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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

"Jornalismo" adubado


Consórcio RBS/papeleiras quer fazer a cabeça do senso comum

Vai de vento em popa o consórcio RBS/papeleiras no Rio Grande do Sul. O jornal Zero Hora vem publicando uma série de matérias interessadas que visam ajudar a dissolver resistências simbólicas à expansão descontrolada da monocultura extensiva do eucalipto na Metade Sul. Como não há a menor oposição do poder público estadual, o consórcio trata agora de colonizar – de forma intuitiva - o imaginário do senso comum sul-rio-grandense.

Na construção de um novo mito não se omite nada, mas tudo se deforma. Assim, a função de ZH é falar do progresso (outro velho mito de guerra) trazido pelos eucaliptos. De um progresso purificado, redentor e inocente, onde há uma clareza não de explicação (como diz Barthes), mas de constatação. Como ser contra este cenário bucólico e pastoril de inocentes vaquinhas comendo à sombra de vastos maciços verdes de eucalipto? A intenção subjetiva é fazer com que as coisas percam a lembrança da sua produção.

A naturalização das imagens faz o senso comum esquecer a história da sua origem. Já não há mais papeleiras, há a silvicultura. Quem é contra o verde? Já não há mais monocultura extensiva, há esperança num futuro radioso. Já não há desequilíbrio ambiental, há emprego para todos. Já não há mais a devastação do que resta do bioma Pampa, há renda e consumo para todos. A extinção das espécies interdependentes – animais e vegetais – já não irá ocorrer, pois é apenas um sortilégio agourento dos inimigos do progresso e da harmonia entre os homens de boa vontade. É sensível e comovente: quase se ouve o batucar da esperança no peito dos mansos e humildes de coração.

A operação colonizadora do consórcio predatório RBS/papeleiras não é discursiva. É uma operação intuitiva que apenas constata de forma direta e imediata, sem explicar ou categorizar. Por isso é uma operação pedestre, no chão raso do assunto, sem qualquer mediação. E por isso precisa abolir o pensamento e sonegar o real.

Quem disse que não existem mais contos de fadas? ZH nos conta um, hoje. Com outros personagens, outros símbolos e o mesmo futuro encantado e risonho para todos.

24 comentários:

Anônimo disse...

Diante da preocupação deste blog com o ambiente e o Pampa, pergunto se não fará nenhuma análise sobre a chegada da cana-de-açucar ao RS, que teve inicialmente 785 mil hectares plantados (o dobro da área das florestas das três empresas que tanto citas).
Caberia ao menos uma avaliação do impacto ambiental da cana, muuito mais agressiva que o injustiçado eucalipto. A grande imprensa ainda não se deu conta disso. E o blog, continuará sendo pautado pela Zero Hora ou tem como abordar isso?
ZeMario

Cristóvão Feil disse...

Prezado Ze Mario,

Este blog faz a contra-pauta de ZH e do PIG, portanto não somos "pautados pela Zero Hora".

Também não somos pautados por celetista pau-mandado de papeleira ou sistemista/prestador de serviço/fornecedor/comprador/atravessador de papeleira.

Sugira a pauta acima aos repórteres investigativos do PIG. Ou compre um espaço na mídia amiga, e use-o como melhor lhe aprouver.

Saudações!

CF

Anônimo disse...

Obrigado pelo esclarecimento,

Gostaria também de esclarecer que não sou celetista nem funcionário de papeleira. Sou pau-mandado da minha consciência, sem atrelamento com partidos ou políticos, ONGs e organizações-financiadas-não-se-sabe-por-quem-e-para-que-propósito.
Mas sua resposta deixa claro que há dois pesoas e duas medidas em se tratando da questão ambiental no RS.
Se tivesse real preocupação com o Pampa, abordaria a questão dos 785 mil hectares de cana-de-açucar, mas nem resposta teve.
Lamentável para um sociólogo não ver o todo.

ZM

claudia cardoso disse...

ZH "esquece" das denúncias de trabalho escravo; "esquece" que os contratos são de 7 anos; "esquece" que o bioma pampa não combina com planta exótica; "esquece" que a "silvicultura" seria permitida no RS, mas em outra região do estado, de acordo com estudos da Fepam; "esquece" que, antes de tudo, é preciso preservar a água.
Aliás, deveria haver lei que pusesse na cadeia inimigos da pátria!

