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quinta-feira, 3 de julho de 2008


Injustiça e desordem


Quando Goethe disse que preferia a injustiça à desordem, a Europa recém fora sacudida pela revolução francesa e enfrentava outro terremoto, o bonapartismo em marcha. Sua opção não era teórica, era pela específica velha ordem que os novos tempos ameaçavam. Por mais injusta que fosse, a velha ordem era melhor do que as paixões incontroláveis libertadas pela revolução. Mas a frase de Goethe atravessou 200 anos, foi usada ou repudiada por muitos, na teoria ou na prática e em vários contextos, e chega aos nossos dias mais atual do que nunca. Você não pode pensar na questão agrária brasileira, por exemplo, sem cedo ou tarde ter que se perguntar se prefere a justiça ou a ordem.

A injustiça no caso é flagrante e escandalosa. Mesmo que se aceitem todas as teses sobre o desvirtuamento do movimento dos sem-terra e se acate a demonização dos seus líderes, militantes e simpatizantes, a dimensão do movimento é uma evidência literalmente gritante do tamanho da iniqüidade fundiária no Brasil, que ou é uma ficção que milhares de pessoas resolveram adotar só para fazer barulho, ou é uma vergonha nacional. A iniqüidade que criou essa multidão de deserdados no país com a maior extensão de terras aráveis do mundo é a mesma que expulsou outra multidão para as ruas e favelas das grandes cidades, deixando o campo despovoado para o latifúndio e o agronegócio predatório. A demora de uma reforma agrária para valer, tão prometida e tão adiada, só agrava a exclusão e aumenta a revolta.

Quem acha que desordem é pior do que injustiça tem do que se queixar, e a que recorrer. As invasões e manifestações dos sem-terra se sucedem e assustam. Proprietários rurais se mobilizam e se armam, a violência e o medo aumentam, a reação se organiza. Agora mesmo no Rio Grande do Sul, enquanto endurece a repressão policial às ações do MST, um documento do Ministério Público estadual prega a criminalização de vez do movimento, caracterizando-o como uma guerrilha que ameaça a segurança nacional, com ajuda de fora. É improvável que uma maioria de promotores de Justiça do Estado, transformados em promotores de ordem acima de tudo, tivesse abonado o documento como estava redigido, com seu vocabulário evocativo de outra era. Mas ele dá uma idéia da força crescente do outro lado da opção definidora, dos que escolheram como Goethe.


Luis Fernando Veríssimo, publicado em alguns jornais do País, hoje.

15 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

A dimensão do MST referida por Veríssimo é aumentada pela vanguarda iluminada que manipula uma maioria, como refere Zander Navarro, em recente entrevista. Ou seja, essa dimensão é aumentada com lentes de laboratório de astronomia. E também se aumenta, sobretudo, no Estado do RS, a dimensão do problema agrário, como se no RS existisse apenas latifúndio. LFV ardilosamente reduz o problema como se existisse nesse tabuleiro de xadrez apenas latifúndio e sem terras. Existe sim latifúndio no RS, mas eles estão localizados em certas regiões. Nas zonas de colonização, por exemplo, praticamente não existe latifúndio no RS. E não vamos ser hipócritas, uma propriedade rural tem que dar lucro e para dar lucro ela não pode ser pequena. Agricultura familiar não mantém as pessoas no campo, porque a grana que dá apenas serve para a subsistência das famílias. Ou seja, é o mínimo dos mínimos. Esse artigo de LFV serviria bem para a questão agrária do Pará, do Mato Grosso, mas nunca do RS. Quer resolver a questão agrária? Tem muito latifundiário falido por ai que quer vender suas terras. Que a União compre essas terras e assente as famílias. Mas esse caminho não interessa à vanguarda iluminada do MST.

Anônimo disse...

O que a elite e a classe média alta quer é "revolução sem revolução", o que, diga-se de passagem, é confortável e alivia a consciência.

Robespierre: "Cidadãos, queríeis uma revolução sem revolução? (...) Fazê-los criminalmente responsáveis por algumas desordens aparentes ou reais, inseparáveis de um abalo tão grande, seria puni-los por sua devoção".

armando

Guga Türck disse...

Agora que está se abrindo a questão de que aquela ata infâme do MP foi retificada em abril deste ano, como é que foi possível se realizarem algumas ações da BM e da Justiça de Carazinho se baseando nela?

Diz um promotor que foi retificada por unanimidade e que o MP do estado é a favor da reforma agrária e não cogita extinção ou ilegalidade do MST...

Mas como, então?!
No juridiquês essa retificação não invalida a ata de dezembro? E isso não torna - de certa forma - ilegal todos os atos subseqüentes a partir da utilização de uma resolução invalidada pelo próprio MP?
O Thumbs não sabia disso quando foi no Conversas Fiadas pagar mico pro advogado do MST e pro Pont?
E a responsa do PRBS?

Tá na cara que isso foi uma campanha de mídia difamatória, mais uma vez.
Eles são craques nisso.
É por isso que a esquerda acaba por perder, sempre, pois não tem esse MANIQUEÍSMO da direita...

Carlos Eduardo da Maia disse...

Houve uma açaõ civil pública do MP contra o MST e foi deferida liminar pelo Juiz de Carazinho. Essa liminar até hoje não foi cassada. Uma coisa é a ata do MP de dezembro que foi retificada e ratificada em abril e outra coisa é a ACP do MP-Rs contra o MST. Isso não tem nada a ver com mídia difamatória. Isso tem a ver com MP e Justiça do RS.

