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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sábado, 25 de agosto de 2007

A comprida e sertaneja poética rústica de Riobaldo Tatarana

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Porque ele tinha me estatutado os todos projetos. Como estava reunindo e pervalendo aquela gente, para sair pelo Estado acima, em comando de grande guerra. O fim de tudo, que seria: romper em peito de bando e bando, acabar com eles, liquidar com os jagunços, até o último, relimpar o mundo da jagunçada braba.

— “Somente que eu tiver feito, siô Baldo, estou todo: entro direto na política!”

Antes me confessou essa única sina que ambicionava, de muito coração: e era de ser deputado. Pediu segredo, e eu não gostei. Porque eu estava sabendo que todos já aventavam aquela toleima, por detrás dele até antecipavam alcunha: “o Deputado”... O mundo é assim. Mas, mesmo desse jeito, o pessoal todo não regateava a ele a maior dedicação de respeito. Por via de sua macheza. Ah, Zé Bebelo era o do duro — sete punhais de sete aços, trouxados numa bainha só! Atirava e tanto com qualquer quilate de arma, sempre certeira a pontaria, laçava e campeava feito um todo vaqueiro, amansava animal de maior brabeza — burro grande ou cavalo; duelava de faca, nos espíritos solertes de onça acuada, sem parar de pôr; e medo, ou cada parente de medo, ele cuspia em riba e desconhecia. Contavam: ele entrava de cheio, pessoalmente, e botava paz em qualquer rutuba. Ô homem couro-n’água, enfrentador! Dava os urros. E mesmo, para ele, parecia não ter nada impossível. Com tanta bobéia assim, desfrutável e escurril, e ai de quem pensasse em poitar olho de chacotas: morria vertiginoso...

— “O único homem-jagunço que eu podia acatar, siô Baldo, já está falecido... Agora, temos de render este serviço à pátria — tudo é nacional!”

Esse que já tinha morrido, que ele falava, era Joãozinho Bem-Bem, das Aroeiras, de redondeante fama. Se dizia, tinha estudado a vida dele, nos pormenores, com tanta devoção especial, que até um apelido em si se apôs: Zé Bebelo; causa que, de nome, em verdade, era José Rebelo Adro Antunes.
[...]

João Guimarães Rosa
Pequeno trecho da magistral obra Grande Sertão: Veredas
Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1ª edição, 1956.

Foto: Mark Nozeman, no sertão do Nordeste brasileiro.

Um comentário:

Maia Calão disse...

Nossa, essa foi difícil catar na Wikipedia... mas lá vai:

Nas lutas travadas pelo sertão, impiedoso e lancinante, as desventuras do jagunço Riobaldo, em seu conflito com o inimigo maior, Hermógenes, e sua paixão pelo companheiro de batalhas, Diadorim. Riobaldo luta conta o sentimento, e só descobre que Diadorim era na verdade uma mulher quando ela morre.

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