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quarta-feira, 21 de novembro de 2007


Guinada na política econômica de Lula?

As mudanças no IPEA são parte de um movimento maior que vem ocorrendo há algum tempo dentro do governo. Seu objetivo é claro: criticar e constranger a política monetária conduzida, até agora com autonomia, pelo Banco Central (BC). No limite, sua ambição é mudar o comando do BC e, assim, a política de juros e de câmbio, sepultando, de uma vez por todas, a "Era Palocci". As informações são do jornal Valor, de hoje.

Está em curso uma tentativa óbvia de guinada na política econômica. Desde a saída de Palocci do Ministério da Fazenda, em abril de 2006, apenas economistas críticos das políticas monetária e cambial têm sido contratados pelo governo. Não se faz isso ao acaso. Mesmo os não-ortodoxos trazidos pela nova leva - notadamente, Carlos Kawall e Júlio Sérgio Gomes de Almeida - deixaram a equipe econômica por desconfiar dos rumos da política fiscal, âncora, em última instância, do modelo de estabilização adotado pelo país em 1999.

Os economistas que pontuam na "Era Mantega" são críticos obstinados da política de juros. São eles: Nelson Barbosa (secretário de Política Econômica), Luiz Eduardo Melin (secretário de Assuntos Internacionais), Luciano Coutinho (presidente do BNDES), Paulo Nogueira Batista Júnior (diretor do Brasil no FMI), Arno Augustin (secretário do Tesouro), Marcio Pochmann (presidente do IPEA) e João Sicsú (diretor do IPEA).


Um resultado do cerco ao BC já é evidente. Ao substituir dois diretores do banco, o presidente Henrique Meirelles escolheu quadros da própria instituição. A tradição manda chamar gente de fora, de reconhecida competência e formação acadêmica. Ao optar por uma solução caseira, Meirelles praticamente eliminou o espaço para contestações e ataques ao Banco Central.

Não que os novos diretores do BC, de boa reputação técnica [segundo o Valor] - Alvir Alberto Hoffmann (Fiscalização) e Maria Celina Berardinelli Arraes (Assuntos Internacionais) -, devam votar, nas reuniões do Copom, de acordo com a vontade dos "desenvolvimentistas". O fato de não terem vindo do mercado é que os torna, para um bom pedaço do governo, inatacáveis.

Se por um lado Meirelles resolveu, com astúcia, as substituições que precisava fazer no BC, por outro diminuiu a densidade intelectual e profissional de sua diretoria.

Ainda segundo o jornal Valor, o BC está a cada dia mais isolado e sofrendo hostilidades no governo. É conhecida uma característica do presidente Lula - o estímulo à dissensão em sua equipe. Seria uma forma de, conhecendo opiniões divergentes, facilitar a tomada de decisões. No último ano e meio, o governo tem caminhado, porém, para um lado só. No episódio do IPEA, o fato mais grave não foi a dispensa de quatro economistas não-alinhados com o "desenvolvimentismo", mas uma deliberação feita pela nova diretoria.

8 comentários:

Ju disse...

Ganhei o dia, Cris.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Aposto uma caixa de bom malbec que Lula não vai mexer numa política que está dando certo. Lula pode ser tudo, mas ele não é burro. A política econômica vai continuar a mesma. A questão que está em debate, sobretudo após as demissões no IPEA de economistas que não estavam alinhados ao pensamento de Pochamann e Siczú, é exatamente a implementação ou não de uma política de gastos públicos para alavancar o crescimento da economia. Esse tipo de política deve ser visto com certa cautela, sobretudo em período eleitoral e existe também o risco inflacionário dessa medida. E a inflação, como a gente bem sabe, engole o salário do trabalhador em poucos dias. Os venezuelanos que estão adotando esse tipo de política já estão sentindo na carne. A inflação no país de Chávez é a mais alta da América Latina. E estancar uma inflação elevada não é tarefa fácil.

Joca disse...

Mas esse maia é metido, pulamordideus.........

Anônimo disse...

Não existe correlação entre inflação e gasto público. Os USA tem um déficit estratosférico e uma inflação baixa o mesmo ocorre com a Alemanha. O caso paradigmático é a Índia com taxa de desenvolvimento baixa, déficit público alto e inflação baixa. Para fazer parte da União Européia é considerado uma economia estável aquela que tem um déficit público de até 3 por cento NEGATIVO. O Brasil produz saldos orçamentários estúpidos de 5 por cento do PIB, inclusive a custo dos Estados regionais, eis uma das razões para o rígido controle das dívidas estaduais, e o caixa da Petrobrás. Tudo foi montado pelo emplumados tucanos e um mecanismo difícil de desmontar.
Ou seja, existe uma enorme margem para a expansão do gasto público no Brasil, que está entravado por uma ideologia de controle desse gasto de juros elevados.

Anônimo disse...

Uma correção a taxa de desenvolvimento da Índia é alta. Segundo a a ortodoxia mercadista a combinação de desenvolvimento acelerado e descontrole no gasto público produz desequilíbrio nos preços, não é o que ocorre na Índia.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Correlação entre gasto público e inflação existe sim, mas ela pode ser controlada com política responsável. Eu não acho que os desenvolvimentistas estejam totalmente errados. Acho que é possível sim arriscar um pouco. E talvez o resultado funcione. Mas eu manteria o Meirelles no Bacen. Uma coisa independe da outra. Que bom que esse importante assunto está se transformando em candente.

armando disse...

Como dizia Plínio Marcos, sempre tem um porém, então, porém, o ministro do Desenvolvimento é o banqueiro Miguel Jorge...

A CARAPUÇA disse...

Já sei meu próximo candidato à presidente; carlos eduardo da maia!

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