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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Uma década de fantasias


Se você quiser saber o que é realmente preciso para resgatar uma economia da armadilha do débito, veja o grande programa de auxílio público, mais conhecido como Segunda Guerra Mundial, que acabou com a Grande Depressão

A esta altura, todos já conhecem a história triste dos investidores ludibriados por Bernard Madoff. Eles olharam seus extratos e pensaram que estavam ricos. Mas um belo dia descobriram, para seu horror, que a suposta riqueza era produto da imaginação de outra pessoa.

Infelizmente, esta é uma boa metáfora para o que aconteceu à América como um todo na primeira década do século 21.

Semana passada, a Reserva Federal dos Estados Unidos divulgou os resultados da sua mais recente Pesquisa Sobre a Economia de Consumo, um relatório trienal sobre o patrimônio das famílias americanas. A conclusão é que basicamente não houve criação de riqueza alguma desde a virada do milênio: o patrimônio líquido da família americana média, ajustado à inflação, é mais baixo agora do que em 2001.

De certa forma, isto não deveria surpreender. Durante a década passada, a América era uma nação de tomadores de empréstimo e gastadores, não de poupadores. A taxa de poupança caiu de 9 por cento nos anos 1980 a 5 por cento nos anos 1990, para chegar a 0,6 por cento de 2005 a 2007, e as dívidas familiares cresceram muito mais do que a renda. Por que então deveríamos esperar que o nosso patrimônio líquido aumentasse?

Mesmo assim, até recentemente os americanos acreditavam que estavam enriquecendo, porque eles recebiam seus extratos dizendo que suas casas e ações estavam se valorizando mais rápido do que o aumento de suas dívidas. E a crença de muitos americanos de que eles podiam contar com os ganhos de capital para sempre soa ingênua, é bom lembrar de quantas vozes influentes - especialmente as publicações de direita como The Wall Street Journal, a revista Forbes e a National Review - incitaram esta crença e ridicularizaram aqueles que se preocupavam com o baixo nível de poupança e o aumento das dívidas.

Então a realidade foi mais forte e demonstrou que aqueles que se preocupavam estavam certos o tempo todo. O aumento repentino dos valores dos bens foi uma ilusão - mas o aumento repentino das dívidas era verdadeiro até demais.

Então estamos com problemas - problemas mais sérios, penso eu, do que as pessoas conseguem enxergar. E não estou falando apenas dos analistas cada vez mais raros que ainda insistem que a economia vai entrar nos eixos a qualquer momento.

Porque esta é uma confusão generalizada. Todos falam dos problemas dos bancos, que estão, sem dúvida, na pior posição do sistema. Mas os bancos não são os únicos jogadores com muitas dívidas e poucos bens; a mesma situação também se aplica ao setor privado em geral.

E, como o grande economista americano Irving Fisher observou nos anos 1930, as providências que as pessoas e empresas tomam quando se dão conta de que estão devendo demais tendem a ser desastrosas quando todos tentam tomá-las ao mesmo tempo. As tentativas de vender os bens para pagar as dívidas só aumentam a queda vertiginosa do preço dos bens, reduzindo o patrimônio líquido. As tentativas de se economizar mais resultam num colapso da demanda de consumo, aumentando ainda mais a crise econômica.

Estariam os tomadores de decisão prontos para fazer o que for necessário para quebrar este ciclo vicioso? Em princípio sim. Os oficiais do governo entendem esta questão: Nós precisamos "conter este espiral prejudicial e potencialmente deflacionário", disse Lawrence Summers, um dos principais conselheiros econômicos de Obama.

Na prática, no entanto, as políticas atualmente em funcionamento não encaram o desafio de forma adequada. O plano de incentivo fiscal, ainda que certamente ajude, provavelmente não fará mais do que abrandar os efeitos colaterais da deflação das dívidas. O esperadíssimo anúncio do plano de resgate aos bancos deixou todos confusos em vez de confiantes.

