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quarta-feira, 4 de março de 2009

União Européia começa a ruir


Leste, endividado, ameaça estabilidade econômica da Europa

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – já cantava Camões. Agora a União Européia não quer mais ajudar os países do Leste, também conhecido como ex-Cortina de Ferro.

Um sintoma evidente de que a União Européia está ruindo. É o que constata o jornal italiano Il Manifesto, na edição de segunda passada, em matéria cujo título é “A União que já não é”.

A recente reunião da UE sobre protecionismo decidiu que não pode mais emprestar recursos para países como a Estônia, Lituânia e Letônia. Esses três países estão em crise econômica profunda, assim como a Ucrânia.

Secou a fonte de mel e moedas que fluía pródiga de países como Alemanha e França, principalmente, para as ex-repúblicas soviéticas e satélites. O esquema é o neocolonialismo travestido de ajuda humanitária, solidariedade européia e outros quetais da manjada propaganda neoliberal. Funcionou por quase vinte anos, pelo menos desde a queda do muro de Berlim em 1989.

A laranjada mecânica da coisa era a seguinte: uma montadora francesa, por exemplo, queria explorar a mão-de-obra qualificada mas aviltada e ociosa do Leste. Atrativos: achatamento de custos de produção, downsizing, fuga de centros sindicais fortes, precarização livre do trabalho, possibilidade de superexploração, reserva de novos mercados estratégicos, estímulo à coesão social pelo trabalho, difusão do etos capitalista num meio supostamente “comunista”, aproveitamento de incentivos fiscais, alfandegários e financeiros, tanto do país de origem quanto do país hóspede da planta fabril, etc.

Mais: as montadoras, as empresas varejistas e industriais e a banca fizeram esforços junto a seus governos de origem, na totalidade de corte neoliberal, para financiar infra-estrutura naqueles países. Os governos achavam que pingava o maná dos céus, “Deus finalmente olhou para nós”, dinheiro farto e a baixo custo, assistência técnica embutida nos financiamentos, estímulo à adoção de novíssimas tecnologias, cursos grátis de MBA, difusão maciça de empreendedorismo em quatro lições, etc. Desde que as contrapartidas fossem satisfeitas.

Que contrapartidas? Ora, o de sempre. Privatização quase geral dos serviços públicos, desde o ensino em todos os níveis, a saúde, os transportes públicos, o setor viário, saneamento básico, água, eletricidade e energia (petróleo, gás, hídricas, eólica), banca, etc. Paralelo à destruição material e simbólica da vasta estatuária stalinista, foram construídas estradas com financiamento público, a pedido das montadoras, com o objetivo de estimular o mercado do transporte individual por automóvel.

Na recente reunião da UE que tratou do protecionismo, foi negado um pedido de socorro de 190 bilhões de euros à Estônia, Lituânia e Letônia, o chamado Bail-Out Plan. A fonte secou, deixando um rastro de dívidas impagáveis, desemprego em massa e um modo de levar a vida de forma perdulária, insustentável e inútil - os padrões fantasiosos da mentalidade pós-muro.

Neste encontro de cúpula, Nicolas Sarkozy chegou a dizer que "se o Estado ajuda a indústria automobilística com créditos a taxas privilegiadas, não é para estes irem abrir fábricas na Eslovênia ou outro lugar qualquer".

Leia aqui a matéria do Il Manifesto (em italiano).

9 comentários:

panoramix disse...

"Nicolas Sarkozy chegou a dizer que "se o Estado ajuda a indústria automobilística com créditos a taxas privilegiadas, não é para estes irem abrir fábricas na Eslovênia ou outro lugar qualquer"!
Acho que falta pouco para Obama dizer a mesma coisa!

mariorangelgeografo.blogspot.com disse...

Parece-me que uma das premissas do neoliberlismo e do mercado no capitalismo globalizado, o estado mínimo, está realmente em curso.

Até mesmo as grandes potências estão no "mínimo".

O castelo de cartas ruiu e mostrou que os capitais que anteriormente fluiam livermente, não passava de nuvens de fumaça.

Finichi...

Carlos Eduardo da Maia disse...

Eu não acredito e nunca acreditei em Estado mínimo e também não acredito que o Estado vá fencer a la Meszarós ( o pensador medíocre citado por Neiva Lazarotto hoje na ZH). O leste europeu tem que seguir a receita do desenvolvimento. Alguns países estão conseguindo, como a república tcheca, a hungria, a croácia, a eslovênia etc. Outros patinam. Isso faz parte do aprendizado dessa linguagem. Mas tem gente que é contra, bate o pé, fica brabinho, tem ataques de histerias etc. Coisas da vida.

Anônimo disse...

Que nojo desse maia, além de escroto, não tem vergonha na cara, depois de tudo que foi dito aqui neste blg e em outros onde ele insiste em fazer "o bom debate" como ele, cinicamente, tenta convencer os incautos, ainda assim ele vem com essa ladainha de que não acredita nisso ou naquilo, como se alguém aqui se interessasse pelo ele pensa, cai fora seu vendido!!!
Carmem

Gustavo Schirmer disse...

Em espanhol aqui.

claudia cardoso disse...

O Filme "O Corte" de Costa Gravas, nao recordo o ano agora, eh exatamente a denuncia do neoliberalismo. Para quem nao viu, tem nas locadoras.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Uma das cenas recorrentes do filme "o Corte" do Gavras são os painéis de publicidade que estão em todos os lugares e mostram produtos magníficos que o executivo desempregado não tem mais condições de consumir.

Anônimo disse...

Topico diferente mas dentro de assunto similar:
GM diz ter dúvida sobre capacidade de continuar a operar(terra-invertia):
http://tinyurl.com/GM-falencia

Fabricio disse...

Sr.Maia ! Por favor coloque em sua vida, humildade! Só isso, é barata nada custa! A única coisa é a seriedade que o mundo capitalista(falido) não pratica! QUEM É O MADOFF? é trabalhador? É um vagabundo especulador!

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