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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

terça-feira, 4 de dezembro de 2007


Dialética de uma derrota

Como explicar a derrota do Sim, e até que ponto foi somente uma derrota?

Chávez se defrontou com uma fenomenal coalizão política e social que aglutinava todas as forças da velha ordem carcomida até as suas entranhas, mas com os seus agentes históricos lutando uma batalha desesperada para salvá-la. A grande burguesia local; os fazendeiros; o capital financeiro; as direções sindicais corruptas; a velha partidocracia; a hierarquia da Igreja Católica; a embaixada norte-americana, todos obcecados em derrotar-lhe e, coroando todo esse ajuntamento, uma coalizão midiática nacional e internacional poucas vezes vista na história que reunia em seus ataques a Chávez os grandes expoentes da "imprensa livre" da Europa, EUA e América Latina.

O líder bolivariano atraiu contra si todos os excrementos sociais com os quais deve lutar qualquer governo digno da América Latina e os combateu em quase solidão e de mãos limpas. O que unificou os conservadores não foi a cláusula da "reeleição permanente", e sim algo muito mais grave: a reforma que outorgava status constitucional ao projeto socialista em autogestão, uma coisa totalmente inaceitável. Em que pese a tão descomunal disparidade, o resultado eleitoral foi praticamente um empate.

Para muitos venezuelanos a eleição não era importante, o que explica a abstenção de 44%. A grande maioria de
quem não votou, teria sufragado o Sim, o qual revela a fragilidade do trabalho de construção hegemônica e de conscientização ideológica no seio das classes populares. A redistribuição de bens e serviços é imprescindível, mas não necessariamente cria consciência política emancipadora. Por outro lado, alguns governadores e prefeitos chavistas não se empenharam a fundo por uma reforma constitucional que democratizaria, em detrimento de suas atribuições, a organização política do Estado ao criar novas instituições do poder popular. Ademais, é preciso ter em conta também que após nove anos de gestão qualquer governo sofre um desgaste ou deixa de suscitar o entusiasmo coletivo de outrora. Junta-se a isso, igualmente, alguns erros cometidos na descontínua campanha eleitoral de um presidente que, por seu papel de protagonista no cenário mundial, não dispõe de muito tempo para outra tarefa.

De qualquer modo, apesar da derrota, Chávez se esquivou bem do perigo. Suas credenciais democráticas se fortaleceram notavelmente. A oposição chegou dizendo nos comícios que jamais aceitaria o triunfo do Sim. Em caso de ocorrer a vitória do Sim, denunciariam como fraude e poriam em marcha o "Plano B" da Operação Pinça. Os sublevados democratas confessavam previamente que só se comportariam como tal em caso de vitória, caso contrário, sua resposta seria a desordem. Chávez, em troca, lhes deu uma lição de republicanismo democrático ao aceitar com fidalguia o veredicto das urnas. Imaginemos se houvesse ocorrido por essa ínfima diferença o triunfo do Sim. Os porta-vozes da "democracia" teriam incendiado a Venezuela. Em que pese a derrota, a estatura moral de Chávez e sua fidelidade aos valores da democracia convertem em pigmeus os seus adversários oportunistas, que só respeitam o resultado das urnas quando estas lhes favorecem. E, de lambuja, deixa os senadores brasileiros numa posição insustentável já que, pretextando uma "débil vocação democrática de Chávez", querem frustrar o ingresso da Venezuela no Mercosul.

Artigo do sociólogo Atilio A. Boron, publicado hoje no jornal argentino Página/12.

Tradução de responsabilidade deste blogueiro.

