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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Só as pedras são inocentes


Uma visitinha ao velho Hegel

Hegel tem uma sentença que me parece definitiva para servir de legenda ao atual cenário de crise estrutural do capitalismo: Weltgeschichte ist Weltgerichte, a história do mundo é o juízo do mundo.

Por isso, cabe recordá-lo, em 1806: “Encontramo-nos num período importante, numa época de fermentação, na qual o espírito está dando um salto, saindo de sua forma anterior e assumindo uma forma nova. Toda a massa de representações e conceitos existentes até hoje, os nexos do mundo, dissolveram-se e se fundem como num sonho. Cumpre à filosofia, antes de mais nada, reconhecer e saudar essa aparição, embora haja quem se oponha inutilmente a ela e se aferre ao caduco”.

Blaise Pascal dizia que “a verdadeira filosofia zomba da filosofia”. É o que sempre orientou o pensamento hegeliano e o que manda que façamos no presente momento de erosão de paradigmas e de derretimento de conceitos.

Segundo o estudioso de Hegel, Jean Hyppolite, o professor alemão se preocupou mais com os problemas religiosos e históricos do que com problemas propriamente filosóficos. Hegel, diz Hyppolite, permanece bem próximo do concreto, e o concreto para ele é a vida dos povos, o espírito do judaísmo e do cristianismo. Somente recorre aos filósofos, particularmente Kant e os antigos, para atacar melhor e diretamente o seu objeto, a vida humana tal qual ela se lhe apresenta na história, as preocupações de Hegel são cada vez mais de ordem prática.

Ele estuda as religiões e passa a denominar o cristianismo de uma “religião privada” em oposição à “religião de um povo”, que seria própria da velha mitologia politeísta grega. Para Hegel, a religião antiga, mitológica, é a religião da cidade, uma intuição que o povo tem de sua realidade absoluta. Mas não é a religião admitida pelo moralismo kantiano, que postula a religião como puro ideal moral. É a religião como espírito supra-individual de um povo – o Volksgeist. Uma realidade histórica que ultrapassa infinitamente o indivíduo, mas que lhe permite encontrar-se a si mesmo sob uma forma objetiva – para bem além da estreita idealização moral e subjetiva de Kant.

Hegel diz que o indivíduo – reduzido a si mesmo – é uma abstração. Eis porque, observa Hyppolite, a unidade orgânica verdadeira, o universo concreto, para Hegel, será o povo. O individualismo, para ele, é produto do cristianismo, que ele chamará de “religião privada”. A vida pública cidadã da velha Grécia era estimulada pelo politeísmo, pelos mitos, pelas cerimônias que acabaram formando o que ele chama do “espírito de um povo”.

O homem livre é o homem que participa, diz Hegel. O indivíduo não poderia realizar-se em sua plenitude senão participando do que o ultrapassa e o exprime ao mesmo tempo, de uma família, de uma cultura, de um povo. É somente assim que ele é livre – explica o professor Jean Hyppolite acerca do alemão.

“A supressão da religião pagã pela religião cristã é uma das revoluções mais surpreendentes – conclui Hegel – , e a procura das suas causas deve ocupar mais particularmente o filósofo da história”.

O cidadão antigo era livre porque precisamente ele não opunha a sua vida privada à sua vida pública, ele pertencia à cidade. A cidade não era – como Estado – um poder estranho que o constrangesse. “Como homem livre, obedecia a leis que ele próprio fizera. Sacrificava a sua propriedade, as suas paixões, a sua vida, por uma realidade que era a sua” (Fenomenologia).

A mitologia religiosa antiga, pré-cristã, era a religião da cidade-cidadania, que atribuía aos seus deuses o seu nascimento, o seu desenvolvimento, e suas vitórias. Ao contrário do cristianismo, a religião pagã não era uma fuga para um além, era uma religião da vivência cidadã, participativa. A religião supra-individual – para além do indivíduo – da liberdade. Não havia, portanto, uma oposição entre indivíduo e Estado. Hegel dizia que o cidadão punha a parte eterna de si mesmo em sua cidade e não no além, como o cristianismo.

