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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Globo defende elite branca e de olhos azuis


Sempre existiram cotas nas Universidades, para brancos e endinheirados

A Rede Globo, no Jornal Nacional, criticou o projeto que regulamenta cotas para alunos do ensino público, bem como para negros e indígenas: os Deficientes Cívicos. O jornalista dizia que não foi feita uma ampla discussão envolvendo a sociedade e que o imediatismo era eleitoreiro e irresponsável. Como um desastrado partidário da dialética, o Jornal Nacional ouviu duas pessoas: uma antropóloga, contrária ao sistema de cotas, e um deputado do PSB do Espírito Santo - que apareceu pela primeira vez em cadeia nacional -, também contrário às cotas. Qual debate? Ora, eu pergunto, se a Globo realmente tem interesse num debate amplo envolvendo a sociedade, acadêmicos e políticos, por que ela nunca promoveu uma discussão? Por que ela nunca patrocinou um debate no horário do besteirol Big Brother?

O fato é que o senhor Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, é contrário às cotas, e sempre que pode externa isso em suas colunas, sempre com comparações de senso comum e exemplos pessoais inadequados. Veja a metodologia de discussão sobre cotas engendrada pelas Organizações Globo, sob o comando do senhor Ali Kamel: a antropóloga da USP entrevistada ontem disse que o sistema de cotas iria instituir a raça no Brasil, seja lá o que essa afirmação estapafúrdia queira significar, ela também disse que isso é obra de um governo às vésperas de uma eleição. Minha senhora, o sistema de cotas não é uma iniciativa deste governo, é resultado de uma intensa discussão entre a academia, movimentos sociais, movimentos negros etc. Aqui em Brasília a discussão foi encabeçada pelo antropólogo José Jorge (UnB), que deveria ter sido entrevistado pela Globo, porque está envolvido na discussão desde o seu início.
Por que a Globo decidiu pela antropóloga contrária às cotas? Por que ninguém tem coragem de dizer que as universidades federais brasileiras sempre operaram num sistema de cotas para brancos endinheirados? Por que ninguém tem coragem de dizer que a metodologia dos vestibulares visa beneficiar os alunos de escolas particulares?

A Universidade surgiu no Brasil para servir à elite, que não queria mais mandar os seus filhos para Coimbra ou Londres! A USP, segundo o antropólogo Claude Levi-Strauss, foi feita pelos barões de São Paulo para atender aos seus filhos; ali as aulas eram ministradas por sumidades européias em italiano e francês. Sempre se privilegiou a Europa no ensino de história, filosofia, literatura e artes em geral nas universidades brasileiras, como se não existissem correlatos na América Latina (cheia de Prêmios Nobels em literatura), na África ou na Ásia. Não é à toa que não se fala na contribuição árabe para a constituição do que é hoje o mundo ocidental!

A Universidade é monotemática, não representa a diversidade brasileira, não traz as minorias para discussão e não enriquece o seu discurso com contribuições originais. É sempre mais do mesmo!

Por isso, os cursos de Nutrição têm disciplinas obrigatórias voltadas a emagrecer os ricos, e não têm disciplinas obrigatórias voltadas a engordar os pobres, como dizem; as faculdades de Agronomia têm disciplinas obrigatórias voltadas ao latifúndio e às monoculturas, nada em relação à agricultura familiar e de subsistência; há cursos de Publicidade nas Universidades Federais - o que é um acinte e um contra senso -, a quem irão servir esses senhores depois de formados?; os cursos de Literatura não falam em Literatura Africana, Latino Americana ou Oriental, somente se fala em franceses e ingleses; as Faculdades de Filosofia não falam dos continentes colocados como periféricos, só falam em gregos e troianos; os homens civilizados, que viviam em cidades enormes e com edificações maravilhosas na América Central, com cidades mais populosas que qualquer outra na Europa, ainda são descritos pejorativamente como índios.

Mas, como definir quem é negro, perguntam os racistas incautos. Eu sugiro uma metodologia muito simples: coloque na banca examinadora um PM, uma gerente de loja de um Shopping Center, um empregador que exige boa aparência, um diretor de televisão, uma mãe cafetina procurando um bom partido pra filha etc. Não faltam agentes sociais versados em identificar negros e discriminá-los. A hipocrisia é que cega a sociedade!

Por que não se fala na Lei do Boi, que garantia vagas nas universidades aos filhos de pecuaristas? Por que ainda acham que o vestibular, no modelo em que é feito, é a melhor maneira de escolher cidadãos críticos e inteligentes para pensar a sociedade?