Carlos Eduardo da Maia disse...

Na "democrática" Cuba existe lei que põe na cadeia os inimigos da pátria. E Cuba ficou atrás do Brasil nas Olimpíadas. POdem falar tudo dos eucaliptos, mas está sendo a salvação da lavoura da metade sul, a região menos desenvolvida do RS. Falei outro dia com uma pessoa de Barra do Ribeiro, quem faz circular capital, gera emprego e impostos naquela região é a Aracruz e certa esquerda quer banir esse tipo de investimento, para colocar o quê em seu lugar?

Anônimo disse...

Seu Maia, essa gente quer colocar favelas rurais na região sul do estado.

Assim é fácil garantir o bolsa-voto-família.



Daniel Lopes

Carlos Eduardo da Maia disse...

Infelizmente, Daniel, estou chegando a essa triste conclusão. Parece não interessar a certa esquerda que o RS ou o Brasil se desenvolva econômica e socialmente. Não interessa a certa esquerda a inclusão social, a inserção das pessoas no contexto classe média. Isso não interessa. O que interessa é o aumento da pobreza, o aumento da exclusão social, o aumento das favelas, dos miseráveis, porque assim o discurso anticonciliatório e antimercado possa, enfim, ser ouvido. Quanto mais inserção social menos chance certa esquerda vai ter para alimentar antagonismos sociais. Infelizmente, estou chegando a essa triste conclusão e por isso ideologia é mesmo uma grande m....

Anônimo disse...

O Maia poderia ter lido só guia dele PZh para ver que tamanho é a mentira de geração de emprego. A PZH relata que 186 são empregados no plantio, e parte deles são pequenos agricultores que estão abandonados em suas terras que o desgoverno da yeda deixa a mingua.
Então que grande geração de empregos que existe?

Circulação de dinheiro? que dinheiro deles circula pela zona sul? o salario desta troupe de 180 explorados? As mudas eles produzem, os outros insumos são de grande multinacionais, que dinheiro circula pela zona sul? Tudo mentira e com rabo curtíssimo.

Na verdade a elite branca, e latifundiária é que nunca deixou o Brasil crescer. E o boçal do Maia vem coma insinuaão que oisto é interesse da esquerda.

Este é o interesse e objetivo de uma certa direita, que ele faz parte e defende com estas enganações.

Claudio Dode

Antonio Cavalcanti disse...

Lendo um pouco mais o que escreve o Feil, percebo a sua intransigência e, no caso da resposta acima, falta de equilíbrio e educação. Não sabe conviver com opiniões diferentes da sua e desrespeita quem o "importuna" com qualquer provocação. E não respondeu o que o anônimo colocou em pauta. Que feil redator!!!!

fernando disse...

Maia,

Posso até torcer que dê certo, mas eu sei (ou acho) que vai dar errado. Aliás, eu não "torço", assim como a "elite intelectualizada" que tu tanto falas também não deveria torcer, e sim analisar a realidade, ter opinião e propor alternativas. Não é uma questão subjetiva meu caro, não é uma disputa entre times de futebol, não seja mau caráter e desonesto a esse ponto.
Por fim, tu como bom defensor do mercado deves ter investimentos na bolsa, como estão? Tá bem na foto? hahaha

fernando disse...

Agora para o dr maia, que acha que as soluções dele são equivocadas e não vão gerar o benefício por ele imaginado, é alguém q tem interesse ma miséria. Realmente oq botar no ugar da Aracruz, não existe saída, só existe um caminho único...positivismo de quinta categoria... Pois bem seu maia, para mim a sua "ideologia" - stricto sensu, não como visão de mundo e sim propagação de falsa consciência, pois a sua o é, é que gera miséria, pobreza, etc, etc. Seu ideólogo de M! Seu democrata de M! Por isso que a direita é uma grande M!

Anônimo disse...

E que tal plantar cana-de-açúcar no pampa? Plantio mecanizado para não ter problemas com trabalho escravo.

O nosso rei Lulla consegue vender todo etanol mundo afora.

Cacildo

Ambientalista disse...

