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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 30 de outubro de 2007


O massacre não está sendo apontado em Tropa de Elite como solução possível, ela já está em curso. A elite precisa apenas justificá-la, para que suas tropas possam continuar agindo sem dó. Enfim, uma crítica lúcida sobre o filme de José Padilha.

Uma tradição da narrativa da América Latina

Muitos autores coincidem em afirmar que a literatura argentina é inaugurada, no século 19, com El matadero, de Esteban Echeverría. Nesse relato, pela primeira vez é capturada, no texto erudito, a voz dos não letrados. Ela aparece como uma fala-ação (xingamentos, encorajamentos à violência) encapsulada pelo travessão de diálogo dentro de um texto dominado pelo narrador onisciente. Os trabalhadores do matadouro são descritos de uma maneira que os aproxima à escala animal e que os mostra brutais e sedentos de sangue nobre. Tais personagens são projeção do medo paranóico que a elite “criolla” tinha do povo miúdo da periferia da cidade ainda muito próxima do campo.

Essa narrativa, de 1837, é prenúncio do dilema que marcaria a cultura dominante da América Latina: civilização versus barbárie. Se os pobres são os bárbaros e violentos, é preciso por em ação a violência preventiva contra eles. Esse relato inaugural impregnou o discurso da elite argentina, que legitimou a campanha de extermínio dos índios, e a repressão primeiro aos “criollos” pobres e depois aos trabalhadores imigrantes. “Classes populares, classes perigosas”. Mas o enredo de El matadero acaba com a morte de um “homem de bem” nas mãos dos miseráveis. É inquietante. Parece dizer: “Alguma coisa precisa ser feita para parar com essa barbárie”. De El matadero ao discurso da última ditadura argentina há um mesmo traço: “A guerra suja exige métodos cirúrgicos, sem anestesia”, dizia Videla.

O filme Tropa de Elite faz operação semelhante e, de quebra, dá a solução no próprio enredo. Pretende ser crônica de uma “guerra”, narrada pelo protagonista. Na guerra “vale tudo”, justifica. A morte de um jovem de classe média, que mantém uma ONG na favela, queimado com “colar” de pneumáticos, serve como justificativa para a morte do seu assassino, na ficção. E como justificativa para a morte pela polícia de mais de 900 moradores de favelas no Rio de Janeiro no que vai do ano, na realidade. Se a polícia militar aparece como corrupta no filme, o Batalhão de Operações Especiais, também da polícia, aparece como o núcleo puro, que conserva os valores já perdidos pelo resto da corporação. Isto investiria o BOPE de prerrogativas que o autorizam a passar por cima da lei, à tortura e ao assassinato.

Comparando as duas narrativas, podemos dizer que se perdeu a sutileza. A solução sugerida, deixada em aberto em El matadero, e que rendeu uma seqüência de massacres ao longo da história argentina, no filme de José Padilha faz parte do próprio enredo. E é bastante explicável que assim seja: o massacre não está sendo apontado como solução possível, ela já está em curso. A elite precisa apenas justificá-la, para que suas tropas possam continuar agindo sem dó, superando o sentimento de culpa das classes médias com um discurso, esse sim, bem simples: “Cúmplice de bandido é bandido”, e assim deve ser tratado. E, isto não é colocado em discussão: bandido não pode ser tratado como gente. O tom com que isto é dito não dá lugar a questionamento: afinal, bandido não tem dó.

Algo que ambos relatos têm em comum – e que é parte fundamental da sua eficiência persuasiva – é a captura do registro da voz dos pobres. E mais, “heróis” e “bandidos” compartilham um registro lingüístico cru, que não suporta abstrações. Contrasta como a fala dos jovens estudantes de classe média que freqüentam a faculdade e a favela, onde mantém uma atividade beneficente. Lêem Vigiar e Punir enquanto fumam um baseado. O seu discurso é de uma ingenuidade caricatural. A fala da tropa que sustenta a elite evidencia sua origem social. Assim como os bandidos, eles também são pobres. Nem eles nem os bandidos se enganam: há uma guerra. E na guerra morre todo tipo de gente.