Por que os vestibulares não são elaborados de acordo com o conteúdo programático das escolas públicas? É interessante para o país que as escolas particulares tenham se convertido em laboratórios onde se treinam jovens para passar no vestibular?

O modelo atual de vestibulares nos faz crer, e sobretudo àqueles que falam no mérito de se tirar uma nota cada vez mais alta para passar no vestibular, que garotos que passaram em primeiro lugar em Medicina ou Direito são futuros intelectuais, gênios prontos a servir à sociedade com soluções inovadoras e inteligentes. É como se a juventude formada em Direito e Medicina, pelas universidades federais, fossem a elite intelectual da nossa geração, profissionais de ponta na função que exercem. Por que o cara que consegue decorar a tabela periódica e as fórmulas de química, física e matemática; e decore datas, nomes de livros, vida de autores, perfil dos grandes vultos (tudo dentro da perspectiva monotemática e eurocêntrica de nossas academias), são os que têm o mérito de entrar para a academia e propor soluções inteligentes para o país, que faça um país cada vez melhor? Por que o cara que tem vocação pra ser Assistente Social, Educador, Filósofo, Historiador etc. tem que decorar a Tabela Periódica? Porque se não decorar as fórmulas de química e física, embora nunca vá utilizá-las, o cidadão não pode entrar na universidade!!! A maior parte do conteúdo estudado para o vestibular é decorado para uma finalidade, desvanecendo depois de cumprido o objetivo. Você que estudou numa federal há mais de dez anos, volte lá e faça vestibular para o mesmo curso que você passou, sem ter que entrar num cursinho para lembrar aquelas coisas todas que meteram na sua cabeça e você nunca mais ouviu falar. Porque as leis da física são as mesmas, Napoleão não fez nada de novo, a tabela periódica tem a mesma configuração, as regras gramaticais continuam inalteradas etc. O que mede o vestibular? O que é mensurado ali?

As cotas vão diminuir o nível das universidades? Qual nível? De que universidades? Que pesquisas comprovam isso? Recentemente a UFBA (Universidade Federal da Bahia) fez uma pesquisa e constatou, por meio de números, que não há diferença de rendimento entre alunos cotistas e não cotistas; os números revelam inclusive que no quesito freqüência, os alunos cotistas estão em vantagem, são mais assíduos. Não é problemático que numa pesquisa feita por um professor da USP, com base no cadastro de alunos que ingressaram nesta universidade em 2003, demonstrou que uma única rua da região abastada dos Jardins, colocou mais alunos na USP do que 80 bairros pobres da periferia da cidade! Cotas? É um velado sistema de cotas? Qual é a metodologia? Qual a finalidade?

Artigo de Lelê Teles, blogueiro de Brasília, acesse aqui.

40 comentários:

Anônimo disse...

No meu modesto entender, o maior mérito do atual projeto é que as cotas são sociais e não raciais, atendem aos mais pobres e excluídos e não aos ricos sejam de que raça forem.

Eduardo disse...

Chama-se meritocracia.
O problema é como medi-la.
De todos aqueles adolescentes que estão decorando coisas e estudando outras, o Estado vai pagar faculdade para os que se destacarem dos demais. Vai gastar dinheiro com os que tiverem melhores perspectivas de dominarem os conteúdos.
A prioridade ainda é trazer a ciência para essa terra, aprender a fazer ciência no Brasil, estamos atrasadíssimos.
Estudando sim, decorando muito pouco, como eu, que aprecio física e matemática, realmente compreendo aquelas coisas, decorei um mínimo, era e sou capaz de demonstrar como aqueles resultados foram alcançados.
Física, química, matemática tem pouquíssimo etnocentrismo.
As três disciplinas medem raciocínio lógico e abstrato por trás dos seus conteúdos.
Minha esposa nunca se deu mal em matemática, queria ser arquiteta, fez letras, linguística e acabou no direito.
A facilidade lógica que lhe facilitou gostar de matemática lhe foi útil para entender as gramáticas do Chomsky e enxergar o que existe de (credo!) ciência no direito.
Professora, filha de professora, uma assalariada, a Federal não errou em aprová-la no vestibular.
Quem não se dá bem com lógica, vai mal em matemática, vai se enrolar em qualquer outro sistema de conhecimento científico.
Por isso o Estado vai dar faculdade de graça para os 15 mil melhores vestibulandos que vencerem os demais tanto no quesito matemática como no de redação.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Eu sou contra as cotas raciais. E também acho absurdo uma UFRGS da vida ser gratuita para quem tem condições de custear o ensino. Mas sou a favor das cotas para as escolas públicas. É panfletário e hipócrita o discurso daqueles que acusam racistas os que são contra as cotas raciais. O Brasil não pode e nem deve alimentar questões raciais. São antagonismos que levam a nossa divisão. E nenhum país se desenvolve dividido.

