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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

URSS: o monopólio estatal do capitalismo


Traços da polêmica Rosa versus Lênin

Temos visto reprovações de toda a ordem, de todo o espectro, e de todo o gênero contra o regime stalinista da ex-União Soviética. Quase sempre são reprovações de natureza moralista (reclamam os aspectos da crueldade), que recriminam aspectos fenomênicos do Estado bolchevique, pré-políticas ou francamente ideológicas. Outras, mesmo que bem formuladas (mas que só reclamam da ausência de democracia formal), são superficiais, formalistas; querem desmascará-lo, mas usam a mesma lógica que o sustenta, daí o malôgro. Não apontam a essência do fenômeno stalinista. Tanto as pedras de arenito da pseudo-esquerda, quanto as pedras de mármore da direita, poucas conseguem atingir o nervo constitutivo do tema.

O sistema caiu por negar a negatividade da filosofia marxista. Era, portanto, acionado por um móvel positivista, que encontrou o seu objeto no desenvolvimento das condições de acumulação do capital, ainda que de uma maneira alternativa à acumulação privada. Uma opção de monopólio estatal do capitalismo (Hyams), com veto à apropriação privada.

Rosa de Luxemburg na sua famosa polêmica com Lênin, e que a ideologia stalinista sempre minimizou, porque aí residia uma das gêneses do problema, já vaticinava o fracasso dos bolcheviques. Na revolução russa de 1905, começaram a surgir divergências de fundo, pelo menos nos temas básicos: a questão nacional e a questão da organização.

Em 1916, Rosa oferecia um prognóstico severo à história do socialismo, no sombrio e lúcido panfleto “A Crise da Democracia Socialista”: "Enquanto existirem Estados capitalistas, enquanto, mais precisamente, a política imperialista universal determinar e moldar a vida interior e exterior dos Estados, o direito das Nações a disporem de si mesmas não passará de palavra vã, quer em tempo de guerra, quer em tempo de paz. Ainda mais: na atual conjuntura capitalista não há lugar para uma guerra nacional de defesa e qualquer política socialista que abstraia desta conjuntura histórica, que apenas se guie, no meio do turbilhão universal, pela ótica de um só país, estará desde o início destinado ao fracasso".

Rosa não fazia concessões a Lênin, aos bolcheviques e muito menos ao revisionismo menchevique. Criticava com energia a inconsistência de duas palavras de ordem, simultâneamente contraditórias: o centralismo democrático do Partido e o direito à autodeterminação das nacionalidades satélites da Rússia.

Lênin, em 1914, havia lançado um panfleto intitulado “Do direito das Nações a disporem de si mesmas”. Rosa sustentava que havia oportunismo político na questão nacional defendida por Lênin. Afinal, essas nações tinham interesses dominantes das burguesias locais e interesses não-dominantes do proletariado. Ela como polonesa e ativista política na Alemanha queria um processo revolucionário articulado em toda a Europa e não somente na Rússia, que era uma forma de diminuir o conteúdo da revolução, isolar e dividir o proletariado nos guetos nacionais, onde as derrotas seriam facilmente impostas pelas burguesias de cada país. Stalin, depois da morte de Lênin, seguiu à risca a política do socialismo em um só país e a história teve o desenrolar que se lamenta. Fracasso sobre fracasso.

A prosperidade econômica posterior da URSS não foi obra do ideal socialista. Foi resultado de uma deliberada política econômica de formação de uma acumulação primitiva capitalista. O socialismo em um só país desanda finalmente no socialismo em país algum (Mandel).

No seio da esquerda atual, mesmo aqueles não filiados, ou tardiamente desfiliados, ao stalinismo, paira um mandrake no pensamento que congela o debate e paralisa a ação política revolucionária. Esse tema do stalinismo precisa ser escarafunchado por todos que estão interessados na utopia pós-mercado. Tratá-lo e retratá-lo é o método catártico para que ele se metamorfoseie de fantasma em contra-exemplo a ser evitado, e, sobretudo, combatido, como se combate o próprio capitalismo, não como antípodas, mas como apenas antônimos; porque, afinal, revelam-se versões concorrentes do mesmo fenômeno – o privatista ocidental representa a versão liberal-burguesa na luta pela modernização. O capitalismo estatal pan-russo representa a versão bolchevique-stalinista na paradoxal e alternativa afirmação pela modernidade. O Estado (o partido bolchevique) tem o monopólio da modernidade.

A dimensão do tempo é uma variável que difere nestes dois modelos modernizantes.

