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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007


Por que o Rio Grande do Sul é assim

Se aproxima o dia 20 de setembro, data que marca o início da chamada revolução Farroupilha, no distante ano de 1835. Para quem não conhece o Rio Grande e Porto Alegre, essas informações soam mais distantes ainda. Mas aqui neste blog, nos próximos dias, vamos tentar decifrar esses códigos da cultura gaucheira, esses constructos culturais cuidadosamente recortados da história factual e montados num painel mítico que representa a apropriação do imaginário popular dos indivíduos nascidos no Estado mais meridional do Brasil e , não por acaso, o que apresenta idiossincrasias especiais e um etos social muito particular, rico, variado, objeto da contribuição de inúmeras etnias – autóctones e transplantadas.

Mirabeau, um dos teóricos da revolução Francesa de 1789, dizia que não bastava mostrar a verdade, é necessário fazer com que o povo a ame, é necessário – dizia o “Orador do Povo” – apoderar-se da imaginação do povo. Não foi de graça, então, que a seção de propaganda do Ministério do Interior, em 1792, em plena ebulição revolucionária, se denominava Escritório do Espírito.

Pois, essa apropriação da imaginação popular foi – parcialmente – exitosa por parte dos maragatos (ideologia do latifúndio) sul-rio-grandenses, especialmente a partir da segunda metade do século 20. Alguém pode perguntar o motivo de ter passado tanto tempo, de 1835-45 até meados do século passado, por que? Por que o mito levou tanto tempo para “apoderar-se da imaginação do povo”?

E outras questões: por que no RS se festeja, se comemora uma derrota, sim porque os farroupilhas de 1835 foram derrotados durante dez longos anos pelas tropas do Império do Brasil, por que? Outra: por que o RS comemora o 20 de setembro e não comemora o 14 de julho? Sabendo-se que foi no 14 de julho de 1891 que a Assembléia Constituinte sul-rio-grandense deu posse a Júlio Prates de Castilhos como primeiro Presidente (hoje é governador) eleito no RS, e pode-se dizer que este é o marco da única revolução burguesa clássica havida no País. Nenhum Estado federado e nem o próprio Brasil teve uma revolução modernizante como o Rio Grande do Sul, através dos positivistas chimangos de Castilhos, e depois através de Borges de Medeiros, pelo menos até 1930, quando se encerra o ciclo modernizante inaugural da transição para o capitalismo nesta região meridional.

Por que a burguesia gaúcha, a direita guasca, comemora uma derrota – a farroupilha – em vez de comemorar uma vitória – a da revolução cruenta de 1893? Intrigante, não?

E uma última questão, pelo menos por hoje, para iniciar esse tema tão apaixonante e que explica bastante o Rio Grande atual e o Brasil lulista (que quer copiar um pouco o ciclo desenvolvimentista de Vargas, que por sua vez bebia na fonte dos chimangos de Castilhos-Borges), por que aqueles que foram derrotados fragorosamente em 1893, na revolução burguesa gaúcha, hoje, são hegemônicos no plano político-eleitoral do Estado e logram êxito no objetivo original de Mirabeau no sentido de terem se apoderado da imaginação popular através de batalhas de símbolos, batalhas midiáticas, cevadura de ideologias, montagem de mitos, bombachas e tradicionalismo galponeiro, por que?

O Rio Grande do Sul tem uma história muito expressiva, tão expressiva quanto o “riso” macabro dos degolados de 1893, dos “engravatados” de 1923 (a “gravata” era a língua exposta da vítima, por baixo e através do largo talho horizontal do corte da lâmina branca), e de uma revolução positivista-burguesa que ousou estatizar empresas estrangeiras ainda em 1920, que cobrou impostos de latifúndio em 1895 e que escolarizou todo o Estado, ainda no início do século 20.

Vamos ver tudo isso, aqui no blog, a despacito no más, um pouco a cada semana.


Ilustração de Eugênio Neves

13 comentários:

lígia coelho disse...

que legal!

Jorge Vieira disse...

Estarei atento. Sempre tive curiosidade nesse tema e as questões apontadas parecem pertinentes. É a preparação para o doutorado?

Kayser disse...

Aguardarei ansiosamente pelas respostas!

armando disse...

Interessante, pena que, como diz o poeta Alberto Caieiro, "nós trazemos a alma vestida!"

Anônimo disse...

A gravata, Cristóvão, era a mancha vermelha do sangue do degolado, não sua língua exposta.

Cristóvão Feil disse...

