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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

domingo, 24 de agosto de 2008

Poeta 94


Faça como se estivesse em casa

Um esperança construiu uma casa e colocou-lhe um azulejo que dizia: Bem-vindos os que chegam a este lar. Um fama construiu uma casa e não colocou azulejo nenhum. Um cronópio construiu uma casa e seguindo o hábito colocou no vestíbulo diversos azulejos que comprou ou mandou fabricar. Os azulejos eram dispostos de maneira a que se pudesse lê-los em ordem. O primeiro dizia: Bem-vindos os que chegam a este lar. O segundo dizia: A casa é pequena, mas o coração é grande. O terceiro dizia: A presença do hóspede é suave como a relva. O quarto dizia: Somos pobres de verdade, mas não de vontade. O quinto dizia: Este cartaz anula todos os anteriores. Se manda, cachorro!

Julio Cortázar (1914-1984)

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Terça-feira próxima, 26 de agosto, Julio Cortázar (foto) se vivo fosse estaria completando 94 anos de idade.

Para ele, o nome das coisas nem sempre identificam o que está nomeado, às vezes é preciso virá-las do avesso para encontrar o seu significado. A “democracia” é uma dessas coisas-nomes-palavras. São quase cem anos de cronópios, famas e esperanças – os abstratos personagens mais caros do grande escritor, também chamado de Che Guevara da literatura (não me perguntem a razão).

Cortázar de fato foi revolucionário na sua narrativa, sempre procurando enxergar o mundo com olhos de poeta, embora vertendo em prosa os cenários mais estranhos contados por objetos familiares – copos, chaves, azulejos, cadeiras, velas. Tudo motivo para denunciar o absurdo da existência dentro do sistema-mundo.

Na sua obra O livro de Manuel (1973) denuncia os horrores da ditadura militar argentina. Cortázar era um argentino nascido acidentalmente em Bruxelas, mas um cidadão do mundo, um internacionalista da cepa. Amava as mulheres, a literatura, o jazz e, claro, a humanidade – suas mais saudáveis obsessões.

Na novela Rayuela (1963) o jazz é quase um personagem autônomo na história. Por isso, vamos lembrá-lo hoje com um clássico do jazz: Take Five, do não menos genial Dave Brubeck (e seu quarteto), em apresentação de 1966. Curta aqui.


3 comentários:

Tomás Rosa Bueno disse...

Houve um tempo, há muito tempo, em que tudo o que eu queria na vida era ser Cortázar.

Ricardo Mainieri disse...

Pena, ainda, faltar alguns Cortázar para completar a minha coleção.
Este livro sobre a ditadura argentina é um deles.
Cortázar além de genial era um amante das boas coisas da vida: mulheres e jazz
E Dave Brubeck é um dos criadores do third stream, no disco Time Out, com seus compassos exóticos, uso de música do mundo e, sempre, uma linda melodia de fundo.

Ricardo Mainieri

Carlos Eduardo da Maia disse...

Gosto de Cortázar e de Take Five, falta apenas um bom Malbec....

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