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quinta-feira, 10 de julho de 2008

O professor Emir Sader está equivocado


Autonomia und hegemonia!

O professor Emir Sader escreveu um pequeno artigo (leia-o aqui) onde faz um grande esforço para antagonizar duas categorias que nunca quiseram brigar: autonomia e hegemonia.

Esforço inútil, o antagonismo é falso.

Procede como o bêbado que incitava a briga entre dois galos de rinha, só que uma das aves não era macho, era fêmea. Não pode haver rinha entre categorias que são afins. Nem no mundo biológico, nem no mundo das idéias políticas.

Começa falando em “autonomia dos movimentos sociais”. Para logo perguntar: “Mas que significado pode ter a autonomia do social? Autonomia diante do quê? O ‘outro mundo possível’ pode ser construído a partir da ‘autonomia do social’?"

O professor precisa escolher que sujeito será o portador desta autonomia referida. Autonomia dos movimentos sociais? Ou autonomia do social? São elementos absolutamente distintos.

Mas o professor não explica quem aspira a “autonomia do social”, nem em que bandeira rota está inscrito este requerimento pré-político.

Já a “autonomia dos movimentos sociais”, esta é uma busca permanente dos movimentos organizados da sociedade civil.

Agora, serve a indagação “autonomia diante do quê?”. Ora, estimado professor, eu mesmo respeitosamente lhe respondo: autonomia diante de governos constituídos, diante dos arranjos de conciliação de classes, dos partidos trivialmente cartoriais/eleitorais, autonomia diante dos oficialismos de todo o gênero, das institucionalidades apassivadoras e dos apelos heteronômicos que surgem a todo o instante, especialmente de bem intencionados, mas equivocados setores da esquerda institucionalizada e à sombra fresca do Estado.

Autonomia, sim. A institucionalidade é o contrário do movimento. Aqui sim reside uma antinomia evidente. Se um movimento se institucionaliza, logo perde a autonomia, se transforma no seu contrário, vira pedra com limo, não serve para nenhum alicerce de nenhum “outro mundo possível”.

Já quanto ao requerimento da hegemonia, é necessário que o professor Sader identifique a qual sentido – dos tantos que a categoria encerra – ele se refere no artigo publicado na Agência Carta Maior, no último dia 7/7.

O professor quer dizer da hegemonia como um mero sistema de alianças eleitorais e de classe? Ou se refere à hegemonia no sentido de liderança + consentimento, na velha fórmula gramsciana?

Se o alvo é o sistema de alianças que temos no Brasil, o professor acertou. O lulismo planaltino opera politicamente comandando um sempre precário leque de alianças parlamentares todos orientados pelo fisiologismo mais devorador. Mas não acredito que seja essa a “hegemonia” buscada pelo professor Sader.

Suponho, então, que ele tenha querido falar da hegemonia nos termos atribuídos por Antonio Gramsci (foto), aliás, uma das suas contribuições mais importantes para a teoria marxista.

Muito bem, professor, eis a questão, quem irá comandar o processo de hegemonia? Vejo que o senhor sugere nas entrelinhas, algo obscuras de seu texto, que esse processo já está em pleno curso e que estaria sendo pilotado pelo “governo”. Só pode ser o governo do presidente Lula, ora.

Agora, o professor me libera para fazer algumas indagações pertinentes (ou impertinentes, como queiram):

Estará o lulismo planaltino querendo construir um processo autêntico de hegemonia política e cultural quando em 2007 destinou cerca de 110 milhões de reais em publicidade estampada nos veículos da mídia oligárquica brasileira?

Com que medidas políticas (visando a busca da hegemonia) o governo do presidente Lula tem combatido o deletério e anti-social hegemonismo econômico do capital financeiro no Brasil, sabendo-se que o Banco Central é dirigido pelos banqueiros, e que estes nos impõem as taxas de juros mais altas do mundo, e que os bancos auferem megalucros e por isso sentem-se muito confortáveis sob o lulismo? Essa política faz parte da agenda de hegemonia?

Mesmo sabendo que 80% dos alimentos produzidos no Brasil se originam da agricultura familiar, o governo lulista destina recursos para a safra agrícola 2008/2009 invertendo aquela equação: reserva somente 20% para a agricultura familiar e 80% para o chamado agronegócio de exportação – o mesmo agronegócio que pratica culturas agrícolas insustentáveis do ponto de vista ambiental, que pratica a monocultura extensiva, que desmata e compromete o solo e as águas com defensivos e transgenia em larga escala. Essa política por acaso faz parte da agenda de hegemonia?

