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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 15 de abril de 2008


Nosso fascínio pelo Tibete o converte numa entidade mítica sobre a qual projetamos nossos sonhos. Assim, quando as pessoas lamentam a perda do autêntico modo de vida tibetano, não estão, na verdade, preocupadas com os tibetanos reais.

O Tibete não é tudo isso

As notícias publicadas em toda a mídia nos impõem uma imagem determinada que é mais ou menos como segue. A República Popular da China, que, nos idos de 1949, ocupou ilegalmente o Tibete, durante décadas promoveu a destruição brutal e sistemática não apenas da religião tibetana, mas também da própria identidade dos tibetanos como povo livre. Os protestos recentes do povo tibetano contra a ocupação chinesa foram novamente sufocados com força policial e militar bruta.

Como a China está organizando os Jogos Olímpicos de 2008, é dever de todos nós que amamos a democracia e a liberdade pressionarmos a China para devolver aos tibetanos aquilo que ela lhes roubou; não se pode permitir que um país que possui um histórico tão deficiente em matéria de direitos humanos passe uma mão de cal sobre sua imagem com a ajuda do nobre espetáculo olímpico.

O que farão nossos governos? Vão ceder ao pragmatismo econômico, como de costume, ou encontrarão a força necessária para colocar nossos mais elevados valores éticos e políticos acima dos interesses econômicos de curto prazo?

Embora a atividade chinesa no Tibete sem dúvida tenha incluído muitos atos de destruição e terror assassino, existem muitos aspectos dela que destoam dessa imagem simplista de "mocinhos versus vilões".

Enumero, a seguir, nove pontos a serem mantidos em mente por qualquer pessoa que faça um julgamento sobre os fatos recentes no Tibete.

1) Não é fato que até 1949 o Tibete era um país independente, que então foi repentinamente ocupado pela China. A história das relações entre eles é longa e complexa, e em muitos momentos a China exerceu o papel de poder protetor. O próprio termo "dalai-lama" é testemunho dessa interação: reúne o "dalai" (oceano) mongol e o "bla-ma" tibetano.

2) Antes de 1949, o Tibete não era nenhum Xangri-Lá, mas um país dotado de feudalismo extremamente rígido, miséria (a expectativa média de vida pouco passava dos 30 anos), corrupção endêmica e guerras civis (sendo que a última, entre duas facções monásticas, ocorreu em 1948, quando o Exército Vermelho já batia às portas do país).

Por temer a insatisfação social e a desintegração, a elite governante proibia o desenvolvimento de qualquer tipo de indústria, de modo que cada pedaço de metal usado tinha que ser importado da Índia.

Mas isso não impedia a elite de enviar seus filhos para estudar em escolas britânicas na Índia e transferir seus ativos financeiros a bancos britânicos, também na Índia.

3) A Revolução Cultural que devastou os mosteiros tibetanos na década de 1960 não foi simplesmente "importada" dos chineses: na época da Revolução Cultural, menos de cem guardas vermelhos foram ao Tibete, de modo que as turbas de jovens que queimaram mosteiros foram compostas quase exclusivamente de tibetanos.

4) No início dos anos 1950, começou um longo, sistemático e substancial envolvimento da CIA na incitação de distúrbios anti-China no Tibete, de modo que o receio chinês de tentativas externas de desestabilizar o Tibete não era, de modo algum, "irracional".

5) Como demonstram as imagens veiculadas pela TV, o que está acontecendo agora nas regiões tibetanas já não é mais um protesto "espiritual" pacífico de monges (como o que aconteceu em Mianmar um ano atrás), mas (também) bandos de pessoas matando imigrantes chineses comuns e incendiando suas lojas. Logo, devemos avaliar os protestos tibetanos segundo os mesmos critérios com os quais julgamos outras manifestações violentas: se tibetanos podem atacar imigrantes chineses em seu próprio país, por que os palestinos não podem fazer o mesmo com colonos israelenses na Cisjordânia?

6) É fato que a China fez grandes investimentos no desenvolvimento econômico do Tibete e em sua infra-estrutura, educação, saúde etc. Para explicar em termos simples: apesar de toda a opressão inegável, nunca, em toda sua história, os tibetanos medianos desfrutaram de um padrão de vida comparável ao que têm hoje.

