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quarta-feira, 29 de agosto de 2007

A derrocada da revolução na URSS

A propósito do caráter da revolução bolchevique, Lênin nunca escondeu as suas limitações presentes e nunca perdeu de vista a natureza do processo que ajudara a construir. Em 1921, no 11º Congresso do PCUS, Lênin condicionava o caráter que assumiria a revolução, assim: "o capitalismo de Estado será um capitalismo que nós saberemos limitar e, deste modo, fixar-lhes as fronteiras; este capitalismo está ligado ao Estado, mas o Estado são os operários, é a vanguarda, somos nós. (...) O que será o capitalismo de Estado? Isso depende de nós".

Aliás, essa expressão "capitalismo de Estado" para classificar o processo russo era recorrente em Lênin, nessa época e até sua morte em 1924. Embora o tom do seu uso fosse acerca de algo inevitável e provisório, depois do seu desaparecimento permaneceu não só inevitável, mas tornou-se permanente.

Temos visto reprovações de toda a ordem, de todo o espectro, e de todo o gênero contra o regime stalinista da ex-União Soviética. Quase sempre são reprovações de natureza moralista (reclamam os aspectos da crueldade e a ausência de democracia representativa), que recriminam aspectos fenomênicos do Estado bolchevique, pré-políticas ou francamente ideológicas. Outras, mesmo que bem formuladas (mas que só reclamam da ausência de democracia), são superficiais, formalistas; querem desmascará-lo, mas usam a mesma lógica que o sustenta, daí o malôgro. Não apontam a essência do fenômeno stalinista. Tanto as pedras de arenito da pseudo-esquerda, quanto as pedras de mármore da direita, poucas conseguem atingir o nervo constitutivo do tema.

O sistema caiu por negar a negatividade da filosofia marxista. Era, portanto, acionado por um móvel positivista, que encontrou o seu objeto no desenvolvimento das condições de acumulação do capital, ainda que de uma maneira alternativa à acumulação privada. Uma opção de monopólio estatal do capitalismo (Hyams), com veto à apropriação privada.

Rosa de Luxemburg na sua famosa polêmica com Lênin, e que a ideologia stalinista sempre minimizou, porque aí residia uma das gêneses do problema, já vaticinava o fracasso dos bolcheviques. Na revolução russa de 1905, começaram a surgir divergências de fundo, pelo menos nos temas básicos: a questão nacional e a questão da organização.

Em 1916, Rosa oferecia um prognóstico severo à história do socialismo, no sombrio e lúcido panfleto A Crise da Democracia Socialista: "Enquanto existirem Estados capitalistas, enquanto, mais precisamente, a política imperialista universal determinar e moldar a vida interior e exterior dos Estados, o direito das Nações a disporem de si mesmas não passará de palavra vã, quer em tempo de guerra, quer em tempo de paz. Ainda mais: na atual conjuntura capitalista não há lugar para uma guerra nacional de defesa e qualquer política socialista que abstraia desta conjuntura histórica, que apenas se guie, no meio do turbilhão universal, pela ótica de um só país, estará desde o início destinado ao fracasso".

Rosa não fazia concessões a Lênin, aos bolcheviques e muito menos ao revisionismo menchevique. Criticava com energia a inconsistência de duas palavras de ordem, simultâneamente contraditórias: o centralismo democrático do Partido e o direito à autodeterminação das nacionalidades satélites da Rússia.

Lênin, em 1914, havia lançado um panfleto intitulado Do direito das Nações a disporem de si mesmas. Rosa sustentava que havia oportunismo político na questão nacional defendida por Lênin. Afinal, essas nações tinham interesses dominantes das burguesias locais e interesses não-dominantes do proletariado. Ela como polonesa e ativista política na Alemanha queria um processo revolucionário articulado em toda a Europa e não somente na Rússia, que era uma forma de diminuir o conteúdo da revolução, isolar e dividir o proletariado nos guetos nacionais, onde as derrotas seriam facilmente impostas pelas burguesias de cada país. Stalin, depois da morte de Lênin, seguiu à risca a política do socialismo em um só país e a história teve o desenrolar que se lamenta. Fracasso sobre fracasso.

A prosperidade econômica posterior da URSS não foi obra do ideal socialista. Foi resultado de uma deliberada política econômica de formação de uma acumulação primitiva capitalista. “O socialismo em um só país desanda finalmente no socialismo em país algum” – conforme apontou Ernest Mandel.

13 comentários:

armando disse...

Após a morte de Lenin, o partido levou às últimas conseqüências o "lenenismo", sem a contradição, sem a dialética, transformando o marxismo em dogma. Sectarismo de esquerda.

Gustavo Guglielmi disse...

Belo texto, Feil.

Carlos Eduardo da Maia disse...

