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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Fora, povo!

Pesquisa recente concluiu que a elite brasileira é mais moderna, ética, tolerante e inteligente do que o resto da população. Nossa elite, tão atacada através dos tempos, pode se sentir desagravada com o resultado do estudo, embora este tenha sido até modesto nas suas conclusões. Faltou dizer que, além das suas outras virtudes, a elite brasileira é mais bem-vestida do que as classes inferiores, tem melhor gosto e melhor educação, é melhor companhia em acontecimentos sociais e é incomparavelmente mais saudável. E que dentes!

A pesquisa reforça uma tese que tenho há anos, segundo a qual o Brasil, para dar certo, precisa trocar de povo. Esse que está aí é de péssima qualidade. Não sei qual seria a solução. Talvez alguma forma de terceirização, substituindo-se o que existe por algo mais escandinavo. As campanhas assistencialistas que tentam melhorar a qualidade do povo atual só a pioram, pois, se por um lado não ajudam muito, pelo outro o encorajam a continuar existindo. E pior, se multiplicando. Do que adianta botar comida no prato do povo e não ensinar a correta colocação dos talheres, ou a escolha de tópicos interessantes para comentar durante a refeição? Tente levar o povo a um restaurante da moda e prepare-se para um vexame. O povo brasileiro só envergonha a sua elite.

Se não tivéssemos um povo tão inferior, nossos índices sociais e de desenvolvimento seriam outros. Estaríamos no Primeiro Mundo em vez de empatados com Botsuana. São, sabidamente, as estatísticas de subemprego, subabitação e outros maus hábitos do povo que nos fazem passar vergonha.

Que contraste com a elite. Jamais se verá alguém da elite brigando e fazendo um papelão numa fila do SUS como o povo, por exemplo. Mas o que fazer? Elegância e discrição não se ensina. Classe você tem ou não tem. Mas o contraste é chocante, mesmo assim. Esse povo, decididamente, não serve.

Se ao menos as bolsas-família fossem Vuitton...

Crônica de Luis Fernando Veríssimo publicada em vários jornais brasileiros, hoje.

25 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

A pesquisa que LFV se refere é a seguinte e que foi publicada na VEja da semana que passou:

Se alguém é eleito para cargo público deve usá-lo em benefício próprio?
40% dos analfabetos concordam
3% dos que têm nível superior concordam


É certo recorrer ao jeitinho brasileiro para resolver problemas como o de se livrar de uma multa?
57% dos analfabetos concordam.
3% dos que têm nível superior concordam.


A polícia está certa em bater nos presos para que eles confessem seus crimes?
51% dos analfabetos concordam
14% dos que têm nível superior concordam.


Programas de TV que fazem críticas ao governo devem ser proibidos?
56% dos analfabetos concordam
8% dos que têm nível superior concordam
.
O deboche de LFV demonstra burrice ou má fé.
O que a matéria da Veja afirma é que esses analfabetos devem ser incluídos na cidadania e qualidade de vida. Veja apenas mostrou -- de forma explícita -- o contraste que existe entre o Brasil escolarizado, que estuda, que frequenta a universidade, que tem acesso à cidadania, que goza de razoavel qualidade de vida do Brasil analfabeto, que não tem acesso à escola, a um sistema decente de saúde, que não tem direito à cidadania, que vive no mundo da violência e que pratica violência e que está longe e distante da qualidade de vida.

É claro, é evidente, é cristalino que LFV entendeu a matéria de Veja, mas quer ele fazer coro com o sectarismo e a burrice de certa esquerda que pensa que tem o monopólio do trombone e que chama classe média de classe mérdia. Quando a classe média bota a boca no trombone e se organiza em movimentos, esses burros e sectários abrem a boca e dizem que se trata de movimento da elite golpista, burguesa e reacionária. É para esses que LFV quer fazer média. E, pelo visto, está fazendo.

Jorge Vieira disse...

Caro Cristóvão!
Este blog está conseguido alcançar uma grande inovação teórica, potente para virar as ciências sociais de cabeça para baixo - a classe média como motor da história. Se Marx os atores transformadores foram o burguesia, num primeiro momento, e o proletariado, num segundo, em Weber os inovadores foram foram os luteranos e suas variantes, agora temos essa tal de "classe média". Veja só que inovação, embora o "probleminha" de provar empiricamente tal caminho explicativo. Mas eu tenho algumas dúvidas. Qual a instituição que canalizaria os "interesses" e que formaria um programa de ação política desse ator, convertido em motor da história? Seria o Lions ou o Rotary? E seria apartidário? Por que os dois (ou talvez três se incluíssemos o Chile, mas não tenho certeza disso) únicos países da América Latina que conseguiram formar segmentos médios importantes resvalaram para o fundo do poço como a Argentina e o Uruguai? O Uruguai, como se sabe, corre o risco de sumir como país, sendo que a maior parte da população mora no exterior. O que provocou inclusive a afirmação do presidente Tabaré Vazques que o melhor seria se fundir com o Brasil. Por último, não foi a "classe média", esse motor da história, o elemento deflagador, empurrada pelo moralismo católico, a legitimadora da "gloriosa" dos milicos de 64?

