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Foto-legenda:
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Gostaria de conhecer o cálculo moral e o balanço ético feito pelo Dr. Marcio Thomaz Bastos para defender e posar ao lado do Cachoeira. O ex-ministro da Justiça do governo Lula sentado com um operador da bandalheiras da direita parlamentar em conluio com a direita midiática. Sentado, defendendo e referendando a conduta pestilenta e antissocial de um inseto político.
Esse Marcio Thomaz merece o desprezo de todos nós. Como foi feito, durante a ditadura, com o cantor Wilson Simonal. Um desaparecimento cívico total e definitivo.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
O dia de Leopold Bloom, hoje, não tem nada de Ulisses
Vladimir Nabokov lê Ulisses, de James Joyce
Hoje é dia 16 de junho. Dia ao qual o escritor James Joyce (foto) dedicou um romance chamado Ulisses.
É, portanto, conhecido como Bloomsday, já que na obra são narradas as 18 horas de um certo Leopold Bloom, um judeu-húngaro que perambula por Dublin, precisamente no dia 16 de junho de 1904.
Não li, ainda, Ulisses. Estas linhas aqui são uma espécie de autoincentivo para fazê-lo, em breve. Se até Marilyn Monroe, que diziam ser frívola, leu Ulisses (ver foto), por que não posso me autodesafiar para conseguir o mesmo? Conheço a genialidade de Joyce por seus contos. Portanto, tudo que está escrito a partir de um certo parágrafo abaixo, não é da minha lavra, como se diz. Me socorri de outro escritor do qual gosto muito, e que se chama Vladimir Nabokov ((São Petersburgo, Rússia, 1899/Montreux, Suíça, 1977), autor do genial e delicioso "Lolita", e de outras obras não menos importantes. Acontece que Nabokov foi professor de literatura nas Universidades estadunidenses de Wellesley e Cornell, a partir dos anos 50 do século passado. Suas concorridas aulas acabaram sendo publicadas depois de sua morte, já nos anos 80. Estão editadas em três volumes, cada um com mais de 500 páginas: Curso de Literatura Europea, Curso de Literatura Rusa, e Curso sobre El Quijote todos em espanhol, pelo menos é a edição que consegui comprar meses atrás, da editora espanhola Zeta. Paguei menos de 30 reais, cada um. Livros novos, papel jornal.
Nota-se que Nabokov tinha uma especial admiração por Joyce, talvez por este também ter sido um expratriado, ter vivido quase toda a sua vida longe da pátria irlandesa, tendo morrido igualmente na Suíça. Embora essa admiração não tivesse migrado para a rica literatura praticada pelo russo.
Mas vamos a alguns trechos do que Nabokov ensina sobre Joyce/Ulisses (livre tradução minha):
Ulisses é a descrição de um só dia, a quinta-feira de 16 de junho de 1904; um dia das vidas misturadas e separadas de inúmeros personagens que perambulam, viajam, se sentam, conversam, dormem, bebem e executam diversos atos fisiológicos e filosóficos, importantes e desimportantes, durante este único dia e nas primeiras horas da madrugada do dia seguinte em Dublin.
Ulisses consta de uma série de cenas construídas em torno de três personagens principais: destes, quem predomina é Leopold Bloom, modestro agente publicitário, vendedor de anúncios para ser exato. Os outros personagens importantes são Stephen Dedalus, a quem Joyce já descreveu em "Retrato do artista quando jovem" (1916), e Marion Bloom, esposa de Bloom.
Ulisses é uma estrutura sólida e esplêndida, mas um pouco superestimada por essa espécie de críticos mais interessados pelas ideias, pelas generalidades e os aspectos humanos que pela obra de arte em si. Devo advertí-los especialmente contra a tendência a enxergar nas aborrecidas vagabundagens de Leopold Bloom e suas pequenas aventuras de um dia de verão em Dublin uma paródia fiel à Odisseia - ou seja, de Ulisses, homem de muitos recursos - ou a adúltera mulher de Bloom representando o da casta Penélope, enquanto que Stephen Dedalus representaria o papel de Telêmaco. Evidentemente, na questão das vagabundagens de Bloom há um eco homérico, vago e generalizado, de acordo como está sugerido no título da novela; e existem diversas alusões clássicas, entre tantas outras, ao longo do livro; mas seria uma completa perda de tempo buscar paralelos em cada um dos personagens e em cada uma das situações do livro. Não há nada tão tedioso como uma grande alegoria baseada em um mito conhecido; depois da publicação da obra em fascículos, Joyce retirou os títulos pseudohoméricos dos capítulos ao comprovar o que seriam capazes os charlatões eruditos ou pseudoeruditos.
Qual é então o tema principal do livro? Muito simples:
1. O irremediável passado. O filhinho de Bloom morreu há tempo, mas sua imagem permanece em seu sangue e seu cérebro.
2. O presente ridículo e trágico. Bloom ama Molly, sua mulher, todavia deixa que o destino siga o seu curso. Sabe que pela tarde, às quatro e meia deste dia de junho, Boylan, elegante empresário e possuído de Molly, irá visitá-la... e não faz nada para impedí-lo. Procura manter-se escrupulosamente a margem da marcha do Destino.
3. O futuro patético. Bloom tropeça constantemente com outro jovem: Stephen Dedalus.
Este é, pois, o tema principal: Bloom e o Destino.
Os personagens se encontram a cada instante em suas peregrinações ao longo desse dia em Dublin. Joyce nunca perde o controle sobre eles. Com efeito, vão, vêm, se encontram e se separam e voltam a se encontrar como partes vivas de uma cuidadosa composição, numa espécie de dança lenta do destino. Um dos efeitos mais chamativos do livro é o da periodicidade de certos temas. Tais temas estão muito mais definidos, muito mais deliberadamente perseguidos, que aqueles encontrados em Tolstoi ou em Kafka. Ulisses, inteiro, como nos damos conta gradualmente, é uma proposital trama de temas frequentes, e uma sincronização de acontecimentos triviais. [...]
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2 comentários:
Muita boa a edição de hoje, em especial a foto do jornalista assassinado em Honduras. Saludos celestes!
Não é verdade que Nabokov nunca produziu um texto ficcional joyceano, como Anthony Burgess fez por exemplo.
Veja Pale Fire -> http://en.wikipedia.org/wiki/Pale_Fire
Há uma versão online de Pale Fire, muito mais interessante de ler -> http://leitura_do_dia.blogspot.com/2007/07/shift-from-modernism-to-postmodernism.html
Trata-se de um romance não-narrado. Ele é a história da feitura de um poema épico em 4 cantos, nunca concluido. Sua estrutura é a de um caderno de rascunhos; os personagens da vida do autor-personagem são citados axialmente, apenas.
Há uma interessantíssima versão online e interativa de Pale Fire, que eu não consigo encontrar mais.
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