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sábado, 20 de setembro de 2008

I - Por que o Rio Grande do Sul é assim


Revolução, não, guerra civil Farroupilha

Hoje, dia 20 de setembro, é a data convencionada que marca o início da chamada “revolução” Farroupilha (a rigor, apenas uma guerra civil regional malograda), no distante ano de 1835.

Para quem não conhece o Rio Grande e Porto Alegre, essas informações soam mais distantes ainda. Mas aqui neste blog, nos próximos dez dias, vamos tentar decifrar esses códigos da cultura gaucheira, esses constructos culturais cuidadosamente recortados da história factual e montados num painel mítico que representa a apropriação do imaginário popular dos indivíduos nascidos no Estado mais meridional do Brasil e , não por acaso, o que apresenta idiossincrasias especiais e um etos social muito particular, rico, variado, objeto da contribuição de inúmeras etnias – autóctones e transplantadas.

Mirabeau, um dos teóricos da revolução Francesa de 1789, dizia que não bastava mostrar a verdade, é necessário fazer com que o povo a ame, é necessário – dizia o “Orador do Povo” – apoderar-se da imaginação do povo. Não foi de graça, então, que a seção de propaganda do Ministério do Interior, em 1792, em plena ebulição revolucionária, se denominava Escritório do Espírito.

Pois, essa apropriação da imaginação popular foi – parcialmente – exitosa por parte dos maragatos (ideologia do latifúndio) sul-rio-grandenses, especialmente a partir da segunda metade do século 20. Alguém pode perguntar o motivo de ter passado tanto tempo, de 1835-45 até meados do século passado, por que? Por que o mito levou tanto tempo para “apoderar-se da imaginação do povo”?

E outras questões: por que no RS se festeja, se comemora uma derrota, sim, porque os farroupilhas de 1835 foram derrotados durante dez longos anos pelas tropas do Império do Brasil, por quê?

Outra: por que o RS comemora o 20 de setembro e não comemora o 14 de julho? Sabendo-se que foi no 14 de julho de 1891 que a Assembléia Constituinte sul-rio-grandense deu posse a Júlio Prates de Castilhos como primeiro Presidente (hoje é governador) eleito no RS, e pode-se dizer que este é o marco da única revolução burguesa clássica havida no País.

Nenhum Estado federado e nem o próprio Brasil teve uma revolução modernizante como o Rio Grande do Sul, através dos positivistas chimangos de Castilhos, e depois através de Borges de Medeiros, pelo menos até 1930, quando se encerra o ciclo modernizante inaugural da transição para o capitalismo nesta região meridional.

Por que a burguesia gaúcha, a direita guasca, comemora uma derrota – a farroupilha – em vez de comemorar uma vitória – a da revolução cruenta de 1893? Intrigante, não?

E uma última questão, pelo menos por hoje, para iniciar esse tema tão apaixonante e que explica bastante o Rio Grande atual e o Brasil lulista (que quer copiar um pouco o ciclo desenvolvimentista de Vargas, que por sua vez bebia na fonte dos chimangos de Castilhos-Borges), por que aqueles que foram derrotados fragorosamente em 1893, na revolução burguesa gaúcha, hoje, são hegemônicos no plano político-eleitoral do Estado e logram êxito no objetivo original de Mirabeau no sentido de terem se apoderado da imaginação popular através de batalhas de símbolos, batalhas midiáticas, cevadura de ideologias, montagem de mitos, bombachinhas e tradicionalismo galponeiro, por quê?

O Rio Grande do Sul tem uma história muito expressiva, tão expressiva quanto o “riso” macabro dos degolados de 1893, dos “engravatados” de 1923 (a “gravata” era a língua exposta da vítima, por baixo e através do largo talho horizontal do corte da lâmina branca), e de uma revolução positivista-burguesa que ousou estatizar empresas estrangeiras ainda em 1920, que cobrou impostos de latifúndio em 1895 e que escolarizou todo o Estado, ainda no início do século 20.

Vamos ver tudo isso, aqui no blog, um pouco a cada dia.

Esta série foi publicada originalmente neste blog DG, ano passado, em dez pequenos artigos.

