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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quarta-feira, 2 de abril de 2008


A grande mídia e o golpe

Passados 44 anos do golpe, todos se apresentam como democratas. Para um jovem, hoje, portanto, sobra sempre a pergunta: "Se todos eram democratas e se opunham à ditadura, quem deu o golpe e quem manteve o regime?

A primeira resposta que lhes virá à cabeça será: "Os militares".

Foi esta a versão que acabou por se firmar. Versão construída e difundida pela grande mídia, com o apoio e a serviço de banqueiros, grandes industriais, monopólios comerciais, grande capital internacional, governo dos EUA e uma série de classes e setores de classes que, juntamente com essa mesma grande mídia, conspiraram contra as reformas de interesse popular defendidas pelo governo do presidente João Goulart. Esse mesmo conjunto de civis que se locupletaram com o regime instaurado em 1964 e o alimentaram.

É certo que setores majoritários da mais alta hierarquia das forças armadas conspiraram lado a lado com aquelas forças, e lhes serviram de braço armado no 31 de março. Além disto, ao longo dos anos de chumbo, militares se prestaram a fazer o "trabalho sujo", reprimindo, prendendo, torturando, assassinando e ocultando cadáveres de opositores. Mas, ainda aí, não estiveram sozinhos: é sobejamente conhecido o financiamento por empresários para a construção e manutenção do aparato repressivo, bem como as denúncias sobre a presença de industriais atuando nas salas de torturas.

Mas nossa elite econômica tem hábitos semelhantes aos de alguns felinos, que costumam ocultar suas imundícies. E um dos seus setores, os oligopólios da comunicação, é o principal instrumento do transformismo.

Com o fim regime, esses oligopólios midiáticos cuidaram de transformar os militares em bois de piranha, enquanto nos bastidores se articulavam para participar, com os seus colegas empresários financiadores do aparato da repressão, do novo banquete. Para isto venderam aos incautos a idéia de que o golpe e o regime foram obra de um estamento (forças armadas), ocultando seu caráter de classe.

Desde sempre golpista, vejamos como a grande mídia se dirigiu ao país em seus editoriais do dia 2 de abril (como o golpe foi desfechado na noite de 31 de março para a madrugada do dia 1º de abril, a maioria dos jornais tratariam o assunto apenas em 2 de abril).

O Globo (RJ)

"Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas (...) para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas (...) o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. (...) Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente (...) Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. (...) Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.(...) A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo.(...) Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos(...) .

Jornal do Brasil (RJ)

"Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade ... Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem. (...) A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas.(...)"Golpe? crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada". (1º de abril)

O Estado de Minas (MG)

"Multidões em júbilo na Praça da Liberdade. Ovacionados o governador do estado e chefes militares.O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade".

O Dia (RJ)

"A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento"

Tribuna da Imprensa (RJ)

"Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou, o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu"

O Povo (CE)

"A vitória da causa democrática abre o País a perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil" (3 de abril)

O Cruzeiro (RJ)

"Sabíamos, todos que estávamos na lista negra dos apátridas - que se eles consumassem os seus planos, seríamos mortos. Sobre os democratas brasileiros não pairava a mais leve esperança, se vencidos. Uma razzia de sangue vermelha como eles, atravessaria o Brasil de ponta a ponta, liquidando os últimos soldados da democracia, os últimos paisanos da liberdade" (O Cruzeiro – revista semanal – 10 de abril)

Já imaginaram se a revista Veja existisse naquela época?

Editorial do jornal Brasil de Fato, de ontem.


4 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

O governo Goulart radicalizou. É claro que o Brasil precisava de reformas de base. Qualquer país que têm grandes bolsões de miséria precisa fazer reformas estruturais. Mas existem formas e formas de se fazer isso.O Chile tentou fazer isso com Allende e se deu mal e depois o Partido Socialista chegou ao poder, com discurso bem menos radical, e conseguiu fazer boas reformas. O que fez o governo Goulart? Ele tentou desapropriar grandes empresas, como a Petróleos Ipiranga aqui no RS e pregou uma insubordinação nos quarteis e assustou a classe média brasileira em tempos da paranóia da guerra fria. A história deve ser interpretada e contada com as lentes da época e nunca com as lentes de hoje. E o governo Goulart, legitimamente eleito, caiu e o povo não saiu às ruas para defender esse governo que se achava tão popular. É que, na verdade, não era. E, infelizmente, veio o golpe de 1 de abril que fez calar toda uma geração.