O Direito romano, para ele, já representa a substituição da vida ética da cidade, que aos poucos desaparece. A imagem do Estado, como um produto de sua própria atividade, desapareceu da alma do cidadão. Este se sente apenas a peça de uma engrenagem que já não lhe pertence ou domina. Este atomismo social prepara o caminho para o advento do cristianismo, onde o Direito é o triunfo do individualismo, mas o que é reconhecido neste homem é a pessoa abstrata, a máscara do homem vivo e concreto. A passividade do homem – diz Hyppolite – vem acompanhada dessa exigência cujo têrmo era o além.

É dessa decomposição da velha cidade que aparece a consciência infeliz, e o cristianismo, para Hegel, é uma expressão disso.

A religião cristã é uma teologia positiva, o homem só se submete a ela porque teme a Deus, um Deus que está muito além dele e do qual ele é escravo.

Mais adiante, Hegel diz que a “nossa religião [a cristã] quer elevar os homens à categoria de cidadãos do céu, cujo olhar está sempre voltado para cima, e com isso se tornam estranhos aos sentimentos humanos”.

Agora, o mundo da vida real e o do pensamento são diferentes, há um abismo entre a moral privada e o ethos - os costumes existentes.

A velha democracia grega está ultrapassada, porque no mundo moderno ela corre o risco de não ser mais que uma dissolução do Estado nos interêsses privados. Os governos já não são mais a expressão de todos, mas aparecem como tendo uma existência independente.

Com a queda de Wall Street o mundo não só dá um salto, como diz o mestre, mas dá cambalhotas, exigindo duas coisas de imediato: conceito, ferramentas para o pensamento, e ação. Hegel dizia que “se a realidade é inconcebível, então cumpre-nos forjar conceitos inconcebíveis”.

O inconcebível no conceito é a antinomia, o encontro da contradição viva e aguda. Portanto, estamos dropando a onda do inconcebível, vivendo a história, o destino e o julgamento do mundo.

O destino é a consciência de si mesmo, “mas como de um inimigo”, é aquilo que o homem é, mas que lhe aparece como se tendo tornado estranho.

A ação política “perturba a quietude do ser”, onde “só as pedras são inocentes, porque elas não agem, mas o homem deve agir”.

Inspirado em Hegel, Karel Kosik pergunta e responde: o que o homem realiza na história? Na história o homem realiza a si mesmo. Não apenas o homem não sabe quem é, antes da história e independente da história, mas só na história o homem existe. O homem se realiza, isto é, se humaniza na história.

Pela primeira vez na história da humanidade, um modelo de produção e reprodução da vida social cresce, se desenvolve e entra em colapso num intervalo de tempo que cabe na vida de um indivíduo. Um sujeito que tenha 50 anos hoje, conseguiu ver o início da hipertrofia dinheirista do capital, depois assistiu a Thatcher dizer que “não existe essa coisa chamada sociedade”, e, agora, olha assombrado para bancos e tradicionais montadoras de automóveis (uma delas chegou a dar nome à sociedade de consumo do século 20) recebendo socorro monetário do outrora tão desprezado Estado.

Na história se realiza o homem, lembra Kosik, e somente o homem. A mercadoria, o dinheiro, são criações culturais humanas, às vezes a ideologia faz com que nos esqueçamos disso, que é elementar, porque tão ocultado por camadas e mais camadas de feitiçarias, passando a ser quase entidades naturais.

Portanto, não é a história que é trágica, mas o trágico está na história – como lembra Kosik. Não é absurda, mas é o absurdo que nasce da história. Não é cruel, mas as crueldades são cometidas na história. Não é ridícula, mas as comédias se encontram na história.

O breve ciclo de trinta anos que ora assistimos se fechar, no palco da história, teve um muito de tudo isso: tragédia, absurdo, crueldade e comédia.

Coisas da vida.

Artigo de Cristóvão Feil, sociólogo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Via Campesina se manifesta sobre a última do coronel Mendes


Nota à Sociedade do Rio Grande do Sul

O Governo Yeda Crusius tem se caracterizado pelo uso da violência para tratar das questões sociais e pela corrupção nos diferentes níveis de governo. A denúncia das conversas telefônicas entre o Coronel Paulo Mendes e os envolvidos nos desvios de recursos públicos, revelado pela Polícia Federal, só comprovam o que já havíamos afirmado de que a violência é a ferramenta utilizada para defender os interesses políticos e pessoais dos integrantes deste Governo.

O Coronel Mendes deixa a Brigada Militar sob a marca de descontrole na relação com a população e com os movimentos sociais, pelo uso indiscriminado da força e a incapacidade de dialogar com qualquer setor.