Há esperanças de que o resgate aos bancos se torne algo mais concreto. Tem sido interessante ver como a idéia da nacionalização temporária dos bancos se popularizou, até com republicanos como o Senador Lindsey Graham admitindo que ela possa ser necessária. Mas até se fizermos o necessário para os bancos, isto resolveria só parte do problema.

Se você quiser saber o que é realmente preciso para resgatar uma economia da armadilha do débito, veja o grande programa de auxílio público, mais conhecido como Segunda Guerra Mundial, que acabou com a Grande Depressão. A guerra não levou apenas ao fim do desemprego. Mas também levou ao aumento rápido dos salários e uma inflação substancial, tudo isso com praticamente nenhum empréstimo por parte do setor privado.

Em 1945, as dívidas do governo estavam nas alturas, mas a relação entre as dívidas do setor privado e o PIB era apenas metade do que havia sido em 1940. E esta dívida privada baixa ajudou a preparar o caminho para o grande boom econômico pós-guerra.

Como nenhuma dessas coisas se aplica à nossa realidade no momento, nem se aplicará tão cedo, levará anos até que as famílias e empresas possam ganhar o bastante para pagar as dívidas que acumularam tão displicentemente. É muito provável que o legado da nossa época de ilusões - a nossa década de fantasias - seja uma longa e dolorosa queda.

Artigo de Paul Krugman, economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo publicado ontem no NYT.

7 comentários:

Anônimo disse...

Queira Deus (se ele existe) que o vaticínio de que uma guerra não é um alternativa para o momento esteja certo.

Mas há controvérsias.

joventino disse...

Guerra mundial, não, mas sim guerras localizadas em vários pontos do mundo. A não ser que Obama mande Israel bombardear o Irã, bem aí o estrago será de previsões incalculáveis.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Tudo tem seu tempo. Implementar hoje o padrão de estado de bem-estar social, de acordo com o modelo keynesiano, que se fez depois na segunda guerra parece lindo e maravilhoso, mas será possível? O primeiro ministro britânico, em Davos, é que acertou no alvo. É necessária uma nova agenda, um novo modelo de regulamentação e fiscalização que tenha alcance mundial, globalizante. Inclusive -- digo eu -- com a criação de talvez até a criação de espécie de Banco Central Mundial.

Noiram disse...

BCM, tá louco!!!
Aí seremos eternos reféns da especulação, das mega corporações.
Consumiremos somente produtos deles ou estaremos mortos.
Será o fim!!

panoramix disse...

Enquanto isto:
Afeganistão: Obama anunciou envio de mais 17.000 soldados
http://jbonline.terra.com.br/nextra/2009/02/17/e170213735.asp
O que é surpreendente para um país que está com um defict trilionário, em recessão e literalmente quebrado!
Felizmente no Brasil:
Diretor do BBB vai mudar as regras do jogo e Mirla assume em blog que se surpreendeu com o paredão!

Nelson Antônio Fazenda disse...

Bem. Os que são realmente pacifistas estão diante de uma tarefa monumental, hercúlea. A tarefa é convencer os povos do mundo todo de que, se há uma saída para tão grande crise, ela passa pelo aprofundamento do diálogo e da solidariedade.
A receita da classe que se eternizou no poder é o belicismo; destruir para depois reconstruir e, assim, recuperar seus lucros. Nem que seja ao custo de uma mortandade sem fim. Incidentalmente, parte da humanidade vai colher algum fruto dessa política. Porém, o custo para maioria será brutal.
Contra essa receita, há um trabalho desafiador a ser desenvolvido, repito, por aqueles que realmente lutam pela paz.

Anônimo disse...

Baixem e escutem o filme Zeitgeist, que tem torrent no site oficial sem pirataria.
Excelente, em um inglês bem claro.
Em princípo, pelas idéias ali expostas, vivemos o melhor dos mundos para os bancos comerciais americanos (que não são "bancos de investimento") reunidos em torno do FED.
Países, pessoas e empresas quebradas e todos clamando por um governo mundial. Melhor que isso só mais outra guerra.

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