17 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

O grande equívoco da crítica marxista é o pensamento determinista que toca sempre o mesmo acorde, segundo o qual, o mundo é divido entre amigos e inimigos e estes são sempre os mesmos. Passa o tempo e as gerações, e eles continuam os mesmos. A eterna luta entre amigos e inimigos. O supra sumo do pensamento caduco. Atílio Boron toca o ensaio da mesma mediocridade ao afirmar "O líder bolivariano atraiu contra si todos os excrementos sociais com os quais deve lutar qualquer governo digno da América Latina e os combateu em quase solidão e de mãos limpas".
OU seja, a dignidade de um gestão governamental se atinge com luta social e alimentando antagonismos e ressentimentos. Mas quem foi efetivamente para a rua fazer propaganda contra a reforma e foram os principais atores que contribuiram e agiram para a derrota de Hugo Chávez não foram os grandes empresários e nem os velhos políticos da corrupção do antigo regime, quem foi à rua foram os estudantes da principal Universidade Pública Venezuelana. Será mesmo que esses estudantes estão agindo em nome das velhas forças carcomidas, serão eles massa de manobra da velha elite, intelectuais orgânicos do conservadorismo? É evidente que não, mas é necessário sempre -- e esse é o lema principal da caduquice -- arranjar desculpas e cortinas de fumaça para compreender e explicar a derrota. O que os estudantes venezuelanos criticam em Chávez é exatamente aquilo que qualquer movimento democrático deve defender: a mania autoritária de dividir a sociedade entre amigos e inimigos, sendo que o papel dos amigos é lutar. Aliás, quem pensa muito em inimigos e imagina sua presença em todos os lugares é o paranóico. E Chávez tem tido sim, nos últimos tempos, esse tipo de comportamento acirrando a "luta" contra os inimigos. Mas quem são, afinal, os inimigos? Dizem que são os EUA, mas são os EUA que financiam a revolução bolivariana, porque são eles que são os maiores importadores do petróleo venezuelano. Um amigo verdadeiro não vende seu principal produto ao seu principal inimigo. Há, pois, algo de errado no reino bolivariano da Venezuela. E os amigos devem ir para a luta para conseguir os objetivos, mas parte considerável dos "amigos" resolveu ficar em casas, se omitiram e, por isso, a abstenção. Abstenção, omissão também é VONTADE POLÍTICA. Se o povo venezuelano quisesse mesmo a reforma constitucional teria corrido para a rua. Não foi e essa omissão revela sim uma vontade implícita de não reformar a constituição da maneira como pretendia Chávez. A verdade verdadeira é que o futuro de Chávez não mais será como era antigamente, porque a maré vermelha se dissipa. E se dissipa, porque o povo é sabido, ele pensa, analisa, estuda e toma suas decisões, agindo e se omitindo. Acho muito difícil Chávez ter a mesma força de antes. A situação mudou, o caldo engrossou e a Venezuela caminha para novos tempos.

Anônimo disse...

Santa ingenuidade, caro Maia! No Chile de Allende, quem ia para as ruas boicotar e protestar, eram o caminhoneiros, vítimas de salários miseráveis. Na Alemanha de Hitler, quem quebrava as lojas dos judeus era o lupem desempregado. V. fugiu das aulas de sociologia, lógica e antropologia? Agora, aqui, por exemplo, quem são os maiores anti-lulas? Evidentemente, a mão longa que aparece, não são os plutocratas, mas de novo, os taxistas, o lupem, a classe média boçal, etc. Não misture as coisas: uma coisa é uma coisa, outra...

Armando disse...

fui eu que escrevi. Armando,
Feil, o que acontece de novo com a nomeação de titularidade?

Carlos Eduardo da Maia disse...

O Chile e a Alemanha resolveram seus antagonismos fazendo conciliações e pactos. É exatamente esse tipo de política que os estudantes venezuelanos defendem: diálogo.

Krieger disse...

Diálogo? Então lê os jornais sérios e saiba do quanto a CIA colocou nos diretórios acadêmicos de universidades privadas.

Vá se informar, ao invés de ficar lendo o lacaio de ZH que está em Caracas, loco de medo que deflorem ele por lá.

Frans Neumann disse...

Hitler chegou ao poder com apoio da pequena burguesia empobrecida pela crise de 29 , mobilizada e temerosa dos avanços do Partido Comunista. Até então o NSPD era um partido pouco expressivo.Caso tivesse ocorrido uma aliança entre o PCA e o PSD o avanço nazista teria sido sustado.Porque a aliança não ocorreu ainda é objeto de discussões...Setores burgueses desprezavam Hitler mas o viam como um mal menos frente à esquerdização. Assim Hitler foi guindado ao poder com apoio da burgueia alemã - que aceitaram/apoiaram gostosamente a ditadura após 1933.Os primeiros campos de concentração foram destinados para os opositores internos.Quem se mobilizou foram extratos não burgueses, que forneceram a militância , em particular , das SA.Ainda tenhos vívidas as lutas no bairro berlinense de Kreuzberg. Há riscos em se transpor mecanicamente acontecimentos europeus,mas o exemplo do Chile mostra certas analogias inquietantes.Os burguesotes de Caracas comemoraram, tal como aconteceu em POA nos bairros Moinhos de Vento e Bela Vista na últimas eleições,enquanto a maior parte recolhia-se a um silêncio covarde.

