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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 11 de dezembro de 2007


A transposição da maldição

O Governo através do Ministério da Integração Nacional declarou que "vai sair do campo da retórica" e já vai proceder a licitação das obras, orçadas nesta etapa, em R$ 100 milhões em vista da transposição do rio São Francisco. Derrubadas as liminares na Justiça, dissuadido o bispo que fez greve de fome, dom Luiz Flávio Cappio e com o discutível aval do Instituto Brasileiro de Agricultura e Meio Ambiente(IBAMA), pretende o Governo realizar agora a transposição. O argumento de base é emocional: "não se pode negar uma caneca de água a 12 milhões de vítimas da seca".

É exatamente no afã de dar água ao triplo de vítimas da seca que se deve questionar o projeto. Baseio meus dados num artigo publicado no dia 23 de fevereiro [2007] em O Estado de São Paulo do respeitável jornalista Washington Novaes "Um novo desfile e a mesma fantasia" e em outras fontes.

O apoio principal do projeto foi dado pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos, onde o governo federal, sozinho, tem a maioria dos votos. Ao contrário, grandes especialistas na área como os professores Aziz Ab'Saber e Aldo Rebouças da Universidade de São Paulo, Abner Curado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, João Suassuna da Fundação Joaquim Nabuco mostraram que o problema no Semi-Árido é mais de gestão do que de escassez.

A Agência Nacional de Águas (ANA) provou que é possível abastecer os municípios sem precisar da transposição do rio. O IBAMA que deu o aval, forneceu, sem querer, argumentos contra o projeto. Reconhece que 70% da água seriam para irrigação e 26% para o abastecimento de cidades; que a maior parte da água transposta iria para açudes onde se perde até 75% por evaporação; que 20% dos solos que se pretendia irrigar "têm limitações para uso agrícola"e "62% dos solos precisam de controle, por causa da forte tendência à erosão".

O Tribunal de Contas da União diz que o projeto não beneficiará o número de pessoas pretendido. Efetivamente, as comparações entre os projetos do Governo e da ANA, feitas por Roberto Malvezzi, bom conhecedor da bacia do São Franscisco, mostrou que o do Governo custaria R$ 6,6 bilhões, atenderia apenas a quatro Estados (Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará) beneficiando 12 milhões de pessoas de 391 municípios, enquanto o projeto da ANA custaria 3,3 bilhões, atingindo nove estados (Bahia, Sergipe, Piauí, Alagoas, Pernambuco, Rio do Norte, Paraíba, Ceará e Norte de Minas), beneficiando 34 milhões de pessoas de 1.356 municípios.

O próprio Comitê de Gestão da Bacia que conhece bem as questões do rio, foi por 44 votos a 2 contra a transposição; diz ainda que esta atende a menos de 20% do Semi-Árido e que 44% da população do meio rural continuaria sem água. São razões de grande peso.

Se o Governo quiser efetivamente levar água aos sedentos do Nordeste deve reabrir a discussão pública ou então encampar o projeto da ANA. Caso não ocorrer, podemos contar com nova greve de fome do bispo dom Luís Flávio Cappio. Entre o povo que não quer a transposição e as pressões de autoridades civis e eclesiásticas, ele ficará do lado do povo. E irá até o fim.

Então a transposição será aquela da maldição, feita à custa da vida de um bispo santo e evangélico. Estará o Governo disposto a carregar esta pecha pelo futuro afora?

Artigo de Leonardo Boff, teólogo. Publicado no diário carioca, Jornal do Brasil, em 26 de fevereiro de 2007, e em outros 60 diferentes jornais do Brasil, com versão em espanhol e em inglês.