7) Nos últimos anos, a China vem mudando sua estratégia no Tibete: a religião despida de política hoje é tolerada e mesmo apoiada. Mais do que na pura e simples coação militar.

Em suma, o que escondem as imagens veiculadas pela mídia de soldados e policiais chineses brutais espalhando o terror entre monges budistas é a muito mais eficaz transformação socioeconômica em estilo americano: dentro de uma ou duas décadas, os tibetanos estarão reduzidos à situação dos indígenas americanos nos EUA.

Parece que os comunistas chineses finalmente entenderam a lição: de que vale o poder opressor de polícias secretas, campos e guardas vermelhos destruindo monumentos antigos, comparado ao poder do capitalismo sem freios, quando se trata de enfraquecer todas as relações sociais tradicionais?

8) Uma das principais razões por que tantas pessoas no Ocidente tomam parte nos protestos contra a China é de natureza ideológica: o budismo tibetano, habilmente propagado pelo dalai-lama, é um dos pontos de referência da espiritualidade hedonista "new age", que está rapidamente se convertendo na forma predominante de ideologia nos dias atuais.

Nosso fascínio pelo Tibete o converte numa entidade mítica sobre a qual projetamos nossos sonhos. Assim, quando as pessoas lamentam a perda do autêntico modo de vida tibetano, não estão, na verdade, preocupadas com os tibetanos reais.

O que querem dos tibetanos é que sejam autenticamente espirituais por nós, em lugar de nós mesmos o sermos, para continuarmos a jogar nosso desvairado jogo consumista.

O filósofo francês Gilles Deleuze [1925-75] escreveu: "Se você está preso no sonho de outro, está perdido". Os manifestantes que protestam contra a China estão certos quando contestam o lema olímpico de Pequim, "Um mundo, um sonho", propondo em lugar disso "um mundo, muitos sonhos".

Mas eles devem tomar consciência de que estão prendendo os tibetanos em seu próprio sonho, que é apenas um entre muitos outros.

9) Para concluir, a dimensão realmente nefasta do que vem acontecendo hoje na China está em outra parte. Diante da atual explosão do capitalismo na China, os analistas freqüentemente indagam quando vai se impor a democracia política, o acompanhamento político "natural" do capitalismo.

Essa questão com freqüência assume a forma de outra pergunta: até que ponto o desenvolvimento chinês teria sido mais rápido se fosse acompanhado de democracia política? Mas será que isso é verdade?

Numa entrevista há cerca de dois anos, [o sociólogo] Ralf Dahrendorf vinculou a crescente desconfiança com que a democracia vem sendo vista nos países pós-comunistas do Leste Europeu ao fato de que, após cada mudança revolucionária, a estrada que conduz à nova prosperidade passa por um "vale de lágrimas".

Ou seja, após o colapso do socialismo não se pode passar diretamente para a abundância de uma economia de mercado bem-sucedida: o sistema socialista limitado, porém real, de bem-estar e segurança precisou ser desmontado, e esses primeiros passos são necessariamente dolorosos.

O mesmo se aplica à Europa Ocidental, onde a passagem do Estado de Bem-Estar Social para a nova economia global envolve renúncias dolorosas, menos segurança e menos atendimento social garantido.

Para Dahrendorf, o problema é resumido pelo fato de que essa dolorosa passagem pelo "vale de lágrimas" dura mais tempo que o período médio entre eleições (democráticas), de modo que é grande a tentação de adiar as transformações difíceis, optando por ganhos eleitorais de curto prazo. Não surpreende que os países mais bem-sucedidos do Terceiro Mundo, em termos econômicos (Taiwan, Coréia do Sul, Chile), tenham adotado a democracia plena só após um período de governo autoritário.

Esse raciocínio não seria o melhor argumento em defesa do caminho chinês em direção ao capitalismo, em oposição à via seguida pela Rússia? Seguindo o caminho percorrido pelo Chile e a Coréia do Sul, os chineses usaram o poder irrestrito do Estado autoritário para controlar os custos sociais da passagem para o capitalismo, desse modo evitando o caos.

Em suma, uma combinação esdrúxula de capitalismo e governo comunista, longe de ser uma anomalia ridícula, mostrou ser uma bênção (nem sequer) disfarçada: a China se desenvolveu na velocidade em que o fez não apesar do governo comunista autoritário, mas devido a ele.