Engenheiro, contrário à cotas raciais. disse...

Vamos por partes:
Que o vestibular é a melhor forma pra seleção, eu discordo completamente, mas até que me proponham um método mais justo eu prefiro isso à sorteio.
Que o vestibular é feito para escolas particulares: não é bem assim, é feito pra escolas boas, pelo menos às que preparam o aluno para o que está por vir: o vestibular por enquanto, e muitas escolas públicas não têm essa competência.
Que as universidades surgiram no brasil nos moldes europeus: é lógico, o Brasil surgiu com a aristocracia nos moldes europeus, as pessoas aqui acham bonito usar terno e gravata com uma calor de 40 graus!
E pelo que vi numa notícia, a UNIFESP divulgou o desempenho de cotistas versus não cotistas, e realmente o desempenho era equivalente, EXCETO em cursos de exatas, onde os cotistas têm desempenho abaixo da média (imagino que seja porque o vestibular consegue, no mínimo, separar quem tem raciocínio lógico).
Enfim, cotas para quem não tem dinheiro para uma escola particular ENQUANTO o Estado é incompetente em educar o povo, sim (cotas por renda com prazo pra acabar). Cotas por cor de pele, dai já é o samba do crioulo doido!

Carlos Eduardo da Maia disse...

O blogueiro de Brasilia diz que Ali Kamel é contra as cotas. Negativo, ele é contra as cotas raciais e a favor das cotas sociais. Concordo com Kamel.
A Uerj, a primeira universidade brasileira a adotar o sistema de cotas raciais, divulgou um estudo bastante revelador. No vestibular do ano passado, foram oferecidas 1.048 vagas para negros, mas apenas 673 estudantes se inscreveram. Desses, 439 passaram. No ano anterior, o mesmo fenômeno já tinha acontecido. Foram oferecidas 1.031 vagas para negros, mas apenas 753 se inscreveram (as aprovações foram de apenas 432 alunos). Antes, havia mais candidatos inscritos do que vagas, mas o cenário mudou completamente nos últimos dois anos. A Uerj anunciou, então, um amplo estudo, a ser concluído até o fim deste ano, para descobrir as causas.

malu disse...

Gente, racial, não.
O correto é étnico. A raça humana é uma só. Quem tem muitas raças são os cachoros, os gatos, os bovinos, os suínos, os galináceos, etc.
Combinadinho?

Anônimo disse...

pô, cachorro também tem que ser étnico. Cachorro também é gente.

Magri

Jean Scharlau disse...

Universidade pública deveria ser só para quem estudou em escola pública. Pelo menos o segundo grau e metade do primeiro. Os outros que continuassem pagando nas faculdades particulares.

Poderia ter uma cota de digamos 20% das vagas para candidatos ex-abonados e repentinamente empobrecidos, oriundos de escolas particulares, mas teriam que comprovar o empobrecimento.

Jean Scharlau disse...

Não, tudo bem, eles poderiam apenas declarar empobrecimento para disputar os 20% de vagas.

Anônimo disse...

Bem, o que eu pude ver foi que os privilegiados vão continuar a defender os seus privilégios, assim como o dos seus iguais.

Como posso ver também, que a hipocrisia de que aqui neste pais não existe racismo, e que a condição de discriminado do negro no Brasil, é só um "problema social" permanece hipócritamente como argumento, e para esconder as culpas de uma sociedade escravagista.

E que "problema social" é para ser resolvido pelos Mendes da vida.

A argumentação baseada no "pensamento" do funesto Ali Kamel é o reconhecimento de não ter nenhum argumento que promova uma discussão pelo menos honesta.

O espirito que se estableceu com a escravidão, permanece nesta "bacia de almas".

Claudio Dode

Prestes disse...

Excelente o artigo.

Luís disse...