Agora, confirma-se que a mesma força e intransigência, com que combateu os movimentos sociais não foi usada para combater a corrupção e a prevaricação. Nos perguntamos se o aparelho da Brigada Militar não teria sido usado também para retribuir os favores devidos pelo Coronel Mendes.

Questionamos ainda a indicação do Coronel Mendes para o Tribunal Militar, uma vez que as denúncias revelam comportamentos e vínculos que não correspondem ao perfil e a função que deve cumprir um juiz.

A Via Campesina espera que as investigações apurem quais são as relações entre o ex-comandante da Brigada e a quadrilha que assaltou em pelo menos R$ 44 milhões os cofres gaúchos, assim como todos os casos de corrupção que assolam o Governo do Estado.

Via Campesina/Rio Grande do Sul

Governo federal aponta alternativa para os pedágios guascas


Yeda diz agora que tudo está confuso

A governadora Yeda está dizendo hoje nos jornais que o documento do Ministério dos Transportes negando-se a compactuar no imbróglio dos pedágios é “confuso”.

O documento federal não tem nada de confuso. Ao contrário, propõe claramente uma alternativa viável ao impasse dos pedágios, assim:

“O Governo do Estado do Rio Grande do Sul poderia considerar a possibilidade de rescindir os contratos de concessão dos pólos, objetivando a retificação da situação, e, em contrapartida, o Governo Federal garantiria a execução das obras programadas no PRE, desde que comprovadamente justificadas”.

Antes, mais acima, o documento do Ministério dos Transportes já havia alertado para a prática de tarifas elevadas nos pedágios do RS, e que isso “decorre de modelo incompatível com a política e princípios adotados pelo Governo Federal, uma vez que agrega em cada pólo segmentos rodoviários de menor viabilidade, onerando injustamente o usuário”.

Onde está a confusão, alegada pela governadora tucana?
Certamente, a confusão está plantada agora na relação entre o Piratini e as concessionárias arrecadadoras de pedágios. Um mega impasse, do qual a governadora não deve sair sem novas escoriações políticas.

O governo federal está sendo claro que não participará e não permitirá que as rodovias federais no Estado sejam objeto da ganância das concessionárias, que por sua vez exploram segmentos rodoviários sem viabilidade financeira, “onerando injustamente o usuário”.

Neste tema dos pedágios, cada dia fica mais evidente, que a governadora Yeda se meteu em mais uma aventura insólita e descabida. Mais uma, para a sua copiosa coleção de aventuras.

Coisas da vida.

Abalo no pundonor petista


Giuliani, agora, é bandido?

Só tenho uma coisa a dizer sobre o pula-pula dinheirista deste causídico-data-venia: quem pariu Mateus, que o embale.

E outra: quem dorme com cães, arrisca acordar mordido de pulgas.

P.S.: O revisor de ZH é tartamudo, por acaso?

A resposta da Articulação de Esquerda, uma tendência “revolucionária”


Folha sempre picante

A Folha de S. Paulo publicou, na edição de 4 de dezembro, a seguinte nota: "a Articulação de Esquerda, ala petista do ministro da Pesca, Altemir Gregolin, questiona a candidatura presidencial de Dilma Rousseff. 'BC e ministérios continuarão sob o controle da centro-direita e do grande capital?', pergunta o Página 13, jornal da corrente".

A Folha poderia ter escrito assim: jornal de tendência petista apresenta várias questões acerca da candidatura de Dilma Roussef. Mas como o negócio é criar confusão, preferem dizer que "ala do ministro questiona Dilma". Assim, um debate partidário vira conflito entre ministros e a discussão política é fulanizada.

Vejamos o que diz a respeito o texto original, assinado pela direção nacional da Articulação de Esquerda e intitulado "Acumular forças para 2010": A eleição presidencial de 2010 terá profundos desdobramentos para o povo brasileiro, para a América Latina e para a esquerda, nesta ordem.

Ao contrário do que diz o prefeito Pimentel, a vitória de Serra seria um desastre para as camadas populares, enfraqueceria os governos de esquerda e progressistas em nosso continente, criminalizando os movimentos sociais e os partidos de esquerda, a começar pelo PT (...)

