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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Neoliberalismo, um mito pós-moderno


Depois do fordismo, o mundo do trabalho, ao contrário de extinguir-se, torna-se complexo e quase insondável, por que submetendo invisivelmente setores outros à sua condição de existencia; existencia esta, cada vez mais subordinada à lógica inexorável da mercadoria.

Essa dificuldade de conhecer os limites do mundo do trabalho é próprio da fragmentária multidivisão social do trabalho animado pela constante incorporação de novas tecnologias e as conseqüentes necessidades de realização do valor.


A antiga controvérsia sobre que natureza de trabalho cria valor fica desimportante. O trabalho improdutivo imaterial é tão imprescindível e necessário quanto as formas de trabalho vivo, diretamente produtor de mais valia. Sabendo-se, que continua válido, que "nenhum átomo de matéria entra na objetividade das mercadorias como valores" (Marx), e que o valor é objetificação do trabalho abstrato (social), fica provado de forma inquestionável a improbabilidade de a máquina produzir riqueza – por si só.

A racionalidade mecanicista da mentalidade monetário-cientificista, que sustenta teoricamente o neoliberalismo, intuiu que a evolução do fordismo-taylorismo redundaria num processo produtivo capaz de prescindir do elemento humano.

Descartar o humano seria a glória do capital. Seria descartar o imponderável da esfera da produção para admiti-lo somente no consumo. E, uma vez que, as variáveis do imponderável na esfera do consumo estão balizadas pelos fatores de controle e exclusão social (com a participação do Estado), pelas disciplinas da propaganda, do marketing e das demais técnicas bastardas da valorização do valor, logo, o imponderável estaria reduzido ao administrável.

A ideologia neoliberal cria – entre outros – o mito Ciência como instituição social autônoma dotada de capacidades renovadoras inesgotáveis, tanto na base econômica quanto na superestrutura. As novas tecnologias recriam a noção abstrata da tridimensionalidade do tempo; objetos mortos são símbolos vivos do passado, do presente e do futuro. Encarnam materialmente o tempo através de quantificações tecnológicas objetificadas.

O presente é apenas um ponto fugaz entre menos tecnologia, como no passado; e mais tecnologia, como no futuro.

Assim, o futuro do homem fica rebaixado ao futuro dos objetos; onde a ligação utópica entre presente e futuro, antes de ser desvelada por sonhos, é guardada por véus de pesadelos.

12 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

É impressionante como o idealismo da esquerda não consegue identificar, analisar e pensar o tempo presente. É um idealismo que fica preso ao tempo passado, a uma época que não existe mais, que já passou. Os tempos dos velhos códigos prontos e acabados, das velhas regras, das velhas dialéticas radicais e dos velhos maniqueísmos manipuladores. A esquerda se afastou do materialismo e embarcou de vez no farol de um ideal perdido, de uma história que não existe mais, que já acabou, que não é mais presente, que não está mais presente. E a culpa (essa invenção cristã que a esquerda também adotou) dessa "picaretagem mundial" é do neoliberalismo e do pós-modernismo. E perdida a esquerda inventa conceitos e ideais, critica a flexibilidade do toyotismo, fica irritada com o mundo do fetiche da mercadoria que também gera emprego e renda e não consegue entender que o interesse de todos é a universalização da qualidade de vida, da educação decente, da saúde eficiente, da inclusão social dos excluídos, do aumento gradual e responsável da sociedade de consumo. Mas como imaginou Antonioni no excelente Zabriskie Point esse mundo do lixo do consumo, do fenômeno pós moderno, inventado por Nietzsche, neoliberal e capitalista não serve e deve ser explodido, porque capitaneado por uma elite branca e malvada que é medieva.

Anônimo disse...

Como dizia um personagem humorístico é um "espaaanto".

armando disse...

Maia, suas palavras são a resposta às suas angústias. Como se diz em psiquiatria, é bom não contrariar.

Jean Scharlau disse...

Maia: ..."o interesse de todos é a universalização da qualidade de vida, da educação decente, da saúde eficiente, da inclusão social dos excluídos, do aumento gradual e responsável da sociedade de consumo."

O Maia ama Bush, ama Asnar, ama Condoleza, ama Yeda, ama Serra, ama Borguináusea, ama Berlusconi, ama Blair, o Maia ama e confia neles, e melhor, tem a absoluta certeza de que seu amor e sua confiança são correspondidos. O Maia, por enquanto, é feliz.

