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quarta-feira, 25 de março de 2009

“Não existe mais respeito pelos professores”


O dente cariado e a hegemonia

Sinto dizer que o senhor Paulo Sant’Ana, jornalista e caduco, tem razão, “não existe mais respeito pelos professores”, conforme ele constata candidamente em seu blog (fac-símile acima) e na coluna que assina em ZH, de hoje.

O respeito e a reverência (que refere ao “sagrado”, vejam só!), como quer o blogueiro fake, destinatário de cartinhas da governadora Yeda, aos professores são artigos que escasseiam cada vez mais, não só entre os alunos, mas entre a população em geral.

Pudera, depois de uma campanha oficial de diferentes governos mas com os mesmos propósitos no sentido de desqualificar e desprezar o professorado da rede pública estadual, verifica-se que os jovens alunos de fato estão de cabeça feita pelo Estado.

Professor é um ser abjeto, tem que tratar na porrada. Foi assim que ao longo dos anos lhes foi sendo incutido subliminarmente pelas autoridades do Estado do Rio Grande do Sul. Na rua, o senso comum, na Assembléia, os deputados da bancada conservadora, na imprensa, os jornalistas amigos, no rádio, na TV, os comunicadores amestrados, todos dizendo a mesma coisa, por anos a fio: os professores só querem fazer greve pela greve, ninguém quer trabalhar, querem apito e sineta para derrubar os governos probos, honestos, de bons propósitos, que estão fazendo o dever de casa para que o Estado saia do buraco histórico no qual está metido, blablablablá.

A adolescente que espancou gravemente uma professora da rede pública estadual, dias atrás, está sendo apenas o longo braço feitor do inconsciente coletivo envenenado pelas autoridades e a mídia amiga contra o professorado estadual. Fulanizar o conflito é reduzí-lo às relações interpessoais, é embaralhar e diluir a responsabilidade das autoridades públicas sobre o que acontece nas salas de aula da rede pública. É necessário, ao contrário disso, politizar todas as questões subjetivas e objetivas que ocorrem no âmbito da escola, nas relações aluno-professor e nas relações professor-autoridade pública.

É necessário, igualmente, que o sindicato dos professores vá além das suas lutas econômico-salariais e passe também a politizar o entendimento sobre as relações subjetivas nas escolas, sempre informadas e mediadas pelo conflito professor versus autoridades, no qual o professor historicamente tem saído perdendo.

A hegemonia do discurso oficial – que acaba prevalecendo no imaginário social – não é o do sindicato, é o do Estado conservador e o da mídia oligárquica. Quando concordarmos com essa assertiva de constatação empírica, estaremos aptos a nos impor tarefas que dizem respeito a lutas para bem além do economicismo e que abordem com mais ânimo e vontade a grande questão da hegemonia – no qual o senhor Paulo Sant’Ana é apenas um dente (cariado) dessa complexa engrenagem de poder.

11 comentários:

el barto disse...

é, mas os "papais" e "mamães" dessas coisinhas tem, e muita, culpa no cartório, criam soltas essas especialidades e dá nisso...

Juarez Prieb disse...

tudo bem, Barto, mas se formos fazer essa análise a diluição da responsabilidade como diz o Feil seria maior. Tem que focar na responsabilidade irresponsável dos governos de direita que massacram esse Estado, apoiados por uma mídia ignorante e chapa-branca.

panoramix disse...

Juarez por acaso eles estão preocupados com responsabilidades? Fizeram o que fizeram durante todo este tempo (continuam fazendo) e cagam e andam! Certamente já viste em horário nobre a propaganda dos "democratas" apostando que o Brasil vai se ferrar pra que voltem ao poder! Esta excelente poesia do grande Cazuza (classe média alta) sintetiza exatamente como as camarilhas que chupam o sangue deste pais agem e o quanto ficamos impotentes:
"O Tempo Não Pára"

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Carlos Eduardo da Maia disse...

Concordo com el Barto, o Brasil vive uma crise de limites e de autoridade. E a culpa é do pensamento politicamente correto que entende que qualquer forma de repressão ( e limite e autoridade é repressão) é fascismo, autoritarismo e outros ismos. O professor tem que ser educadinho com o aluno que manda longe o professor e as vezes parte para a porrada. Isso não acontece apenas em Porto Alegre, mas em todo o território nacional. Isso acontece até na França de nossos dias, há um filme em cartaz sobre o assunto que pretendo ver. E o DG acha que a culpa é da Yeda. A Yeda é culpada pela AIDS na Africa também?

jukão disse...

Olha, Maia, se ela andou por lá, certamente que sim.

Anônimo disse...

O texto ipsis verbis serve para S. Paulo, onde a educação foi destroçada nos últimos 14 anos. Irresponsabilidade e a cornucópia com a mídia chinfrim derrotaram a educação pública.

armando

Anônimo disse...

É impressionante como uma certa direita, composta de nazista, fascistas e outros (incluso os vigaristas, no caso do Rio Grande do Sul) confundem autoridade e autoritarismo. É um vicio dos que desconhecem a importancia da democracia. Confundem o poder de direito com o poder da direita.

Definitivamente é desconhecer as pessoas como portadoras de direitos achar que se estabelecem limites com repressão. A correção das liberdades não está na capacidade de impedimento por castigo, mas na obediência dos direitos coletivos.

A Pedagogia da Violência (como a do Contêiner) é a caracteristica de uma certa direita, como diria o Feil, guasca.

Claudio Dode

Callado disse...

Belo texto.

Ricardo Mainieri disse...

Concordo com a tese de que a idéia de menos-valia dos professores foi, diuturnamente, inoculada nos corações e mentes dos gaúchos, por conta do complexo midíático-estatal.
Assim foram rompidas as barreiras de boa educação e autoridade e este caso é a ponta do iceberg de todo o imbróglio.
Parabéns ao Feil pela análise e ao Panoramix por trazer a poesia crua e direta de Cazuza.

Ricardo Mainieri

Caio Ramos disse...

"E a culpa é do pensamento politicamente correto"


Cara, que bobagem sem tamanho isso. Reducionismo barato e sem vergonha. É esse exatamente o problema e o Feil tirou as palavras da minha boca, o problema é muito estrutural. E não só no que toca a educação. É comum a mídia mercenária isolar eventos que dizem respeito ao público, em um ou dois sujeitos - o 'fulanizar'. Ao passo que criam espetáculo à volta de casos que são extremamente mais específicos e privados. Pq? ora, pq professor espancado por aluno, não gera comoção popular. Parabéns pelo texto.

Anônimo disse...

Coitada da professorinha.... ou
..e o salário ó!
Diria a Globo em seus programinhas humorísticos! Acontecimentos como esse são noticiados e explorados para dar ênfase a um discurso que mais desqualifica do que valoriza o profissional em educação.
As relações subjetivas nas escola reproduzem a visão estereotipada da educação que estão presentes no senso comum da sociedade como um todo.
Esse trabalho vem sendo realizados há anos.
Prof. Anônimo.

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