Anônimo disse...

Claro, canalhices não têm pais, apensa madrastas. Agora, tentam reescrever essa triste página da história. Os milicos não podem ser isentados. Claro, foram usados como testas de ferro pelo capital, pela igreja e pelos latifundiários. Exerceram esse papel com primarismo e até um certo infantilismo. Mas cedo, alguns perceberam o que estavam fazendo, como foi o caso daquele general que provocou a saída das tropas em direção ao RJ, o "vaca fardada" (ele mesmo se autointitulou) general Mourão. Mourão ainda nos anos 70 reconheceu que fez papel de bobo.

O pior foi o papel exercido por jornalistas e juristas que, servilmente, se prestaram a justificar todas as mazelas dos verdes olivas.

Mas, fiquem tranqüilos, pois a história demora mas é implacável.

armando

Verinha disse...

Sugiro a leitura do blog do Luis Nassif, urgênteeeeeeeeee!
A notícia bombástica sobre quem entregou o tal 'dossiê' sobre FHC, foi a própria oposição. Sim, senhores!! A boa e velha oposição golpista, pelas mãos do senador do Paraná pelo PSDB, Álvaro Dias.
Não percam, tá tudo lá! O tiro saiu pela culatra. A oposição raivosa e a mídia golpista estão no mato-sem-cachorro. Muito bom!!!

☺ LULA É MUITOS ☻

Acessem:
http://www.projetobr.com.br/web/blog/5#6377

Abraço,

Verinha♣

Daniel disse...

Antes que "alguém" ache que pode sugerir sua própria verdade sobre o golpe, depois de mamar no leite da subeversão, digerir e acordar em desbunde nos anos 80 achando que tudo é pós-moderno e o bom mesmo é ser neo-liberal...
Antes que este "alguém" venhas vos dizer, novamente, que a culpa do golpe é do Jango...
Lembre-se: O PTB do Jango, do Brizola, do Getúlio, já vinha há tempos divulgando a necessária implementação das Reformas de Base. Não por causa dos "bolsões de miséria", que surgiram efetivamente quando veio por terra o milagre econômico. As Reformas de Base eram a bandeira do Trabalhismo, que as defendia como necessárias para alavancar o desenvolvimento do Brasil. Mais do que construir casas populares (e isso os militares fizeram) as Reformas previam a desapropriação de latifúndios improdutivos para a Reforma Agrária e frear o envio de divisas, através do controle da remessa de lucro das empresas estrangeiras. Isso nunca ninguém fez.
Com relação a popularidade, bem a Legalidade em 61 e a ampla maioria conquistada na Assembléia para 64, e antes na Câmara em 62, assim como em muitos municípios mostram que o que não faltava era popularidade ao governo, só citando os números do RS, que obtive acesso.
No entanto, ferir os interesses do capital internacional, principalmente provindo dos EUA, em conluio como uma nova classe, formada especialmente por diretores e gerentes de multinacionais, associados a UDR, UDN e PIG Lacerdista, foi fatal para o governo.
O povo foi as ruas defender o país SIM. Mas nessa hora faltou liderança, e as esquerdas, muito fracas e divididas, deixaram o cavalo encilhado passar a lo largo.
Os golpistas, esses sim, já estavam bem organizados, pois tentaram em 54 e em 61, e souberam como agir em 64. Não eram infantis, não. Estavam bem treinados e apoiados pela CIA, rapidinho tomaram a situação para sí. E acharam tão bom, que manteram os militares por 20 anos, defendendo seus interesses! De quebra, nos deixaram como herança uma dívida externa e interna impagável, um Nova República sem oposição às oligarquias, e todas as mazelas de Sarney e sua gangue...muitos dos quais hoje são base de apoio do governo Lula.

Talvez numa dessas vindas ao Brasil, a Condolezza Rice, além de pagodear, ofereça um Porta-Aviões cheio de mariners para dar suporte ao atual governo, caso alguém se dê conta do que está acontecendo e jogue a primeira pedra.

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