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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

segunda-feira, 17 de março de 2008


Uma comparação leviana

Recebo do jornalista Rui Martins, de Berna (Suíça), este artigo contestando Elio Gaspari.

Desta vez, o que me chamou a atenção foi um texto distribuído pela Internet para emigrantes brasileiros na Suíça e Alemanha. Um texto do respeitável e competente Elio Gaspari, cujos livros da série Ditadura, adquiri nas minhas últimas viagens ao Brasil.

O texto publicado na Folha de SP, comparando o que uma vítima do atentado de 20 de março de 1968 contra a embaixada norte-americana em São Paulo, recebe do INSS, quando perdeu uma perna, com a aposentadoria paga a um dos autores do atentado pela Anistia.

Elio Gaspari, jornalista e escritor, faz uma comparação, fora do contexto da época, e leva os leitores a um julgamento fácil e rápido, de culpado e inocente. Com esse mesmo tipo de argumentação se poderia condenar os resistentes ao nazismo na França ocupada. Os culpados pelos massacres de inocentes cometidos pelos nazistas em represália a atentados contra os ocupantes teriam sido os resistentes.

Fazer uma comparação entre indenizações decididas, 40 anos depois, omitindo o clima reinante na época da ditadura militar e aproveitando para colocar em questão o que animava a extrema esquerda contra a ditadura, não é nada correto. Conhecedor da situação como poucos, Gaspari optou por uma argumentação minimalista e, por isso leviana, que ignora o complexo quadro daqueles anos de chumbo.

Logo no começo da invasão americana ao Iraque, declarei, nas rádios em que falava e onde escrevia, que sempre chamaria os iraquianos de resistentes aos invasores e nunca de terroristas. Durante a ditadura militar, onde muita gente boa se enrustiu, não havia terroristas (essa era a designação dada pela governo e imprensa golpistas) mas resistentes. Idealistas, sonhadores, iludidos, irresponsáveis, tudo isso pode se discutir, mas, no caminho certo ou errado, eram movidos pelo desejo de resistir a uma situação ilegal, criada depois da deposição de um presidente e por instigação americana.

E pagaram caro por isso. Uma parte morreu, outros foram torturados e sofrem sequelas até hoje. Outros que não aderiram à luta armada mas que contestavam o regime tiveram de fugir e perderam carreira, vivendo e sofrendo o exílio. Diógenes, citado como um malvado premiado, sofreu torturas e, no exílo na África, apanhou malária, outro tipo de tortura permanente.

É dentro desse mesmo raciocínio que defendo a concessão da condição de refugiado ao italiano Cesari Battisti, ativista de uma facção de luta armada italiana, preso no Brasil e sob ameaça de extradição.

Na verdade, existe hoje no Brasil, por parte da grande imprensa, a quase totalidade daquela que aderiu aos militares, uma campanha para desestablizar o governo, que apesar de numerosos erros, vem favorecendo o grande segmento da população pobre antes esquecido. E, pelo jeito, surge uma tendência negacionista, movida por uma lamentável vontade de reescrever a história.

Isso faz parte da democracia, o debate franco ou desleal, porém, não se pode esquecer que no Brasil não existe imprensa de esquerda, que poderia defender o outro ângulo. Existem apenas alguns sites, jornais e revistas mantidos no benevolato, enquanto a direita dispõe de televisões, rádios e jornais de grande tiragem numa espécie esdrúxula de ditadura democrática da informação.


6 comentários:

Anônimo disse...

Perfeito, Feil. Parabéns. Não podemos e não devemos deixar "em branco" a ação praticada por oportunistas e pela grande imprensa de REESCREVER a história, invertendo sinais, colocando bandidos como mocinhos e, pior, denegrindo os que lutaram com risco da própria vida. Como vemos, a luta continua.

armando

marcos trindade disse...

Cristóvão, lá no teu post O Gen em Seu Labirinto eu te mandei uma carta do Sérgio Ferro, enviada à Folha de São Paulo.

flics disse...

Cesar Battisti é outra coisa.

Na Itália a constituição não foi rasgada. O combate aos grupos armados de extrema esquerda e direita - tanto lá como na Alemanha - foi feito dentro da lei e o terrorismo foi vencido. A esquerda italiana pagou um alto preço pela aventura desse pessoal. Na Itália não existe Lei de Anistia porque a constituicionalidade do país não foi violada. Na Itália não se cometeu crime de lesa humanidade, que são os crimes cometidos desde o Estado.

Fazer essa mistura é um enorme desrespeito para com o pessoal que lutou - certo ou errado - aqui.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Não se pode comparar os movimentos de resistência ao nazismo da França com os movimentos terroristas no Brasil da extrema esquerda. E a ditadura apertou o cinto dos brasileiros exatamente pelas besteiras cometidas por Diógenes de Oliveira e Cia. Existem formas e formas de se fazer resistência a uma ditadura. A extrema esquerda, infelizmente, jogou o jogo da ditadura. Caiu na sua armadilha. E perdeu a batalha que já estava perdida. Marighella e Cia pensavam ser possível fazer no Brasil, na época dos milicos, uma revolução. Mas uma revolução sem povo.

Jurandir Paulo disse...

Caro Flics, não me parece outra coisa. O fato é que Cesare Battisti foi preso no Brasil, e cabe ao país decidir sobre a procedência de sua deportação. Impossível não decidir dentro dos princípios de nossa própria história. Tentamos passar uma borracha no passado e zerar as dívidas de um conturbado período de acirramento de classes, o mesmo que Battisti viveu na Itália. Deportá-lo é aceitar suas culpas, negar nossa história. Fomos tão amplos e apaziguados que perdoamos até os que não respeitaram a própria lei da anistia, cometendo crimes posteriores, como foi o caso do atentado do RioCentro, onde ficou clara a responsabilidade do exército brasileiro. Cabe ao governo decidir com nosso sentimento, não com um burocrático e extemporâneo pedido da polícia italiana.

Anônimo disse...

O Estado tem a força em todos os sentidos, e quando esse Estado exacerba sua força reprimindo ou rasgando a Constituição, é direito líquido e certo a revolta. Foi o que aconteceu aqui durante a "redentora". Por isso mesmo, o Estado de hoje, responde pelos crimes de ontem. Bandidos, terroristas e covardes foram os que torturaram e mataram jovens, crianças e mulheres, infinitamente em condições inferiores de enfrentamento.
Agora, reescrever a história, a direita pode tentar, mas as forças democráticas devem estar atentas para rebater as sandices distribuidas como quem não quer nada, mas com clara finalidade de mudar o curso histórico.

armando

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