O modelo staliniano é a síntese de um processo concentrado de acumulação primitiva dirigida para o capital, depois, pelo capital. Marx dizia que na acumulação primitiva valeu tudo: expropriação, saque, servidão, trabalho infantil, escravidão, enfim – barbarismo.

O horror é mais horror, é superlativo de horror, quando não tem intervalo. Stalin, instrumentalizando o horror, fazendo do horror, política, conseguiu concentrar vastos períodos da lentíssima história da acumulação capitalista dos países ocidentais em apenas trinta anos.

Coisas da vida.


32 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

Moral da história: o capitalismo é como ar, ele está ai. E vai uma pergunta: existia para a Rússia outra opção além do "capitalismo de Estado"? E, no final das contas, nem mesmo esse capitalismo de Estado deu certo. E hoje a grande heroína parece ser Luxemburg e seus discursos panfletários típicos de oposição que nunca chegou ao poder.

Malacara disse...

Rosa não fazia oposição, fazia revolução, seu capincho de botas.

Anônimo disse...

ô Maia, você também "está aí", mas nem por isso você é "como o ar"...você foi o infeliz resultado de uma infeliz decisão de seus pais de continuarem a criar um bugio sem pelos. Mas isso não significa que, deixado no mato onde você foi achado, você não estaria expressando o mesmo conteúdo que expressa na escrita, só que com aquele ronco bem alto.

Simão Bacamarte disse...

Na minha modesta opinião, o texto traz excelentes questões.
Não sei se é impressão de neófito, mas acredito que estamos assistindo uma renovação na crítica ao capitalismo, esperemos que os brasileiros contribuam bastante. O que vocês acham?
De resto, agradeço as chaves para leitura.

Prieb disse...

Para esse estrupício, o capitalismo é natural como o ar. Simples, não?

Anônimo disse...

Apenas uma observação: outro reducionismo, tanto à direita como à esquerda, é colocar Stalin como o deus onisciente, onipresente e onipotente. Fazer isso, é esquecer do Partido de modelo leninista, centralizado sim, mas com uma burocracia atuante e poderosa. Poder colegiado, onde Stalin expressava a guarda do que se entendia como marxismo-leninismo. De novo, é ter como referência para as análises apenas o retrovisor.

Nessa história, há que se separar a água suja da criança, e não jogar ambos, junto com a bacia.

armando

Carlos Eduardo da Maia disse...

Os bolcheviques fizeram uma revolução socialista e implementaram o quê? capitalismo monopolista de Estado. Os chineses fizeram uma revolução socialista e fizeram o quê? capitalismo de Estado e com mercado extremamente atuante. Todas as grandes revoluções socialistas viraram capitalismo de Estado. E Rosa de Luxemburg tentou fazer revolução no final de 1918 na Alemanha e perdeu feio. O povo unido que jamais será vencido não entrou na onda.

Juarez Prieb disse...

Armando, então leia "O Século Soviético" do Moshe Lewin, um cara de esquerda, pra ti ver se o Stalin não tinha um poder onisciente.

zorba disse...

Rosa foi covardemente assassinada em 1919, seu estrupício tapado, pelos fascistas.
Não diga merda.

Anônimo disse...

Bem Zorba, o que o Maia defende e acha que esconde são os fascistas mesmo, os que mataram a Rosa, os que troturaram e mataram no Brasil, os que torturaram e mataram na America Latina, os que criminalizam os movimenteos sociais, e criminosamene batem e arrebentam com o movimento social.

Este é o Maia! O Porta voz dos Nazistas e fascistas.

Claudio Dode

Anônimo disse...

O primeiro presidente negro da história daquele país já ligou para duas dezenas de chefes de estado pelo mundo à fora. Ainda não ligou para o Lula. Uma hora destas ele acorda invocado e liga pro Obama.

Anônimo disse...

Depois da Yeda, do Busatto, dos Mendes, e toda a caterva local, o que ele gosta mesmo é do Chile do Pinochet, e o Rio do outro Maia o das Milicias que ele chamava de
"autodefesa coletiva".

Iguais!

Claudio Dode

Anônimo disse...

Corrigindo não é "autodefesa coletiva", mas auto defesa comunitária".

Claudio Dode

Milton Ribeiro disse...

Hum... Voltaria junto com este?

http://pqpbach.opensadorselvagem.org/farejado-por-blue-dog/

Anônimo disse...

Alguem aí acredita que o Obama vai fazer alguma mudança?

Claudio Dode

Sueli-Porto Alegre disse...