Eu defendo cotas para os que não são iguais, numa sociedade que se diz igualitária em termos de oprtunidade, mas que na prática sabemos o quanto pode ser brutalmente desigual.
Mas, mesmo não defendendo convictamente o sistema de cotas raciais, não argumento contra porque daí seria necessária uma coragem que não tenho, nesta sociedade na qual o lado mais pobre tem cor, ou uma cor predominante, tanto faz, gostem ou não os arautos do intelectualóide discurso pretensamente anti-rascista.

el barto disse...

só uma coisa: no brasil não existe elite, o que existe é uma rafuagem endinheirada, e muito da sem-vergonha, por sinal.

Carlos Eduardo da Maia disse...

A grande maioria, pelo visto, é a favor das cotas sociais. Por que então incentivar esse projeto complicado de cotas raciais??? Se existe acordo e convergência porque incentivar a divergência?

Anônimo disse...

Vocês não entenderam tudo.
O que está em pauta não é só privilégio. Não é só corrigir injustiças, porque não é só isso que nos amarra a vida.
Trata-se da aquisição de conhecimento por parte da sociedade brasileira para deixar de ser um país de terceiro mundo. Conhecimento é a base, tem também o projeto nacional coletivo.
Sem conhecimento somos a Líbia.
Não adianta fazer um critério justíssimo arruinando o papel da Universidade Pública como geradora do conhecimento.
O negócio é aproximar bons alunos de bons professores para fazer boa ciência e aprender as melhores técnicas de cada área.
Quem duvida, que entreviste os antigos donos da Data Control, pergunte a eles o que é ter uma turma misturando o office-boy com o filho da classe média que só estuda.
Metade da escola, são os alunos. A composição dos alunos é a base da boa escola.
As escolas privadas tem índice um pouco inferior do que as federais porque (a) têm pesquisa e não são escolas meramente profissionalizante e (b) é mais fácil os pesquisadores acharem bons bolsistas dentro

pati disse...

Concordo, as cotas deveriam ser para os oriundos de escolas particulares.

Mas esse é o mundo ao avesso!
Bem vindos!

Anônimo disse...

Francamente, acho até difícil entender por que tanto alvoroço em torno das cotas. Não se trata de alimentar a divergência, mas de resgatarmos, coletivamente,a dívida advinda de uma tremenda crueldade cometida no passado. Eu sou descendente de colonos alemães, que nunca tiveram escravos, até porque eram proibidos de tê-los, mas jamais me oporia a que eu e meus descendentes contribuamos para este resgate - pois somos parte da nação brasileira.
A nação alemã passou décadas num mea culpa, purgando suas responsabilidades coletivas por todo o mal produzido pelo nazismo. Fizeram isso de forma muito consciente, expuseram-se, puniram-se, educaram-se, debateram abertamente, investiram dinheiro e energia coletiva nisso.Fizeram isso por entender que sem isso não teriam como avançar - não adianta querer fazer de conta que o passado não existiu.
E nós, os brasileiros? Fizemos o quê, exatamente, para nos redimir do nosso passado vergonhoso, em relação não só aos negros como aos índios? Nem um mísero sisteminha de cotas podemos suportar?
Francamente!..

Carlos Eduardo da Maia disse...

Anônimo das 14:48, não se constroi o futuro olhando firme e fixo para os ressentimentos do passado. O Brasil não tem que divergir, mas convergir. É óbvio que essa é uma tarefa impossível, porque o consenso total não existe. Mas é nossa obrigação superar esse complicado passado, mas olhando para a frente.

Pati disse...

AS bolsas do prouni também são sociais, e ainda assim não há quase negros na Faculdade.
E sim, todos têm que ter acesso, brancos, negros, amarelos...ora... os homo sapiens
Eles não se interessam?

Lastimável se alguém pensa assim...e pensam... estamos no séc 21..e ainda há pessoas dentro de suas bolhas cahndo que só não conegue quem não se preocupa!

Ah, o Capitalismo...todos têm a oportunidade !
Balela!

Estou na faculdade, estudo na PUC, mas meu esforço foi grande,sei do meu esforço...mas já nasci destinada a isso...me esforcei, claro, mas esse mundo capitalista conspirou ao meu favor.

Podia muito bem achar que isso é igual para todos...mas não é...
E Meus Deus, que todos entrassem na Faculdade...o que isso me traria de mal?


É só sair da bolha e abrir os olhos, olhe pra o lado, não dói!


Ah, o povo sabendo...eis o Grande medo "dazelite" !

Anônimo disse...

Dinheiro é que não falta.

