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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A mídia elimina a possibilidade de ver


Há pelo menos trinta anos, a reflexão de Paul Virilio gira em torno da idéia de que a velocidade com a qual se processa a inovação tecnológica não permite mais nenhuma possibilidade de controle da parte de um indivíduo político racional. Nos anos noventa, o filósofo e urbanista francês interveio no “caso Berlusconi”, que leu como um incidente específico de alcance mundial, devido ao desenvolvimento exponencial da informação enquanto poder. Suscitou assim um notável interesse pelo movimento ciberpunk da época, também graças aos seus apelos a uma espécie de guerrilha midiática e aos seus contatos com a comunidade hacker de Amsterdã.

Agora, Paul Virilio – que, em Cidade pânico, publicado em 2004, já descrevera o progressivo estender-se do sentimento de medo na metrópole contemporânea – lança, em seu ensaio L’arte del accecamento [A arte do cegamento] (Raffaelo Cortina, 104 pp.) um novo apelo: objetivo do estudioso é pôr desta vez um freio ao predomínio asfixiante da imagem, que pouco a pouco tem desgastado aquela que Virilio define como “a arte de ver”.

Afogando-nos nas imagens televisivas, observa o filósofo, enfraquecemos, sem dar-nos conta, a lateralidade e a profundidade da visão. Falta a percepção do “tempo aberto”, do qual falava Rilke nas Elegias de Duíno: tempo de vida que abre ao “espaço puro onde desabrocham sem cessar as flores”, ou seja, aquela dimensão que é própria da arte e da poesia. Vivemos na ilusão de ver tudo, mas, ao invés, o olho não capta quase nada: transitamos “da objetividade à tele-objetividade”, a uma realidade na qual a visão daquilo que está longe esconde a visão do próximo, com enormes recaídas sobre as relações intersubjetivas.

Antecipado por Merleau-Ponty, que já em 1953 constatava que “a obediência cega é o início do pânico”, Virilio – tendo experimentado a ditadura do olho insone de um sistema da informação totalizante – pode relançar o seu alarme, definindo com a metáfora da “tele-objetividade” a condição de quem pode apenas olhar “além do horizonte das aparências objetivas”. A superação dramática “daquilo que era apenas esboçado com a reprodução industrial das imagens, analisada por Walter Benjamin”, é evidenciada assinalando, na era da webcam e da tele-vigilância, a destruição definitiva da experiência estética, construída nos séculos das artes visuais. Por este motivo, na paisagem da destruição provocada pela difusão e pelo desenvolvimento ilimitado das tecnologias audiovisuais, “a arte de ver” se tornou “a arte do cegamento”.

A superexposição midiática das artes plásticas contemporâneas torna atualmente obsoleta até mesmo a crítica de Marcel Duchamp, que denunciava os limites da arte retínica, considerada insuficiente para descrever um mundo em veloz mutação: “Numa época em que a nossa visão do mundo se tornou mais teleobjetiva do que objetiva, como persistir no ser?” se pergunta Virilio; “como opor uma resistência eficaz à repentina desrealização de um mundo no qual tudo é visto?”.

Embora exigindo uma crítica radical à idéia de uma inovação tecnológica que já fugiu completamente ao controle humano, a posição de Virilio não o impede de rejeitar qualquer etiqueta “apocalíptica”. A idéia de que o progresso tecnológico seja o caráter peculiar da atividade humana entra inevitavelmente em crise, enquanto a inovação acelerada é antes obra dos automatismos do sistema.

Aquilo que se torna verdadeiramente humano é, então, o cuidado dos vestígios do vivido, da literatura, da arte e da poesia. Aqui não se trata de preservar obras boas para um museu; está em jogo a defesa de uma condição da experiência humana que corre o risco de ser definitivamente dissolvida. A exigência explícita é por uma “filosofia política” que esteja em condições, mais do que de descrever uma passagem crucial, de individuar estratégias através das quais “o conjunto dos viventes reunidos diante de suas telas” possam libertar-se desta nova versão de capitalismo global que se apossa sempre mais das tecnologias da informação e de uma nova estratégia da comunicação. Os poderes que atravessam estas novas tecnologias criam agora dispositivos centrais da biopolítica, entendida como produção dos corpos vivos.

Artigo de Nando Vitale, publicado no jornal Il Manifesto, de 17 de julho de 2007.

14 comentários:

Deposito do Maia disse...

Nos tempos de pós modernismo é fundamental uma estética e uma filosofia humanista, voltada muito mais ao ser do que ao ter. Um retorno talvez eterno. O grande desafio da filosofia moderna é exatamente essa busca humanista que deve ser concreta, materialista, longe dos ideais e dos dogmas. Não se trata, pois, de "uma liberação de uma nova versão de capitalismo" (como se o capitalismo fosse sempre o eterno vilão de tudo e de todos), mas uma busca por uma remodelagem mais humanitária, uma reformatação.

Juarez Prieb disse...

