo”. O editorial acusa o governador de sustentar uma posição que “tende a interessar mais aos corruptos do que aos cidadãos”. ZH acusa Tarso também de querer “restringir preventivamente a liberdade de imprensa” e o trabalho da “imprensa livre e independente”, no momento em que “o país passa por uma limpeza ética”.

Na quinta-feira (20), em meio a uma conferência proferida no Congresso do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Tarso Genro criticou as práticas jornalísticas que denunciam, julgam e condenam, pretendendo substituir as instituições republicanas que têm essas atribuições. A RBS reagiu no mesmo dia, acusando o governador gaúcho de querer "censurar o jornalismo investigativo". (A íntegra da conferência de Tarso Genro está disponível aqui

“A reação violenta da RBS”, declarou o governador Tarso Genro à Carta Maior, “parece querer interditar o debate e o faz através da manipulação da informação sobre a conferência que proferi no Congresso do Ministério Público”. “Essa conferência versa sobre um tema que vem sendo debatido em todo o mundo há mais de vinte anos e que aqui no Brasil ocorre no âmbito da academia e em setores da intelectualidade fora da academia: a superposição das instituições “de fato”, oriundas da força econômica do capital financeiro - agora em crise - sobre as instituições do Estado”. “Ela sequer versava”, acrescentou, “sobre alguma empresa de comunicação em particular ou sobre alguma investigação jornalística, ou, ainda, sobre a liberdade de informar. Tanto é que eu digo claramente na minha exposição:

(...) Não proponho, em absoluto, qualquer controle da informação por parte do Estado. Nem a sonegação de informações relevantes, para que os processos e as investigações tenham ampla publicidade pela mídia que, de resto, pode cumprir o papel político que quiser dentro da democracia. Nem se trata, também, de alegar a existência de uma “conspiração” dos meios de comunicação contra a democracia e o devido processo legal. Trata-se de compreender que já vivemos um período da sociedade da informação em que os poderes de fato, no capitalismo tardio, estão se sobrepondo aceleradamente ao poder das instituições formais do Estado. Isso não ocorre somente em relação à mídia, mas também em relação a outros poderes fáticos oriundos da força econômica dos grupos privados.

O governador acusou a RBS de querer interditar o debate manipulando o conteúdo de sua conferência ao “não publicar nem mencionar o trecho acima que dá sentido à toda a exposição”. “O que proponho - e isto está escrito também no texto da conferência - é uma união das instituições do Estado com os políticos sérios e honestos (que são a maioria em todos os partidos) para combater a corrupção, com mais condições técnicas para os inquéritos, reformas legais que acelerem os processos e os cumprimentos de pena”, afirmou Tarso. E acrescentou: 

“O que faz reduzir a corrupção é a punição pelo Estado e não o justiçamento paralelo da mídia, nem as investigações dos repórteres, que obviamente podem ser feitos e devem ser feitos. Mas o produto destas investigações é matéria jornalística e é, portanto, mercadoria-notícia, não prova de crime”.

"Esta atitude da RBS, pretendendo interditar o debate com ameaças de campanhas difamatórias que estão subjacentes no mesmo editorial, marca o ápice da petulância e da arrogância que poucas empresas de comunicação têm a coragem de expor publicamente. Mentem, quando dizem que sou contra o jornalismo investigativo, quando o que sou contra é julgamento sumário de pessoas, independentemente de que sejam culpadas ou não. Mentem quando contrastam dois textos meus sobre assuntos diferentes, mesmo tendo, na Conferência, manifestação explícita da minha parte que confirma a minha posição de princípio a favor da total liberdade da imprensa e de respeito irrestrito ao trabalho dos jornalistas," disse ainda o governador gaúcho.

Ainda segundo a avaliação do governador, “o sentido da avalanche de críticas que recebi está muito bem exposto no editorial de ZH desta manhã”. Mais precisamente, explicou, “está contido na expressão “limpeza ética”, de origem e marca bem conhecidos na história”. Recentemente na Europa Oriental se falava em “limpeza étnica”. Limpeza se faz num lugar sujo (a política e o país) e quem faz a “limpeza” é o virtuoso (a mídia), nós, humanos sujamos, por isso nem temos o direito de dizer que o processo judicial, o inquérito do Ministério Público e dos órgãos de controle, não podem ser superpostos por justiçamentos e linchamentos públicos, que transformam crimes comuns em crimes políticos e consequentes condenações políticas, sem direito de defesa com a mesma exposição e intensidade das acusações”.

“O editorial”, prosseguiu o governador, “chega a sugerir que estou tentando me proteger de futuras denúncias”. “É jogo sujo: eu poderia dizer, se fizesse o mesmo raciocínio, que quando eles atacam quem quer fortalecer o MP e o Judiciário, para evitar linchamentos públicos, eles estão protegendo corruptos que eles apoiam ou apoiaram. Mas, sinceramente não penso assim. Acho que eles não leram a integralidade da minha conferência e pensaram que ela era dedicada a eles”.

Por fim, Tarso Genro afirmou que não mudará um milímetro a relação que mantém com a RBS e nem com a imprensa em geral. “Essas controvérsias são boas para a democracia. Todos fulminaram sistematicamente Lula e o PT e a esquerda em geral, às vezes até com razão, e nós continuamos vivos e crescendo. Enfrentei seguidas manipulações da imprensa sobre as minhas posições quando Ministro da Justiça: caso da punição dos torturadores, caso Daniel Dantas, caso Battisti, caso Cacciola e nunca perdi a serenidade”. E concluiu:

“Na verdade o que temos com a grande mídia é uma divergência histórica de fundo: no ocaso do modelo neoliberal eles têm que substituir o alvo dos seus ataques, que era o “gigantismo” do Estado, agora é a corrupção e a política em abstrato, sem avaliar as suas origens e fundamentos, que, na verdade estão contidos na fraqueza das leis e das instituições, geradas pelo modelo econômico neoliberal, para combater o crime, a corrupção e o aparelhamento do Estado pelos grandes grupos econômico-financeiros, em detrimento da ampla maioria dos próprios empresários e sociedade em geral”.






Vídeo com a fala de Tarso Genro no Ministério Público.


A matéria acima foi pescada na íntegra (menos o título) do portal Carta Maior.

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