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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sábado, 7 de junho de 2008


O anêmico arranjo-Yeda agora sangra muito

Lênin numa ocasião disse que, em determinadas conjunturas de crise estrutural, há dias que valem por meses, meses que valem por anos e anos que valem por séculos. A conjugação de fatores e fenômenos da sociedade de classes em crise às vezes opera mudanças que de outra forma levariam muito mais tempo para se manifestarem no conflito social. Quem diz isso é o maior analista de conjunturas que a história já conheceu, junto com Marx. Só que Lênin, valendo-se dessa sua extraordinária capacidade de sentir os rumos da história no tempo, soube cortar o fluxo convencional dos fatos e transformou-os segundo as convicções de classe daqueles que aspiravam ser protagonistas de seus próprios destinos.

O Rio Grande do Sul não está numa conjuntura pré-insurrecional ou mesmo revolucionária, longe disto, mas reúne elementos comuns àquelas situações que se pode chamar de esquina do tempo.

Estamos, cá na província, diante de uma crise estrutural clássica, as elites locais sentindo-se ameaçadas por mudanças sistêmicas globais as quais não conseguem sequer acompanhar, que dirá compartilhar como sócios adjuntos e menores, e face a uma crise de legitimidade terminal lançam suas últimas cartadas no assalto ao Estado e sua capacidade de financiamento à aventuras deletérias e criminosas.

O governo Yeda foi um arranjo de última hora para barrar o projeto social-democrata do petismo local, mas que era intolerado pelas velhas classes maragatas e ascensionais de ocasião do lúmpen-mercado. O arranjo-Yeda já nasce, pois, com um capital político muito anêmico e jamais logrou êxito em torná-lo minimamente mais fortalecido, ao contrário, constitui-se num governo onde a crise política é o pão mofado de cada dia.

Não há projetos, não há políticas públicas, só prosperam as crises, a insolvência fiscal e os agentes oportunistas que procuram valer-se da fragilidade do Estado e seus dirigentes.

Assim chegamos até o 6 de junho, onde a gravação de um diálogo entre dois agentes públicos fazem sangrar um governo que já era anêmico. O centro de governo se esvai no consumo dos últimos centavos de seu já precário capital político. Com o passar das horas e dos dias, esse capital começa a ser negativo e os débitos éticos estarão sendo cobrados com grande barulho e agitação.

Parece que não é da disposição da governadora tucana renunciar. Quer pagar para ver, mesmo que as forças lhe faleçam. Assim, sujeita-se involuntariamente a duas situações vexatórias: a) intervenção federal (pouco provável, mas não descartável); b) impedimento constitucional por decisão de 2/3 da Assembléia Legislativa (quem vai querer sangrar junto com Yeda Crusius?).

Desde 6 de junho, vivemos horas que valem por dias, dias que valerão por meses, meses de grande agitação. E, fazemos votos, também com grandes mobilizações populares defronte o Palácio Piratini e as sedes da mídia oligárquica local (que sempre ajudou a sustentar a farsa do arranjo-Yeda).


28 comentários:

Fabrício disse...

Extraordinária análise, Feil.
Parabéns. Não há o que acrescer.

Anônimo disse...

Cristóvão, tomara que o povo do Rio Grande tome as rédeas de sua história.
Parabéns pela análise
abraços
Carmelita

Carlos Eduardo da Maia disse...

Estamos sim na esquina do tempo e isso é muito bom. Está na hora do RS pensar que tipo de estrutura de Estado deve seguir. E a hora é essa. É hora de enfrentar a crise de frente, olhando na cara das nossas instituições. A história é sempre a mesma e se repete. Os partidos (qualquer partido e de qualquer ideologia) tomam conta das Estatais. Se divide, se compartilha o poder do Estado entre os amiguinhos, os companheiros, os militantes, os apadrinhados. Não vamos generalizar, muita gente trabalha honestamente, mas sempre existe aqueles que fazem a farra. O governo do PT fez o mesmo em Brasília, resultado 40 indiciados pelo STF. O problema do Estado brasileiro está nas estatais. É ali que a farra consome. Dizem que é besteira desestatizar porque as empresas privadas também podem ser desonestas. Tudo bem, SÃO DESONESTA COM O DINHEIRO DELAS. PROBLEMA DELAS. A questão que aqui se debate é exatamente essa: NÃO SE PODE SER DESONESTO COM DINHEIRO PÚBLICO. E dinheiro de estatal é dinheiro público. Querem acabar com a corrupção no Brasil? Diminuam o número de estatais. Entreguem o Banrisul ao Banco do Brasil, à CEF, privatizem, façam licitação. O mesmo com a CEEE. Não há motivo nenhum para um Estado federado ficar administrando companhia de energia elétrica. Se Britto não tivesse feito a fundamental e necessária desestatização da CRT, o Busatto teria dito ontem: O Detran é do PP, O Banrisul do PMDB e a CRT é do PSDB... É isso que tem que acabar e estamos sim diante da esquina do tempo.