Humanismo não diz nada. A Ilustração trouxe o humanismo e prometeu muito mais. Onde estamos hoje? Um terço da humanidade vive em condições do século 12. Espécies animais estão sendo extintas pelo modo de produção que optamos por construir. O planeta está com os dias contados. Onde está o humanismo prometido? Será o consumismo uma forma de humanismo? E os mídias fazendo tudo para cegar e alienar os indivíduos...

Deposito do Maia disse...

Não é verdadeira a afirmação de que 1/3 da humanidade vive em condições do século 12. Esse argumento não tem nenhuma sustentação. Muito pelo contrário, as condições sociais da humanidade vêm melhorado gradualmente. Praticamente a maioria dos países (existem sim exceções e o Brasil não faz parte disso) mundiais vêm melhorando suas taxas sociais. É evidente que existem distorções, as periferias, a Africa, parte da América Latina, mas é incomparável a situação do Brasil do início do século XX com a do início do século XXI. A diferença é imensa. O Brasil passou do feudalismo para a era do desenvolvimento em menos de 100 anos. É fundamental sermos humanistas e materialistas. É que o o marxismo se transformou em idealismo determinista.

Anônimo disse...

Não o capitalismo não é o vilão de tudo. É pior. É o causador da própria degenerescência e, se não fizermos nada, da extinção do homem. O capitalismo para se reproduzir, destrói seus produtores, aviltando dignidades e honras. Prostitui tudo. Realmente, longe de vilão, pois esse pelo menos tem dignidade e a sua ética.
armando

Deposito do Maia disse...

O capitalismo, Armando, é a própria hydra de Lerna, ao mesmo tempo em que ele destroi ele constroi. Entra outro em seu lugar. Não vejo como, felizmente e infelizmente, trocar de sistema. A única forma disso ocorrer é uma revolução socialista mundial e permanente. Mas isso é estória de carochinha. A humanidade não vai melhorar a condição de vida tirando o capitalismo e colocando em seu lugar o socialismo estatista privador de liberdade. O capitalismo deve sim ser controlado, fiscalizado, humanizado. Sim, sim, sim, existe, Armando, eu vi o capitalismo humanizado no Canadá, na Europa ocidental, na Austrália, na Oceania, no Chile, nos EUA. E veja também a situação da Espanha, a Espanha era um caos até o fim da ditadura de Franco e melhorou significativamente porque houve um pacto, atraiu investimento, competição, livre iniciativa, liberdade e hoje está muito bem, gracias. O capitalismo é ruim, mas não existe nada melhor do que ele.

Anônimo disse...

Canada? Onde o Estado explora a prostituição e o jogo? As poucas incorporações sociais, aconteceram na luta e pressão e, principalmente, pela existência do chamado socialismo real.

Anônimo disse...

Virilio é um pós-moderno na acepção da palavra.Portanto totalmente anti-materialista. Tive q ler um livro dele para uma cadeira e me é mais q suficiente. Sem dogmátismos o problemna não é a compreensão da importância da dimensão ideal, é ele considerá-la forma primordial do entendimento da dinâmica social . Ponto. Lixo dos grandes!

Anônimo disse...

nando vitale, desculpe intrometer a minha ignorancia, mas preciso de um pouquinho de desabafo.
Caro juarez, nunca ninguem prometeu humanismo para ninguem.
Caro depósito do maia, por que será que as crianças (não só no BRASIL) disputam comida, nos lixoes, com urubus e ratos e vivem roidas pelas lombrigas? Será que seria uma boa ação dos capitalistas, matar os urubus e os ratos para sobrar mais comida para as crianças? ou acabar com os lixoes para que ningem veja mais crianças comendo imundícies?

Deposito do Maia disse...

Da onde se tirou que o pós modernismo é anti materialista, cara pálida?

Anônimo disse...

É, o Maia é daqueles q afirma q o pós-modernismo tem origem no marxismo. Leu na wikipédia? La esta assim, é uma interpretação. Totalmente revisionista, rejeita não o marxismo revolucionário tradicional, mas a própria concepção materialista da história. O pós-modernismo se sustenta na idéia do fim da lógica histórica para explicar os novos fenomenos socias, e principalmente na compreensão de fragmentação social(e histórica) que impediria uma solução dialética para tal. Finalmente o pós modernismo considerada a supremacia da imagem, como fator de explicação para nosso novo mundo. Para mim isto é idealismo e para vc cara pálida? Cyberworld, sociedade da informação, conceitos pós modernos q na minha interpretação são anti materialistas. E para vc cara palida?
Fora outro conceitos "mils" que rondam o pós modernismo. Maia faça-me apenas um favor: Não tente bancar o sociólogo lendo a wikipédia, não aqui, fica chato...

Anônimo disse...

A partir de agora, para o Maia, Marx acha q a imagem ou a informação é mais importante para explicar a sociedade do que suas relações materiais. Isto é materialismo né seu Maia?

Deposito do Maia disse...

A origem do pós modernismo é Nietzsche.

Anônimo disse...

A origem do pós-modernismo é controversa, não existe "origem". Obrigadi pela aula Dr.

Anônimo disse...

E Nietzche é matterialista de carteirinha.

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