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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Essa criadagem está ficando cada vez mais atrevida...



...E ainda por cima, fazem ruídos ao escovar os dentes

Trecho da página dominical da veterana jornalista Célia Ribeiro, publicado em Zero Hora de ontem:

[...] Dia desses, entrei no banheiro de um shopping, por volta das três horas da tarde. Todas as pias da bancada de mármore estavam ocupadas por funcionárias das lojas que escovavam os dentes com o maior esmero, diante do espelho, formando espuma da pasta dental na boca. Havia mais duas senhoras à espera para lavar as mãos, mas nada levou aquelas vendedoras a acelerar sua higiene bucal (bom senso seria os shoppings oferecerem aos seus funcionários banheiros privativos para deixá-los mais à vontade).


Se isso não ocorre, que elas escovem os dentes no banheiro comum, rápida e discretamente, sem ruído, deixando os detalhes para aprimorar na pia de casa, no final do dia. E, cá para nós, não é nada favorecedora a imagem de um rosto no espelho, com as bochechas infladas pelo vaivém da escova. [...]

..................................

Dias desses, afirmei a um amigo que o clima social no Brasil está muito parecido com aquele que se encontra na literatura argentina do período Perón-Evita. O ascenso das massas a bens de consumo, de higiene pessoal, de escolaridade, enfim, de voz e não dos sussurros e gemidos das dores da senzala, está provocando uma ira surda, mas incontida, das classes privilegiadas. Meu amigo concordou.

Paira uma nuvem de animosidade de classe no ar, para bem além da velha luta de classes. É um elemento novo no Brasil. A luta de classes agora também no plano da subjetividade: os olhares, os odores, a estética, os ruídos orgânicos dos pobres e não-brancos, e sobretudo, no vasto leque do que é classificado como "bom gosto" e como "bom senso". Dona Célia, por exemplo, se acha no direito de ditar o que é bom senso para a massa ignara.

O pobre não pode escovar os dentes, se o fizer, não pode fazer ruídos. Não deve inflar as bochechas e ficar no vaivém da escova dental, isso pode desfavorecer a imagem de um rosto no espelho. Essa imagem está aterrorizando as senhoras bem nascidas, em locais públicos, shoppings e quetais. Isso precisa ser interditado, já. Aonde vamos parar com essas liberdades todas... em bancadas de mármore?

É uma questão de "bom senso", como lembra a decana jornalista da RBS.

O ambiente é um prato cheio para a literatura e o cinema. Os argentinos tem uma ótima (e vasta) narrativa, em diferentes linguagens e suportes, para este fenômeno dos conflitos de classes (e étnico-raciais) no plano da subjetividade dos atores sociais.

Fac-símile parcial da página 15, caderno Donna ZH, encarte do jornal Zero Hora, edição de 22/ago/2010.

14 comentários:

Jesus Divino disse...

Cristóvão,l

Ela deve fazer parte desta turma que gosta de "massa, mas uma massa cheirosa"

http://www.youtube.com/watch?v=yuXgolrKWjA

Jesus Divino Barbosa de Souza
http://twitter.com/JesusDivino
http://jesusprev.zip.net

Anônimo disse...

Estes apêndices jornalisticos, como estas áreas de frivolidades, da qual Célia Ribeira, Eduardo Conil, Bins Ely são a marca de classe de um jornal.
Ali os bem-nascidos são enfocados em atividades lúdicas e dá-lhe preconceito contra a plebe...
Esta senhora reproduz sua opinião, de sua classe e de seus patrões, financiadores de governos neoliberais e que não gostam do cheiro e dos hábitos do povo. Mas, que vem pedir votos a este mesmo povo, de 4 em 4 anos...

Rick

Omar disse...

Não foi tu que viu o motorista de um carrão importado, na Ipiranga, baixar o vidro fumê para atirar na rua uma lata de cerveja?
É isso aí.

Moises disse...

Esta Senhora é tão ou mais grotesca quanto a escovação de dentes em público. É só um pouco de descência para todos deste banheiro. É que uns, à toa, observa para escrever depois o que outros fazem por necessidade. O Anibal, o serial-killer, arrancaria o nariz desta pessoa.

Anônimo disse...

Essa tua sensação também é minha e de diversos amigos. Quase não passa dia, sem a gente contar exemplos engraçados ou trágicos (dependendo do poder que o ignorante rico tem) das atitudes ressentidas de quem vai perdendo privilégios, espaços exclusivos etc.

Dilson disse...

Assisti ontem a uma entrevista do Senador Sérgio Guerra (PSDB-PE)no programa Canal Livre da Band.O distinto tucano declarou que Lula é um fenômeno que nunca mais vai se repetir no Brasil,"um operário chegar a presidência".Isto evidencia a visão preconceituosa e elitista do partido deste senhor.Depois deste programa,um pai em Juazeiro do Norte por exemplo,vai olhar pro filho, que se prepara para o Enem, e dizer:
"-Não adianta estudar meu filho,você nunca vai ser presidente."

marcelo disse...

E a tendência é só piorar. Cena clássica eu vi em Torres, onde a classe média gaúcha vai veranear. Lá pelas tantas chega um ônibus cheio de pessoal bem humilde do interior. Ai comecam os comentários sobre eles descendo do ônibus e "invadindo" a praia. Aliás, a classe baixa é sempre tratada como "eles".
Exemplo: agora "eles" descobriram essa praia.

marcelo disse...

Gostei dos "banheiros privativos para deixá-los mais à vontade". Afinal eles nao estao a vontade ali, pois tem que dar lugar às castas superiores quando elas chegam.

Remindo disse...

Não brinquem com a Senhora Célia Ribeiro. Ela pode escrever o Manual da Etiqueta do Blogueiro Sujinho.

Anônimo disse...

A sujeita segue a filosofia cacoantibeana: "tenho horror de pobre". Ou, parafraseando o velho Duke: "pobre bom é pobre morto".

Anônimo disse...

Bah, que lixo!
Mas, meu amigo se vc procurar na lixeira social burguesa (rbs), só vai encontrar material putrefato.
E ler Célia Ribeiro, tu te puxou, hein?

Anônimo disse...

Pior que isso só se elas não pudessem escovar os dentes... queria ver a maravilhosa "dondoca" autora do texto, escrevendo outro texto porque foi atendida numa loja por uma funcionária com uma alface presa nos dentes... ah me faça um favor... a autora foi extremamente infeliz..

Anônimo disse...

Como já passei por situação melhante num banheiro, me questiono sobre esse comportamenteo que se repete em circunstâncias que envolve o "público".
Se o banheiro é público temos que usá-lo pensando nos demais que estão à espera ou não? Entendo que sim.
No entanto, em muitas numa atitude individualista, típicamente capitalista, ignorando o direito dos outros e usamos o público como se fosse nosso.
Esse comportamento, não é privilégio da elite econômica que se considera acima dos demais, mas está em todas as classe. Sem dúvida, reflexo de um sistema social que incentiva o sentimento individualista.
Portanto, na utilização de qualquer espaço público levar em conta o direito dos outros é uma atitude de quem respeita a democrcia.

Nazaré Cavalcanti disse...

Decana, veterana e caquética.

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