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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Gefreiter Mendes e a República de Weimar



Afinidades eletivas

A homenagem ao cabo Valdeci, morto em conflito entre soldados da Brigada Militar e o MST na Esquina Democrática, após dezoito anos do fato, é sintoma da persistência de processos de longo curso na história brasileira.

Em nome de uma paz abstrata reforça-se o espírito de conciliação, caro às elites brasileiras, e se procura criminalizar movimentos sociais, como o MST, cuja pauta de lutas encontra suas raízes mais profundas na questão agrária sempre discutida e irresolvida desde a abolição da escravatura.

Em que pese os modestos resultados conseguidos a muito custo, mais pela compra de terra, do que pela expropriação, a resistência sempre foi feroz. Basta se examinar a lista infindável de assassinatos no campo.

A modernização capitalista no Brasil segue o modelo prussiano de desenvolvimento. Daí as similitudes possíveis com a República de Weimar (1919-1933), proclamada após a derrota alemã na 1ª Guerra, portadora de promessas que ficaram a meio caminho devido a conciliação da social democracia com os interesses econômicos conservadores, a timidez em enfrentar seus representantes encastelados no Judiciário, no Exército e na Polícia. Passado o momento crítico de enfrentamento da ala esquerda (Rosa de Luxemburg, Karl Liebknecht e outros) e algumas aventuras direitistas fracassadas entre as quais a tentativa de sublevação fascista em 1923, a Alemanha, entre 1924 e 1929 atingiu níveis de desenvolvimento (apesar do endividamento da indústria e da política de reparações), similares ao norte-americano. A crise de 1929 quebrou em definitivo as ilusões, propiciando a aproximação entre as elites burguesas e o movimento fascista, em ascensão.

O resultado é sabido. Diga-se, a bem da verdade, que a bolchevização do PC alemão impediu-o de compreender a complexidade da situação.

A história brasileira, nas suas devidas proporções, possui analogias com o processo alemão, a contar da redemocratização brasileira, em meados dos anos oitenta. Euforia econômica cíclica, daí o eterno debate sobre a sustentabilidade, a imensa dificuldade das elites em partilhar o que seja, uma democratização truncada, modestos avanços sociais do atual governo (vistos como uma ameaça populista), uma elite estamental burocrática defendendo sem nenhum pejo privilégios pré-burgueses ( para tanto basta uma leitura das últimas decisões do Supremo na defesa de seus pares de classe), e o que é grave, a compreensão conveniente por parte de setores do Exército (que parecem hegemônicos) de que a anistia incorporaria crimes como tortura, que mesmo no regramento arbitrário da ditadura não era admitida.

Assim, a homenagem ao cabo Valdeci é simplesmente o efeito provinciano de dilemas nacionais irresolvidos, com um agravante: a relativa autonomização de setores policial-repressivos do Estado, algo em esboço no plano nacional, que poderá ou não frutificar na medida do grau de conciliação e do temor de setores burgueses frente a perspectiva de ampliação da cidadania. O estado de exceção constrói-se paulatinamente, mobilizando-se o medo e a insegurança coletiva em nome da paz dos cemitérios.

Mas de que decorre a relativa autonomização? Do silêncio e da pusilanimidade das autoridades.

A homenagem foi resultado da iniciativa do Gefreiter Mendes, da pusilanimidade do Secretário Municipal de Cultura, Sergius Gonzaga, e do Conselho respectivo, que “corajosamente” consentiram a construção do mini-obelisco a trinta metros da Esquina Democrática. Nenhuma palavra balbuciou a governadora tucana, constitucionalmente comandante-em-chefe da Brigada e tão pródiga em palavras na “defesa” de sua honra. E o que esperar do prefeito Fogaça?

Como disse a digna viúva do soldado Valdeci (que não compareceu à dita homenagem) em entrevista: “a homenagem foi para fazer mídia”.

Fica claro que, para se constituir uma sociedade que aceite paulatinamente o fascismo é necessário como primeiro passo degradar e envilecer as almas.

Artigo do professor alemão Franz Neumann, especial para o blog DG.

.......

Nota do blog: Gefreiter significa cabo, em alemão. O autor faz alusão ao Gefreiter Adolf Hitler que lutou na Primeira Guerra Mundial. Na década de 20 e início dos anos 30, alertados pelo risco da ascensão da ultradireita, a burguesia, os setores liberais e a social democracia desqualificavam Hitler dizendo que ele fora apenas um Gefreiter, e que jamais poderia colocar em risco a democracia representativa alemã.


10 comentários:

Anônimo disse...

Alívio, o Prof. Neumann está ativo e operante e a Hanke já voltou as atividades acadêmicas?

Anônimo disse...

Entretanto, fora o Rio Grande do Sul, o Brasil não tem problemas. Exceto os causados pelos gaúchos.
Tarso Genro deveria fazer o que qualquer gaúcho honrado faria, depois de levar uma descompostura do chefe e ter que ir até a imprensa e até os blogs para colocar um ponto final no seu desejo de reescrever a Lei da Anistia. Deveria honrar as bombachas e pedir demissão do cargo, pois saiu mais por baixo que umbigo de cobra. Perdeu completamente a credibilidade junto ao governo que serve e junto à opinião pública. Provou que é como tosa de porco: muito grito e pouca lã. Pede pra sair, Tarso, mas fica aí por Brasília, que o Rio Grande já te conhece.