Eu acho,só acho, que se o Maia não comentar aqui,o blog vai ter meia dúzia de comentários.Ele já deixou de ser um contraponto,agora é o Próprio Assunto ! Acho,só acho,que devemos colocar nossos pontos de vista sobre o assunto e não fazer o xingamento ao Maia uma matéria prá lá de especial!
O Maia faz o seguinte: ele solta opiniões idiotas,umas 4 e depois some ,e fica todo mundo discutindo os comentários do Maia.E ele fica dando gargalhadas,pois consegue MANIPULAR e Monopolizar,e os comentários ficam nulos,pobre,pobres,na melhor hipótese.É causo de psiquiatra e quem vai na onda está se deixando manipular.
Acho,só acho, que tá na hora de DAR UM PÉ NA BUNDA DO MAIA!

E que cada um coloque o que pensa!

Abraço SueliF

MASQUINO disse...

Esqueçam o Da Maia.Como está nos Vedas,ele é maia(ilusão).É um sebastianista como Antônio Conselheiro.

Simão Bacamarte disse...

Mas Sueli, acertaste na mosca. Esse sujeito consegue mesmo acionar aquele botãozinho vermelho, inclusive no Simão aqui. E com provocações idiotas.
Aqui se escrevem coisas muito ricas, e essa necessidade (por enquanto, suprida) de atenção do tal de Maia só diminui o nível da nossa conversa. Um abraço.

e tchau, Maia!!!

Carlos Eduardo da Maia disse...

Acho o assunto que o Feil colocou neste post extremamente interessante e importante. Sempre admirei a Rosa Luxemburg. Quando morei em Berlim segui seus passos.Li alguns de seus livros, mas cheguei a conclusão que ela é apenas mais uma panfletária, porque, infelizmente, está certo aquele preceito piegas: a teoria na prática é outra.

Ary da Silva Martini disse...

O capitalismo, num processo desigual e combinado, levou décadas para se firmar em algumas partes do mundo (o capitalismo ainda não está globalizado). Existisse ainda a URSS ela estaria, sem dúvida, num processo mais avançado de democracia. Stálin, uma das figuras mais incompreendidas do mundo, faz falta. Trostski foi a Heloisa Helena da época. Combater o processo soviético em nome da revoluçãomundial foi um grande equívoco. A esquerda precisa fazer essa autocrítica. Nem que durasse 100 anos, era preciso manter e fortalecer o estado soviético. O mundo, hoje, seria outro.

Anônimo disse...

Ô Sueli,

Se ninguém aqui der um minimo de atençao para o Maia, ele vai se suicidar. O cara escreve num blog que ninguém (talvez nem le mesmo) lê. Pô ele vai no restaurante que yeda laranjal vai nem ela dá que seja um farelo de pão!

Pois, eu nunca vi um cara ser tão espinafrado em lugar, que não tem nada a ver com ele, e continuar a dar suas "necessárias considerações", que ninguem acha necessária, e nunca são pertinentes. O que o faz só por falta de educação?

zozé disse...

Ary, Trotsky foi um dos homens mais cultos da Europa oriental do início do século XX.
Por favor, menos. Heloisa Helena é uma monja histérica.
Menos!

Anônimo disse...

A mulher de quem me sinto mais próxima é Rosa Luxemburg. Mas isso não quer dizer que eu parece com ela: significa que gostaria de parecer. Rosa foi uma Cassandra do socialismo, porque sempre advertia contra o que ia dar erado. Tinha um infalível sexto sentido para tudo o que era falsidade, fraude ou traição. (...) Era uma revolucionária, uma representante do iluminismo e uma democrata: acreditava no bom senso de todo ser humano. (...) Sempre participou das ações revolucionárias quando isso foi possível, mas recusou toda crueldade ou terror...
Mesmo nos piores momentos, mesmo na prisão, foi capaz de ser feliz. Seus prazeres eram simples, mas ela era capaz de encontrá-los em qualquer circunstâncias. (...)
AGNES HELLER

Luís disse...

Ary: superficial é uma coisa que Trotsky nunca foi, tal qual a minha ex-senadora favorita ao se alinhar à direita na crítica monotônica moralista ao Governo Lula. A crítica trotskista ao regime stalinista sempre foi pela esquerda, e sempre defendendo o estado soviético.