Ju disse...

q beleza, prof. neumann, bela aula de civismo

claudia cardoso disse...

Boron foi de uma precisão cirúrgica em relação às abstenções chavistas, para mim, a melhor parte do seu texto: "Para muitos venezuelanos a eleição não era importante, o que explica a abstenção de 44%. A grande maioria de
quem não votou, teria sufragado o Sim, o qual revela a fragilidade do trabalho de construção hegemônica e de conscientização ideológica no seio das classes populares. A redistribuição de bens e serviços é imprescindível, mas não necessariamente cria consciência política emancipadora."
Há momentos, em que é preciso admitir que FALTA POVO para tomar decisões importantes a favor da coletividade!!!

Juarez Prieb disse...

Certo, Claudia, mas também falhou o staff chavista, como Boron diz, os governadores e prefeitos que arrefeceram a luta com medo do futuro poder popular, que Chávez propôs corretamente.

Tem a direita, mas também tem os quinta-colunas que fazem corpo mole quando se trata de ruptura tipo pega-prá-capar.

Zé Fonseca disse...

O confronto existente na Venezuela,nada mais do que o velho e conhecido conflito de classes , em vista a seus interesses adversos.O pacto pretendido por alguns, certamente passará por devolver a PDVSA a oligarquia venezuelana, reabrir a RCTV, e riscar do dicionário da V República a palavra socialismo.Como negar os antagonismos se eles são reais.O povo pobre que votou, foi em massa apoiar as reformas.Como explicar esse fato? É claro que a classe média venezuelano, como a Chilena no período do golpe, orientada por uma igreja conservadora, puxa a oposição as reformas, servindo de bucha de canhão para a alta burguesia.São tão democráticos que estavam prontos para detonar uma rebelião caso vencesse o SIM.Não se dignaram a antecipadamente se comprometer com o resultado, pois que, a vocação golpista desta ligarquia não gosta de ser contrariada. Em frente comandante Chavez!!!

Sil disse...

Não, não de longe a melhor análise do referendo venezuelano veio por parte do "jornalista comentarista de futebol escrivão de polícia Paulo Santana", que disse em seu blog:
"Estou estupefato. Pensei, porque todos os indícios a isso levavam que Hugo Chávez era um ditador.

Se perdeu o referendo, Chávez não é um ditador. Porque os ditadores, quando permitem que se realizem eleições, ganham as eleições porque as fraudam. Nunca perderam eleições decisivas quaisquer ditadores."

Olha, pois eu morro e não vejo tudo...Juro q às vezes ainda acho que eles estão de brincadeira, mas o Paulo Santana acha realmente que descobriu o ovo e que está passando uma informação importante. Chávez não é um ditador.
É só rindo

Carlos disse...

Pobre dos escrivães de polícia ter um cara como esse de colega.

K disse...

essa do Boron é a melhor análise que eu li sobre o plebiscito na Venezuela

flics disse...

Cristóvão, o artigo do Mempo Giardenelli me pareceu muito melhor. Ia escrever "mais ponderado", mas fiquei com medo das abelhas. Podias publicá-lo?

Carlos Eduardo da Maia disse...

Resumo da ópera, prezado Frans Neumann, radicalismo de direita ou de esquerda fazem parte do mesmo totalitarismo.
Cláudia, por que você insiste que a conscientização é sempre na direção da esquerda? Quer dizer, então, que a França de Sarkô é menos "consciente" que a França do Mit? É evidente que não.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Flics, onde se encontra o artigo do Mempo, gostaria de ler. Gracias.

gardelon disse...

En Página/12 de ayer, pibe, por supuesto!

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