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sexta-feira, 14 de março de 2008



EUA: duas derrotas militares no espaço de uma geração

A edição de fevereiro da revista Piauí traz um artigo muito revelador sobre as Forças Armadas dos EUA. Seu autor é o tenente-coronel do Exército, Paul Yingling. O artigo é surpreendentemente bem escrito e inteligente, em se tratando de um milico. Ao examinar o que já considera um fracasso norte-americano no Iraque, o tenente-coronel não fica na superfície da derrota, aprofunda-se apontando causas que estariam na origem da própria derrota no Vietnã. Sobre essa derrota ele diz: “A derrota [norte] americana no Vietnã foi o fracasso mais notório da história militar [norte] americana”. É sempre importante colocar os colchetes indicando o designativo [norte-] americano, já que americanos somos todos nós, e a derrota a que se refere o militar estadunidense tem endereço certo e sabido.

O militar chama a atenção para a crise na formação dos oficiais-generais do EUA, onde apenas um quarto deles possuem diplomas civis em ciências sociais e humanidades. Essa deficiência estaria na raiz da incapacidade de compreender culturas estrangeiras e as mudanças radicais nas estratégias de guerra. “Os erros morais e intelectuais comuns ao corpo de oficiais-generais dos Estados Unidos no Vietnã e no Iraque configuram uma crise no generalato” – adverte Paul Yingling. Para ele, é preciso admitir que as Forças Armadas norte-americanas estão sendo derrotadas pela segunda vez no espaço de uma geração – Vietnã e Iraque – e por forças insurgentes visivelmente mais fracas, mas que usam recursos de guerra não-convencional para o qual os oficiais não estão preparados.

O Grupo de Estudos sobre o Iraque, vinculado ao Estado-Maior, faz relatórios que escondem a gravidade da situação insurrecional no Iraque, segundo Yingling, apenas dez por cento dos atos de violência significativa são relatados por seus boletins, o que redunda em informação discrepante com a realidade e avaliação distorcida para o Congresso norte-americano.


8 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

É diferente a situação do Iraque e do Vietnam e o contexto é outro. No Vietnam era o auge da guerra fria de um mundo bipolar. A desastrada invasão ao Iraque colocou as tropas americanas como autoridade policial de um governo eleito pelo povo, mas que é contestado pelo radicalismo islâmico. No Iraque, iraquianos matam iraquianos e no meio de tudo estão os soldados americanos. Na guerra do Vietnam, americanos matavam, com Napalm, vietnamitas.

Anônimo disse...

Maia,

Os EUA não têm, sob NENHUMA JUSTIFICATIVA HUMANISTA, DEMOCRÁTICA OU DE JUSTIÇA, o direito e nem sequer a necessidade de invadir país algum.

Isso fere a autodeterminação dos povos, que está na carta fundamental da ONU.

Ou tu vives em outro planeta e não vês nenhum blog de soldado estado-unidense e nenhum veículo honesto de mídia alternativa com as fotos horrendas (como as que o LA VIEJA BRUJA publicou nesta semana), ou tu achas "certo" alguém agir como "polícia do mundo".

A ÚNICA justificativa dos EUA ao invadir quem quer que seja é a de gastar suas armas, treinar seus soldados em situação real de uma guerra que ELES MESMOS (os governantes e poderosos empresários dos ramos de energia, armamentos e construção civil) provocaram em articulação com um maior endividamento e, conseqüentemente, dependência econômica e política do país invadido, que irá contrair empréstimos monumentais e terá que pagar a conta de algo que, por desespero, viu-se obrigado a aceitar, isto é, a reconstrução de pontes, hospitais e moradias e o envio de alimentos e medicamentos por parte dos mesmos caras que estão destruindo-os.

Tudo para ROUBAR (sim, não há outra palavra) suas riquezas naturais, já que os EUA estão sempre atrás de mão-de-obra barata e de gente miserável que seja tão subserviente quanto possível.

Os EUA sob a batuta dos republicanos sempre foram imperialistas. Sob as mãos dos democratas, são imperialistas moderados.

[]'s,
Hélio

Carlos Eduardo da Maia disse...

Concordo contigo, Hélio, os EUA e nenhum Estado tem que invadir outro Estado e os EUA invadiram o Iraque. Sempre fui contra a invasão do Iraque e considero BUsh um grande troglodita. Fiz apenas uma consideração de que fica difícil comparar Vietnam com Iraque, pois os EUA no Iraque são a segurança, a polícia, de um regime que foi eleito pelo povo iraquiano. Houve eleição e nunca antes na história do pais tanta gente participou. E a guerra civil que lá existe é entre os próprios iraquianos. A imensa maioria das pessoas que morrem no Iraque são vítimas de fuzis iraquianos. Mas, Hélio, os EUA nem sempre estão do lado escuro da lua. Na ex iugoslávia os EUA estavam do lado dos muçulmanos contra o "regime limpeza étnica" de Milosevic e o povo do Afeganistão é muito grato aos EUA por terem liberado o país do Taleban (muito embora os EUA fossem responsáveis também pelo fortalecimento desse grupo radical, na época da guerra fria). Em política e também em política internacional não existe essa história de pão pão queijo queijo. Os mocinhos e os bandidos não estão nunca muito bem identificados.

Anônimo disse...

Tudo fruto da política imperialista da "guerra preventiva". Rasgaram o Direito Internacional e tripudiaram sobre as soberanias. Roma rediviva.

armando

eugênio neves disse...

Feil, achei esse artigo surrelista. Se os generais norte-americanos tivessem curso de sociologia ou humanidades, e se soubessem respeitar as demais culturas, eles não seriam generais!
Não há como fazer guerras imperialistas humanitariamente. Não entendi essa postagem.

Anônimo disse...

O artigo é sobre abertura de mercado de trabalho para sociólogos. Acho que deveria ser disciplina obrigatória em todas as profissões do mundo. Tô precisando!

Anônimo disse...

Eugênio, segundo eu entendi, os cursos de sociologia e humaninades ajudariam num melhor entendimento dos outros povos. Isto é o que o texto quiz dizer. O que fazer com esse melhor entendimento é outra coisa. Se melhor entender, melhor podem ajudar - como diz nosso amigo acima - ou melhor massacrar. Os "cabeças" da guerra do Vietman eram todos da área humanística.
Flics

claudia cardoso disse...

Na mão dessa gente, o conhecimento só é usado para oprimir.

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