Anônimo disse...

E ele ainda não desistiu da história de que o Nietszche é o pai do pós-modernismo...

Só uma restrição ao texto. É uma bela critica ao pós modernismo, mas abrir mão do elemento humano, capital variável, não é a glória do capital e sim seu fim. Até mesmo o capital em sua forma financeira necessita de seu correspondente "orgânico". A mais-valia é calor incorporado por v e toda a utilização de c para ampliar a chamada mais-valia relativa resulta em diminuição da participação de v mas não sua exclusão, ou não existiria mv e portanto não existiria capitalismo.

Cristóvão Feil disse...

Prezado anônimo, vc. precisa voltar às aulas de interpretação de texto, lá do ensino fundamental.
Volte a ler o seguinte trecho, leia-o até absorver bem:

"O trabalho improdutivo imaterial é tão imprescindível e necessário quanto as formas de trabalho vivo, diretamente produtor de mais valia. Sabendo-se, que continua válido, que "nenhum átomo de matéria entra na objetividade das mercadorias como valores" (Marx), e que o valor é objetificação do trabalho abstrato (social), fica provado de forma inquestionável a improbabilidade de a máquina produzir riqueza – por si só."

Sacou, agora? Ou quer que eu desenhe?

Carlos Eduardo da Maia disse...

Maia não ama Bush, nem Aznar e nem Condolezza e também não ama os picaretas ideológicos e defende e luta por uma universalização de um serviço público decente.
O pós modernismo não é uma invenção, uma teoria, uma tese, uma ideologia. O pós modernismo é o que está ai. É o mundo que estamos embutidos que é diferente do mundo de Marx. É a complexidade, é a difusão, é o pluralismo, são as múltiplas faces de um mesmo entendimento, são as diversas formas de interpretação, é a possibilidade de flexibilização, é o fim do maniqueísmo puro e simples, é o fim dos códigos prontos, da escravidão pela religião com Deus e sem deus. O pós modernismo é o materialismo. O marxismo, o pensamento marxiano e marxista é o idealismo. Eu não defendo o pós modernismo. Eu defendo sim um mundo globalizado melhor e possível e mais humanitário, esse humanitarismo que o Emir Sader detesta, como escreveu ele recentemente na sua última postagem de seu blog. Este é o verdadeiro picareta.

Joca disse...

Picareta é vc. Maia!

Anônimo disse...

Este Maia é muito divertido, e ocupa com todo o vigor a vaga do Eremildo do Blog.
Falando em maniqueismo: ou vai por bem ou vai por maia.

Anônimo disse...

Eu li e entendi doutor Feil, mas sigo achando que qualquer interpretação (seja de um mero texto), deve levar em conta o todo. E discordo da parte que vc afirma que "Descartar o humano seria a glória do capital. Seria descartar o imponderável da esfera da produção para admiti-lo somente no consumo.". Ponto, nada mais. Não se estresse, achei que eu tinha sido respeitoso, mas vá lá. Realmente devo estar precisando voltar a estudar, pois vc na sua magnifica sapiência já sabia o q escrevi (oq não duvido mesmo) e a parte que eu citei é absoluta, não eciste margem para interpretação.
Era isso gênio. Aliás acho melhor vc voltar aos estudos...as vezes faz falta.

Abraço cordial

Anônimo disse...

Só para finalizar, para mim a parte q eu rejeito contradiz a parte q vc cita. E chega de discussão q neste blog eu quero é discordar da visão do Maia, e não de picuinhas, q alguns levam muito a sério...q tem blog meu filho, tem q estar pronto para receber cr´ticas, e se não forem desrespeitosa, é de bom grado que sejam respondidas da mesma maneira. Relaxa e Goza.

Cristóvão Feil disse...

Prezado anônimo, os nove leitores deste blog são testemunhas do quanto se tolera a crítica aqui. Responder a algo que não me parece correto, não é intolerância nem picuinha. Neste blog, responder é apenas e tão-somente dar respostas - sempre na busca do debate livre e sem censuras, mesmo contra anônimos e debochados, porque acho que estes dão um colorido pitoresco ao DG.
Volte sempre!

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