Jorge Vieira disse...

Fico me perguntando o que essa figura fez quando foi Secretário da Fazenda. Lembram que em 98 ele fez a campanha de helicóptero?

Anônimo disse...

Em Brasília foi diferente, dinheiro do Daniel Dantas, privado, aqui é grana pública, com o Chefe da Civil tentando comprar o Vice-governador. Como diria o esclerosado Paulo Santana - é inacreditável.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Em Brasília, o PT deu ao PTB aos correios, tal como fez Yeda com o Detran para o PP. Além disso, a fonte do VAlerioduto é dinheiro de estatal. Marcos Valério 'prestava serviços' para diversas estatais (BB, Correios etc.) e fundos de pensão das estatais e emprestava dinheiro para o PT (o contrato de financiamento a Veja mostrou para o Brasil inteiro). É dinheiro público utilizado para financiamento de campanha ( O PT do RS recebeu um milhão) e para compra de votos dos partidos aliados. Tanto isso é verdade, que o STF denunciou 40 e o arquiteto de tudo isso é Zé Dirceu.

panoramix disse...

Tenho certeza que este mesmo papo foi ensaiado com a governadora! O fato de procurar Feijó oferecendo a cabeça de Fernando Lemos numa bandeja não pode ser inciciativa única de um secretário. Tem gente graúda por trás! Poque a citação do nebuloso DAER não me surpreendeu?

edu disse...

Tb acredito q ela nao renuncia, Napoleao sacrificou um exército de 400.000 soldados seguindo uma possibilidade de vencer os russos. Deve ser retirada a força, o quanto antes, 150 milhoes é demais.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Edu, ela não vai renunciar e o Feijó não vai assumir. E a oposição pode até tentar o impeachment, mas acho muito difícil - até porque não existe ainda uma prova forte, robusta e incoteste de que Yeda esteja envolvida. Conseguir 2/3 de votos na assembléia para o impeachment é muito difícil, até mesmo porque isso vai beneficiar Feijó que já tem inimigos no PP, PMDB, PSDB e PPS. Está surgindo no RS uma velada aliança DEM e PT, como já ocorre em Canoas.

Klint disse...

Lendo o excelente texto do Feil, uma análise lúcida, como sempre, dos fatos que estão abalando esta Província e os comentários do Maia, logo me vem à lembrança aquela frase que diz "jogar pérolas oas porcos".

Anônimo disse...

Para casa desabar, na última viga que resta, só falta descobrir quem é o barbicha das gravações, será o professor de econometria?

Anônimo disse...

Para o Maia ler com atenção aseguinte nota do Globo:

Em O Globo de hoje

Ex-diretora da Anac procurou primeiro oposição

Gerson Camarotti

BRASÍLIA. Antes de acusar publicamente que foi pressionada pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para aprovar a venda da VarigLog, Denise Abreu, ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), procurou integrantes da oposição para fazer a denúncia. Há cerca de dois meses, ela se encontrou com o ex-presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), em Brasília. A informação foi confirmada ao GLOBO pelo próprio tucano, que preferiu não revelar o local do encontro — a residência de um amigo.

Pelo relato do senador, Denise disse que estava sofrendo ameaças e temia pela própria vida, e chegou a afirma que a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, preparara um dossiê para tentar silenciá-la.

Denise disse ontem ao GLOBO que não negaria nem confirmaria declaração de político algum, pois não quer polemizar.

— Tratei de um assunto político e jurídico. Não vou polemizar essa matéria. Não sou política e não almejo cargo político — afirmou. — E jamais declarei a autoria do dossiê, até porque estou esperando a investigação da polícia.

Anônimo disse...

Então tá né!

Se o Olívio não pode assumir vou continuar com o bolsa-familha.
Estava louco para ser secretário da caipirinha.

Ex-PuTamerda

Anônimo disse...

É melhor ser secretário da caipirinha do que secretário do Detran!!!

E aí qual é teu preço Feijó!!!