Sem-terra: no RS, indenização milionária deixa Lula irritado

Em bate-papo com ministros e um governador, o presidente Lula reclamou da elevada indenização, no valor de cerca de R$ 160 milhões, que foi paga pelo Incra na desapropriação de áreas no Rio Grande do Sul para assentar sem-terras. Lula se disse inconformado: “Isso daria para hospedar eles todos em hotel cinco estrelas pelo resto da vida!”

severo disse...

Anônimo das 15:17h, vc anda lendo o Claudio Humberto, não?
De fato, o Claudio Humberto o mesmo que foi porta-voz do Collor, argggghhhh!!!, é uma fonte confiável mesmo, aquele lixo humano. E o cara diz que a terra fica em São Leopoldo, aqui na região Metropolitana de POA.
Os carinhas podem ser de direita, no problem, but vamos cuidar de ler fontes saudáveis e não essa cloaca azeda.

claudia cardoso disse...

O mais sensacional do artigo não é apenas a sua defesa ao sistema de cotas, mas o tipo de ensino que se tem na universidade, que privilegia conteúdos de "prestígio", a partir de uma lógica [subjetividade] elitista. Assim sendo, as escolas de ensino médio ficam atreladas ao "conteudismo" e a formação cidadã do jovem estudante [um ser pensante, criativo, elaborador-solucionador de problemas, que garantiria um profissional com P maiúsculo] vai pras cucuias!
Num país de desigualdades grotescas como o nosso, as ações afirmativas são importantíssimas! Não existe competição entre desiguais, o que existe é privilégio. No caso do ensino superior, chama-se vestibular: quem estudou na melhor escola pública ou privada, quem fez cursinho, quem estudou em escola privada de idiomas e por aí afora.
Mais: assim como a pobreza, a educação universitária tem cor, neste caso, branca. Esse desequilíbrio tem que acabar, a primeira, via extinção; a segunda, pela democratização do acesso.

==========

Existe uma pirâmide social na educação: ensino fundamental para todos, ensino médio para alguns e ensino superior para poucos. Basta ver o nº de matrículas. Se não se garante o ensino básico [fundamental e médio] para todos e todas, como ter democracia no acesso à universidade? Aí está o nó górdio da questão: o capitalismo precisa afunilar o acesso, não cabem todas as pessoas no sistema. Então, obstaculizam-se as oportunidades e criam-se critérios para se alcançar o nível superior. Por isso a choradeira, a gritaria, quando se vislumbra a possibilidade de uma pessoa favelada de cor negra, ou um índio, que conseguiu passar pelo funil do ensino básico, cursar as mesmas classes que um[a] "privilegiado[a]" do capitalismo.

Em tempo: fiz o 1º grau em escola pública estadual, cursei magistério em escola pública estadual [peguei greve de professores], NUNCA fiz cursinho, não falo, nem leio inglês e passei duas vezes na UFRGS [a segunda vez, em décimo lugar, depois de 11 anos afastada dos livros]. Sou uma privilegiada e quero que todas as pessoas tenham o mesmo direito que eu tive em estudar nessa universidade pública.

O artigo do Lelê vem em boa hora!

Anônimo disse...

Boa ciência vem de reunir bons alunos com bons professores em um ambiente favorável.
Pagar a dívida social de 500 anos não pode ser as custas de nos atrasar nos próximos 100.
O sistema de cotas ponderadas da UNB até hoje é o mais científico e bem aplicado que existe.
Tudo é uma questão de modo.
O modo se descobre lendo e estudando o assunto e não atirando palpites feito dardo em uma disputa de pontaria no happy-hour.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Essa história de que o capitalismo precisa afunilar o acesso é absurda. Não interessa a ninguém impedir que os pobres deste país tenham acesso a uma melhor e mais digna qualidade de vida. Muito pelo contrário, o interesse de todos deve ser o da mais ampla e democrática inclusão social. Esse é o verdadeiro interesse convergente. O sistema de cotas por raça (por que alimentar isso?) é prejudicial sabem a quem? Aos cotistas sociais.

Anônimo disse...

Porque tu não te mata Maia? Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?Porque tu não te mata Maia?

Tu és um infeliz!

panoramix disse...

Mudando de saco pra mala "Madoff in Brazil":
Brasil está entre os mais expostos aos fundos de Madoff:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081218/not_imp295585,0.php

Pati disse...

Querer que todos tenha acesso?
Capitalismo utópico!

Bom, Todos devem já nascer tendo todas as possibilidades, mas isso, lamantavelmente, não é possível.

Realmente, pessoas precisando de cotas pra algo que é seu de direito, é deprimente.
Mas ,ainda bem que há cotas, é um modo de remediar esse direitos.

