Você está entrando no Diário Gauche, um blog com as janelas abertas para o mar de incertezas do século 21.

Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Keynes também manda lembranças


Foi a falta de Estado e não a sua ação ativa que causou a crise

Na Folha, Cesar Benjamin, inspirado, intitulou seu artigo publicado em 20/9 de "Karl Marx manda lembranças". O texto fazia um diagnóstico da crise financeira. Agora, é hora de focar na porta de saída, então, o título adequado não poderia deixar de conter o nome de J.M. Keynes.

Marx, um revolucionário, fez diagnósticos. Keynes, um reformista radical, diagnosticou o capitalismo e propôs políticas, regras e instituições para mantê-lo vivo, regulado e a serviço da sociedade. É oportuno, portanto, destacar que a crise atual é resultado da falta de regulamentação financeira e da falta de políticas públicas de moradia para os cidadãos considerados "subprime". Foi a falta de Estado e não a sua ação ativa que causou a crise.

Keynes tem sido lembrado. A ele tem-se recorrido, principalmente, para explicar a necessidade de intervenção nas instituições financeiras em crise. Nas obras de Keynes, não há inclinações ideológicas favoráveis a estatizações ou privatizações. Keynes reconheceu, sim, a importância de um sistema financeiro sadio e eficiente como instituição imprescindível ao bom funcionamento do sistema produtivo. É unicamente sob essa ótica que as políticas de resgate de instituições financeiras têm ligação com as idéias de Keynes.

A crise patrimonial que atingiu grandes instituições abriu o canal de contaminação do setor real da economia, inclusive, nos países em desenvolvimento. Nestes, existem dois canais de contágio do setor real. O canal objetivo das reduções do crédito e da demanda internacional. E o canal subjetivo, expectacional, da confiança no futuro da economia. A tendência é que tal base de expectativas seja negativa na medida em que é influenciada pela volatilidade e pela desvalorização das moedas domésticas e das ações negociadas nas Bolsas locais.

O crédito será afetado porque instituições financeiras que não foram atingidas diretamente estão temerosas e decidiram retrair seus negócios. Empresários que tinham planos de investimento vão engavetá-los para esperar o cenário ficar mais nítido. Mesmo aqueles que não necessitam do sistema financeiro para investir, produzir ou consumir tenderão a assumir posições defensivas. Portanto, o risco nos países em desenvolvimento é que haja uma forte desaceleração das suas economias.

Nos países em desenvolvimento, todas as políticas de ampliação da liquidez podem manter a saúde dos sistemas financeiros, mas não serão capazes de restaurar plenamente a atividade de financiamento. Essa atividade depende de expectativas acerca do futuro. E, durante as crises, potenciais credores e devedores tendem a ser pessimistas.

Portanto, para os países em desenvolvimento, uma saída para ser bem-sucedida deverá ter caráter genuinamente keynesiano. Deverá promover uma ativação dos negócios privados estimulada pelo setor público, que deverá fazer gastos, realizando obras de infra-estrutura, contratando mão-de-obra e transferindo renda àqueles que têm alta propensão a gastar (que são os mais pobres) e, portanto, não vão represar liquidez.

A política fiscal de gastos objetiva, ademais, promover uma reversão do quadro negativo ou excessivamente cauteloso que sustenta a formação de expectativas.

Keynes alertou para a diferença existente entre as políticas de ampliação da liquidez e as políticas fiscais de gastos. As primeiras são dependentes de reações por vezes pessimistas, enquanto as últimas ativam diretamente os negócios privados da economia. E fazem, portanto, emergir novos argumentos para que os agentes formem expectativas otimistas acerca do futuro. Keynes junta-se, assim, a Marx para nos mandar lembranças.

Artigo de João Sicsú, diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea e professor do Instituto de Economia da UFRJ.

Foto: Lord Keynes (dir.) na conferência de Bretton Woods (1946).

14 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

Grande Keynes, mas são intempestivas e impertinentes os comentários daqueles que acham que a história sempre se repete que os tempos de hoje são exatamente os tempos de outrora. Fica difícil de fazer comparações entre contextos distintos. Que a atual crise foi gerada pela ausência de Estado não se pode negar, pois foi. Cabe sim ao Estado fiscalizar a atividade privada e, sobretudo os rumos e atuações do capital financeiro. Por isso não acredito e nunca acreditei no liberalismo e, muito menos, no neoliberalismo. Principalmente num país como o Brasil onde o serviço público é fundamental. Keynes foi extremamente importante em sua época, seu nome deve sim ser lembrado hoje, mas a receita para superar a crise não é hoje a mesma da época de Keynes. O Estado de Bem-Estar Social pode virar também um Estado elefante numa loja de cristais.

Anônimo disse...

Tudo o que eu queria na vida é um Estado elefante do tipo sueco. Faço esse acordo sem pensar.

Eu quero um Estado elefante!!!

panoramix disse...

É mesmo, além disto temos que fazer o dever de casa, dar um choque de gestão e zerar o deficit, uma vez que a globalização é irreversível. Arrrrrrrrrrrrrrrrrrrgh!

Carlos Eduardo da Maia disse...

Também acho que o Estado sueco é o ideal, mas o Estado sueco não é elefante e a Suécia é sim um país capitalista. A Bolsa de Estocolmo se chama OMX Nordic Exchange.

zozé disse...

O cara dá o nome da bolsa da Suécia.
Mas não dá o próprio nome.

Anônimo disse...