E isto que em termos estratégicos a política stalinista foi um desastre, pois foi uma das principais responsáveis pela vitória do nazismo, ao propor ao PC alemão um combate sectário ao "social-fascismo" (social-democracia), facilitando a vitória eleitoral dos nazistas.
O custo da sobrevivência do estado soviético aos moldes stalinistas foi de milhões de mortos (incluindo a segunda grande guerra) e um atraso por décadas na visão política de esquerda.

Isto tudo me lembra o que o próprio Trotsky dizia: quase tudo na vida é mais complexo do que aparenta...

Anônimo disse...

IN: Os Homens em Tempos Sombrios.

Rosa Luxemburgo (1871-1919)

"... quanto à questão da organização, ela não acreditava numa vitória onde o povo em geral não tomasse parte ou não tivesse voz; na verdade, acreditava tão pouco em tomar o poder a qualquer preço que "tinha muito mais medo de uma revolução deformada do que uma fracassada" _ esta era, de fato, "a grande diferença entre ela" e os bolcheviques.
E os acontecimentos não provaram que ela tinha razão? Não é a história da União Soviética uma longa demonstração dos terríveis periGos das "revoluções deformadas"? O "colapso moral" que ela previra _ sem antever, não causou mais dano à causa da revolução tal como a entendia do que "toda e qualquer derrota política... em luta honesta contra forças superiores e nas garras da situação histórica" possivelmente teria provocado? (...)
Ela não viveu o suficiente para ver o quão certa estava ...
HANNAH ARENDT

Carlos Eduardo da Maia disse...

Hannah Arendt fotografou muito bem o julgamento do sequestrado Eichman em Jerusalém, em livro magnífico. Mas todo esse raciocínio é singelo. Singelo demais. Rosa tinha fobias de revoluções deformadas, como se fosse possível fazer revolução plena. No fundo, no fundo, a revolução é uma grande reforma. Não há como deletar completamente o "ancién régime". Mas não estamos mais nos tempos das revoluções ou alguém acredita aqui que as sucessivas crises capitalistas vão modificar a essência do regime? A revolução a ser feita é no próprio sistema (como diria, inclusive Gramsci), é a luta pela humanização. Obama talvez seja reflexo disso.

Carlos Eduardo da Maia disse...

É importante lembrar que o próprio PCB prestista em diversas oportunidades -- recomendado por Stálin -- fez acordos e alianças incríveis com o fascismo no Brasil.

Anônimo disse...

Ô Maia,

Tu tens que me responder é se alguem, no PT, ou na esquerda tenha feito qualquer coisa parecida como a que o Busatto confessou.

Esta é a tua turma os Fernandes, os Culaus, O Lair, a Yeda Laranjal, Os Mendes, tanto o Juiz político empresário, como o facinora do Cel. querendo tomar teu lugar de porta voz do nazismo.
Este é o teu lumpesinato.

Sueli-Porto Alegre disse...

Ô Anônimo das 14:41

O cara é um manipulador,mas tem que ter o manipulado,reciprocidade!
Então se queres ser um cara crítico e criativo, e dentro de uma certa normalidade,IGNORA,senão tu vais ser usado! e pior, abusado também.
O medo dessas pessoas é serem IGNORADAS,soa como morte...
Abraço em ti e no Cristof ( fica chic)

SueliF ( mais chic ainda)

Anônimo disse...

SueliF,

Obrigado pela tua conpreensão e preocupação coma possibilidade de ser usado pelo calhorda.

Eu só quero que em algum momento este imbecil, embora reconheça o sua personalidade ardilosa, e até habilidade na escrita, tenha, sei lá, alguma consciência e mesmo sem nenhuma vergonha sinta pelo menos que este é um lugar que um ser tão desprezível como ele não deveria insistir em frequentar.

Nada mais do que isto.

Como lhe falta hombridade até para identificação, trato como se fosse uma, digamos, assombração que não se vê, ninguém acredita e só presta é para incomodar.

Um bom fim de semana para ti

Sueli-Porto Alegre disse...

Anônimo...Pessoas assim não reconhecem nunca que são dispensáveis,como todo mundo é!
Ele é Psicopata Social.Nem psiquiatra muito bom ,nem choque elétrico ( lembrando o Lasier)vai dar jeito de ele reconhecer outro pensamento,outra idéia que não seja a dele.É doença das brabas.
E tu queres ,onipotentemente, curar o Tal Coisa...
Um passo importante é não se deixar manipular.

Não ecziste cura...

Abraço em ti e no Cristof

SueliF

Sueli-Porto Alegre disse...

Claro que só ACHO,ACHO, que o Tal tem essa patologia...Quem sou eu prá fazer diagnósticos.

Abraço SueliF

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