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terça-feira, 13 de julho de 2010

A precária unidade nacional na Espanha





A Espanha é um mosaico de culturas e línguas distintas. Oficialmente é o Reino da Espanha, cuja unificação teria havido em 1469 com o casamento real de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, financiadores, investidores, melhor dito, das viagens marítimas de prospecção, conquista, dominação, pilhagem, saque seguido de extermínio físico das populações pré-colombianas nas Américas - um autêntico holocausto em nome da ganância e da propagação da fé católica.

Pelo menos três ricas civilizações foram dizimadas e extintas pelos espanhóis católicos, em poucas dezenas de anos: os incas, os astecas e os maias, estes últimos os únicos com um sistema de escrita completo e alguns conhecimentos pré-científicos importantes. A profissão de fé católica foi o motor ideológico da fúria assassina espanhola no Novo Mundo.

Como se vê no vídeo, o arranjo casamenteiro e unificador do século 15 ainda - hoje - é contestado pela população da península Ibérica, tirando Portugal. A Constituição de 1978, que só foi possível depois da morte do ditador fascista Francisco Franco, criou uma solução jurídico-formal para o que chamou de "Estado de Autonomias", ou seja, um país formalmente unitário, mas que funciona como uma federação descentralizada de comunidades autônomas e principados, cada uma delas com diferentes níveis de autonomia, em precário equilíbrio político.

Com a presente (e gravíssima) crise fiscal do Estado unificado espanhol, a situação das autonomias nacionais peninsulares fica em suspense, provocando abalos étnicos, culturais e idiomáticos, para o qual este vídeo dá uma pálida ideia.

Sempre é bom lembrar que a Espanha foi um laboratório do nazifascismo na primeira metade do século 20. Tanto a Alemanha hitlerista, quanto a Itália mussoliniana fizeram experiências de armamentos e aviação de caça tendo como alvo a população civil espanhola, em especial as pequenas cidades. Stálin, por sua vez, não ficou atrás, estimulou o nazifascismo no seu início, não permitiu que a esquerda alemã se unificasse contra a ameaça representada pela liderança de Adolf Hitler, destruiu a unidade do Frente Popular, vitorioso nas eleições de 1936 na Espanha, e acabou firmando o famigerado pacto Molotov-Ribbentrop, com Hitler. Tática: garantir neutralidade da URSS com o objetivo de se recuperar da grave crise econômica da década de 30 - o elo mais fraco do capitalismo - que levou a fome e a miséria por toda a velha Rússia e repúblicas/nacionalidades agregadas.

A Guerra Civil espanhola foi vencida, assim, pelos fascistas aliados ao conservador clero católico, com a ajuda - direta e indireta - da chamada 3ª Internacional stalinista.

Essas feridas estão fechadas, por enquanto, embora ainda pulsem vivas na sensibilidade cívica das populações espanholas, divididas entre inúmeras nacionalidades bem distintas, entre o largo espectro esquerda/direita, e a abismal divisão entre o catolicismo ultramontano e o ateísmo convicto anarquista e não-anarquistas das novíssimas gerações.

Um caldo de cultura muito interessante e sempre enigmático.

Coisas da vida.

11 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

Essas feridas "ideológicas" estão fechadas de forma definitiva. Na Espanha de hoje não existe nenhum movimento espanhol significativo - nem mesmo os anarquistas que muito barulho fizeram no século passado e hoje são meia dúzia -- de esquerda. O PSOE se encarregou de colocar a esquerda onde ela sempre deve estar: no âmbito da social democracia. No Brasil, o PT está fazendo isso, porque logo logo vai sair do armário.
E como choram as viúvas do estatismo socialista que morreu e está perenemente seputado.

Schlomo disse...

Baita análise em poucas linhas.

Anônimo disse...

O seu Maia mostra que não conhece a realidade política da Espanha.

Ass: brasileiro radicado em Barcelona

Chico 80 disse...

Mas se estacionarmos um automóvel cheio de bandeiras de outro estado em Porto Alegre, será que ele não poderá ser hostilizado por alguém?

E se o carro for cheio de bandeiras do Rio Grande, ou mesmo do Inter e do Grêmio em outro estado. Não sofrerá nenhuma hostilidade?

Aliás, quando falamos do "presidente nordestino", que gaúcho é viado... não é a mesma coisa?

Bobagem esse vídeo, embora as considerações sobre o catolicismo e o genocídio luso-espanhol sejam muito pertinentes.

Abraços.

Paulo Marques disse...