Fala Liderança!!!

claudia cardoso disse...

Feil, excelente análise. Agora, mais difícil de ver a Yeda renunciar, será ver o povo na frente do Piratini ou de qquer empresa de comunicação. Há tempos que mobilizar a população é tarefa inglória. Falo de 200 pessoas para cima (olha como sou modesta).
No mais, acredito que a população não esteja muito interessada em perceber, que a crise vai além dos nomes que, agora, estão envolvidos. São poucas as pessoas que, como nós, percebem o que significa a Yeda. Pois se assim fosse, ela não teria vencido.

Anônimo disse...

Feil, excelente análise como sempre. No entanto, eu acho improvável q a nossa esquerda possa auferir dividendos políticos significativos d tudo isso. Simplesmente, pq nós ñ temos os meios - entenda-se mídia - para decodificar esse tipo d análise q fazes, para o restante da população.
Essas constatações ficarão restritas aos blogues, quanto muito. O escândalo todo ficará ligado a duas ou três pessoas e ñ aparecerá como um fenômeno conjuntural inerente à direita guasca.
É só uma questão d tempo, para q ela se reorganize e crie um novo bordão e o caminho estará novamente pavimentado para a retomada do poder no RS pelo campo conservador.
Nossa população só percebe q as coisas ñ vão muito bem, em períodos excepcionais como esse. Só q nós ñ temos à nossa disposição crises como essa todos os dias, q possam ser exploradas politicamente. Passado algum tempo, as coisas se acomodarão e nada indica q haverá qquer mudança significativa.
São bens visíveis os movimentos q a direita faz para se manter no poder e a aproximação com a Manuela é o movimento mais gritante. Nossa população saberá decodificar essa equação política?
(Manuela = comunista?) + (Berfran = neocomunaliberaloportunistaconservador) + (Marx) + (Britto) + (Discurso do Estado Regulador) + (Discurso do Estado Mínimo) = LAMBANÇA TOTAL
Acho que é muito para a bolinha dos nossos eleitores guascas.
O q nos resta é aguardar os próximos movimentos e torcer, para q a Yeda ñ seja simplesmente substituída por feijós da vida.
Se conseguirmos evitar isso, já será um tremendo ganho político. Até a próxima crise.

Eugênio

Anônimo disse...

Cristóvão:

Atualiza aí. Cabeças já rolaram. Martini e Busatto estão fora. O "núcleo duro" está desabando.

Milton Ribeiro disse...

A melhor análise que li hoje, sem dúvida.

Abraço e parabéns.

Anônimo disse...

Não era a social-democracia um fenomeno estritamente europeu?

Roberto disse...

O Busatto já dançou, agora falta a chefe da quadrilha.

Roberto

Anônimo disse...

E a Alstom dos tucanos de SP?

armando

Carlos Eduardo da Maia disse...

Concordo com a Cláudia. No máximo 200 pessoas vão para a rua. No máximo. Bom, talvez 210.

Carlos Eduardo da Maia disse...

O Feil pisou na bola com essa história de social democracia. Olívio social democrata? Quando, onde e por que? Olívio tem ódio do empresariado. E um social democrata não pode ter esse preconceito.

Anônimo disse...

O Maia quase a meia-noite ativo e operante. Quanta energia gasta, tu não tem um companheiro/companheira para gastar esse queijo que esta na tua cabeça?

Anônimo disse...

imagina quem vai querer uma coisa dessa ao lado sábado à noite, se é que tem alguém, esse alguém arrumou coisa melhor prá fazer. Maria Eduardo

Daniel disse...

O Feil está certo em tudo, inclusive em afirmar que o projeto do petismo local é social-democrata. E ele não disse que o Olívio é um social democrata. O Olívio é um sindicalista, é marxista e é O Cara.

E quanto ao "empresariado", bem, eles colocaram o Feijó!

Ana Lúcia disse...

[ironia]Será que neste momento está rodando uma capa da Veja com a foto da governadora estampada juntamente à manchete: "Ela sabia"?[/ironia]

Anônimo disse...

Na cabeça do facista do Maia (sei lá o que ele pensa ser social democracia) o Olivio representa a oposição aos interesses da RBS e desta oligarquia caduca que ele defende.

E aí está o equivoco ele combater a oligarquia arcaica não quer dizer que ele odeie o empresariado; a única coisa que precisa para ele aprove um empresário é que invista e respeite as leis e os interesses sociais e ambientais locais;

Claudio Dode

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