E se aqueles que se preocupam com a falta de democracia na China estiverem na realidade preocupados com o desenvolvimento acelerado da China, que faz dela a próxima superpotência global, ameaçando a primazia do Ocidente?

Há mesmo um outro paradoxo em ação aqui: e se a prometida segunda etapa democrática que vem após o vale de lágrimas autoritário nunca chegar?

É isso, possivelmente, que é tão perturbador na China de hoje: a idéia de que seu capitalismo autoritário talvez não seja apenas um resquício de nosso passado, a repetição do processo de acúmulo capitalista que se desenrolou na Europa entre os séculos 16 e 18, mas sim um sinal do futuro.

E se "a combinação agressiva entre o chicote asiático e o mercado acionário europeu" se mostrar economicamente mais eficiente que nosso capitalismo liberal? E se ela assinalar que a democracia, tal como a conhecemos, não é mais condição e motor do desenvolvimento econômico, e sim um obstáculo a ele?

O artigo é de Slavoj Zizek, filósofo esloveno. Foi publicado na Folha, domingo, dia 13/04/2008.

16 comentários:

Dhanapala disse...

Veja aqui um comentario às besteiras faladas por Zizek:

http://www.interney.net/blogs/imprensamarrom/2008/04/14/zizek_pro_china_e_pro_bush/

Anônimo disse...

Dhanapala, bom mesmo era o Tibet teocrático, antes de 49, onde havia escravidão dos pobres e a nobreza era protegida pelo dogma religioso organizado em castas intocáveis, não?
Que saudades, Dhanapala, que eu tenho do meu velho Tibet, onde os infelizes e não-eleitos conheciam o seu lugar e respeitavam as tradições e a religião budista tibetana, que saudades, meu gafanhoto Dhanapala!
Hoje não se pode nem depositar dinheiro nos bancos britânicos, meu gafanhoto! Que tristeza!

Sacripanta Domus

Carlos Eduardo da Maia disse...

Como disse o Edgar Morin ontem na palestra que assisti aqui em POA, a China é o sonho do grande capital, porque é um regime que não tem greves e preocupações sindicais.

Anônimo disse...

Fala sério, pequeno gafanhoto, vc. nos indica um site do Gravataí Merengue! PÔ!!!!
Esse pilantra oculto já foi desmascarado, trabalha no gabinete da trânsfuga vereadora Soninha (ex-PT e agora no PPS), linha auxiliar dos Kassabs e Alckmins da vida em Sum Paulo.
Soninha, budista tibetana nas horas vagas, ex-petista, kassabista, dissimulada, usa esses picaretas para infiltrar "opiniões isentas" na blogosfera.

Mas foi desmascarada junto com o seu ghost-writter Merengue.
Que lixo, bixo! Arrrgghhhh!!!!!
Sartei.....

Marronzinho Pastel

Anônimo disse...

Ótimo artigo, como sempre.

armando

Cleber disse...

Faz favor: falar em "gafanhoto" para comentar o comentário de dhanapala é de lascar!

Alguma outra idéia aí além de desqualificar de saída os que não concordam com o artigo?

Anônimo disse...

gafanhoto é um tratamento carinhoso dado pelos mestres budistas, os lamas, aos seus aprendizes, não tem nada de desqualificador nisso, cleber.


jorge

Anônimo disse...

não entendi bem a proposta do autor para o caso do tibete. devemos:

a) apoiar os tibetanos

b) apoiar a china

c) ou só ficar escrevendo artigos intermináveis a respeito sem chegar a conclusão nenhuma?

Cleber disse...

Jorge, sobre o budismo tibetano:
http://www.dharmanet.com.br/intro/vajrayana.php

e sobre o Pequeno Gafanhoto:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Kung_Fu_%28s%C3%A9rie%29

A chance de você encontrar algum Pequeno Gafanhoto no budismo tibetano é a mesma de encontrar algum budismo tibetano em Kung Fu...

abraço

Anônimo disse...

Alô, Anônimo das 15:02, não passa atestado de ANTA. Lê novamente o texto.

Faz isso várias vezes, até entender.

Entendeu? Ou quer que desenhe?