Nossa
Vim aqui ler os comentários, mas me arrependi e perdi meu tempo...
Mesmo assim, deixo aqui uma constatação que a questão das papeleiras transcende ideologias de esquerda ou direita. A classe política de qqer viés está mamando com esses investimentos.
A questão das papeleiras não é decidida pelos réles partidos do nosso réles Brasil. Isso é algo maior, decidido e orquestado em outros planos (desse mundo, obviamente)...O alvo é a America Latina e seus vastos pampas. Agora se o governo é de direita o de esquerda, tais corporações usarão as artimanhas que convierem para assim se estabeleceram
No nosso caso, com uma desgovernadora e sua trupe de falcatruas e com um PIG mais que estabelecido tá sendo mais fácil...
Mas nosso movimento ambiental tem resistido e lutado contra a venda do nosso pampa, do nosso solo, da nossa água, da nossa vida...

Anônimo disse...

Acreditam em Papai Noel ?
Acreditam nas papeleiras aqui na metade Sul ?
Se aqui está ruim, vamos tentar o que não presta para ver se melhora, não é mesmo ?
Afinal quem dá mais ?
Vendilhões da Metade Sul.
Seu Deus é o Mercado.
E tem gente que acredita nos moleques dos recados da Voz do Dono.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Ninguém aqui está defendendo o mercado absolutamente livre. Mercado é fato social, mas deve ser sempre controlado e fiscalizado por um estado democrático. Mas se existe uma região em crise, metade sul do RS, e existe uma alternativa econômica que gera emprego, renda, imposto etc... não há como menosprezar esses aspectos. Não vamos fazer como o governo Olívio Dutra e seu secretário da agricultura de triste memória (onde afinal ele anda????) que era contra os transgênicos apenas porque era contra os transgênicos.

Anônimo disse...

O blogueiro está devendo resposta sobre a cana de açucar e seus impactos. Mas pelo jeito a preocupação ambiental com o "Pampa" é apenas fachada.

Mas vejam este caso. No Espírito Santo, ONGs acusavam a Aracruz de ter "tomado" terra de índios no Espírito Santos". Vejam o que aconteceu: A Funai deu 1 milh~/ao para os índios, gastaram tudo e querem mais. Para pressionar, impedem a empresa de retirar seus eucaliptos.
Quem é mais correto, os índios, a Funai ou a empresa?

ZeMario
A matéria da Folha de S.Paulo de hoje:

"Cerca de 350 funcionários da Aracruz Celulose estão impedidos há uma semana, segundo a empresa, de retirar eucalipto em uma área de 11 mil hectares em Aracruz (92 km de Vitória) que pertencia à empresa e foi declarada terra indígena em agosto do ano passado.

Na última terça-feira (19), um protesto que reuniu aproximadamente cem índios guaranis e tupiniquins interrompeu a retirada de madeira prevista num TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado entre a Aracruz, os índios e a Funai.

Com a manifestação, a companhia desmobilizou pessoal e equipamentos que se encontravam na área de colheita.

O termo prevê que a empresa tem direito a retirar a madeira do local, num prazo de 120 dias --contado a partir de 17 de julho-- como forma de indenização. Somente após a conclusão desse trabalho é que os índios podem "assumir" a área.

Os índios protestam contra a interrupção do repasse de verbas do governo federal para a implantação de projetos na área, que corresponde a 13,2 mil campos de futebol.

Segundo Maria de Fátima Oliveira, do posto da Funai na região, a suspensão ocorreu porque os índios supostamente gastaram de maneira incorreta o primeiro R$ 1 milhão destinado. Faltam R$ 2 milhões.

De acordo com o cacique Cesenando Tupiniquim, da aldeia Caieras Velhas, os índios gastaram a verba conforme a Funai recomendou. "Eles não quiseram aprovar a prestação de contas. Disseram que havia dinheiro para consumo, outro para bens permanentes", diz.

A Aracruz, que no primeiro mês estima ter colhido 27% da madeira, afirma que interrompeu a retirada por haver "insegurança" e para evitar conflitos. Diz que, se a situação não for resolvida em breve, as máquinas terão de ser retiradas do local "para evitar furtos", numa operação que, estima, pode custar R$ 4 milhões.

"Já estamos tendo prejuízo cortando árvores de três anos que levariam sete para atingir o ponto ideal. Agora fomos surpreendidos pela suspensão dos trabalhos, porque os índios disseram que não podíamos continuar lá. Não queremos criar conflito e saímos da área", diz Carlos Alberto Roxo, diretor de sustentabilidade da Aracruz.

