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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quinta-feira, 29 de novembro de 2007


Crônica de Luís Fernando Veríssimo

Guerra de fronteira

As fronteiras ideológicas da Guerra Fria atravessavam países e continentes, separando o "mundo livre" do outro e dos simpatizantes do outro. A não ser que visitasse um país comunista ou freqüentasse algum "aparelho", você nunca as cruzava. Sequer as via. Independentemente das suas simpatias ou eventuais rebeldias, vivia dentro de um perímetro comum bem definido. Com o fim da Guerra Fria, as fronteiras ideológicas desapareceram e nos vimos dentro de outra macrogeografia, a das fronteiras econômicas. Estas são visíveis demais. Separam bairros, dividem ruas, são fluidas e ondulantes - e no Brasil você as cruza todos os dias. Mais de uma vez por dia você passa por flóridas, suíças, bangladeshes, algumas bolívias... E em cada sinal de trânsito que pára, está na Somália.

É impossível proteger estas fronteiras como se protegiam as outras. A grande questão do novo século é como defender seu perímetro pessoal da miséria impaciente e predadora à sua volta. Os americanos não podem ajudar desta vez, a fronteira maluca ziguezagueia dentro dos Estados Unidos também. No Brasil da criminalidade crescente e da bandidagem organizada, as fronteiras econômicas são, cada vez mais, barricadas e terras de ninguém. No fim é uma guerra de contenção, de proteção de perímetros. E os excessos cometidos são defendidos com a velha frase, que foi o adágio definidor do século 20 e ganha força no século 21: os fins justificam as barbaridades. As chacinas de lado a lado, o poder de pequenos tiranos com ou sem uniforme de aterrorizarem o cotidiano de todo o mundo, tudo é permitido porque é uma luta de barreira, onde se repelem ou se forçam tomadas de território, como em qualquer fronteira deflagrada. Cara a cara, nação contra nação.

Há um sentimento generalizado, mesmo que não seja dito, que a maior parte da população do mundo é lixo. Excrescência irrecuperável, condenada a jamais ser outra coisa. Esta não é certamente uma constatação nova e nem qualquer utopista ultrapassado chegou a pensar que o contrário era completamente viável. A novidade é que hoje se admite pensar o mundo a partir dela. Já se pode dormir com ela. A ordem econômica mundial está baseada na inevitabilidade de a maior parte do planeta ser habitada por lixo irreciclável. Ser "politicamente correto" hoje é dizer o que ninguém mais realmente pensa - sobre raças, sobre os pobres, sobre consciência e compaixão - para não parecer insensível, mas com o entendimento tácito de que só se está preservando uma convenção, que a retórica dos bons sentimentos finalmente substituiu totalmente os bons sentimentos. É a intuição destes novos tempos sem remorso que move o entusiasmo crescente do público com a truculência policial na nossa guerra do dia-a-dia. Nem tem sentido discutir se as vítimas mereceram ou não. Não existe lixo inocente ou culpado. O que está no lixo é lixo. Demasia. Excesso. Excrescência.

6 comentários:

Omar disse...

A ironia está para o sarcasmo assim como o suspiro está para o arroto. Grande Veríssimo!!!

Jorge disse...

q baita crônica, tche!!!

Carlos Eduardo da Maia disse...

O LFV ardilosamente insere na crônica uma frase e uma falsa sensação (determinista) que a esquerda anacrônica e caduca tanto adora:
"Há um sentimento generalizado, mesmo que não seja dito, que a maior parte da população do mundo é lixo. Excrescência irrecuperável, condenada a jamais ser outra coisa".
Essa frase sintetiza a marca da divisão, da divergência e da luta social e de classes. É exatamente essa frase que dá o mote, que dá azo ao pensamento caduco e determinista. Ou seja, os ricos, os bem arrumados, o mundo branco de rolex acha que grande parte da população mundial, da humanidade deve ser execrada!!! É evidente que tem gente que pensa assim. Existem fascistas no mundo, assim como existem, por incrível que pareça, comunistas. A humanidade tem seus traços pitorescos. Mas LFV força a barra no determinismo ideológico da divisão, como se houve um consenso hipócrita em manter a miséria e a pobreza. Não existe. Ora, se existe uma verdade essa deve ser convergente e nunca divergente e, muito menos, determinista. A pobreza, a miséria não interessa à humanidade. A nenhum estado nacional interessa o aumento da pobreza. A luta da humanidade deve ser exatamente no combate a pobreza e a miséria. Mas nada é tão simples. Por exemplo, porque a ONU tem tanta dificuldade de distribui alimentos na Somália e na Etiópia? Pelos mesmos motivos que não interessa ao traficante dono do morro do Rio que o Estado ali ingresse para ali instalar posto policial, posto de saúde e escola. Todos os anos, desde 1985, se realiza em diversos locais do mundo branco e da civilização do Rolex os concertos do Live Aid com a participação gratuita de diversos astros da música pop que recolhem recursos para o combate à pobreza. Esse é apenas um pequeno exemplo de que existem movimentos mundiais do mundo branco do rolex -- que estão além da religião e da ideologia -- que estão preocupados sim em acabar com a pobreza e a miséria. Mas como sempre ocorre, tais questões devem ser resolvidas e debatidas nas cimeiras internacionais. Mas nas cimeiras do mundo de hoje tá dificil discutir, porque de um lado temos um cowboy troglodita imperialista e de outro um caudilho bufão.

Claudia Cardoso disse...

Claro, com essas palavras do Maia, devemos entender que resolver as mazelas do mundo passam pelo 3º setor, pela sociedade organizada, e não por políticas públicas de combate às diferenças. Acontece, que os governos substituem essas políticas públicas no atendimento dos interesses privados das corporações que, desejam sim, a exclusão, a miséria e a guerra. Porque é um projeto humano egoísta e suicida. Não tem nada a ver com anacronimso de esquerda. Tem a ver com o sentido geral de humanidade, conceito inacessível para um capitalista que só visa ao lucro imediato e se ralem os demais. Está aí a dívida que a justiça estadual "esqueceu" de cobrar do Renato Riberiro. Mas deixa estar, os nosso roqueiros gaúchos, irmanados com os nativistas, farão um show para arrecadar fundos e colocar dinheiro nos cofres do estado.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Ninguém deseja a exclusão e a miséria e é necessário sim política pública, de Estado para combater esses problemas (sim miséria e exclusão são problemas e não massa de manobra). Qual o interesse do capital (grande, médio, pequeno ou minimo) numa sociedade de consumo? Vender mais e mais seus produtos. Quanto mais pessoas atingirem o nível de qualidade de vida e condições de ter renda para consumir, mais capital vai haver, mais imposto o estado vai arrecadar. Tudo faz parte de uma mesma lógica. Mino Carta teve razão uma vez na vida nesses últimos anos quando ele disse que está na hora da esquerda brasileira sepultar de vez o ranço marxista leninista que acha que ainda existem exército de reservas e fetiches de mercadorias. Isso sim é alienação da religião sem deus.

Jens disse...

A solidão é uma coisa terrível.

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