O marxismo é dogma, não tem nada de materialista. É idealista, é teoria pura. Se transformaram e vc admite, já está transformado. E mais a derrocada do império soviético está ligado sim ao ineficiente e inflexível capitalismo de Estado e ao puro estatismo que não conseguiu vencer a etapa da Revolução Científico Tecnológica e a passagem do Fordismo para o Toyotismo.

Guga Türck disse...

Me permita, meu caro Cristóvão.
Vou publicar na íntegra este artigo - com os devidos créditos.
Obrigado, mais uma vez pela sapiência!!!

Abração!

armando disse...

Maia, corra, mas corra mesmo ao Google, ou qualquer outra "busca" na internet, e procure saber o significado de "dialética". Não seja o papagaio desse espaço, repetindo Olavos, Reinaldos, et caterva.

Carlos Eduardo da Maia disse...

A dialética não é necessariamente radical, Armando. Ela também pode -- e muitas vezes deve -- convergir para a síntese. Mas vcs não querem saber disso, querem impôr uma dialética sem síntese e por isso acreditam numa religião sem deus. Um materialismo que virou idealismo.

armando disse...

V. tá certo, Maia! Errado tá o mundo! Não vou contrariá-lo, pois seu caso pode se agravar...

Carlos Eduardo da Maia disse...

Então, Armando, bote uma salutar síntese convergente nessa tua dialética.

Anônimo disse...

Feil, acho que pecas muitas vezes por ser extremamente dogmático. Críticas ao stalinismo do ponto de vista da crueldade, do massacre (trabalhadores inclusos) impetrado pelo mesmo, não podem ser consideradas unicamente "moralistas". Claro q as razões "materiais" da ascenção do Stalinismo assim como sua queda devem ser entendidos, e debatidos.
A pouco em outro post vc reproduzia uma entrevista onde o cidadão afirmava q romper com a religião é um avanço civilizatório... assim ignorando a realidade objetiva, a dialética a qual todos os fenomenos, principalmente os de ordem superestruturais, ideais, como a religião, estão inseridos. Senod pois que teriamos q considerar a posição do Dr. FHC mais progressiva do q a do Franciscano Frei Sérgio.
Ou seja, de um lado a crítica "ideal" não pode ser aceita (nem como crítica e não como explicação), de outro ela é norteadora do processo civilizatório. Pouco dialético não? Ou então caimos em Althusser e simplificamos a religiaão a sua expressão institucional, ai com um caráter de classe mais definido.
Sem dúvida que a idéia de socialismo em um só pais foi uma das causa fundamentais do malogro bolchevique pós-Stalin, mas, o Leninismo não pode ser desconsiderado. Lenin sempre trabalhou o Fordismo como padrão unico de acumulação, como o modelo a ser seguido (não só deliberação pela acumulação primitiva). O modelo de democracia interna do bolchevismo também era questionável. Bom vamos chegar a varias discussões, as quais boa pate estão no seu texto (mecanicismo...etc..). Inclusive uma coisa é certa, o Stalinismo teve sua essencia no bolchevismo, não foi uma aberração do mesmo.
Pode e deve-se criticar o fenômeno analisando essÊncia, acho q aqui nós dois concordamos evc não afirmou nada ao contrario.
Rosa Luxemburgo foi uma brilhante teórica, mas qe em suas análises tamnbém deixava brechas conceituais imensas, como na questão imperialista.
Como diria Trotsky, apesar de todos seus defeitos o Estado Soviético Stalinista ainda era um Estdo operário, portanto mais progrssista q qlquer estado burgues democrático.
Espero que se houver resposta a mesma seja alutar, pois, estou tentando construir neste blog, que espero seja o objetivo, evitando discutir com o Maia.

Anônimo disse...

Resumindo, em certos aspectos acho q c também negou a negatividade marxista.

Cristóvão Feil disse...

Uma coisa é criticar a religião em abstrato, outra é criticar indivíduos concretos que professam alguma religião. Dizer que FHC é mais progressista que Frei Sérgio, porque um é religioso e o outro ateu, vamos convir que se constitui numa armadilha de palavras que denotam até desonestidade intelectual.
De qualquer forma, meu prezado anônimo, fica muito fácil tomar nomes e indivíduos de um texto e crivá-los de críticas por motivos vários, para além do foco do texto. É óbvio que a Rosa tem inúmeras lacunas na sua obra escrita e na militância, mas não se pode criticar um texto (pelo menos de forma honesta) por aquilo que ele NÃO cita ou explora. Podemos tomar o Mandel e dizer que ele foi trotskista e por esse motivo é um crítico suspeito do stalinismo, etc,etc,etc. A rigor, meu prezado, eu continuo em dúvida sobre o seu comentário: quais são mesmo os seus juízos sobre o stalinismo, sobre o capitalismo de Estado da URSS, etc.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Que FHC é muito mais progressista que o Frei Sérgio ninguém pode duvidar.

Anônimo disse...

Fim de papo. Hahahah. Esse Mia é um pandego

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