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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Empresas subvencionadas pelo Estado são vendidas à Monsanto


Soberania tecnológica às avessas

A compra das empresas brasileiras Alellyx e CanaVialis pela norte-americana Monsanto, anunciada no início de novembro, arrancou críticas do ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende, e sugere uma reflexão sobre o sentido do financiamento público da pesquisa em ciência e tecnologia (C&T) no Brasil. Certamente, o ministro teria permanecido calado se se tratasse de um negócio comum. Em declaração ao jornal "O Estado de São Paulo", Resende afirmou que "a venda (da Alellyx e CanaVialis) para qualquer grupo estrangeiro é decepcionante. Como é que eles foram vender duas jóias como essas, tão importantes para o País?".

Ambas as empresas pertenciam à Votorantim Novos Negócios, fundo de capital de risco do grupo Votorantim, que as criou e financiava desde 2002, e têm a sua origem associada à pesquisa pública e a forte subvenção por parte do Estado na forma de investimento a fundo perdido, por se tratar de empresas brasileiras voltadas para pesquisa de interesse estratégico nacional. Segundo Rezende, nos últimos três anos a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), do Ministério da Ciência e Tecnologia, havia aprovado a destinação de R$ 49,4 milhões para pesquisas nas duas empresas, dos quais R$ 6,4 milhões já foram desembolsados. "São duas empresas que receberam investimento do governo e, justo quando esses investimentos amadureciam, foram vendidas por um preço bastante módico", afirmou – cerca de US$ 290 milhões, segundo informa o jornal.

Como observou o físico Joelmo Oliveira, diretor de Políticas de C&T do Sindicato dos Pesquisadores de São Paulo (SinTPq) e colaborador do Grupo de Análise de Políticas de Inovação (GAPI - UNICAMP), Alellyx e CAnaVialis eram vistas até então como ícones de uma bem-sucedida política de Estado que visa a incentivar a pesquisa em C&T dentro das empresas brasileiras e fomentar o espírito empreendedor entre os cientistas da Academia. "É em momentos como esse que vem à tona a importância das unidades públicas de pesquisa; são elas que de fato garantem a apropriação nacional do conhecimento tecnológico desenvolvido a partir de investimentos públicos", escreveu Oliveira.

Com sede em Campinas, ambas as empresas foram criadas por pesquisadores acadêmicos que participaram dos primeiros grandes projetos de genômica no País, financiados em sua totalidade por recursos públicos. Sua história, na verdade, é indissociável dos resultados de investimentos públicos em pesquisa, e tem origem na esteira do primeiro seqüenciamento genético de um organismo vivo no Brasil, em 1999, anunciado como o "maior feito científico brasileiro dos últimos tempos". Tratava-se da finalização do mapeamento genético da Xylella fastidiosa, a bactéria causadora da praga conhecida como "amarelinho", que ataca os laranjais paulistas. O projeto Genoma-Xylella custou aos cofres públicos US$ 13 milhões, parte financiados pelo governo Federal, parte pelo governo paulista, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

O fato é que cada país confere à sua política de C&T grau de importância correspondente ao que atribui à utilização do conhecimento científico para o desenvolvimento, autonomia e defesa nacionais. Em princípio, não existe diferença entre o Brasil e os EUA no que se refere ao interesse de um físico pela estrutura nuclear, ou de um geneticista pelo genoma de um vegetal. Mas, quando se trata de saber quais pesquisas físicas ou genéticas podem tornar-se economicamente úteis em cada um dos países, a experiência do outro país é relativamente de pouca relevância. Cabe à política de C&T, orientada pela estratégia e soberania nacionais, fazer a escolha adequada das áreas de pesquisa de interesse, com vistas a atingir os objetivos econômicos e sociais desejados pela nação.

Numa conjuntura histórica em que o velho mundo bipolar se desfez, assiste-se hoje ao surgimento de nova espécie de divisão internacional do trabalho, com a emergência da polarização tecnológica entre países dotados de alta tecnologia e países consumidores forçosamente dependentes. A posse de um monopólio tecnológico permite ao país dinâmico extrair renda tecnológica dos países dependentes, daí resultando perdas sociais, já que estes são (e, presumivelmente, permanecerão) importadores líquidos de tecnologia.

A desnacionalização, como ocorreu no caso da Alellyx e da CanaVialis, tende ainda a acarretar, num contexto mais amplo, a transferência para o Exterior dos centros de decisão da atividade econômica, do investimento, da alocação de recursos em geral e da P&D em especial – e, na sua extensão, dos centros de decisão política. Essa transferência afeta a capacidade do Estado de cumprir com suas funções referentes ao desenvolvimento, à defesa e à soberania nacionais e amplia, portanto, o hiato entre o país periférico e os países avançados, numa espiral perversa e recorrente. Há quem acredite que, em princípio, as forças de mercado poderiam também cumprir com essas funções. Porém, nada indica em parte alguma do mundo que isso esteja ocorrendo ou que venha a ocorrer.

O Estado brasileiro carece de uma definição do que se pretende com o financiamento público de pesquisa em C&T.

Excerto de artigo de Rui Falcão, deputado estadual PT/SP.

5 comentários:

gustavo disse...

grande Pablito Picasso, esse foi "O cara" na arte do século XX.
Bela fotografia.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Eu não acredito que as forças do mercado são suficientes para cumprir essa fundamental função de pesquisar. Cabe sim ao poder público fomentar e incentivar as pesquisas, sobretudo nas universidades. Mas como andam as pesquisas nas universidades???? Com algumas exceções, um caos generalizado.

Anônimo disse...

Faltou mencionar que a Monsanto é uma das cinco ou seis transnacionais que dominam no mundo inteiro os bancos genéticos. Estas empresas, que antes focavam sua lucratividade na venda de venenos agrícolas, agora partem com tudo para a transgenia. A produção primária caminha para tornar-se totalmente dependente destas empresas que controlam o uso de sementes. Nessas horas não tem como não lembrar do saudoso agrônomo Lutzemberger. Em seus livros ele sempre ressaltava isso. E também que estas mesmas empresas controlam, a par com a produção de venenos, a produção de medicamentos e remédios.
Muita gente cega ainda pensa que o nosso maior problema no campo é o MST.

Maurício Cardoso

Anônimo disse...

O problema no campo Mauricio, é a falta de produtividade do latifundio preguiçoso, que vive de não pagar dividas.

Agora a dominação do latifundio preguiçoso pelas multinacionais, onde sobra dinheiro e falta vergonha, é obra feita com a colaboração desta nossa classe média que lê PRBS, Vejas e caterva.

Tinham é que devolver o dinheiro que o estado botou na mão da vagabundagem cientiifica nacional.

Claudio Dode

Anônimo disse...

Taí um movimento interessante de se fazer, Dode: que ao menos a votarantim devolva aos cofres públicos o dinheiro que chupou pra cevar seu porquinho, esse que depois de gordo venderam pra monsanto.essa corrupção escrachada é intolerável. M\aurício

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