17 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

A versão do complicado Leonardo Boff é meio contraditória. A transposição das águas do rio São francisco é uma forma de ligação das águas do rio para outras regiões do sertão nordestino, através de canais que vão ligar a outros rios. O projeto não é para transpor água parada, mas para transpor água que vai circular e inundar regiões carentes de água. Como é que ele pode dizer, afirmar e concluir que isso não vai beneficiar o povo nordestino carente de água para irrigação e para beber? Projetos similares a esse foram realizados, com grande êxito no interior de Israel. Outro dia naveguei pelo Google earth pela parte sul de Israel e é uma região desértica e está toda plantada e há irrigação, há água. Por que o Brasil insiste sempre em derrapar diante dos caminhos que levam para o desenvolvimento social e econômico? Sempre existirão os descontentes que fazem muito barulho para emperrar os grandes projetos. Por isso este país patina e o governo Lula é muito sonolento diante do bispo chantagista. Que morra o bispo.

Joca disse...

que morra o Maia

Anônimo disse...

Vejam só, o Mala andou na Espanha e virou um anarquista anticlerical. Na guerra civil certamente incendiaria todas as igrejas que encontrasse pela frente.

Bruno disse...

Dizer que 20% do solo da região é imprópria para o cultivo é dizer que 80% são aptas, o que em termos de aproveitamento do solo é uma enormidade. Solos com risco de erosão? Isso não é exclusividade do semi-árido: existem meios simples e muito conhecidos para contornar o problema. A maior parte da água é para irrigação? Quem for procurar o destino da água utilizada no país vai ver que cerca de 80% deste recurso é empregado na produção de alimentos e o resto é para o consumo direto da população. Com certeza é uma questão técnica...mas de forma alguma teológica...será que se o nome do rio não fosse santo a igreja se preocuparia da mesma forma??

Zé Fonseca disse...

No rastro dessa importante discussão, subjaz a visão do governo LULA e de seus acompanhantes de viagem sobre meio ambiente, relação com o agronegócio e empreiteiras. Para os pobres as migalhas das "bolsas", para a classe média impostos, para a alta burguesia o paraíso, tal qual o governo do FHC. Conheço pessoas simpatizantes e eleitoras do PSDB e PFL que estão rindo à toa. Nunca imaginaram uma economia tão direcionada para os lucros de seus negócios. Estão no melhor dos mundos.

Anônimo disse...

Maia, parte do que falastes eu concordo, mas desejar a morte de um ser humano é exagero. Veja bem a igreja do vaticano, apesar, das barbaridades da inquisição, das cruzadas, dos enormes lapsos de memoria que teve na America Latina e recentemente na europa da segunda guerra, a profunda compreensão que está tendo com os padres que abusam de crianças, principalmente quando parte do Santo Padre, ainda se acha no direito de dizer o que devo fazer e pensar. Aquele que quiser ser pastorearado e acredita nela paciência, nada podemos fazer, mas para mim esta é a igreja dos homens, não a que o maravilhoso YESHUA pregou há 2000 anos atrás.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Anônimo, eu não desejo a morte de ninguém. Quem está fazendo greve de fome é o chantagista do bispo e o mundo vai parar por isso?

MASQUINO disse...

Morei 18 anos na Paraíba,em Campina Grande.Foi lá que me formei em engenharia.Fala-se em transposição,quando na realidade se vai fazer a integração do Rio São Francisco.Transposição quer dizer mudar o curso do rio.O que o governo federal vai fazer é retirar do Rio cerca de 1% de sua vazão para beneficiar milhões de pessoas que vivem no semi-árido.Em minha opinião,isso é uma briga de Estados nordestinos.Quem tem o rio em suas fronteiras,acha que ele lhe pertence.Mas o rio pertence à União e ela tem competência para decidir sua utilização em um projeto que deve beneficiar 26 milhões de pessoas.Nesse prisma,acho que você tem de conhecer a realidade dessas pessoas para adquirir outro ponto de vista.Ás vezes,como dizia Pascal,os intelectuais são leves.Eles não tem que assumir a responsabilidade de tomar decisões que afetam a vida de milhões de pessoas.Nem Dom Cappio tem o direito de de se colocar na frente das pessoas da Paraíba,Ceará,Rio Grande do Norte e Piauí.O governo federal não é culpado se Dom Cappio morrer.Não foi o governo que pediu que ele fizesse uma greve de fome.Acho esse gesto muito extemporâneo.O governo deve dialogar ao máximo.Agora,colocar a vontade de uma pessoa ou de alguns Estados nordestinos acima da vontade da União,governada por um presidente eleito por 63% dos brasileiros,é um pouco demais.