Paulista

Carlos Eduardo da Maia disse...

O viés espartaquista - e eles nunca foram santos - do Prof. Neumann é evidente. A intolerância acabou com a república de Weimar. Deram chance à intolerância dos dois lados - da direita e da esquerda - e o nazismo venceu. O cabo Valdeci morreu como Rosa de Luxemburg. Foram as mãos da intolerância que os mataram. E quando se faz uma homenagem aos mortos, os defensores da intolerância vem criticar o consenso, o pacto, a convergência social. O importante no Brasil é fazer uma reforma agrária do século XIX custe o que custar. Compra de terras? Para quê? O fundamental é que haja litígio, que haja briga, porrada, que a burguesia dos poderosos perca suas propriedades e suas posses, sua grana e talvez sua cidadania e liberdade. É assim que deve caminhar a humanidade, segundo os intolerantes: na direção do litígio, da controvérsia, do antagonismo social porque uma coisa é absolutamente certa: o mundo gira de acordo com a velocidade da luta de classes. Isso sim é inquestionável e quem ousar duvidar dessa assertiva é burro, asno e anta. E viva o museu das velhas novidades.

mariorangelgeografo.blogspot.com disse...

Novamente ele: Maia energúmeno...

Que intolerância matou o cabo Valdeci?

Me lembro da época, quando um reporter ouviu de um graduado, comandante do conflito: "pornto, ganhamos a eleição"...

"E quando se faz uma homenagem aos mortos, os defensores da intolerância vem 'criticar o consenso', o pacto, a convergência social", diz o energúmeno.

Pergunta: Que "consenso"?

Que "pacto"? Que "convergência social"?

Anônimo disse...

Quanto ao comportamento de parcelas do Exército, na briga de rua, para que não se julgue torturadores, ressalte-se a manifestação de juristas, juízes e advogados em apoio à necessidade de se fazer justiça, julgando os que nos trouxeram agonia.

"Não se pode esquecer o que não foi conhecido".

armando

Anônimo disse...

Se mais motivos não houvesse para que a esquerda aceite a anistia ampla, geral e irrestrita que tanto pregaram, há o fato de que o Estado brasileiro já comprou e está comprando o perdão de quem possa ter sido prejudicado física ou moralmente durante o regime de exceção, implantado para defender o Brasil do comunismo internacional (sim, naquele tempo ele existia). Foram mais de quatro bilhões de reais. Os terroristas, guerrilheiros e assaltantes de bancos - verdadeiros mercenários a serviço de organizações internacionais - venderam o seu passado "revolucionário"e o seu "amor à pátria e à democracia" por centenas e centenas de milhares de reais. Já foram reparados física e moralmente. Não vi nenhum chegar na frente do juiz e recusar as moedas que lhes foram atiradas. Agora querem rever a Leia da Anistia? Então devolvam o que cobraram, devolvam o perdão que venderam a peso de ouro, com juros e correção monetária.


Elias

Anônimo disse...

Só uma ser atormentado pela demência poderia dizer que o cabo Valdeci, morreu como Rosa de Luxemburgo. O que a vontade de enganar não faz.

Primeiro como agora a PM se alvorota em defender a ordem, a ordem dos opressores, e se comporta oprimindo.

É bom lembrar que o problema é que gente como o Maia, nazistas ferrenhos, emperram qualquer tentativa de reforma agrária. Depois, estes sim intransigentes e violentos querem reprimir os que querem fazer.

E não esqueçam também que Reforma Agrária não é só compra de terra, tem a questão da produtividade. Esta sim esles querem calar a ferro e fogo. Depois posam de vítimas. Vitimas armadas.

Isto é mais que burrice, é hipocrisia, e deslavada.

Claudio Dode

Anônimo disse...

- ACHAM GRATUITO O QG DA BRIGADA MILITAR ESTAR DO LADO DO QG DO III EXÉRCITO OU COMANDO DO SUL (CÂMBIO TUCANÊS)??? E O RANÇO PRINCIPALMENTE O PESSOAL DE PIJAMA?? É O EXÉRCITO YANKEE DE OCUPACÃO. QUAL A DIFERENÇA DE BUSH E O "CABO"MENDESS?? NENHUMA . OS DOIS SÃO LOUCOS E AMBOS BURROS. SÓ QUE UM É PRESIDENTE E O OUTRO É NADA . FISICAMENTE, O CABO" É BARRIGUDO E RECEBE MAIS QUE SEU CHEFE, GENERAL DE BRIGADA.

Anônimo disse...

Sim. 70 milhões de hectares para a reforma agrária já foram desapropriados e só falam em orgânicos de feirinha nas cidades.
Recebem bolsa familia e não produzem para seu sustento. Não pode , o governo Lula, desapropriar mais terras para colocar pessoas de cidade, que nada conhecem de agricultura, para ganhar terras.

É pura manipulação dos "gerentes de ONGs" que mantém este movimento.

Castilho

Anônimo disse...

Lei da Anistia ainda que outorgada pelo general de plantão de então, não cobre ou perdoa a tortura, crime imprescritível, pela CF e pelos tratados internacionais, dos quais o Brasil é signatário. A luta da esquerda, qualquer delas, pode ser considerada como "crime político", já a tortura é crime de lesa-humanidade. Simples assim.

armando

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