Anônimo disse...

O sistema de cotas previsto no Projeto de Lei que deu origem à matéria da famigerada Rede Grôbo consagra, até onde sei, um sistema de cotas idêntico àquele que vigora na grande maioria das Universidades Federais brasileiras (inclusive na UFRGS). Esse sistema pode não ser o ideal, mas é inegavelmente muito bom (no mínimo). Ele prevê (e isto é algo que geralmente as pessoas NÃO SABEM, embora opinem como se tivessem amplo conhecimento de causa) cotas "raciais" (o correto seria étnicas, como já apontou alguém aí acima) DENTRO das cotas SOCIAIS. No meu modestíssimo entendimento, este deveria ser o PONTO DE PARTIDA para a discussão a respeito desse sistema. É um sistema de COTAS SOCIAIS COM COTAS RACIAIS (ou ÉTNICAS). Não duvido que se possa chegar a um sistema melhor. Estranho, porém, que algumas pessoas que se dizem favoráveis às cotas SOCIAIS critiquem com tanta veemência este modelo que se implantou (sim, ele já se implantou, e com sucesso) no Brasil. Parece que muitas dessas pessoas prefeririam que tudo tivesse ficado como estava -- ou seja, que a Universidade no Brasil continuasse servindo aos ricos e brancos (nos cursos disputados, que permitem ascensão social; nos outros os pobres podem entrar, de preferência em curso noturno, para poderem trabalhar de dia). Quem sabe vamos APOIAR este sistema, que está começando a corrigir problemas históricos de igualdade de oportunidades em nosso país, e, AO MESMO TEMPO, trabalhamos por um sistema AINDA MELHOR do que este. Para terminar, só mais um comentário, para responder a um comentário que acabei de ler aqui: nesta matéria não adianta só "estudar o tema"; é NECESSÁRIO debater, pois só através do debate que se encontrará o melhor modelo ENTRE OS POSSÍVEIS. Em matérias como esta não há "VERDADE" a ser "descoberta". Há a busca do melhor modelo a partir do DIÁLOGO.

Anônimo disse...

Mas barbaridade...pelo amor de deus...ande nas vilas, nas comunidades pobres, conheçam o povoão...resgate historico...que piada é esta???? Tche!!!! feil e demais...sou loiro, tenho olhos azuis, descendente de alemães e dai...estudei ate a 4 serie em serie seriada, da sexta a oitava era a mesma professora que dava todas as disciplinas,,,tche isto foi na decada de 90, foi ontem!!!! so consegui fazer o segundo grau por que tinha uma escola agricola com internato para dar alojamento e comida, depois a duras penas passei no vestibular e so estudei por que tinha casa do estudante...tche, formei a poucos anos, nos moravamos na casa e passavamos o final de semana com banana e pão,quantos centavos ajuntavamos para tirar um xeroz e fazer rodizio para estudar, não venham falr de coisas que não sabem ou não vivenciaram e na casa do estudante tinha loiros e negros.... vamos deixar de ser hipocritas, o problema não é a cor e sim a condição financeira, que as cotas sejam pelo poder aquisitivo e de origem da pessoa e não com esta coisa racista de cor.... Lobuno Malacara

Anônimo disse...

Lobuno Malacara ... Essa foi boa! Essa história está boa pra aparecer na Rede Grôbo, ou na Zero Hora ... Eles vão publicar e decretar que é tudo verdade ... e provado! Acho que seria mais útil tu apresentares argumentos, e não historinhas "novela das oito", tentando fazer os outros de bobos. Quem conhece a periferia de Porto Alegre sabe que ela é maciçamente negra e mestiça! E nunca esqueçamos que os italianos e alemães ganharam terras do Império quando chegaram aqui ... Trabalharam muito, e tal, mas as terrinhas foram ganhas. E os negros, que há pouco mais de um século foram "libertados" sem nada, e cujos ancestrais vieram transportados como coisas (porque eram considerados coisas naquele tempo)em navios negreiros? Vamos, como sociedade, encarar a dívida que temos com o passado ou assumir esse discurso ultra-individualista do "self made man" e apagar o passado?

marcelo disse...

Um caso equivalente é o da Alemanha, que paga reparacoes aos judeus. Pq aqueles que sao contra às cotas nao questionam isso tb?

Milton Ribeiro disse...

Assinaria o artigo e seus questionamentos. Muito bom.

Anônimo disse...

Parei de ler no "...elite branca".