Anônimo disse...

Tem sim Maia.

êles levantam estas questões sem fundamentos, muitas vezes até mentirosa, e a mídia repercute com a unica intenção de difamar o movimento. O que aliás fazes continuadamente.

Aí depois fazem as pesquisas em cima, não para avaliar o pensamento do ouvinte ou telespectador, mas ver o quanto a mentira colou.

Terra no Rio Grande do Sul disponível tem e é muita,
tanto que as papeleiras já compraram 500 mil ha., muitos ilegalmente. Com a contemplação dos dignos e honrados procuradores.

Claudio Dode

Anônimo disse...

Para o Maia:

A Reforma Agrária não significa só a compra e entrega de terra.
Nem a questão agrária se resolve com esta operação simplesmente.

A Reforma Agrária é também a discussão da PRODUTIVIDADE. Que o latifundiário arcaico se nega a debater.

Antes de ser grande para dar lucro, ô Maia, ela precisa ser produtiva.

A falta de produtividade que levou estes latifundiários a vender para as papeleiras. E já tem muitos outros improdutivos latifundiários só esperando os gringos dizerem que querem. E vão tudo pro "chopis comprar tenis naique e corrê no parcão", depois de cantar os pneus do carro novo na esquina, para avisar que chegou.

Claudio Dode

Daniel disse...

Bem nessa Dode.E os recentes anúncios do GF, de amparo aos latifindiários, atendem ao mesmo requisito: acalmar a UDR, e implementar a temporada de inverno dos cassinos de Punta. Além de aquecer o mercado de compra de automóeis de luxo, claro.

Anônimo disse...

Maia, não chupa e responde: que áreas aqui no estado o MST ocupa? É a granjinha do italiano em Caxias?
Não fode.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Dode Saint Just, por que o governo do PT não leva adiante a discussão sobre produtividade. Qual afinal o módulo rural razoável para o RS??? O governo do PT administra o Incra e não faz nada.. Que faça alguma coisa. A questão é que o agronegócio e a política de exportação ~vão bem obrigado e o governo do PT não quer mexer no que está bom. O governo FHC implantou a política do banco da terra que é muito interessante, porque tem muita gente quer vender suas propriedades e o banco da terra é um oportunidade boa para isso... Mas o governo do PT quer ser diferente e não está fazendo nada. Sou sim amplamente a favor de que uma propriedade improdutiva deva ser desapropriada, porque ela não tem função social. Mas existem meios de se fazer isso. Por que o INcra -- que é o Estado e tem o poder de polícia -- não faz nada????

Anônimo disse...

Sem esquecer que, enquanto o MP RS age como Mussolini caboclo, Gilmar Mendes aboletado no STF, dá sustentação jurídica na luta contra os movimentos sociais. O Gilmar Mendes continua enviando mensagens claras sobre o destino do Estado e da máquina. Não me surpreenderia se fosse o candidato da direita em 2.010.

armando

Anônimo disse...

Grande jogada ô Maia:

"Sou sim amplamente a favor de que uma propriedade improdutiva deva ser desapropriada, porque ela não tem função social. Mas existem meios de se fazer isso."

Vamos lá, rapaz! "Por que o INcra -- que é o Estado e tem o poder de polícia -- não faz nada????"

Vamos então ajudar o MST, ao contrário de criminalizar, denunciando os latifundios improdutivos através das ocupações pacíficas, já que o Estado que tem poder de policia, só quer dar porrada em pobre.

Aliás não se pode nem falar em pobre que já aparece o Cel. Mendes descendo a porrada, ou seja, usando o tal poder de policia.


Claudio Dode

Carlos Eduardo da Maia disse...

Porque o MST utiliza métodos equivocados de luta. O MST bloqueia estradas, paralisa receita a federal, o Incra, entra em indústrias, destroi material de escritório, invade fazendas produtivas, destroi a sede, os galpóes, os bens, os automóveis, matam os gados, cachorros etc., fazem pichação. Essa tática de luta é equivocada. E o MST não pode ter o monopólio da reforma agrária. Ou seja, assentado tem que ingressar no MST para receber a santa terrinha para depois pagar dízimo ao MST.

Anônimo disse...

Ô Maia:

O MST não tem o monopólio da Reforma Agrária, e muito menos precisa entrar no MST para receber a Satnta Terrinha, existem dezenas de movimentos que lutam pela terra.

Qual fazenda produtiva que ouviste falar que foi invadida, mesmos pelos indices de produtividade do século passado?

Mesmo a Coqueiro e Southall, que foram as que mais vezes foram invadidas continuam com suas sede e galpões inteiros, que aliás não fazem falta porque a patronagem mora é na cidade, porque pegar no trabalho, para eles escravistas convictos, é coisa para a plebe.

Isto é que se pode chamar de custo Brasil: A aversão ao trabalho.

Vai ter algum excesso? com certeza! a massa indignada comete excessos.

Claudio Dode

Anônimo disse...

Diante das intervenções de LFV o mundo, as coisas, os fatos, os acontecimentos... ficam mais esclarecidos.
E muitos dos seus leitores encontram referências de ética, justiça, beleza e tudo mais que da sentido para a vida civilizada.
É bom ser comtemporânea de LFV!
Cândida

Anônimo disse...

Blogueiro:
Sei que é uma figura controversa, mas vale a pena ler a coluna do Juremir Machado da Silva, no CP de hoje (sábado, 05/07). Foi no alvo e causará, penso, uma ferida narcísica ainda maior nesta ideologia "guasca" urbana.

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