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segunda-feira, 7 de junho de 2010

"Lula, o filho do Brasil" é um grande fracasso cinematográfico


Motivo: muito ruim

Por essas casualidades da vida, acabei vendo dois filmes afins neste final de semana: "2 filhos de Francisco" e "Lula, o filho do Brasil".

São narrativas aparentadas, histórias de brasileiros célebres que ascenderam socialmente, apesar da origem muito humilde, das tragédias familiares e do triunfo que cada um - a seu modo - logrou conseguir.

Não se trata aqui de examinar a vida dos indivíduos retratados nos filmes, mas apenas comentar as narrativas cinematográficas, especialmente a de Lula, contada pelo diretor Fábio Barreto e sua família, todos envolvidos de alguma maneira com a obra.

"Lula, o filho do Brasil" é um péssimo filme. Fica evidente que os seus realizadores quiseram contar a história de Lula com uma linguagem acessível a todos, a famosa estética nacional-popular tão procurada pelas diferentes linguagens artísticas da esquerda brasileira desde a Semana de Arte Moderna de 1922, passando pelo Cinema Novo, o Tropicalismo e outros movimentos identitários brasucas.

Repito com convicção: o filme de Fábio Barreto é muito ruim. O que se salva é a fotografia de Gustavo Hadba, a música de Jaques Morelembaum, e a excelente atriz Glória Pires, assim mesmo chamuscada pelo texto precário que lhe impuseram. Nenhum grande ator ou atriz resiste a um texto de má qualidade, onde predominam os diálogos fracos que não conectam nada a coisa nenhuma. Glória, que faz a dona Lindu, mãe de Lula, pelo menos se mantém de pé até o fim. O roteiro carece de criatividade e é mais furado que queijo suíço. Carece, aliás, de tantas coisas: timing, densidade e, sobretudo, surpresas. É um filme raso e previsível. Para piorar, deixa a impressão de ser pretensioso, parece que aspira ser o profeta do acontecido. A "profética" frase de dona Lindu ilustra bem: "Você tem tanta responsabilidade meu filho... a principal delas é não esquecer de onde tu veio...".

Alguém dirá que sou contra o melodrama no cinema. Não, não sou contra esse gênero nem no circo, que dirá no cinema e no teatro. O diacho é que "O filho do Brasil" é um melodrama travado, parece que tem vergonha de se mostrar melodramático. Por isso, talvez, que o resultado é inqualificável. Quando a primeira mulher de Lula morre no parto, junto com o filho, o que sente a platéia? Nada. Falta precisamente o elemento dramático, a força expressiva - não dos atores, não é responsabilidade deles -, mas de um bom diretor, de cortes precisos, de uma montagem que dê sequência às cenas e tomadas, que dê um sentido, uma personalidade estética, porque o que se vê no filme da família Barreto é o vazio estético.

O filme acaba resultando num grande trailer, de uma obra cinematográfica que jamais será apresentada. Cenas parcelares de uma biografia rica, marcadas pela pobreza material, mas que não logram formar uma cinebiografia consistente e convincente. Os desvãos por onde a narrativa se perde são muitos e profundos. Falta um elemento essencial que é a verossimilhança, por exemplo, na cena em que o jovem Lula joga futebol num campinho de periferia, não sei se em Santos ou São Paulo. O time todo de Lula está com a camiseta do Corinthians. Ora, isso é inconcebível hoje, imagine-se tal façanha no final da década de 50 e início dos 60. Meninada de periferia nem sonhava jogar com a camiseta do time do coração. Se vê, assim, que há uma distorção do real para satisfazer uma parte da biografia de Lula que o reconhece como corinthiano. Importa dizer que o protagonista é corinthiano, a coerência entre o real e a sua representação que vá às favas.

Outra: o velho ator Antonio Pitanga faz o papel de tutor do jovem operário na fábrica em que este inicia a profissão de torneiro-mecânico. Há inúmeras passagens de tempo - muda o ator porque mudou a idade do protagonista - e o velho Pitanga continua ao lado do Lula barretiano como no primeiro dia de trabalho (ver fotos acima). Brincando, pode-se dizer que Pitanga foi quem ensinou tudo ao hoje presidente Lula?

Sem falar no tratamento moral dado ao grande personagem, sempre considerado modelar, edificante e irrepreensível. Já não se fala, igualmente, da propensão quase essencial do Lula barretista à conciliação desde pequenino. Não basta quase gritar que Lula nunca foi comunista - e não o foi, jamais. Mas há uma constante lembrança de que o ex-sindicalista nunca foi um radical. Os radicais eram os outros, os que jogam um patrão engravatado do alto de uma passarela para a morte. Os que assaltavam os portões de fábricas para promover quebra-quebra em seu interior. Neste sentido, o filme dos Barreto é uma obra moralista, mas que ainda assim não tem nenhum caráter.

Custou cerca de 18 milhões de reais - o maior orçamento de um filme brasileiro em todos os tempos - e pretendia cativar cerca de 20 milhões de espectadores só no Brasil, sem falar na exibição em salas de toda a América Latina. Hoje, passados menos de seis meses de sua estréia, não conquistou mais que dois milhões de espectadores e sua carreira no exterior fica comprometida em definitivo.

A direita que atacou o filme antes mesmo de assistí-lo, sob alegações de que serviria de plataforma eleitoral para a candidata lulista ao Planalto, fica mais uma vez carente de argumentos, entre tantas outras carências, especialmente votos.