O “herói” cuidadosamente construído, o “Capitão Nascimento”, protagonista e narrador que relata em passado, não quer a guerra. Quer sair dela, dedicar-se à família. Mas alguém tem que fazer o trabalho sujo. Ele procura um substituto. O enredo é basicamente esse: a procura de um substituto. A guerra precisa de novos combatentes, não apenas para ocupar o lugar dos que tombam, mas também daqueles que já deixaram sua tranqüilidade, sua saúde, sua condição humana no confronto. De outra maneira: ninguém agüenta muito tempo no BOPE. Tem que sair antes de ficar maluco. Isto é bem verossímil. Reconhecível.

As escolhas do autor permitem o efeito de verossimilhança e a eficiência na imposição do sentido defendido pelo BOPE. Quais as escolhas? O narrador e o foco narrativo; o uso do passado para a narração que Nascimento faz em off; o enredo que consiste na procura de um substituto para o herói, o que permite a seleção de episódios e cenas e se articula com a construção dos três personagens do BOPE (Nascimento, Mathias e Neto), os únicos personagens complexos, o resto (bandidos, policiais militares comuns e jovens ingênuos de classe média) são personagens planos.

Fora da ficção das telas, o BOPE não entra nas favelas com a cara e a coragem. Sobem em veículos blindados. O “caveirão”. A justificativa é a suposta guerra, que não afeta as elites que jogam a tropa de pobres contra os pobres, enquanto suporta, patrocina, faz negócios e participa do tráfico em grande escala. A elite não dá conta de controlar as bordas do grande negócio do tráfico e não sabe bem o que fazer com o crescente “excedente” populacional. O BOPE está para isso: para fazer o trabalho sujo de torturar e matar os moradores das favelas.

A ficção não é inocente, ela age no campo das narrativas para justificar esse trabalho sujo. Assim, ele se insere numa tradição do gênero narrativo, o das elites da América Latina. Tradição que podemos remontar a El matadero. Nas periferias, nos movimentos populares, na produção do hip hop, os pobres vêm construindo seu contra-relato.

Artigo de Silvia Beatriz Adoue, argentina e que vive no Brasil há vários anos. É professora de Teoria da Literatura, mestre em Integração Latino-Americana e doutoranda em Literatura Hispano-Americana. Escreveu este artigo com exclusividade para o excelente blog de cinema La Latina.


Foto: o governador paulista José Serra (PSDB), que a revista Veja já considera futuro presidente da República, posando de "Capitão Nascimento" para o imaginário enfermo de certa elite branca. Na época que essa fotografia foi divulgada, no primeiro semestre deste ano, ninguém entendeu direito o objetivo do tucano. Hoje, sabemos.

14 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Eduardo da Maia disse...

Que mania impressionante a esquerda latino americana tem de resumir tudo, como fez o Baleiro ontem, em questão de luta de classes. De um lado a elite e de outro os pobres; de um lado a civilização e de outro a barbárie. Tudo se explica e se resolve dessa forma simplista e primária. Chega de maniqueísmo, chega de dualismo. Isso é apenas cortina de fumaça para quem não quer enxergar além. O interessante é que os autores e atores de esquerda fazem questão de omitir um fato: o tráfico que corrompe, vicia e destroi a vida da favela. O tráfico existe. É o capitalismo mais selvagem, mais primitivo, mais bárbaro da história do planeta. O tráfico está ali: tentando dar uma de Robin Hood e aniquilando as expectativas de todos, corrompendo a vida das pessoas, arrebanhando a meninada que se torna fogueteira ou mula. E o traficante cobra seu preço -- e esse preço é caro. É muito caro. E as pessoas de bem da favela (a grande maioria) ficam reféns desses idiotas que dominam todas as atividades. E isso o discurso de esquerda não enfrenta, não ventila, se omite. Por que se omite? Porque prefere utilizar termos de uma falsa sociologia que já está para lá de caduca. Tadinhos dos traficantes, tão pobrezinhos e sem oportunidades. Que isso, cara? Tropa de elite mostra que do lado do tráfico não está nenhum Robin Hood, está sim a bandidagem, está o carinha que cobra de todos fidelidade. E quem não é fiel está condenado. E não tem julgamento nem nada. É bala na cara. E se sobrar a família vai junto. E quando o Estado e seu monopólio de poder de polícia deve fazer o que todos desejam: ingressar na favela e tomar conta daquele lugar, a esquerda atira pedra ... nos policiais.