MASQUINO disse...

Qual o povo que não quer a integração do rio?É impossível fazer um projeto que agrade todo mundo.Qual é a verdade dessa história?Que se discuta.O debate vai mostrar os interesses de quem não quer permitir nem que 1% da água do rio seja utilizada.Enquanto isso,o tempo vai passando.Depois de 4 anos,a hidrelétrica do Madeira saiu.Vai começar depois de 4 anos!!Você quer andar e não deixam!Acho que Leonardo Boff é um homem santo,Feil.Ele tem suas razões.Mas,porque não integrar esse projeto da ANA com o do governo?Esse pessoal briga demais.Se você tiver a oportunidade de andar pelos sertões nordestinos,vai entender a razão do povo querer tanto essa integração.É lógico que existe esse problema da falta de gestão,por parte de governos estaduais e municipais em tudo.Mas porque a Igreja não se coloca contra a corrupção das oligarquias nordestinas?É ela que impede e pode impedir que a água chegue nos que mais precisam.Não é o metal da faca que mata.É a mão do homem que pode matar.

el barto disse...

óia que o véio vem te puxar o pé, maia.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Masquino, está mais do que debatido e que se faça a transposição.. Na verdade, o que o chantagista do bispo não quer e o MST também é que grandes empresas ganhe o santo lucro com essa obra. É aquele velho preconceito do catolicismo arcaico, franciscano, contra o lucro. O lucro é pecado. Besteira e preconceito. O Brasil precisa de grandes obras de estrutura e infra-estrutura e com parceria com a iniciativa privada, mas com muita transparência. É a esquerda retrógrada que se alia ao catolicismo feudal para emperrar o desenvolvimento do Brasil. Só um detalhe, o curso do São Francisco segue o mesmo, parte de suas águas é que serão espraiadas para outras regiões.

Juarez Prieb disse...

Frei Cappio diz que vive há 33 anos nas margens do Chico, e nunca houve nenhuma assistência aos ribeirinhos e do sertão, agora querem fazer uma intetgração pelo alto, para beneficiar o agronegócio das frutas de exportação, e os demais hidronegócios, de refilão vai atender famílias pobres. O projeto como está não pode continuar, vai beneficiar 80% o business. É preciso inverter essa lógica, segundo estudiosos, a ANA e diversos institutos de estudos aplicados. Sem falar nas empreiteiras que estão de olho gordo no aspecto faraônico da obra. Ninguém é contra a integração, mas que beneficie prioritariamente a população local, depois muito depois os hidrobusiness (camarão de exportação, vitinicultura, fruta de mesa).
Dom Cappio está cumprindo o papel de cidadão, que por acaso é um religioso, ele quer que o governo não feche o caso e impeça o debate e a fusão dos projetos de integração.

Claudio Dode disse...

O Maia , O Inquisidor, viajou no google e viu o espaço verdejante das irrigações de Israel.
É pena que ele viaje no google pois não viu, pois isto o google não mostra, é que parte deste sucesso é irrigado com o sangue do holocausto palestino.
Claudio Dode

Anônimo disse...

Claudio Dode, o anti-semita.

sueli halfen ( POA) disse...

Holocáustico não é aquilo que tão botando no leite ???

sueli halfen ( POA) disse...

Maia...tem que fazer um "mapa" de quais proprietários das terras serão beneficiados!
Se forem quem tá morrendo de sede e tem terra...acho justo !
Mas não se fez reforma agrária por lá ainda...nem em lugar nenhum !
Então quem serão os proprietários beneficiados nas suas lavouras ?

Tens alguma lista ?
Só sei que não vejo lista nenhuma em lugar nenhum...

abraço

Krieger disse...

A Sueli matou a charada, antes de fazer a reforma agrária por lá não deveria ter investimento pesado do Estado por lá.

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