Estive 8 meses da Espanha, conheci o Pais Basco e Barcelona e comprovei que o Estado Espanhol é uma institucionalidade artificial que sobrevive apenas através da repressão. No Pais Basco vive-se como em uma ditadura, os partidos independentistas estão todos ilegalizados. Mais de 800 presos políticos, a grande maioria condenada por posições políticas em defesa da independencia mesmo que nunca tenham participado de alguma ação armada. No dia 11 de julho 1 milhão e meio de Catalães saíram as ruas em Barcelona pela independencia. A palavra de ordem: "Somos Uma nação: Nós decidimos". No mesmo dia em Donostia, Pais Basco uma marcha de 10 mil bascos exigia o fim da repressão e a independencia do Pais Basco. Quem duvida é só fazer uma visitinha nestes países.

Anônimo disse...

Não sei a realidade da Espanha quanto a suas peculiaridades regionais. Agora, uma certeza eu tenho, o estímulo ao acirramento das diferenças regionais nos estados nacionais não acabam bem e propiciam o afloramento do lado mais sombrio das nações. Fiquemos com a Iugoslávia, exemplo bem recente que deve servir de alerta aqueles que se entusiasmam com os afloramentos nacionalistas.

Anônimo disse...

É, concordo, mas eles ganharam a Copa do Mundo.

Remindo disse...

Como é burro este Maia. As divisões na Espanha nada tem com esquerda ou direita, mas com enraizamentos culturais. Agora, a nação espanhola não é um organismo artificial, os favoráveis as independências regionais não são a maioria de suas populações, pois já são em grande parte autônomas. Abaixo um copy/paste para melhor entenderem a situação.

A Constituição, elaborada por um parlamento eleito democraticamente e promulgada em dezembro de 1978, confirmou a situação, garantindo a liberdade dos partidos políticos e das religiões e dando às regiões espanholas uma grande autonomia.

O país foi dividido em dezessete regiões com líderes eleitos localmente e regras próprias. O nível de autonomia varia em cada uma delas. Catalunha, País Basco e Galícia têm suas próprias línguas. Andaluzia, Navarra, Valencia e as Ilhas Canárias têm mais poderes. Astúrias e Aragão ainda tentam consolidar idiomas locais.

Tupamaro disse...

Este caldo de cultura divisionista latente na Espanha só não se transforma no que aconteceu na ex-Iugoslávia, porque os agentes desestabilizadores que lá atuaram ( o capitalismo estadunidense, atraves da CIA, e o capitalismo alemão, através da OTAN) não desejam. A Espanha é uma importante base militar dos EUA e da OTAN, e tem uma classe política subserviente aos interesses do imperialismo.
Agora, esta história de que as feridas estão bem fechadas não se coaduna com os fatos, como bem citou o sr. Paulo Marques. E a comemoração dos jogadores espanhóis ao final da partida com a Holanda, na récem finda Copa Africana, demonstrou claramente os sentimentos divisionistas que habitam o solo espanhol. O jogador Puyol, zagueiro do Barcelona, juntamente com outro jogador do Barcelona beijava e desfilava com a bandeira da Catalunha ao final da partida e não com a bandeira espanhola.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Sim existem divisões culturais e locais. Essas divisões não são ideológicas, não se trata de direita contra esquerda ou vice versa. Os fundamentos ideológicos da guerra civil espanhola não se justificam mais. A Espanha, volto a insistir, não está dividida entre direita e esquerda, como na década de 30, pois as questões ali dura e sangrentamente debatidas foram superadas, sobretudo com o pacto de Moncloa e, mais tarde, com o ingresso do país no Mercado Europeu, o que gerou grande desenvolvimento econômico e consequentemente - como geralmente acontece - social. O pessoal da Catalunha como o gaúcho, em primeiro lugar o RS e depois o Brasil. Agora, no país Basco a força dos radicais do ETA é mínima, eles não têm nenhuma popularidade e credibilidade.

Paulo Marques disse...

A título de breve esclarecimento: Sr. Remildo a Constituição de 78 da Espanha, vigente até hoje foi amplamente rechaçada no País Basco, 75% dos bascos votaram contra a constituição. Outro informe sobre o Pais Basco: nas últimas eleições para o Parlamento Basco no ano passado os nacionalistas tiveram ampla maioria de votos, sendo 30% para nacionalistas de direita(PNV); 15% nacionalistas de centro esquerda ( EA,Aralar);10% nacionalistas de esquerda (estes tiveram os votos invalidados, acusados de pertencer a ETA), outros 10% boicotaram o pleito e os dois partidos espanholistas PSOE( social-democrata) e PP ( direita) juntos fizeram apenas 25%. Por isso o governo Espanhol não permite até hoje uma consulta sobre a independencia, pois sabe que será amplamente derrotado.

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