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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sexta-feira, 7 de março de 2008


Quanto bravura neste pequeno corpo!

Sou um cara que coleciona fotografias. Amador, tenho uma coleção razoável delas, todas digitalizadas. Uma foto que sempre me chamou a atenção, pelo seu caráter forte e enigmático, foi essa aí. Uma certa menina se recusa a cumprimentar o ditador general Figueiredo, que lhe estende a mão, imperativo e intimidatório. Ela resiste, escondendo as mãozinhas sob os braços ousados.

Um gesto forte (politizado, apesar dos cinco aninhos de sua protagonista) que simboliza o cansaço popular para com a ditadura que golpeara um governo civil e democrático em 1964. Uma homenagem de todos nós ao Dia Internacional da Mulher, a ser comemorado amanhã, 8 de março.

Pois agora recebo e-mail do velho jornalista Rui Martins, que vive em Genebra há muitos anos, e que está ajudando a procurar essa menina-mulher que disse não a tudo o que representava o general Figueiredo. Eis o texto que recebi, contando a história da fotografia, seu autor e a busca pela menina-mulher anônima.

Algumas imagens “falam” por si sós. É o caso desta foto de Guinaldo Nicolaievsky, que desafiou a ditadura militar com uma birra de criança – uma menina de muita personalidade, que se negou a apertar a mão do então presidente, general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999), mesmo sob insistência dos fotógrafos. Neste Dia Internacional da Mulher, a BR Press lança a campanha Quem É Esta Garota? e procura a menina da foto – que, quase 30 anos após o início do governo Figueiredo, em 1979, também simboliza o início da abertura política no Brasil.

Esta menina – hoje mulher – deve ter boas recordações de sua rebeldia. Ela não parecia convencida de que Figueiredo daria continuidade ao projeto de abertura com a Lei de Anistia, aprovada em agosto de 1979, que, apesar das restrições e de ter anistiado torturadores e assassinos a serviço da Segurança Nacional, permitiu aos exilados, presos políticos desde 1964, a saída da clandestinidade.

E foi a presença de espírito deste repórter fotográfico veterano e admirado que é Guinaldo Nicolaievsky, então à serviço de O Globo, em Belo Horizonte, a força-motriz deste registro solene do poder feminino imposto mesmo aos, digamos, cinco anos de idade.

Com a palavra, o autor da sensacional imagem:

“Lançamento do carro a álcool em BH. A imprensa mineira e a nacional estavam presentes e um grupo de crianças foi levado ao Palácio da Liberdade para cumprimentar o presidente Figueiredo. Deu zebra: a primeira da fila negou o aperto de mão ao Presidente da República, apesar dos pedidos dos fotógrafos. Percebi que não aconteceria o aperto e fotografei.”

Guinaldo Nicolaievsky continua e aqui vem a melhor parte da história: “Corri para a redação para revelar e transmitir a foto para o Rio. Para minha surpresa eles [redação de O Globo] não publicaram a foto. Desconfiaram! Queriam o “cumprimento”. Fui ameaçado de dispensa caso não entregasse o fotograma. Foi exigido que mandasse o filme sem cortá-lo, no primeiro vôo para o Rio. O que foi feito. Não publicaram nada… resolvi por minha conta, mandar para outros veículos, que publicaram com destaque, até no Exterior.”

Quem souber do paradeiro da “menina” que negou a mão ao general ou caso ela mesma se depare com esta mensagem, favor entrar em contato com pauta@brpress.net.

8 comentários:

Anônimo disse...

Esta história nos enche de orgulho.
um abraço e obrigada pela bela nomenagem.
Carmelita

Anônimo disse...

Bela homenagem às mulheres, maior ainda por ser com a força de uma criança que não sujou suas mãos.

armando

el barto disse...

devia era ter cuspido na mão desse canalha, digno ancestral dessa jaguarada rastaquera dos pp=pds=arena e demos da vida...

Anônimo disse...

Cristóvão,

Parabéns pela melhor homenagem possível ao Dia Internacional da Mulher que encontrei na blogosfera esclarecida e politizada! ;)

El Barto,

A menina demonstrou ser uma pessoa MUITO MELHOR ao apenas recusar-se ao cumprimento do que se tivesse sido agressiva.

Isso enobrece ainda mais o seu pequeno grande ato.

[]'s,
Hélio

Anônimo disse...

Prezado Cristóvão!
Sem dúvida uma grande homenagem as mulheres!
Pergunto, seria difícil descobrir quem estava na redação do dito jornal naquele dia??

Abraços!
Humberto

claudia cardoso disse...

Gente, quem dá significado a esta birra infantil somos nós, adultos e agora. Não significa que a menina tivesse noção do contexto daquele momento aos 5 anos de idade. Talvez - talvez - ela tenha ouvido um comentário do tipo "ah, hoje vais apertar a mão do presidente" em casa e terminou agindo de forma birrenta, e, só para contrariar, a menina fez o que fez. Não credito a ela uma consciência política para justificar tal gesto.
Lembro os meus 5 anos e ainda morava na Argentina. Me recusava a tirar foto com minhas coleguinhas de jardim de infância; não dançava, de propósito, as coreografias em dia de festa. Tudo para fazer birra, para ser a diferente!

Anônimo disse...

Isso não é birra Claudia. Essa menina ouviu de seus pais que esse não era o cara. Ponto.

Isadora disse...

Mesmo se ela não tivesse noção do que estava acontecendo, ela poderia muito bem não ver nada de bom naquele homem e pronto. Minha professora de história enche o peito com orgulho para dizer que, quando o presidente figueiredo veio para a minha cidade, ela não balançou a bandeirinha do Brasil que disseram que era pra ela balançar e mesmo a professora dela dizendo que se ela não balançasse os pais dela iam ser presos.
Ela não balançou porque não viu motivo nenhum pra sacudir a bandeira para um homem que ela nem sabia quem era. Tem personalidade aí e nada de birra.

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