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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 6 de novembro de 2007



O leite, o dinheiro e o Estado

Vejam como são as coisas. Duas mercadorias, leite e dinheiro [que é "a vida do que está morto (força de trabalho alienada na mercadoria, e transformada em moeda) se movendo em si mesma"; na genial e sintética poética-noir de Hegel].

Dias atrás, a Polícia Federal estourou uma gráfica clandestina que fabricava, não se sabe pelo método fordista ou toyotista, dinheiro, papel-moeda.
Eu acho esse negócio de fabricar dinheiro o máximo do espírito objetivo, o cúmulo da concretude, o pragmatismo mais refinado e apurado, a síntese de todas as vigarices. Enquanto, neguinho fica fabricando imitação de Rolex, de uísque, de tênis Nike, o escambau, os caras vão logo e imitam o príncipe das mercadorias - o dinheiro. Ligação direta. Mora aí um inegável conteúdo subversivo, que precisa ser melhor estudado, nisso de imitar a imitação da representação da mercadoria - que é força de trabalho roubada. Portanto, ladrão que rouba ladrão...

Mas vejam como são as coisas, dizia eu. Gráfica de dinheiro não dura 90 dias, polícia estoura, prende todo mundo, liquida em questão de minutos. Tudo vira pó de traque. Claro, é um crime contra o deus do mercado. Equivale à bruxaria no medievo, imprecação contra deus, apostasia de milhares de deuses paralelos e concorrenciais. Não pode. Fogo purificador nos ímpios.

Já fraude no leite, pode. Eu vi na televisão um sujeito afirmar que havia denunciado fraude no leite há vinte anos atrás. Esse mesmo batismo de soda, água oxigenada, etc. Vinte anos!

Isto posto, arrisco a dizer que tem pessoas com trinta anos de idade que jamais experimentou leite puro, integral, não-batizado. Uma geração de brasileiros que não conhece leite, mesmo.

E os basbaques neoliberais ainda vem dizer que temos Estado de mais no Brasil. O professor Cardoso dedicou oito longos anos de sua decadente vida a desmontar o Estado varguista. Conseguiu sucesso parcial.

O leite e o dinheiro são provas de que o Estado funciona de forma seletiva e segundo uma ótica de classe (estou dizendo o óbvio do óbvio, mas para muita gente, é como dizer uma ofensa).

O leite é de consumo horizontal e popular, logo, pode deixar proliferar a vigarice, a fraude, a pilantragem. O dinheiro é uma mercadoria fetiche, dodói da casa-grande e dos donos do poder, logo, a repressão do aparelho estatal é pronta, eficiente, e cirúrgica.

Coisas da vida.

6 comentários:

Kayser disse...

Por coincidência, tenho uma charge semi-pronta a esse respeito. Em breve, no Blog do Kayser...

Juarez Prieb disse...

A ilustração dos gatos é perfeita. Os gatos naturais gostam de leite. Os gatos metafóricos gostam de dinheiro - dos outros.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Eis aqui uma pérola do pensamento caduco: dinheiro como imitação da representação da mercadoria - que é força de trabalho roubada. Portanto, ladrão que rouba ladrão...
O homem branco pensa que estamos no século XIX.

armando disse...

Essa é a nossa desgraça, seu Maia. Cronológicamente, estamos no século XIX, mas práticas são as mesmas, nada mudou no front. O "deus ex machina" do mercado continua "regulando" tudo em benefício de poucos e, para isso, vale tudo, de matar com leite envenenado, crianças, a derrubar aviões sem revisão e com excesso de passageiros...

armando disse...

Maia, leia a nota abaixo. Esse é o mercado idolatrado e amado pela minoria privilegiada que adora o Estado pequeno e via Estado de Direito, garantindo seu quinhão.

... o lucro do Itaú em nove meses de 2007, de R$ 6,444 bilhões, já supera o lucro anual (em 12 meses) de qualquer banco brasileiro de capital aberto nos últimos 20 anos.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Prezado Armando, o lucro da Petrobrás vale por zilhões de bradescos e itaú que também maquiam (com muito botox) seus balanços para cativarem os investidores. O importante é que a notícia saia no jornal, o último lucro é sempre o maior, um bom e sólido banco para se investir. Publicidade maquiada que gera dividendos. A velha picaretagem de sempre. E tudo se resume na eterna discussão sobre o estado que tem sim o importantérrimo papel de fiscalizar e controlar os movimentos do mercado. Mas o estado tem que funcionar para fazer isso, Armando. E tem gente que não quer que o estado funcione.

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