Você está entrando no Diário Gauche, um blog com as janelas abertas para o mar de incertezas do século 21.

Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

domingo, 21 de setembro de 2008

II - Por que o Rio Grande do Sul é assim


A guerra civil de 1893-95

O Rio Grande do Sul entrou na fase do conflito armado a partir de fevereiro de 1893. A guerra civil durou exatos 31 meses, até agosto de 1895. Morreram cerca de 12 mil pessoas, numa população estimada de um milhão de sul-rio-grandenses.

É considerada a mais bárbara das revoluções americanas, não só pelo número de mortos, mas pela brutalidade e extensão do conflito que incluiu a eliminação quase completa dos prisioneiros, que eram degolados (na foto, o célebre degolador Adão Latorre exibe a sua perícia macabra) impiedosamente pelo adversário, de ambos os lados. Existem relatos de que cerca de trezentos prisioneiros de determinada batalha tenham sido degolados após cessados os combates. Não existiam prisioneiros de guerra, neste sentido.

A guerra civil de 1893 resultou do conflito de dois setores bem identificados da elite político-econômica sulina.

De um lado, os federalistas (ou maragatos, ou quero-queros, ou gasparistas), de outro, os republicanos (ou chimangos, ou pica-paus, ou castilhistas).

De um lado o retórico, vaidoso e tagarela Gaspar da Silveira Martins, que segundo o insuspeito historiador oficialista Darcy Azambuja, não tinha “maiores preocupações doutrinárias” e o máximo de pensamento a que alcançou resume-se numa frase tola: “idéias não são metais que se fundem”.

De outro, Júlio de Castilhos, um convicto positivista comtiano, liderança forte e com objetivos definidos, marcado por planos universalizantes do papel do Estado e sobretudo pela busca da modernização das relações sociais, tudo isso embalado numa personalidade austera e incorruptível, uma espécie de Robespierre pampeano.

Todos sabem que venceu o grupo castilhista, representado pelo Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Castilhos foi sucedido em 1898 por Borges de Medeiros, da mesma linhagem castilhista-comtiana, que saiu do poder somente em 1928. A revolução de 93 ainda teria recaídas em 1923 e 1924, sempre com os mesmos antagonistas de classe e os mesmos motivos sócioeconômicos e de poder.

Que rivalidades tão profundas eram essas?

É o velho e eterno embate entre o moderno e o arcaico. Curiosamente, um líder saído deste “laboratório” meridional da modernidade brasileira, Getúlio Vargas, um militante do PRR, é que vai promover a partir de 1930 um novo Brasil, mais ajustado às exigências do século 20.

No Rio Grande do Sul, no final do século 19, se gestou, então, com muita dor e sangue, o que viria a ser o País em grande parte do século 20, pelo menos – segundo alguns estudiosos – até o advento de Collor e Fernando Henrique, que cortam em definitivo as amarras sócioinstitucionais criadas e mantidas pela Era Vargas (1930-1954).

A vanguarda republicano-castilhista-borgista (chimangos) fez a parte da revolução burguesa no País. Florestan Fernandes diz que “a Revolução Burguesa [brasileira] não constitui um episódio histórico” definido singularmente, marcado e datado. O caso brasileiro, segundo Florestan, foi um longo processo de absorção de “um padrão estrutural e dinâmico de organização da economia, da sociedade e da cultura”.

Já no Rio Grande, a revolução de 1893 é o ponto – sim – inaugural da revolução burguesa e modernizadora na região mais meridional do Brasil.

Continua amanhã...

6 comentários:

Malu Pedroso disse...

Obrigado pela importante contribuição. Acompanharei (assim como meus alunos) as postagens deste resgate histórico que, por certo, a contar pela fotoneste post, não receberá as cores pastéis tão comuns.

Carlos Eduardo da Maia disse...

É muito complicado fazer comparações entre épocas. As lentes são outras, são outros pontos de vista. Outros contextos. A história definitivamente não se repete. O Rio Grande e o Brasil são hoje completamente diferentes da época de Castilhos, Borges e Vargas. O que era importante num determinado momento histórico deixou de ser em momentos posteriores. Se antigos líderes criaram certas leis para aquele momento histórico não significa que os novos governantes não possam revisá-las, flexibilizá-las, aperfeiçoa-las. Aliás, eles devem fazer isso.... Devem sempre fazer isso. Mas os conservadores não permitem, lembram do passado para impedir as reformas do futuro. Isso é triste.

ju disse...

Maia, o rei do lugar comum e da chatice.
Dá um tempo, cara.

mário casado disse...

12 mil pessoas em 1 milhão é como 120 mil pessoas em 10 milhões, hoje. É muito povo.
Proporcionalmente deve ter morrido mais do que na revolução Francesa, estou certo?

Ary da Silva Martini disse...

Desse episódio da degola coletiva (os 300!), diz-se que os prisioneiros foram colocados numa mangueira e, ao saírem, iam sendo degolados, um a um. A civilidade de um povo também é conhecida pelo seu comportamento na guerra. Por falar nisso, não tem como mudar o patrono do Exército?

Luís Guedes disse...

Os méritos e deméritos de Castilhos são uma coisa. Mas qual a alternativa à época? O "grande" Silveira Martins e seus democráticos métodos? Sei não...Caro Cristóvão: que terra é esta na qual quem ganha, perde e quem perde,ganha?

Contato com o blog Diário Gauche:

cfeil@ymail.com

Arquivo do Diário Gauche

Perfil do blogueiro:

Porto Alegre, RS, Brazil
Sociólogo