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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

segunda-feira, 19 de novembro de 2007


A Bienal (do entulho) do Mercosul

Quero fazer um brevíssimo comentário sobre a chamada Bienal do Mercosul, ontem encerrada. Não é possível deixar passar batido esse tema aqui no blog. Para além das discutíveis obras de arte que a Bienal de Porto Alegre (esse deveria ser o seu nome) apresenta, existe um cipoal de interesses e representações de empresários graúdos e da chamada elite guasca embutidos no tema e passando uma idéia usinada e fantasiosa da arte vanguardista que pretende exibir.

Em primeiro lugar é preciso dizer que a bienal guasca é fiel à idéia da arte contemporânea. Me explico: na arte houve o chamado deslocamento, a idéia, o conceito, tornou-se mais importante que a realização da obra propriamente dita. Assim, já se vê que a idéia de Bienal - essa palavra magnificada pelo apoio da mídia corporativa - é mais importante que o coletivo de artistas e de obras que ela supostamente apresenta. O que menos importa é a obra de arte, no caso. O que mais importa é o conceito "bienal", seus patrocinadores, seus falsos mecenas, seus apoiadores, divulgadores e caroneiros (o caso da RBS que aproveita e faz a sua autolouvação com a exposição dos seus 50 anos de "vida"). Quando se fala, então, Bienal, se está subentendendo uma plêiade (que palavra linda!) de benfeitores culturais, amantes das belas artes e abnegados patrocinadores anônimos. Esse é o conceito. A rigor, entretanto, uma pura aparência, uma representação de superfície com vistas a surfar na onda da renúncia fiscal do Estado e posar de mecenas na cena claro-escuro da mídia guasca. Apanhem um prospecto da Bienal. Vejam quantos patrocinadores. Vejam suas logomarcas, seus logotipos. Aparentemente são eles que bancam o custo do "business" arte nos pagos. Mal sabemos nós que o mecenato não existe. Mecenato é o nome da renúncia fiscal do Estado, para esses empresários e banqueiros tirarem onda de "amantes das belas artes" com os recursos públicos. Tudo uma farsa, bem montada e articulada.

Por isso que a suposta obra de arte lá exposta pode ser qualquer coisa. Inclusive obra "fake", como mais de 80% das obras desta bienal. A cópia da cópia da cópia. É o que os críticos de arte (os autênticos) chamam de decadentismo, o falso novo. A falsificação da falsificação da falsificação. Ontem encerrou-se em Porto Alegre a bienal do entulho. A arte da adesão, a arte do sintoma. Sintoma de uma simulação de arte, de uma arte que não é resistência, de uma arte que não consegue perceber o sentido do discurso disperso e fragmentado de nosso tempo, de uma arte que não separa os ruídos das mensagens, e escolhe veicular somente o ruído vazio da cópia infinita.

Que nome pode-se dar a um suposto objeto artístico que precisa vir acompanhado de um discurso para explicar a genialidade "fake" do artista? Que arte é essa que precisa da bengala do conceito, do discurso, da palavra, da frase?

Pensando bem, o nome Bienal do Mercosul está mesmo adequado. Para Porto Alegre, chamá-la de Bienal de Porto Alegre seria mais uma violência simbólica contra esse aprazível (mas perturbado e corrompido) rincão do Brasil.

18 comentários:

Anônimo disse...

Excelente, Cristóvão.

Suzana Moraes disse...

Agora eu entendi essa porcaria de Bienal, Cris. Eu tinha lido um artigo do Pilla Vares no site PTSul e não engoli. Achei muito elogioso, com rapapés e salamaleques com as "obras de arte". Mas eu também não sabia o que me incomodava nessa Bienal. Agora vc. matou a charada, é tudo cópia mesmo e só serve pro Gerdau se gabar de benemérito das artes. Como o museu do Iberê que foi construído com investimento da Petrobrás e o Gerdau faz entender que é do grupo Gerdau Johannpoeter.
E o Fernando Schiller trabalhava com essa gente... será que aí não tem?