flics disse...

Mas tem uma vantagem: a contraposição da inteligência e beleza do texto da Silvia Beatriz com o primarismo de idéias e má escritura do comentarista "primus entre primus".

Zeca disse...

Quem faz essa divisão, Maia, a esquerda?
Ora, bolas!

Não tem uma propaganda na TV que diz que o mundo é dos Nets? Se o cara não assina aquela merda não entra aqui, não entra acolá?

É a esquerda que divide então?

Agora, se a esquerda constata, apenas constata, denuncia, aponta, essa divisão, não quer dizer que a tenha criado.

Anônimo disse...

Exatamente, legitimação! Ponto. Eu só não sei aonde que as demais críticas fugiram disso...

Anônimo disse...

Como se legitima? Glorificando, falseando, criando uma imagem heróica, incorruptivel, sensata, eficaz, e, democrática, do Batalhão Especial. Em cima disso coloque uma explicação rala sobre a genese do tráfico, junto com a caricaturização dos criticos a repressão e pronto, temos o Tropa de Elite. Todas as críticas foram nesse sentido, interpreta quem qué!

Anônimo disse...

Foi exatamente a mesma discussão que eu fiz no outro tópico. O Feil me chamou de louco. Escreve uma professora de Teoria da Literaura (eu sou um reles anonimo), sem responder as suas (do blogueiro) sandices (baseado em Focaultm, retrata a realidade et caterva) que contradizem o artigo, e ele abraça o artigo, como uma primeira "analise sensata" sobre o filme. haha. Este trecho reproduz exatamente meu ultimo argumento, o que o blogueiro preferiu não contraria, pois poderia atiçar um maluco: Lêem Vigiar e Punir enquanto fumam um baseado. O seu discurso é de uma ingenuidade caricatural.
Ta faltando um bocado de discernimento para este blogueiro, o pa! E só dar uma enrolada que o homi cai na rede so!

Anônimo disse...

e para que a legitimação? PAra manter rtudo como está? Se é para isso para que justificar? Certeza que a Silvia não acha isso. É ai que está o ponto, e e´nisso que pega a critica do Ivan Pinheiro, execrada pelo redator.

E uma parte fundamental é que é uma cronica da atualidade, a corrupção como maior crime lesa pátria, desviand qlquer discussão.
O "honesto" burgues passa a ter carta branca para tudo.

Anônimo disse...

Moralista. Faz-me rir

Cristóvão Feil disse...

“A burguesia se recordará dos meus furúnculos até o dia da sua morte”.

Karl Marx, em carta a Engels, em 1867


Ou no popular: "Larga do meu pé, chulé!"

Ju disse...

é isso, Feil, acho que essa louca ou esse louco pegou no teu pé mesmo, a questão do filme fica de fora.

armando disse...

Esse louco do vampiro do Serra está afundando o estado e a cidade de SP (não só nos buracos do Metrô), mas numa política de valorizar os latifundiários da cana, os Ermírios de Moraes, as fábricas de carros, a burguesia dos jardins, etc.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Seria interessante, Armando, que o Brasil desse um impulso mais à esquerda e elegesse Serra presidente. Serra é muito mais esquerda do que Lula.

Anônimo disse...

Maia falou uma verdade. Quase, menos a direita seria melhor, agora a farra da nossa caixa me leva a crer e que ele está um pouco mais...Ele já foi mais aa esquerda, hoje não é.

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