Qualquer discussão sensata vai pelo ralo quando se começa apelando para o maniqueismo mais rasteiro e infantil - que, aliás, é o que tira o crédito de 90% do pensamento de esquerda.

Fisico humanista disse...

(Destinado especialmente ao Claudio Dode, sobre o comentario das 11:53 em 18/12.)

Fiz toda minha formacao no ensino publico, sou filho de pai caminhoneiro e mae dona-de-casa. E SOU BRANCO, LOIRO, DE OLHOS VERDES. No meu caso, um problema e nao uma vantagem, pois muita gente tem dificuldade em aceitar que os outros sejam diferentes. No colegio onde fiz o primeiro grau, era taxado de "alemao batata".

Claudio, sabe por que passei no vestibular em fisica e tenho uma carreira de 20 anos nesta area tao abstrata? Porque aprecio a beleza e gosto de estudar, duas coisas que a imensa maioria detesta. Naturalmente, tive sorte de ter condicoes de poder me educar, por conta propria mas tambem por ter tido alguns notaveis professores, verdadeiros herois num contexto tao hostil como o deste planeta.

Para quem nao sabe, a matematica e' a ciencia da beleza. A beleza esta' em outros lugares tambem, na musica, na literatura, no cinema etc. Infelizmente os pobres de espirito de todas as cores e matizes sociais dizem por ai' que fisica e matematica sao decoreba. Claro, pois a grande maioria dos professores e' ruim e opta pelo caminho mais facil, que e' o de "treinar" o aluno e nao o de tentar fazer com que este tenha um entendimento critico. A impressao que fica e' que alguns dizem bobagem de proposito, com motivos oportunistas e hipocritas, e outros porque nao sabem do que estao falando.

Excelentes os comentarios iniciais. Nao tenho quase nada a acrescentar sobre eles. Apenas comento que o artigo do blogueiro e' duplamente preconceituoso, por incentivar o absurdo conceito de racas E TAMBEM a ideia de que fisica e matematica so' podem ser aprendidas decorando e que nao servem para nada na vida.

Para quem quiser comecar a entender fisica e matematica, sem decoreba, um bom inicio e' ler a colecao do heroi brasileiro Romulo Argentiere. E' facil de achar, basta colocar no Google. So' que ai' sera' necessario ter tempo (o que nem todos tem a chance de ter) E TAMBEM NAO TER PREGUICA MENTAL (isto a grande maioria tem, e como, bah!!!).

Anônimo disse...

Mulher NÂO feminista !

Sou a favor das cotas sociais, mas radicalmente contra as cotas para negros. Sendo estas apenas um item das cotas sociais, então que se retive este item.

Passei a ser contra depois de assistir uma reportagem sobre uma associação nacional de negros. Os representantes estavam reunidos em São Paulo com o objetivo de encontrar "armas" para combater esta lei. Argumento de um dos representantes maiores quando entrevistado: "a cota para negros é a própria demonstração de racismo. Se todos nos considerassem iguais, não estariam discutindo sobre nós. Não precisamos de privilégios para sermos iguais a qualquer pessoa. O que todos precisam é de iguais condições. Precisamos de iguais condições na base da pirâmide, e não no topo dela, pois sem base não pode existir topo."

Logo concordei com esta pessoa e passei a ser contra, mas a minha opinião ficou mais reforçada quando pensei: "Eu, como mulher bem situada profissionalmente, nunca tendo obtido um único privilégio para isso, como me sentiria se tivesse entrado na faculdade através de cotas para mulheres, casoexistisse?" Seria muito humilhante carregar esta tarja. Então, por mais esse motivo, sou contra.

Além disso, falar em corrigir erros, referindo atrocidades dos antepassados, me parece que é uma maneira mais de aliviar a consciência do que de justiça, pois os mortos não vivem mais para se beneficiar de qualquer coisa. Aos vivos se deve respeito individual, e este não está no passado. Não se pode corrigir erros cometidos, apenas evitar que eles venham a se repetir, e para isso precisamos de formação básica integral, para todos e em iguais condições. Falando nisso, precisamos preparar para a vida, não apenas para o vestibular.

Para finalizar, gostei muito do comentário do físico. Concordo com a sua opinião em relação os preconceitos do artigo do blogueiro, assim como daqueles em relação a beleza da física e da matemática, e da importância delas nas mais diversas áreas.

Anônimo disse...