A Funai em Brasília não se manifestou na segunda-feira (25).

(Por Matheus Pichonelli e Cintia Acabayaba, Agência Folha, Folha Online, 26/08/2008)

Anônimo disse...

Para Claudia Cardoso,

Se a tua preocupação são produtos exóticos, pare de consumir arroz, feijão, milho, soja, trigo, gado, ovelha, frangos. É tudo exótico.

Queres consumir porodutos nativos no RS?
Mandioca e erva-mate. Só

Preservar a água?
Você sabe como são os plantios de arroz? Vá conhecer e depois tente estabelecer uma comparação, coisa que especialistas em crustáceos não fazem.
Aliás, será que o ecossistema não deve ser levado em conta nesta relação. Ou o ambientalismo míope acredita que um conjunto de árvores é suficiente para causar déficits hídricos?

Gente, vão estudar antes de dar palpite furado.

ZeMario


ZeMario

Anônimo disse...

Ô Cavalganti:

A questão não é saber "conviver com opiniões diferentes da sua e desrespeita quem o "importuna".

Não me venha com esta hipocrisia toda!

O que não para aguentar é esta arrogancia com que, vocês da direita querem discutir só na órbita do "fora do mercado só existe burrice".

E depois se acham ofendidos!

Quer discutir e respeitosamente primeiro tem de descobrir que existe outros pensamentos que não o de vocês.

E que o Maia e seus companheiros neste trabalho, que usa contantemente de meias verdades, mentiras, e insinuações a honra e honestidade de pessoas que pensam diferente dele, ou defender esta direita, por mais bandida que seja.

Na verdade eu quero é que me respondam onde é que estão os empregos que mentirosamente apregoam? Que dinheiro de papeleira está circulando que não o de compra de terras?

Aliás voces só estão querendo legitimar o "trabalho" que a PRBS vem fazendo para as papeleiras.

Claudio Dode

Anônimo disse...

Para uma certa direita:

A ZH no trabalho de vender a imagem das papeleiras escreveu hoje pelos seus "educados" jornalistas de aluguel:

" Enquanto a lei impede estrangeiros de comprar terra na faixa de fronteira sem autorização de Conselho de Defesa Nacional ameaça os investimentos da Stora Enso..."

Se não fosse triste e vergonhoso seria hilário.

Não é a Stora Enzo que ameaça a lei. A lei que ameaça a Stora Enzo.

A Stora Enso vem aqui estupra a lei e quem é a ameaçada é ela.

Terra arrasada e quem manda é ela, não tem lei que não seja a favor do interesse deles.

Certa direita antes de exigir educação (que significa concordância com eles) deveriam ter é vergonha na cara.

Claudio Dode

Anônimo disse...

Canalha, canalha, canalha!

Anônimo disse...

A dieta GAÚCHA (100% nativa) pode incluir também butiá e pinhão

Anônimo disse...

Ô Anônimo Canalha:

O que eu estou dizendo, e reafirmando que esta conversa que as papeleiras vão gerar emprego e renda na zona sul é mentira, que vem sendo repetida por uma questão ideológica...

Vou repetir o unico dinheiro que vai circular é o da compra das terras.

De cada terra que compram tem um "empresário rural" desempregado, e mais os que cuidavam da terra para ele, já que fazendeiro não trabalha nem vive no campo. Só aí já tem mais desempreagos do que os 100 - 200 empregos que vão criar as papeleiras.

Vamos discutir? vamos. Mas argumentando e sem chavões e mentiras largadas em série pelo PIG, em especial o PRBS.

Claudio Dode

fernando disse...

Quem defendeu o nosso modelo de plantio de arroz??? Não entendi da onde saiu a discussão...
Realmente rotação de culturas, sustentabilidade, impacto ambiental e social, não passa de um bablabla ideológico...

Giovani Montanher Madruga disse...

eu acredito que as perguntas a serem feitas são:

1- esse é o desenvolvimento correto para a metade sul?

2- essa é a única forma de desenvolvimento da região?

gostaria de ver tais questões amplamente discutidas, porém os técnicos da área ou se escondem ou não são contactados e aqui preferem ficar sempre naquele conversinha de direita-esquerda/esquerda-direita.....

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