Japa

Anônimo disse...

boa, japa!

Anônimo disse...

"O que querem dos tibetanos é que sejam autenticamente espirituais por nós, em lugar de nós mesmos o sermos, para continuarmos a jogar nosso desvairado jogo consumista."

Genial essa aqui, ótima sacada!
Marcelo

mstepon disse...

Ao que parece , a luta afinal é contra o capitalismo , contra o capital e sua avalanche que nada poupa , gente , cultura, espírito...
Belo artigo "iconoclástico" ; lembrou-me as preocupações de " O MAL ESTAR NA CIVILIZAÇÃO " DE FREUD E GLAUBER ROCHA, o mestre iconoclasta que dizia em seu último filme "A idade da terra " :
ACORDA HUMANIDADE!!!

Giovani Montanher Madruga disse...

baita texto. certo que repassarei

Grillo Neanderthal disse...

Olá.
Realmente concordo que um regime feudalista não é desejável para país algum. Mas isto não é desculpa para qualquer outro país invadí-lo. Seria o mesmo que justificar a invasão do Iraque pelos EUA por causa de Saddam Hussein.

Questiono esse "papel protetor" citado no texto. A China invade o Tibete repetidamente há 7 séculos. Invasão não é proteção. Eles chegaram a fazer um tratado de paz, não respeitado pela China.
A violência dos manifestantes tibetanos não é certa. Mas também não é certa a exclusão e o controle da população tibetana pela China.
Os tais "investimentos" feitos pela China no Tibete foram usufruídos pelos próprios chineses (etnia Han), ficando os tibetanos de fora.
O autor comete um erro crasso ao identificar o budismo tibetano com hedonismo. Qualquer um que leia os ensinamentos básicos verá que eles pregam exatamente o contrário. Sugiro ver como eles relacionam sofrimento e desejo.

Nossa indignação não é fruto de simples admiração pelo Tibete, ou de medo do crescimento econômico chinês. É, sim, de extremo horror pelas severas e frequentes violações aos direitos humanos verificadas lá e pela mão-de-ferro sobre outros países, seja quais e como forem. Como ocorreu com o Iraque em relação aos EUA e com a América em relação à Europa.

Abraços,
Grilo D

Anônimo disse...

Coment�rios cr�ticos ao
"O Tibete n�o � tudo isso" de Slavov Zizek.



Prezados editores do "Mais":

Tive a oportunidade de ler a mat�ria de t�tulo "O Tibete n�o � tudo isso" de autoria do Sr.Slavoj Zizek e gostaria de tecer alguns coment�rios cr�ticos em rela�o aos 9 pontos levantados pelo autor:

1-O primeiro ponto consiste na alega�o de que a rela�o entre a China e o Tibet � longa e complexa e que � problem�tica a asser�o de que o Tibete era um pa�s independente em 1949 quando foi invadido pela China. Acho importante ressaltar que "China" � um termo muito vago no que diz respeito � unidade pol�tica desse pa�s. Na cr�nica hist�rica chinesa geralmente se emprega o nome de cada dinastia para designar a unidade pol�tica. Acho no m�nimo problem�tico afirmar que o Tibete tenha estado sujeito ao poder protetor da China durante alguma das Dinastias nacionais, mas me parece bem mais f�cil e mais concreto apontar para a rela�o entre esses dois estados nas tr�s �ltimas Dinastias ( Yuan, Ming e Shin ) e na �poca da rep�blica chinesa. Na dinastia Yuan ,China e Tibet fazem parte de uma mesma forma�o pol�tica, mas a pr�pria China nada mais � nessa �poca do que uma parte do Imp�rio Mongol. Se a atual Rep�blica popular da China quizer reclamar como integrante de seu territ�rio toda a extens�o territorial do Imp�rio Mongol ela teria que reclamar a Hungria e a Ucr�nia como parte de seu territ�rio. Na Dinastia Ming s�o expulsos os Mong�is e consequentemente � sua expuls�o o territ�rio chin�s mingua consider�velmente. N�o conhe�o nenhum historiador respons�vel que afirme que o Tibete fazia parte do territ�rio chin�s durante essa Dinastia. No que diz respeito � �ltima Dinastia, a Dinastia Shin � pol�mico que o Tibete fizesse parte do territ�rio dessa Dinastia, mas o problema central n�o � esse: mesmo que o Tibete tivesse se tornado parte do territ�rio dessa Dinastia ela era da mesma forma que o Imp�rio Mongol uma unidade pol�tica capaz de abarcar a China e o Tibete em seu interior. A Dinastia Shin era uma unidade pol�tica completamente distinta da atual Rep�blica popular da China e sua rela�o com o Tibete em nada legitima o direito de posse territorial do Tibete por parte desta �ltima. O exemplo dado por Zizek a respeito da origem do termo Dalai Lama � particularmente infeliz: esse t�tulo se origina em uma rela�o contratual entre o Tibete e a Mong�lia e n�o entre o Tibete e a China. Para terminar, existem v�rias avalia�es a respeito da rela�o entre o Tibete e a rep�blica chinesa iniciada em 1911mas n�o conhe�o nenhum historiador respons�vel que reconhe�a que o tibete fazia parte do territ�rio chin�s nesse per�odo. Assim sendo, a invas�o do Tibete pela China em 1949 assume um car�ter n�tidamente imperialista e os argumentos apresentados por Zizek se revelam como a express�o de uma ignor�ncia e obscurantismo verdadeiramente inacredit�veis. Semelhante ignor�ncia e obscurantismo n�o condizem com o of�cio de um fil�sofo.