Não quero me estender, mas teríamos inúmeros outros temas da agenda lulista que vão na contramão da busca da hegemonia, como: a falta de vontade para realizar uma reforma agrária autêntica, a aprovação dos transgênicos, a leniência com os que destroem o meio ambiente, especialmente na Amazônia, o projeto de transposição do rio São Francisco, o alargamento das faixas de fronteira para beneficiar algumas poucas papeleiras transnacionais, e por fim o completo descaso com um projeto autêntico de reforma política e eleitoral no País que retire o governo do cativeiro de parlamentares lobistas de interesses não-republicanos.

Já se vê, prezado professor, que o lulismo tem a agenda deserta de hegemonia nenhuma, esse requerimento referido pelo artigo, é fruto singular e exclusivíssimo de seu espírito generoso que quer a muque pintar o lulismo com as cores vistosas da transição a um “outro mundo possível”.

Nem referimos aqui a necessidade de um veículo orgânico que encaminhe politicamente as demandas sociais e culturais na construção da estratégia de hegemonia. Este veículo seria o partido político identificado e organizado pelos intelectuais e as massas excluídas do sistema globalitário hegemônico.

Estamos falando, pois, de uma contra-hegemonia liderada por uma organização política de massas, como foi o PT em tempos passados. Mas, hoje, o PT encontra-se numa situação terminal, deixando de ser o intelectual orgânico da sociedade para se converter no mais novo partido da ordem tradicional brasileira, reduzido a ser uma mera legenda eleitoral e abrigo confortável para parlamentares em carreira solo. O PT agora – professor Sader – é um velho leão empalhado tombado no museu da memória política da esquerda brasileira. Já não é mais capaz de nenhuma luta para nenhuma transformação.

Como se pode notar, o instrumental para a pretendida hegemonia nós não temos, por ora no Brasil. As energias políticas que podem construir um projeto estratégico de hegemonia estão no movimento social autônomo, não estão no governo Lula – que sequer cogita disto – nem no PT caricatural que temos hoje.

Assim, o que o professor queria – uma briga entre irmãos categoriais – não foi possível, mas se ele consentir (e sei da sua generosidade) vamos subtrair o “ou” e colocar o “und” entre autonomia e hegemonia. Uma pequena homenagem à razão e à língua mátria de Hegel e Marx.


12 comentários:

Anônimo disse...

Brilhante!!! No cerne da questão.
Parabéns Cristóvão, sempre tirando as nossas da boca!!(rsrsrs)
Maria Eugênia

Anônimo disse...

quer dizer as palavras da boca.
Maria Eugência

Prieb disse...

Rapaz, muito bom mesmo!

Anônimo disse...

Com todo o respeito a Setembrina, a unica com toda este reforço Politico e Ideológico.

Claudio Dode

Anônimo disse...

dode, não te entendi

Anônimo disse...

Anônimo,

Só um cara que produz uma avaliação com a exatidão como esta poderia produzir a Setembrina. É a tal mania de perfeição.

Claudio Dode

Joachim Sauer disse...

Queremos o comentário do prof. Neumann sobre esse debate. Ele já não está restabelecido?
Que dite o texto para a sua Hanke.

Gilmar da Rosa disse...

Me alegra tua sabedoria Cristovão. Enriqueço nela e te parabenizo pela análise e considerções acerca do artido. Brilhante.

Hanke Neumann disse...

Joachim, estou muito atarefada nas minhas atividades de ensino, final de semestre, correção de provas e TCC's. Peço paciência, em breve darei atenção que querido avô e disponibilizarei o texto promedito.

Embora ainda inspirando muitos cuidados, tenho fé na recuperação. Se for possível faça uma oração.

fernando disse...

Muito bom.Partamos dai para as soluções!

Fabrício disse...

Feil, que espetáculo...!

Não é qualquer um que desconstitui com tamanha argumentação - e correta, é bom dizer - o Sader e sua bagagem que infelizmente vem pondo a serviço do PT.

Parabéns!

Fabrício

Anônimo disse...

A agenda política do governo lula é reacionária mesmo, atende aos interesses do grande capital financeiro e agrário. Agora isso não tem nada a ver com a busca da hegemonia que, aliás, já tem. É conseguida sim com a compra de intelectuais e "controle" de manifestações culturais (qualquer: da novela ao JN). São os "comissários da cultura", de que falava o velho italiano. A hegemonia não vem de minha concordancia individual com a pauta política do governo. Este blog mesmo é um defensor constante do que julga ser os "ataques da direita". Isso é hegemonia: aceita a liderança do governo e consente nos momentos que é chamado a se manifestar.Reclama uma pouquinho, dá umas esperneada, mas entrega a rapadura. Simples, né? Já a autonomia...bem, sonhos de uma noite de verão.

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