Ao contrário, mulher não-feminista: reconhecer os erros, sejam individuais ou coletivos, não basta. É preciso empenhar-se pela reparação. Se milhões de pessoas sairam atrás demais, por as termos reduzido à condição de coisas, seus descendentes, que hoje estão entre nós, também têm por demais prejudicadas
suas condições de acesso à igualdade social. Acredito que o sistema de cotas deveria ser progressivamente desativado a partir do momento em que conseguirmos um nivelamento mínimo. Aí, sim, seria um erro persistir em fixar-se no passado.

Amor próprio e capacidade de colocar-se no mundo são alvos difíceis para qualquer um. E sempre haverá quem se destaque mais por ter disposição para ralar e aprender. Exatamente por isso, por uma questão de justiça, temos, como nação, o dever de ajudar a abrir o caminho dos que tiveram o seu caminho cortado por nosso racismo e nossa ganância - sim, porque os escravos foram aqueles que construíram a riqueza e o acesso à educação de quem os escravizou.

Como já disseram tantas boas cabeças (aquelas capazes de entender a música não só da matemática como de tudo o que há no universo):
onde não há justiça não há paz.

Rita

Anônimo disse...

Meu Caro Fisico Humanista:

Quando eu falo dos "privileegiados", não estou falando apenas dos abastados que esfolaram este país desde sempre, infelizmente. Estou falando daqueles qu,e neste pais, tem o privilégio de estudar e chegar a um curso superior. Mais uma vez infelizmente, porque só o ato de cursar um curso superior, neste pais injusto, já é um privilégio.

Não acredito que a diferrença que achas dificil que "os outros aceitem" seja tão singela assim como colocas. Um caminhão "toco!" , por exemplo, não custa menos do que cem mil dolares; assim como um "cavalo" e "carreta" não custam menos que duzentos mil dolares. E isto não é para qualquer brasileiro, meu amigo.

Sabe quando é que um negão daqueles que foram atirados nos morros e favelas deste país, por terem sido escravizados, vão ter crédito para ter um caminhão? Nunca.


É bom que saibas que sairam da escravidão, sem seguro-desemprego, sem seguro-saude, ou melhor, sem porra nehuma. Foram largados ao Deus-dará.

Lámentavelmente o que você chama "tive condições de estudar", num pais injusto como o nosso, não consigo ter outra denominação além de privilégio.

Se não sabe sou um admirador da matemática, e concordo contigo, porque tive excelentes professores, e na escola pública também. Agora cursar uma universidade são outras conversas.
Até passa-me a ideiaa da cinderela... Se for o sapatinho for do teu numero...

Com todo o reconhecimento e mérito pelo teu êxito (ou sucesso???) continuo achando que este não é um negócio para qualquer um, muito menos se tiver a cor negra na pele.

Nascer nos jardins tem 80 vezes mais chances de entrar na univesidade, que por exemplo o "negão" Biruca, meu amigo de infancia.

Um abraço e boa sorte, se é que precisas dela...

Claudio Dode

mário casado disse...

Esse Físico Humanista é um charlatão. Quem lida com a Ciência, seja física ou humanas, não pode trazer argumentos pessoais, de família. Não são argumentos científicos. É apenas um depoimento pessoal, ao qual ninguém pode checar ou validar. Esse empirismo exacerbado não serve nem de hipótese, meu caro Físico Genérico. Acho muito complexa essa discussão sobre cotas, mas quando vejo que o senador porquinho da ïndia aquele de Goiás filiado ao DEM é contra as cotas, eu logo já sou a favor. O dia que eu marchar com essa gentalha do DEM/Pefelê/Tucanato/PP/PTB podem me internar que eu fiquei lelé da cuca.
O Humanista aí deve ser amiguinho do senador Demósthenes Torres, e essa bisca ainda vem falar em Ciência... me poupe, senhor Genérico!

Jorge Araujo disse...

É uma discussão importante.
Eu pessoalmente entendo que a universidade pública deve investir em conhecimento e ciência, angariando as melhores cabeças.
Se não é isso que se faz agora é isso que deve ser feito.
O oferecimento de bolsas de estudo ou financiamento me parecem boas alternativas para que os menos favorecidos possam estudar.
No entanto não creio que o ensino superior seja essencial, principalmente quando falta mão-de-obra especializada em atividades técnicas.
O que se precisa é remunerar melhor tais atividades.

Anônimo disse...

Claudio Dode,
Voce tem certeza que o Negão que precisou de uma cota para "passar" porque não aprendeu nada vai virar engenheiro sabido!!!??? No minimo hilario.

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