2- O segundo ponto levantado por Zizek diz respeito ao feudalismo r�gido e � aus�ncia de desenvolvimento econ�mico no Tibete anterior � invas�o chinesa.
Acho estranho que se tente superar esses problemas atrav�s de uma ocupa�o imperialista, mas se imp�e a� a seguinte quest�o: a quem esse desenvolvimento econ�mico tem beneficiado? Ao que parece n�o foi ao povo tibetano.

3- O argumento seguinte consiste em que a destrui�o dos mosteiros tibetanos n�o foi um efeito importado pela revolu�o cultural na medida em que s� estavam estacionados 100 guardas vermelhos no Tibete da �poca e que as destrui�es foram desenvolvidas pelos pr�prios tibetanos. Acho duvidosos esses dados hist�ricos e gostaria de solicitar provas de sua veracidade, mas essa n�o � a quest�o decisiva. O que importa � que tendo sido essas destrui�es orquestradas pela ideologia e pela lideran�a pol�tica do governo de Beijing ele n�o tem como se eximir da responsabilidade por esse processo de destrui�o cultural e religiosa. Trata-se de outro argumento inacredit�vel para algu�m que pretende representar a filosofia.

4-O quarto argumento tenta racionalizar a invas�o chinesa do Tibete em fun�o da presen�a de agitadores da Cia que buscavam desestabilizar essa regi�o.
Dizer isso � a mesma coisa que justificar a antiga invas�o do Afganist�o pela Urss. ( existe a� um dado curioso: Tibete e Afganist�o possuem um destino comum como objetos da disputa territorial das na�es imperialistas )

5- O quinto argumento diz respeito � viol�ncia dos protestos. Al�m de silenciar a respeito da brutal repress�o policial voltada para esses protestos evita discutir a complexidade da avalia�o contextual e a exist�ncia de for�as pol�ticas envolvidas que possuem orienta�o completamente distinta dos Monges budistas e do Dalai Lama. A compara�o completamente infeliz com a situa�o palestina evidencia a meu ver um vi�s claramente fascista na abordagem de Zizek.

6-Aparece em seguida a alega�o de que a China tem investido econ�micamente no Tibete e que esses investimentos tem proporcionado ao�povo tibetano um padr�o de vida de que ele nunca gozou em toda sua hist�ria. � curioso que ele silencia a respeito da pol�tica de transfer�ncia de popula�es e dos privil�gios econ�micos e sociais que essas popula�es gozam em rela�o � popula�o tibetana. Semelhante vis�o aponta para uma concep�o vulgarmente desenvolvimentista, vis�o essa que parece se constituir no �nico fundamento das infelizes afirma�es de Zizek.