Se os bancos e o sistema econômico do iraque tivessem cometido dez por cento das barbaridades financeiras que os capitalistas mundiais cometeram, Os Eua, Inglaterra, Alemanha e Japão já teriam bombardeadeado o país até não sobrar um iraquiano vivo. E tem mais, este negócio de que falta regulamentação é mentira, só que, como dono de banco nunca vai preso, eles pulam a cerca sem nenhum problema(ao contrário de quando o golpe é dado por um empregado).

Anônimo disse...

O Maia tá chutando, a bolsa suéca se chama Stockholmsbörsen, em bom português, Bolsa de Estocolmo, o OMX Nordic Exchange é um grupo sueco - finlandês de serviços financeiros, formada em 2003 através de uma fusão entre a OM e AB HEX plc e é agora uma parte do Nasdaq OMX Group desde Fevereiro de 2008. Tem duas divisões, OMX Exchanges, que opera oito bolsas de valores nos países nórdicos e bálticos, e OMX Technology, que desenvolve e comercializa sistemas de transações financeiras usadas pela OMX Exchanges, bem como por outras bolsas de valores. A companhia é líder mundial em sistemas de negociação de instrumentos financeiros. Eu só foi no Wikipedia, tá tudo lá.

Carlos Eduardo da Maia disse...

O índice da bolsa de estocolmo é OMX. O que efetivamente importa é que a Suécia não é um pais socialista, mas capitalista. A bolsa sueca existe desde 1863. E o Estado Sueco faz um excelente serviço público e não é um elefante como o brasileiro. O Brasil para evoluir precisa fazer uma revolução no Estado brasileiro. Temos que fazer as reformas.

Nelson Antônio Fazenda disse...

Feil. No artigo "Dinheiro queimado", o sociólogo alemão, Robert Kurz escreveu o seguinte, sobre a crise mundial:
"A estatização de facto do sistema bancário dos EUA e o plano do Secretário do Tesouro dos EUA para conter a crise com recursos estatais só podem ser avaliados como actos de desespero. Da noite para o dia revelou-se o carácter de capitalismo de Estado da suposta liberdade dos mercados. Já se fala ironicamente em "República Popular de Wall Street". Mas isso não resolve nada. De certa forma, estamos perante o último estádio do capitalismo de Estado que, na melhor das hipóteses, poderá adiar o colapso dos balanços com mais emissões inflacionárias de moeda. Ao contrário de épocas anteriores, agora já não há margem de manobra para novos programas conjunturais, que teriam de se alimentar da mesma fonte."
"O capitalismo de Estado e o capitalismo concorrencial "livre" evidenciam ser dois lados da mesma moeda. Abala-se não um "modelo" passível de ser substituído por outro, mas o modo vigente da produção e da vida enquanto fundamento comum do mercado mundial."
O artigo pode ser lido em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2809200809.htm

Anônimo disse...

A carga tributária da Suécia é 50,84% do PIB, primeiro lugar do mundo o Brasil é o décimo sétimo com 35,91% do PIB. (Fonte OCDE)

Em síntese: O maia é um chutador e a Suécia é um elefante.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Robert Kurz é o cético dos céticos. O rei dos céticos. Deveria ter entrado no tunel do tempo e permanecido na cinzenta DDR. A revista que ele edita faz jus ao seu pensamento: Krisis. Li trÊs livros de Kurz uma atrás do outro. Morri de tédio. É tudo do estilo "Es gibt keein Zukunft". A Suécia nãó é um elefante, mas um guepardo. É um estado onde o fundamental serviço público funciona e não é refém da politicagem, do corporativismo, da burrice, da burocracia e da ineficiência.

Anônimo disse...

Maia, como tu é inteligente. Deveria ir para São Paulo assessorar o Serra para não fazer tanta burrice. A Yeda não tem salvação.

Luís disse...

3 lembranças para reflexão, de quem se interessar:
1) Keynes sempre esteve ligado a Marx, pois a primeira experiência de planificação mais geral da economia veio da revolução sovìética (1917), e é sempre bom também lembrar que o início do estado soviético foi plural politicamente (até "comunistas" se esquecem disto).
2) Estado ideal não existe enquanto houver grandes desigualdades sociais, grandes diferenças de classe, ou enquanto houver "apenas" a socialização da pobreza - mesmo que signifique avanço social. O primeiro mundo só é primeiro porque existem o segundo e o terceiro - ou seja, porque canaliza recursos do resto do mundo... e é um grande clube fechadinho: a fronteira México-EUA é um grande campo de caça ao imigrante, por exemplo...
3) Acreditar ou não no neoliberalismo é algo totalmente sem sentido prático... se pode apoiar ou não, pois o neoliberalismo foi um movimento da necessidade de renovação do capitalismo (como muitos outros), impondo regimes mais ou menos autoritários porque necessita da canalização de grandes recursos públicos para as grandes iniciativas privadas da economia. Por isto só a esquerda conseguiu fazer crítica conseqüente a ele, e por isso muita gente de "centro" se tornou serviçal da direita (FHC, Britto, Fogaça, etc, etc, etc)
Curioso (mas perfeitamente compreensível) é que agora que o neoliberalismo perde fôlego político/ideológico - embora ainda muito vivo entre nós - até o César Qual-é-o-preço-disso Busatto se declara contra mercados desregulados... pois é, quem não se adapta tá perdido... hehehe...

Anônimo disse...

O Maia é só um mentiroso cara de pau a serviço do fascismo, e da violência criminosa e oficial patrocinada pela Yeda das laranjas, que como o Adolfo foi também foi eleita e pelos fascista e os incautos, e esta a maioria que ele se refere.

Claudio Dode

Contato com o blog Diário Gauche:

cfeil@ymail.com

Arquivo do Diário Gauche

Perfil do blogueiro:

Porto Alegre, RS, Brazil
Sociólogo