Você está entrando no Diário Gauche, um blog com as janelas abertas para o mar de incertezas do século 21.

Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

segunda-feira, 17 de setembro de 2007


A pilcha farrapista e gaucheira de dona Yedinha

Sem entender muito o objetivo e passando por cima dos pudores estéticos, dona Yedinha Crusius está fazendo o dever de casa na disputa simbólica pela imaginação popular.

A fotografia acima é um exemplo patético do seu esforço bem comportado de cumprir à risca o roteiro que a direita guasca lhe escreve no sentido de se legitimar como sucessora do (indigente) pensamento maragato e estancieiro, contemporaneamente identificado com a reluzente grife negocial do agribusiness.

Fantasiada com a pilcha (traje inventado como “típico” do Tradicionalismo guasca e da ideologia estancieira) do atraso, a tucana – nascida em São Paulo – não tem tempo a perder. Quer mostrar a muque que é uma autêntica filha da velha oligarquia meridional.

No vestido caturrita, que certamente representa o deserto verde das papeleiras pampeanas, dona Yedinha deve ostentar no peito ancho um pequeno broche de chumbo com um estilizado negrinho sendo açoitado pelos feitores do latifúndio pastoril de exportação – base econômica da ideologia que a sustenta na cadeira que foi de Júlio de Castilhos.

Dona Yedinha não faz nada de original, apenas cumpre o ritual solenizado e litúrgico de se apropriar das raízes inventadas do Rio Grande. O mito gaucheiro e farrapista deforma o passado e oferece um mingau ideológico para colonizar o imaginário das populações mais meridionais do País.

Pobre Rio Grande!


P.S: Observem que alguns estão com lenço vermelho. Não se trata de nenhuma identificação Farroupilha ou mera opção estética ou futebolística, mas sim identificação com as reacionárias forças maragatas do Partido Federalista na revolução de 1893-95, que se opunham à modernização positivista, burguesa e republicana dos chimangos (lenço branco).


17 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom, Cristóvão!

armando disse...

Feil, que história é essa de nascida em S. Paulo? Já temos o vampiro, o Maluf, a Fiesp, o Ermírio, os golpistas e separatistas, a Daslu, enfim, é muita porcaria e inutilidade para um torrão só.

Escuta essa vivente pilchado ao fundo, sorridente, como toda "elite", não é o Maia?

Carlos Eduardo da Maia disse...

Mino Carta é que está certo, a esquerda brasileira se perde nos labirintos do marxismo leninismo. O dono deste blog está fazendo uma imensa ginástica para mostrar que Dona Yeda é sucessora daquele velho ideal oligárquico das antigas revoluções e revoltas do RS. E que a pilcha e os hábitos tradicionalistas gaúchos são vestimentas e hábitos dos estancieiros, os quais Dona Yeda representa. De fato, Dona Yeda representa a maioria do povo gaúcho, pois ganhou de Olívio com diferença de 7 pontos percentuais. Mas os tempos de hoje são outros. As pessoas são outras. E um erro histórico crasso é comparar momentos históricos distintos, como se a história se repetisse eternamente. O marxismo leninismo tenta contar todas as histórias da mesma forma, os episódios são sempre os mesmos, a história que se repete eternamente movida pela mesma luta de classe, como se o RS de hoje fosse o mesmo do século XIX. Não é.

Eliseu disse...

Fico imaginando o Maia, fantasiado de Gaudério, com o rego gordo branco de fora, perambulando pelo acampamento Farroupilha, comemorando a guerra perdida... Pobre Maia. Seu senso crítico é rasteiro como uma plantação de melancias. Estou falando do mesmo sujeito que confessou ter tido um "prazer hemorrágico" ao ver o desfile militar de 7 de setembro e, logo em seguida, visitar a chaminé da usina do gasometro. Noooosssa!!

armando disse...

Não, caro Maia. Os fatos históricos não são os mesmos: uma vez aparece como tragédia, doutra vez surge como comédia. Parafraseando o velho e bom Marx, maragatos ontem, pela dona yeda hoje. Parece que sua passagem pela esquerda não lhe propiciou o aprendizado da ciência histórica.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Eliseu, estive sábado vendo a bienal do mercosul no armazém do cais do porto (recomento o trabalho lúdico/crítico de Nelson Leidner e depois tentei entrar na usina do gasômetro para ver a exposição da RBS. IMPOSSÍVEL, estava lotadíssimo. Fila imensa. Nunca vi a Usina tão cheia. O que é isso afinal? Hipnotismo coletivo?

Carlos Eduardo da Maia disse...

Armando, isso não é aprendizado, o marxismo leninismo é catequisação. Bem diferente. E o Mino Carta continua certo.

armando disse...

Putz a mulher é paulista mesmo! Então ela deveria estar vestida de caipira (jeca tatu), que é a nossa versão ideologizada e idiotizada do guasca meridional.

Claudia Cardoso disse...

Eu já dizia que a bendita iria se vestir de prenda, mas pensava que seria só no dia do desfile. Pois bem, fico imaginando as madames, que sempre tiveram horror a gauderiada, ter que mandar fazer dois ou três modelitos para acompanhar a "vida social" da governadora...

flics - bs.as. disse...

Não entendo porque toda essa bronca. Afinal o nordestino tem carnaval no inverno. Porque nós não podemos em setembro?
Diziam os gregos que os deuses, antes de matar, enlouqueciam as vítimas. Aqui, ridicularizam.

Sr. F disse...

A série sobre a história gaúcha está ótima. No entanto, noto em alguns comentários a percepção equivocada de que haveria uma simples continuidade entre os Farrapos de 1835/45 e os maragatos de 93. Apesar da cor do lenço, a revolta federalista não se confunde com a farroupilha, havendo entre uma outra uma profunda alteração na sociedade gaúcha, provocando um novo arranjo de aliados e inimigos.

Aliás, penso que também poderia ser objeto de uma análise qualificada como essa que vem sendo feita a guerra dos farrapos, especialmente a revisão (e distorção) do seu ideário pelo MTG no século XX, que se traduz nos atuais festejos do vinte de setembro.

Cristóvão Feil disse...

Chegaremos lá, Senhor F. Aguarde.

Esse é o ônus de fazer um texto seriado, aos respingões como mijada de porco.

Mas vejo também que temos leitores qualificados... muito bem!

Matusalém Silva disse...

Senhor Fagner, se vc. tivesse lido com atenção toda a série que o Feil está trazendo, veria que as suas observações apesar de corretas são infundadas.

Guga Türck disse...

Alguém aí conhece algum remédio bom pra carrapato?

Anônimo disse...

No Seguezio tem para espécie Maia de carrapato.

El Barto disse...

que coisa mais ridícula essa senhora... tsc tsc tsc...

Fagner disse...

Olá Matusalém, pode parecer paradoxal, mas concordo contigo. Por isso ressaltei que a confusão que havia detectado estava nos comentários, não no texto. Mas não quero criar poêmica, é só para esclarecer. abraços, F

Contato com o blog Diário Gauche:

cfeil@ymail.com

Arquivo do Diário Gauche

Perfil do blogueiro:

Porto Alegre, RS, Brazil
Sociólogo