7- O argumento seguinte diz respeito em parte ao abrandamento da repress�o f�sica � religi�o e ao fato parcialmente verdadeiro de que os chineses aprenderam que o capitalismo sem freios � muito mais eficaz que a viol�ncia f�sica quando se trata de enfraquecer as rela�es sociais tradicionais. Zizek confirma essa vis�o afirmando que em uma ou duas d�cadas os tibetanos estar�o reduzidos a uma minoria semelhante aos �ndios Norte-Americanos.
Semelhante afirma�o implica a meu ver em uma apologia do genoc�dio cultural orquestrado pelo desenvolvimentismo e pelo capitalismo selvagem.
Tudo isso me parece uma grotesca justifica�o do genoc�dio de minorias atrav�s da categoria criminosa da inevitabilidade hist�rica do capitalismo sem freios. Pretendo que a fun�o de um fil�sofo consiste em criticar radicalmente semelhante vis�o e em apontar caminhos para sua supera�o. Zizek parece ter capitulado diante da ideologia neo-liberal e abdicado de seu papel de fil�sofo.

8- Vem em seguida a vis�o extremamente preconceituosa de que a motiva�o da solidariedade ocidental ao Tibete deriva da ideologia "New Age" veiculada pelo Budismo do Dalai Lama. Sendo eu mesmo budista e essencialmente cr�tico da ideologia do "New Age" sinto-me obrigado a protestar en�rgicamente contra uma asser�o t�o profundamente marcada pelo preconceito e pela ignor�ncia. Mesmo no Brasil as lideran�as budistas que lideram o movimento de solidariadade ao Tibete s�o essencialmente cr�ticas � ideologia do "New Age". Zizek chega ao absurdo de expressar o temor de que essa "ideologia budista do new age" esteja se transformando na ideologia dominante do mundo capitalista globalizado, afirma�o essa que al�m de ser uma verdadeira express�o de ignor�ncia e obscurantismo traz em s� fortes implica�es xen�fobas e etnoc�ntricas.

9- O �ltimo argumento � o mais s�rio de todos e me parece expressar o ponto central da vis�o de Zizek. Ele aponta para uma poss�vel contradi�o entre o desenvolvimento econ�mico e a democracia e desenvolve uma verdadeira apologia da efic�cia dos regimes autorit�rios no processo de desenvolvimento econ�mico. Semelhante vis�o � um insulto para quem viveu sob as ditaduras militares desenvolvimentistas no Brasil e em outros pa�ses da Am�rica latina.
E isso aponta para o car�ter med�ocre da vis�o marxista de Zizek. Ele ainda parece acreditar no mito de que o crescimento das for�as produtivas conduz � desagrega�o das rela�es de produ�o capitalista. Semelhante vis�o � virtualmente id�ntica � vis�o do Partido comunista Chin�s que resume sua atual tarefa como sendo o "desenvolvimento das for�as produtivas". Lembro-me de ter assistido na televis�o a um discurso do ditador norte-americano George W.Bush que justificava a entrada do mercado norte-americano no Iraque sob o pretexto da necessidade de superar a mis�ria. A ret�rica de Zizek n�o difere em nada a meu ver da vis�o dos ditadores chinese e norte-americanos.
Para concluir, gostaria de dizer que � precisamente essa cren�a fatalista na inevitabilidade do crescimento econ�mico capitalista e quantitativo, essa supersti�o que acredita existir alguma rela�o entre semelhante desenvolvimento e a supera�o da mis�ria das massas que se constituiu no verdadeiro monstro do s�culo XX, monstro esse respons�vel por todas as guerras e genoc�dios que pudemos testemunhar nesse terr�vel e doloroso s�culo. A supera�o de semelhante supersti�o me parece ser a grande quest�o do s�culoXXI. Concordo com Zizek que existe um conflito essencial entre capitalismo e democracia; a quest�o para mim consiste precisamente na supera�o do capitalismo e da cren�a fatalista no crescimento econ�mico atrav�s da radicaliza�o da democracia. Creio tamb�m que a publica�o dessa grotesca apologia do genoc�dio, da ignor�ncia e do obscurantismo coloca uma s�ria quest�o para os senhores: como conciliar a liberdade de express�o com a publica�o de semelhante apologia do genoc�dio? Admito que n�o tenho uma resposta definitiva para essa quest�o: aguardo o claro posicionamento dos senhores editores do "Mais".


Sem mais, respeitosamente.

Joaquim Ant�nio Bernardes Carneiro Monteiro.
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