Carlos Eduardo da Maia disse...

O pensamento caduco do reacionarismo estatista chegou com força total hoje. Em qualquer lugar do mundo, na França, na Alemanha, na Itália qualquer grande exposição, qualquer grande feira, qualquer bienal, qualquer festival de cinema, qualquer exposição, qualquer feira é patrocinada poder público em parceria com a iniciativa privada. A bienal do Mercosul não é diferente. Este ano ela teve duas obras admiráveis que foram expostas para o público ver por um simples motivo: porque houve essa parceria público privada. Uma do artista uruguaio, Francisco Alberto Matto Vilaró (1911 -1995) no Margs e outra do Nelson Leirner e seu trabalho lúdico e crítico.

Suzana disse...

Palavras do intelectural petista, Pilla Vares:"A Bienal do Mercosul se consolida como uma das mais expressivas exposições da América Latina, principalmente porque está longe de ser um “supermercado” das artes plásticas e muito mais preocupada em ser um local para as mais diversas reflexões sobre o sentido da arte contemporânea. E esse é o sentido real, talvez o único, para as grandes exposições nos dias que correm, principalmente porque o próprio conceito de arte moderna está em discussão, o seu presente e o seu futuro estão problematizados".

Esse intelectual seria também um decadentista?

Roberto disse...

Quanto ao conteúdo da crítica, pode até ser, mas é legal se informar. Tudo isso dito se refere a arte contemporânea, e não arte moderna. Não, não é tudo a mesma coisa...

Cristóvão Feil disse...

Correto, Roberto. O lapso é todo meu. Obrigado!

Carlos Eduardo da Maia disse...

Discordo da crítica sobre a Bienal -- que teve sim algumas grandes porcarias. Mas existem trabalhos modernos e também contemporâneos notáveis. O artista plástico uruguaio Matto Vilaró é moderno. E o trabalho contemporâneo do Nelson Leirner e sua ácida crítica ao império americano, a grande mídia e a religião valeu a pena ser visto. As filas eram imensas. E tudo isso financiado pelo capital privado. A bienal do Mercosul é um bom negócio para todos, para quem faz e para quem vê. O resto, o resto é preconceito.

Claudia Cardoso disse...

Também nunca entendi, porque uma obra de arte necessita vir acompanhada de um parágrafo com mais de 50 palavras de explicações. Mais do que as próprias artes expostas, as tais "descrições" me chamaram a atenção.

Saulo disse...

Sei que essa Bienal começou com uma verba de R$ 300.000,00, no tempo do Olívio, se não me engano. Agora, já anda na casa dos R$ 4.000.000,00 ou R$ 6.000.000,00, sendo que a prestação de constas está em aberto esse tempo todo.
Portanto, em que pese o eventual mérito da "mostra", conforme o Maia falou, pelo que se vê das despesas (é só dar uma olhada; é público), tem cheiro de lavanderia no ar. E o pessoal que "empresta o nome" não tem nada de mecenas.

Juarez Prieb disse...

Maia, financiado pelo capital privado onde? Só se fôr em NY ou LA. Aqui em POA é renúncia fiscal, sim, da Lei Rouanet, que incentiva as empresas a investirem parte do que devem de imposto para colocar-se como "mecenas", só que com o dinheiro dos impostos (que é público). Dá pra entender ou quer que desenhe?
O teu amado FHC está captando 6 milhões de reais para financiar um livro de memórias, ele que pediu para que esquecessem o que tinha escrito antes de ser presidente. Quem vai pagar em última instância?
Cada brasileiro, todos nós. Esses 6 milhões em vez de serem drenados para a saúde, serão captados para o príncipe dos sociólogos para contar as suas his´tórias de Narciso.

Anônimo disse...