As duas coisas, meu bom Anônimo. A língua era puxada e saia pelo talho. O Borges tem um conto, onde dois degolados ainda simulam uma luta de faca e restam abraçados no seu destino (macabro)comum.
Côsa de lôco, che!

armando disse...

É meu caro Feil, a questão dos valores ideológicos são poderosos e acostam os interesses não confessos ou escancaradamente confessos.
Vide o tal do exército de Caxias. Que exército é esse? Do Caxias que garrateou o sul, que massacrou o Paraguai já derrotado, que submeteu as províncias no laço, do submisso ao imperador? É o mesmo exército?

E que falar dos "breganejos" que cantam musiquinhas infantis, medíocres ou fascistas? São alisados pela mídia. São protegidos pela classe média tapada. São valorizados como "raiz". Do quê? Por quê?

E a educação misturada com religião, que serve como adestramento para mão de obra barata e dócil? É essa educação tão cantada em verso e prosa pelos neoliberais que precisamos?

E...

eugênio neves disse...

muito boa essa pauta. quanto a degola, o décio freitas, em seu livro "o homem que inventou a ditadura", faz uma descrição detalhada dessa prática. ele tb fala da revolução de 1893.

Jean Scharlau disse...

Salve, Cristóvão! Ótimo tema, no lombo do momento que passa encilhado.
Acho, aliás tenho certeza, de que os festejos pelo aniversário do início da Revolução Farroupilha "pegaram" (assim como as leis, há festas que "pegam" e festas que não pegam, nem no tranco) não porque alguém malevolamente poderoso quer fazer o povo comemorar uma derrota para melhor cabresteá-lo (note que meu vocabulário veio pilchado, para a ocasião) mas "pegou" a festa de aniversário porque os Farrapos representam a resistência dos menores aos maiores. Os menores eram latifundiários? Ora, mas é preciso algum poder organizado para sonhar enfrentar O PODER organizado, que era o "Império" (por falar em "Império", um monarca de um só reino, que chama a si mesmo de Imperador e ao seu reino de Império só podia ser português metido a inglês, pois não?).

Viva a revolta, a rebeldia, a resistência e várias realizações dos farroupilhas, que enfrentaram o "Império" por 10 anos! É necessário que tivessem vencido a guerra para serem festejados? Bom, há outros "perdedores" a quem admiro muito mais, mas estes aqui tiveram os seus méritos e são esses méritos (que não nomearei agora)que saúdo e festejo, sem sacrossantificá-los nem sacopuxá-los - este sim o defeito dos puxadores do festejo, empulhadores do povo. É necessário apontar os defeitos, principalmente quando a maioria fantasia supraqualidades, mas fazê-lo sem deixar de reconhecer os méritos.

zealfredo disse...

Caro Cristóvão,
Belo texto. Achei tão bom que chupei lá para o Mosca Azul.
[]

Anônimo disse...

Amigo Cristóvão,
Registro a correção que te fiz por telefone. Não são os derrotados de 1893 que agora são hegemônicos. Suas idéias, em sentido amplo, talvez. Porque são próprias para os que operam a reação ou a conservação. Dito isto a correção: os setores que sustentaram - talvez até operaram - enquanto classe (ou elite política) as mudanças no RS do seculo 19 hoje estão interessados em conservar a ordem. A burguesia nascente e os setores médios urbanos apoiaram a posição castilhista em 93. Mas estes mesmos setores hoje - especialmente a burga gaudéria -estão mais interessados em conservar do que mudar. O estimulo a mudança, como sabes, deve ser procurado não em vencedores e perdedores de 93 ( a não ser, talvez, no campo do confronto de idéias sobre o papel do Estado), mas nas classes populares e nos setores médios (com mais enfase no primeiro, talvez). Já a elite que representaria estes interesses... Caso duro de pensar...
Pontos para reflexão, meu amigo.

Abraço e parabens pela idéia

André Pssos

Cristóvão Feil disse...

André, o quadro de 93 terminou. Hoje, chimangos e maragatos estão unidos, o que que sejam estes na atualidade. A resistência - se é que existe - está latente em outras classes emergentes do sistema de 1893-1930. Ou seja, os setores populares, que não existiam como tal no final do século 19.
De qualquer forma é de sempre se ressaltar o caráter revolucionário do castilhismo e do PRR, embora sempre cuidando que eles foram "burgueses" tout court, modernizadores das forças produtivas e de ampliação do papel do Estado.

Anônimo disse...

Beleza, é isso aí...
Abraço

André

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