Ilustração de Eugênio Neves

14 comentários:

Luís Guedes disse...

Caro Cristóvão, parabéns pela brilhante análise. Sempre pensei sobre a questão do modo como a entendes.Quanto ao Dr. Júlio, não é de estranhar que o historiador Décio Freitas no fim da vida e de muito mau humor tenha perpetrado um livro agraciando Castilhos como "inventor da ditadura no Brasil". E o prof Décio tinha sido comuna... Aliás, a imprensa amiga chamava o governo do Olívio de neocastilhista como ofensa.Aguardo mais artigos. Luís Alberto Guedes/bgla18@hotmail.com

Cristóvão Feil disse...

Bobagem do Décio Freitas, aquele renegado.
A prevalecer essa ótica, então o inventor da ditadura na França foi o Robespierre, o Danton, os jacobinos, etc.

Abç.

CF

Prestes disse...

Aguardarei ansioso.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Júlio de Castilhos, de certa forma, inventou sim a ditadura no Brasil assim como Robespierre e seu terror mostraram a verdadeira cara de certos "revolucionários". No fundo, no fundo mesmo, a discussão é sobre o que é democracia?. Tem gente que acredita que fazer democracia é expulsar embaixador americano ou o pessoal da Human Right Watch, como está fazendo o troglodita bolivariano. Parece pouco interessar a certa esquerda que no governo "despotista esclarecido" e "conservador, progressista" do Dr. Júlio os mortos votavam e ele concentrava todos os poderes do Estado em si, como república bolivariana de nossos tempos. Parece que o que efetivamente importa é que o déspota esclarecido estatizou multinacionais, cobrou dos latifundiários e investiu em educação. O resto, o resto são detalhes.

heliopaz disse...

Cristóvão,

Excelente lembrança: teus 10 artigos sobre "Por que o gaúcho é assim?" devem ser postados nesta época todos os anos.

Tu explicas muito bem os porquês da classe mérdia gaúcha ser uma das piores do hemisfério ocidental.

[]'s,
Hélio

Carlos Eduardo da Maia disse...

Hélio, que relação pode ter a complexa, difusa e pluralista classe média gaúcha de 2008 com um movimento político do início do século passado? É outra realidade, é outra história, são outros fatos e uma coisa não explica outra. Coincidências existem, mas os teóricos da religião sem deus sempre acham que tudo tem relação. Acreditam piamente nos movimentos monoliticos da história que sempre se repete. E os que ousaram e conseguiram sair desse dogma determinista são chamados de renegados. Isso se chama "lógica pelo avesso".

Anônimo disse...

Oba! A coisa vai esquentar...Aguardarei ansiosamente. Kiki

Anônimo disse...

Caro Cristóvão,
O que foi aquele programa ontem do PT no horário eleitoral?
Até achei que era alguma propaganda do governo da Yeda?

Abraços,
José Luís

Anônimo disse...

E vamos de Manuela prá prefeita.

joão disse...

Já eu vou de Luciana.Manuela Benfran??? A turma do Brito 20 anos depois de perder a prefeitura para o Olivio vai ganha-la de presente graças a Manuela!

Anônimo disse...

Está bem a classe média gaucha é pluralista, que o digam a Yeda e o facinora do Mendes.

Claudio Dode

Anônimo disse...

Manú nelles!

Gabus disse...

Agora a esquerda quer tomar como herói Julio de Castilhos, o ídolo de Getulio Vargas e dos generais de 1964...

Vão ter que primeiro abandonar o lenço vermelho dos maragatos...

E engolir o que Comte dizia do comunismo.

(Lênin, mais coerente, chamava o positivismo de "total charlatanice burguesa").

Gabus disse...

E mais, o "revolucionário" coronel Moreira César, que na Revolução Federalista fez do fuzilamento de priosioneiros um instrumento de "ordem e progresso", encontrou o dele nas mãos dos "reacionários" de Canudos, a nossa Vendeia...
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Moreira_C%C3%A9sar

O "progressista" Moreira César escreveu a página mais vergonhosa da história do Exército Brasileiro: um oficial positivista, portando armamento moderno, ser derrotado por um bando de jagunços fanatizados de peixeira na mão.

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