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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008


Comentário ao filme “Onde os fracos não têm vez”, dos irmãos Coen

O deserto sem coyotes

A estética da violência é um dos pilares que sempre sustentou a indústria cinematográfica norte-americana. (É apenas uma constatação, não estou ajuizando sobre o fato.) Os filmes de faroeste foram pródigos na fórmula, com a vantagem de mitificar o processo de dominação civilizatória do Oeste selvagem.

Agora, os irmãos Coen fazem um filme com temática faroeste-violência, mas constatando que tudo está mudado, que estamos vivendo não mais num tempo de violência de conquista, mas de violência de... o quê mesmo? Já não há nada mais a conquistar, e tudo perde o sentido, a não ser a própria violência que se autonomiza, personificada pelo esteta da morte, Anton Chigurh – vivido por Javier Bardem, agora portando um cômico corte de cabelo pajem-eunuco e um concentrado ar misógino.

“Onde os fracos não têm vez” (No Country for Old Men) é um filme que constata a tragédia moral de nosso tempo. Os valores (éticos, morais e estéticos) estão todos subsumidos ao dinheiro divinizado, modulados pela violência (com método) de Chigurh (Bardem), uma espécie de flagelo pós-moderno.

O filme começa com as imagens secas e belas do deserto, onde o vento faz o texto principal da narrativa, que se segue com as reflexões sempre resignadas de um velho xerife, vivido pelo ótimo Tommy Lee Jones (foto). O xerife Ed Tom Bell teria a autoridade moral do herói clássico das tragédias, mas esta autoridade sucumbe ao peso inexorável – não do tempo biológico – mas dos tempos em que a brutalidade assume o protagonismo dos fatos. O xerife Bell está sempre atrás dos fatos, refletindo sobre os mesmos, mas permanentemente desistindo de entendê-los. Ele e seu assistente ficam narrando sobre mitos do Oeste, histórias e feitos terríveis, mas que diante do que estão assistindo reduzem-se a cenas ingênuas e quase românticas. Depois de comparecerem a um quadro dantesco no deserto, onde houve um sangrento acerto de contas de bandos de traficantes na fronteira do Texas com o México, o xerife Bell pergunta ao seu assistente, por que não havia coyotes naquela carnificina. E a pergunta fica em suspenso, irrespondida e enigmática. Por que?

Guardando a tradição, o deserto tem um papel importante no primeiro terço do filme. A natureza seca e agreste serve de aviso quanto aos desafios a serem vencidos. Mas, ao contrário dos clássicos do faroeste, esta presença ameaçadora cede lugar a riscos menos naturais, perigos agora perpetrados pelas hipertrofias civilizatórias, todas encarnadas pelo inabalável Anton Chigurh.

Os “Fracos” (um título deveras neodarwinista, que acaba sem querer sendo uma síntese da obra) é um filme também sobre os veteranos do Vietnã, já que retrata acontecimentos ocorridos em 1980, portanto quando a idéia de derrota no Sudeste asiático ainda estava muito viva na memória norte-americana, sua solidariedade inútil e frustrações, vítimas de uma guerra que teima em continuar acontecendo dentro de cada um.

O roteiro dos Coen está cheio de furos, lacunas, incompletudes e enxertos fora de tempo. O que faz Chigurh de volta no motel, quando o xerife Bell vai visitar a cena do crime? Parece que está com as amarras frouxas. E está, o que empresta à obra final mais motivos para estranhá-la e admirá-la. Mesmo com problemas no script (seria mais um exercício de estilo dos cineastas?), os Coen conseguem um clima único que intriga e alarma o tempo todo, registrado por uma fotografia magnífica e silêncios perturbadores.

A propósito, para finalizar: por que o deserto do real não é mais habitado por coyotes? Ora, porque tornou-se mesmo um reduto de selvagerias mais up to date, como os pitbulls, por exemplo. Um cão pós-cão, praticamente sem instinto, criatura produzida no modo de produção genética pós-fordista para o cerco e aniquilação neodarwinista, como se pode notar na sensacional fuga pelo rio do personagem Llewelyn Moss, vivido por Josh Brolin.

O pitbull num deserto sem coyotes simboliza a instauração de um tempo em que os predadores deixam de ser naturais para transformarem-se em produtos da cultura e da economia do último capitalismo.

7 comentários:

joca disse...

Ótimo comentário, pra mim matou algumas charadas que o filme tinha.

Jorge Vieira disse...

Vi nesta tarde. Todos os filmes dos Cohen são um tanto estranhos, radicalizados, no que expõe e este foi ao extremo. O filme mostra um "tempo onde alguns interesses são mediados a bala". Que tal a sala do "executivo", em um prédio com os andares indefinidos? Como o contador registraria tudo aquilo? Temos que reconhecer que os gringos sabem fazer um filme e dos bons.

Nuno Sobrosa disse...

Já li não sei onde exatamente, que este filme "pede comprensão".

Tu ma deu, oh pá!

NPTO disse...

Legal o comentário, mas eu achei que os coyotes de quem os caras falavam eram aqueles caras que guiam os sujeitos através da fronteira com o México. Mas deve ser isso aí que você falou.

A propósito, o que você achou do último monólogo do filme?

PS: blog bacana.

Anônimo disse...

E traficante precisa de coyote, NPTO?

Se liga!

Mingo disse...

Chigurh volta ao motel - quando o xerife Bell vai visitar a cena do crime - pra tentar pegar a grana...

eugênio disse...

É engraçado, a expressão estética da violência, utilizada pelo Feil no início do texto, usei há bastante tempo atrás, sem tê-la ouvido ou lido em outro lugar. Provavelmente, pq estava caindo de maduro. Realmente, na filmografia americana, a violência não é só uma descrição de um ato agressivo, mas a ritualização quase mística desse ato. Vcs já repararam nos filmes classe B (para mim, todos são filmes classe B) a forma como o vilão é morto? Não basta só um tiro ou uma queda, ou coisa que o valha. Há todo uma "prazeirosa" antecipação da morte, onde o tal vilão padece pequenas mortes antes da morte em si.

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