A rigor, "Lula, o filho do Brasil" jamais poderá projetar alguém a algum lugar. Quem pode - e o está fazendo - é o próprio Lula, em carne e osso, com a sua candidata Dilma Rousseff. O filme - como um autêntico projeto oportunista - queria pegar carona em Lula. Mas, como todo oportunista, se deu mal.

Já o filme "2 filhos de Francisco" - inspirador dos Barreto, como projeto cinebiográfico - é surpreendente. Sensível, bem conduzido, e jamais escorrega para o lado fácil do drama pessoal que foi a vida de seus protagonistas, Luciano e Zezé di Camargo. Está de parabéns o diretor Breno Silveira.

Coisas da vida.

13 comentários:

Anônimo disse...

Antipático o seu post. Inoportuno também,já que o diretor sofreu um acidente e está em coma. Adorei o filme e nunca soube dessa pretensão de alcançar 20 milhões de espectadores. Achei o filme do emocionante também, e não vi o filme do Zezé di Camargo. Saiba que o público brasileiro prefere assistir o filmes estrangeiros e que para um filme nacional foi um enorme sucesso fazer mais espectadores que o filme da Xuxa, e outras bobagens que estreiaram junto.

Wadilson disse...

hahaha, hilário isso..
se eu gostei do filme e se o diretor, ou o produtor, ou o ator, what a fuck, se estrupiou em algum acidente esdrúxulo, não se pode falar mal..
ai, oras bolas.

bom, nem era pra comentar o post, era pra comentar o comentário mesmo.

de qq maneira, já que estamos aqui, não pretendia ver o filme, pois o sabia piegas. agora sei q nem isso conseguiu ser.

quero sim ver o trabalho de oliver stone, que mostra os lideres da Am. Latina com outros olhos, com frescor, sem o ranço da secretária de estado dos eua ou o preconceito vira-lata e proto-imperialista dos paulistas e cariocas.
Ei, Anonimo, isso é 'filme estrangeiro'?

no mais, parabens ao Diario Gauche

kikodmachado disse...

O filme para mim tem um propósito e alcançou seu objetivo, ponto.

Juarez disse...

ninguém pode criticar os filmes do Joaquim Pedro de Andrade, do Arnaldo Jabor e do Federico Fellini porque todos já morreram.
Em que lei escrita ou não escrita está determinado isso?

BRETTAS disse...

Cristóvão, concordo com a análise. Faltou só direção, tinha bons atores, dinheiro, um excelente argumento, mas foi muito mal montado, a história não tem seqüencia. Agora, não poder criticar o cara porque bateu o carro e se estropiou? O admiro e tenho pena pelo acontecido, mas isso não torna o filme bom. Ainda espero um grande filme que conte a história do grande homem que é o Lula.

Anônimo disse...

Criticar filmes sempre foi mais fácil do que fazê-los. Gosto dos filmes nacionais, de todos eles, até dos ruíns. Mas as críticas são bem vindas. É uma pena que as críticas de cinema são tais quais os comentários dos jogos de futebol. Não conheço crítico fazendo filmes, nem comentarista treinando time de futebol e eles sabem tudo. Quantos bons filmes e bons times teríamos...
JN Canabarro
jncanabarro@bol.com.br

jogos da memoria disse...

Entendo o que diz o Canabarro, nessa limitação que vivemos, um filme sempre é um passo adiante. Mas não posso negar que concordo com a crítica.

Anônimo disse...

feil,

não seria pretensioso no lugar de pretencioso?

Cristóvão Feil disse...

Sim, anônimo, você está certo.
Já corrigi.
Obrigado!

Abç.

CF

Carlos Eduardo da Maia disse...

Esse filme é uma picaretagem.

Anônimo disse...

Olha que picaretagem o Maia entende, hein?

Mas que importa o filme se na vida real o negócio deu certo?

Enquanto isto, aproveitando a saida da direita subserviente do poder, o Brasil, para alegria dos brasileiros, cresce a 9%.

O Lula fez o que a elite, mais interessada em agradar os gringos e se esbaldar em Miami, nunca fez pelos brasileiros e pelo Brasil.

Henrique disse...

Ainda não vi o filme sobre o Lula, mas discordo sobre a qualidade de "2 Filhos de Francisco", pois penso que o filme é bem conduzido até certa altura da história quando há um rompimento sequencial. Claramente para manter o filme dentro do tempo limitado, o que prejudica a obra como um todo, o diretor tem q apressar a história de maneira que transformações importantes na vida dos personagens passam-se em segundos de história.

Entretanto, também penso que um filme com um investimento de quase 20 milhões de reais tem a pretensão de atingir 20 milhões de pessoas, ou ao menos arrecadar mais do que foi gasto.

Espero que o fracasso de Lula em 2010 seja apenas cinematográfico e que nas urnas o Brasil não seja iludido pela ficção-centìfica do neo-liberalismo serrista.

Anônimo disse...

Que o filme é ruim de doer, nem precisa discutir. Mas hilário é o autor do texto dizer "O filme - como um autêntico projeto oportunista - queria pegar carona em Lula", quando sabemos que o projeto todo partiu de dentro do governo, com direito a acompanhamento de perto do roteiro por Franklin Martins e financiamento de todas as empreiteiras que costumam 'vencer' licitações no governo Lula. Foi sim uma tática para a campanha, mas que naufragou de forma melancólica.

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