Barbarida!!!! Não entendo lufas de arte moderna ou comtemporania, so se "arte" for aquilo qe os pias fazem na sua inocencia ou pura peraltice....Mas mesmo assim pergunto a estes gauchinhos de cola torta, me digam...não importa se forem 4 ou 6 milhoes da onde sai esta grana? de certo do lombo do trabalhador, dar esmola e pozar de bom com o dinheiro arrancado do suor do pobre é facil, emquanto tem gente passando fome e miseria no RG, alguns se dão ao luxo de gastar milhoes e depois deduzir de impostos, com a maior cara de pau do mundo......Pampeano

Mario Rangel disse...

Neste fim de semana, ficamos livres de três porcarias que estavam emporcalhando a orla do Lago Guaíba. Uma, a tal auto-homenagem do clã Sirotzki, que invadiu a Usina, com a complacência do Foga$$a. Outra essa coisa de arte-contemporânea-sem-sentido, que serviu de suporte ao evento da Usina que, nada tem de "novo". E, o que, para mim, é uma aberração de privatização do espaço público. O Salão Náutico do Mercosul. Esse, onde somente os "gran-finos", a bordo dos seus carrões, tiveram vêz. Pois CERCARAM o Harmonia, cobraram 15 Reais, deixando de fora os "curiosos". Vejam bem, tudo bem encadeado, e bem patrocinado pelo Poder Público, através da tal renúncia (incentivo) fiscal. Mas o que importa é que, o Professor Maia, adddooorrooouuu!!! Coitado...

Carlos Eduardo da Maia disse...

O melhor seria não ter nada disso. Nenhuma exposição, nenhuma mostra, nenhuma feira, nenhuma bienal. Aliás, para o PT, não deveria nem existir a Av. Beira Rio. O interessante é que o povo de Porto Alegre usou e utilizou todos esses locais e com grande frequência. E a esquerda se acha representante do povo. Nessas oportunidades é que a gente vê como a esquerda entende de povo.

Mario Rangel disse...

Ô Prof. Dr. Maia, não fala bobagem, tu tens uma visão burguesa do espaço público. TÚ NÃO TENS PARÂMETROS E FUNDAMENTAÇÃO PARA FAZER ESSA CRÍTICA. O problema, ó sapiente ser extraterreste, é cercar e cobrar ingrsso. Naquele mesmo espaço, a esquerda burra e caduca, promoveu o Fórum Social Mundial, com diversos eventos, palestras shows. TUDO DE GRAÇA, PARA O POVO. Ninguém é contra a realização desses eventos. A crítica e de como são executados e para "quem".

Carlos Eduardo da Maia disse...

Mario, o evento da RBS e a Bienal foram de graça para o povo. E ninguém, Rangel, tem o poder de dizer e escolher, nesse mundo de fluxos e refluxos, quem é que deve e quem é que não deve participar de certos eventos. Vai quem quer, quem não quer que faça outra coisa, como jogar botão com seu avô.

Mario Rangel disse...

Dr. Maia, tu não falou da cercamento do harmonia e da cobrança do 15 pilas para entrar. nos dê a graça de tua sapiência, please!

Carlos Eduardo da Maia disse...

Rangel, qual o problema de se utilizar espaço público para realizar uma feira náutica, onde os interessados frequentam para saber das últimas novidades do mercado de lanchas, jet ski e similares? Não se paga para entrar na expointer ou em qualquer feira desse imenso mundo? Rangel você é a única pessoa do planeta preocupada com isso. Quem sabe entra com uma ação popular?

Mario Rangel disse...

Prf. Dr. Maia, tú és burro ou mal intensionado, a Espointer ou "qualquer feira" ocorrem em locais privados, o Parque de Exposições Assis Brasil, assim o é. Tu não te preocupas com isso, simplesmente pelas tuas idéias neoliberais, onde o Estado deve servir o privado. Mas deixa assim.

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