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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Um affair de cavalheiros


A morte de Laurence Beria

Jorge Semprun, meio desbundado para o meu gosto, mas sempre um grande escritor, e um testemunho notável dos crimes nazistas e stalinistas, conta em seu livro de memórias “Um belo domingo”, como foi a eliminação do temível Laurence Beria, o sanguinário chefe de polícia de Josef Stálin.

Quem narrou o fato ao escritor espanhol foi Santiago Carrillo, então secretário-geral do PC da Espanha, alinhadíssimo à Moscou, que por sua vez, ouviu de primeira mão do próprio Nikita Kruschev, que sucedeu a Stálin, depois de sua morte natural e biológica, em março de 1953, no comando da URSS.

Kruschev recebia para jantar, numa das salas formais do Kremlin, certo número de representantes à conferência dos partidos comunistas, realizada em Moscou, em 1957. Na hora da sobremesa, Kruschev descreveu a morte de Beria, que teria ocorrido já em dezembro de 1953. Era escutado por olhos atônitos e corações descompassados.

Aconteceu, diz Nikita, durante uma reunião do Presidium Supremo, depois da morte de Stálin. Não foi tarefa fácil, todos os membros eram revistados pelos homens da KGB, antes de entrarem na sala, segundo costume instaurado no tempo de Stálin.

Mas a dificuldade foi contornada, como veremos.

Os generais não eram revistados. Bulganin, era marechal, e entrou no recinto estofado de pistolas automáticas, com a cumplicidade de diversos oficiais superiores. Mal a reunião começa e os conspiradores precipitam-se sobre as armas e abatem Beria imediatamente. Seu corpo é retirado do local enrolado em um tapete, para que ninguém se desse conta do acontecido. Ato contínuo, unidades militares de elite, avisadas do êxito da operação, prendem os principais colaboradores de Beria e dão por encerrado o assunto.

Na grande sala do Kremlim, sob o luxo rebuscado com dourados e rebrilhos, Kruschev acabava de relatar como conseguira se desembaraçar de Beria. Semprun diz que talvez ele tenha sido exagerado, ou talvez a verdade fosse mais complicada e mais sórdida também. O fato é que todos permaneciam esmagados por um silêncio espesso e glacial.

Os delegados irmãos não ousavam se encarar. Então, o velho Golan, secretário-geral do PC da Grã-Bretanha, descarregou o seu humor britânico:

- A gentlemen’s affair, indeed! – algo como “um caso entre cavalheiros, sem dúvida!”.

13 comentários:

Tomaz disse...

Eh, essa tradução não está nada boa. Você pegou o sentido de "affair" da expressão "love affair", mas o vocábulo tem um sentido mais amplo. Melhor: "coisa de gente fina".

juca bala disse...

Tomaz, já que vochê é iishperrrto, traduz então o seguinte:

"Go to catch the little coconut!"

Na boa!

Anônimo disse...

A tradução do CF é melhor. 'Coisa de gente fina' não soa nem um pouco como sendo do personagem que disse a frase.

Cristóvão Feil disse...

Senhores, não sou tradutor, não faço traduções.
No máximo, faço versões.

Saudações!

CF

Anônimo disse...

Versões, artigões, textões - enfim, um blogão, Feil. Parabéns pelo que fazes.

(com o perdão do infame trocadilho)

Simão Bacamarte disse...

A versão está ótima, continue nos brindando com histórias como esta.
De fato, "coisa de gente fina" parece mais uma frase do Paulão do "Polícia em ação" do que de um comunista britânico.
tomaz, em bom português: vá mascar um carpim!!!!

Anônimo disse...

Pois é, e essa figura estranha (Béria) acompanhava Stalin de perto. Que coisa, sô!

armando

Tomás Rosa Bueno disse...

O Jorge Semprun é (era?) um velho stalinista ressabiado, mas o filho dele, o Jaime, é uma das melhores coisas que aconteceu por aquelas andas nos últimos tempos. São dele os excelentes "A guerra social em Portugal" e "Apologia da insurreição argelina", entre outros, e hoje dirige a editora da Enciclopédia das Nocividades.

Tomás Rosa Bueno disse...

Jaime Semprun dixit:

Quand le citoyen-écologiste prétend poser la question la plus dérangeante en demandant : «Quel monde allons-nous laisser à nos enfants?», il évite de poser cette autre question, réellement inquiétante : «À quels enfants allons-nous laisser le monde?»

Quando o cidadão-ecologista pretende fazer a pergunta mais incômoda, indagando "que mundo deixaremos aos nossos filhos?", evita fazer esta outra pergunta, de fato inquietante: "que filhos deixaremos ao mundo?"

panoramix disse...

A propósito, vendo nosso querido Prefeito José Fogaça junto com nosso também querido Eliseu Padilha me veio na cabeça alguns acontecimentos do triste período FHC, postado por Luiz Carlos Azenha, "A MÁFIA DOS PRECATÓRIOS", o assunto cai como uma luva:

http://www.viomundo.com.br/buraco-negro/a-mafia-dos-precatorios/

Relembrar é viver!

Tomaz disse...

Juca Bala: não, o esperto é você!

Anônimo das 14:15: bem, se você conhece o personagem a esse ponto, não há como objetar.

Simão Bacamarte: você, com mais razão, do que o anônimo das 14:15: além do "comunista britânico", você deve conhecer bem o Paulão. Bom pra você.

Ao dono do blog (extensivo aos comentaristas acima): se realmente se trata de um "caso entre cavalheiros", não vou me meter, é claro, num caso de amor, ainda que entre "cavalheiros".

Anônimo disse...

Na versao do CF, nao esta' dito que se trata de um caso "de amor". Apenas um caso. So' espero nao levar uns cascudos por esta observacao.

Eugenio Hansen 13 65165 disse...

Paz e bem!

Creio que
"uma questão de cavalheiros"
represente melhor
o espítrito do comentário do britânico.

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