Joca disse...

Com a palavra o "sociólogo das multidões" doutor Maia...

armando disse...

E gastam 10 vezes mais que os pobres...

Realmente, o Congresso poderia aprovar uma lei em que pobre seria obrigado a sair do país das elites produtora, patriotas, construtoras, educadas, religiosas, etc.

armando disse...

O sociólogo que divulgou essa pesquisa é um pau mandado da FIESP, portanto, com toda "credibilidade"...

Carlos Eduardo da Maia disse...

O Maia, o Feil, o LFV, o Armando, o Jorge fazemos parte de uma mesma elite, a elite que teve acesso à educação, fundamental, superior etc. Essa é a realidade da grande maioria das pessoas que posta mensagem aqui e que utiliza a internet. Eu tenho absoluta certeza que o Armando, o Feil e o Jorge concordam que quem é eleito em cargo público não pode utilizá-lo em benefício próprio. O Armando, o Jorge e o Feil concordam, também, que a polícia não pode bater nos presos. O que é inconcebível é o pensamento pequeno, medíocre e simplista de achar que a elite brasileira que teve acesso à educação não gosta do povo. Parte considerável dos analfabetos do Brasil acham que polícia deve bater e que político deve sim tirar proveito próprio, é uma revelação do óbvio: falta de conhecimento e educação. Mas é exatamente essa carência que alimenta o preconceito que deve ser mudada no Brasil. Esses analfabetos que, também, votaram na Arena e no PDS no passado devem ser incluídos na cidadania de uma educação decente. A matéria da VEja é no sentido de que o povo tem que ter acesso a uma educação de qualidade exatamente para acabar com esses preconceitos. POr fim, ninguém aqui está falando em discurso anacrônico, ultrapassado em classe média como motor da história.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Sei, sei, Armando sociólogo bom é o materialista histórico, ops, o determinista idealista.

Cristóvão Feil disse...

Mas tem uma diferença capital, seu Maia. A minha educação não foi construída em detrimento de ninguém. Eu nunca fiz desse capital simbólico (Bourdieu) um instrumento de exploração do Outro. Ao contrário, eu coloco - modestamente - os meus sempre incompletos conhecimentos a favor de causas que buscam as maiorias excluídas, a favor da autonomia dos indivíduos e das comunidades, a favor de maiores e melhores espaços de democracia e participação (de todos). Em síntese, a favor da desalienação dos indivíduos e de sua completa emancipação cultural e social.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Minha educação, Cristóvão, nunca foi construída em detrimento de ninguém e muito me orgulho dela e coloco meus pequenos conhecimentos a favor dos excluídos para que estes tenham acesso a um serviço público decente e que o Estado brasileiro FUNCIONE para os excluídos. É nisso que me empenho.

Eustáquio disse...

O Maia e sua educação são o prepúcio da direita!

Anônimo disse...

Caro Maia. Tu deve ter lido só a Veja. Mas a crònica do LFV se refere a um livro, recém publicado, por um "ociólogo" (royalties para o Millôr Fernandes) paulista, cujo título é A Cabeça do Brasileiro. Já nas melhores, e piores, casas do ramo. É um apanhado de pesquisas rastaqueras, sem pé e nem cabeça, para chegar à conclusão de que o "pobrema" do Brasil é o povo brasileiro. E que somente a elite se salva, a elite no caso são as pessoas com curso superior (sic).

Carlos Eduardo da Maia disse...

Eustáquio, nós fazemos parte da mesma elite.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Anônimo, a Veja -- e eu publiquei isso no meu depósito -- faz referência a esse livro Cabeça do Brasileiro do sociólogo Alberto Carlos Almeida, com base em pesquisa realizada pelo Instituto DataUff da Universidade Federal Fluminense e financiada pela Fundação Ford (aquela mesma que financiou por longos anos o site de esquerda Carta Maior). A Veja em momento algum diz que o problema do Brasil é o povo brasileiro. Isso é invenção de quem não leu a matéria. A Veja diz o óbvio, o brasileiro necessita de educação decente. O BRASIL TEM DE INVESTIR EM EDUCAÇÃO.

Anônimo disse...

Não me referi à Veja, Carlos Eduardo, mas sim ao livro, propriamente dito e ao texto do LFV.

Jorge Vieira disse...

O conceito francês de elite define como sendo aqueles que tomam parte no processo de decisao política do país. O Lula pertence a elite, o Berzoine também, talvez o Bigode e certamente o Gerdau e os hebreus da Av. Ipiranga, só para citar alguns. Eu estou fora desse grupo, nao decido nada, no maximo o filme que vou ver, isso se a minha mulher deixar. Não me inclua nesse grupo. Eu fora!!!

Carlos Eduardo da Maia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Eduardo da Maia disse...

Jorge, vc está em sintonia com a Veja. A Veja disse exatamente isso que vc falou. Existe elite econômica que é essa da Gerdau, da RBS, da Globo etc. Existe a elite política, do Lula, Fhc, Berzoini, Dirceu etc. E existe a elite educacional, as pessoas que tiveram a chance de fazer o secundário, curso superior. No caso da pesquisa da Datauff ( promovida também pela Ford Foundation) se considerou as pessoas com curso superior em comparação aos analfabetos do RJ. E vc, Jorge, se teve acesso a educação e curso ou cursa faculdade faz parte dessa elite educacional. Não há como fugir disso. Por isso, o termo elite é genérico, é perigoso, é injusto é difuso, é complexo, e não é o mesmo da revolução francesa ou da época de Marx porque o mundo mudou. Mas tem gente que acha que não. Esses a gente chama de reacionários.

Anônimo disse...

Uma pesquisa que usa, no século XXI, o conceito de "elite" não pode ir muito longe mesmo...

Anônimo disse...

Outro mito da direita: o povo precisa de educação. O povo precisa de trabalho e condições de saúde. A educação, burguesa por excelência, serve apenas para adestrar e reproduzir os valores ideológicos da direita predadora, dita popularmente como "elite".

Anônimo disse...

"cidadania" pelo que sei, em teoria, pq nunca experimentei na prática é um conceito que se aplica apenas a coletivos, não existe o cidadão individual, existe a cidadania (ou não) que trata-se de uma relação social no âmbito dos direitos, nesse caso iguais. Ou há sociedade cidadã, ou não há um único cidadão, por mais que estude..."cidadão de 2a. classe" é apenas uma metáfora ferroviária, não existiria se houvesse cidadania.

Jorge Vieira disse...

Vou repetir para ficar claro. Elite significa um grupo heterogêneo que compõe o núcleo de decisão política de um país. Os demais cidadãos podem possuir elevados capitais simbólicos, especialmente o capital cultura, mas não integram o núcleo do poder. Portanto estou fora desse núcleo, não sou elite, embora possa possuir capitais simbólicos mais elevados que outros cidadãos. Assim é o conceito na França. Tão somente isso!!!

Marcelo Dezonne disse...

Inacreditável que se esteja discutindo com alguma seriedade uma pesquisa, que parte de perguntas que podem não ter sido entendidas e respostas que podem não ter sido sinceras, em um universo de pesquisados sem padrão conhecido !
Pensando bem, para uma abobalhada classe média, "cansada", que lê e gosta de acreditar em tudo o que a Veja escreve, tudo é mesmo possível...
Em tempo: A crônica do Veríssimo é muito boa. E a maior prova da tendenciosidade da mídia, é que para cada espaço dado a um Veríssimo, ela dá voz a dez Mainardis.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Quem usa o termo elite é certa esquerda recheada de preconceito, porque pensa com ressentimento. Veja apenas quis mostrar que elite não é, como na época das revoluções e revoltas francesas de 1789, 1844,1871 um grupo monolítico, perfeitamente organizado, com liderança definida etc. Existem elites em todos os grupos sociais: econômicos, políticos e educacionais. E que a elite educacional é mais politicamente correta do que os analfabetos, menos suscetível a manipulação política e ideológica e, também, mais consciente de seus direitos e, por fim, menos preconceituosa.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Essa pesquisa, Marcelo Dezzone teve a participação da Ford Foundation, a mesma que MANTEVE e deu boa graninha para a manutenção mensal do Carta Maior. Não vamos desqualificar apenas por desqualificar. O buraco é bem mais embaixo. E a pesquisa mostrou o óbvio e a conclusão é uma só: O BRASIL PRECISA INVESTIR EM EDUCAÇÃO. Quer que soletre?

Anônimo disse...

Não sei se o entrevistador fez realmente a pergunta com o texto abaixo, mas a pergunta para o analfabeto deveria ser mais clara, por exemplo "O prefeito deve roubar dinheiro da prefeitura?".

*

"Se alguém é eleito para cargo público deve usá-lo em benefício próprio?
40% dos analfabetos concordam
3% dos que têm nível superior concordam"

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