Caberá ao IV Congresso do Partido definir nossa candidatura presidencial, as diretrizes de programa de governo 2011-2014, a política de alianças e a tática de campanha, tanto nacional quanto estaduais (os encontros estaduais ocorrerão depois do IV Congresso e com base nas diretrizes debatidas neste).
Entretanto, como é sabido, algumas destas decisões já estão sendo tomadas desde agora, basicamente por Lula, com maior ou menor consenso no Partido.

Isto ocorre por dois motivos fundamentais: a antecipação da disputa presidencial e a relativa incapacidade da direção nacional do PT, de antecipar-se e de fazer prevalecer uma dinâmica coletiva e partidária. Seja como for, algumas variáveis já estão bastante claras.

A eleição de 2008 confirmou a polarização PT versus PSDB, que deve repetir-se em 2010, tendo Dilma Rouseff e José Serra como prováveis e respectivos candidatos. Ambos buscarão apoios no chamado "centro", que inclui desde setores sociais até partidos políticos que oscilam entre os dois competidores.
A candidatura do PT terá, ademais, o desafio de ganhar o apoio do eleitorado petista e lulista, bem como o apoio da militância de esquerda e democrático-popular.

O engajamento de Lula ajudará nisto, mas a candidata terá um papel crescente e determinante, não apenas em termos de desempenho individual, mas principalmente em termos de programa de governo, no sentido amplo da palavra.

Isto será tão mais importante, quanto mais a conjuntura da disputa presidencial seja influenciada pelos impactos da crise internacional, impactos que serão mediados (econômica e politicamente) pela reação do governo brasileiro, do grande empresariado e das camadas populares. (...)

Enfrentamos as eleições de 2008 num cenário ainda favorável e obtivemos um resultado aquém do necessário. Enfrentaremos as eleições 2010 num cenário diferente e pior, pois mesmo que tenhamos total êxito na administração da economia, ainda assim haverá desaceleração, com todas as conseqüências derivadas.
O que quer dizer que teremos que "compensar", no terreno da política (debate ideológico, mobilização social e partidária, medidas legislativas e de governo), os prejuízos decorrentes da crise. E só venceremos as eleições presidenciais de 2010, se conseguirmos conduzir desde agora uma disputa de projetos, semelhante ao que fizemos no segundo turno de 2006.

Se para a América Latina e para o Brasil está claro o que significaria uma vitória de Serra e de Dilma, por outro lado ainda não está definido o que significará, para o projeto estratégico do PT, a eleição de Dilma Rouseff para a presidência da República.

Um governo Dilma se aproximará mais ou se afastará mais do programa e da estratégia do Partido? Os temas sociais, democráticos e nacionais terão que prioridade e velocidade de implementação? Em particular, que tipo de desenvolvimento será implementado: mais pró-monopolista ou mais democrático-popular? O Banco Central e importantes ministérios continuarão sobre controle de partidos de centro-direita e de quadros ligados ao grande capital? A relação com o Partido, com as esquerdas e com os movimentos sociais será mais ou menos orgânica?

Seja em caso de vitória, seja em caso de derrota, o PT será chamado a cumprir um papel superior ao que cumpre hoje. Atualmente, o centro de formulação e direção estratégica foi transferido para o governo federal (vale dizer que o mesmo ocorre, em geral, naqueles estados e municípios onde o executivo é encabeçado por um petista).

Em caso de vitória, estaremos diante de uma presidência da República muito forte, mas sem a mesma autoridade política que o atual presidente desfruta junto a amplos setores sociais. Neste cenário, ou bem o Partido ganha maior protagonismo, ou a oposição ganhará mais espaços do que possui hoje. (,,,)
O PED deve debater estas questões, inclusive os temas político-organizativos e o balanço do governo Lula. É fundamental dialogar com as preocupações do maior número possível de petistas, debater com quem não está no dia-a-dia do Partido, com quem está dentro e fora do Partido".

Quem tiver interesse em conhecer a versão integral do texto, é só procurar no www.pagina13.com.br

Artigo de Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT, e dirigente nacional da Articulação de Esquerda, tendência interna do PT.

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Estou publicando o artigo de Valter Pomar atendendo a um pedido educado de dirigente da AE/RS. Semana passada, este blog reproduziu a pequena nota da Folha, referida no artigo acima, e que motivou o artigo da AE.

A meu juízo, a Folha pegou leve com a AE, reproduziu um trecho ameno do documento da tendência petista. Quando reproduzi a nota da Folha, eu já havia lido o documento da AE, no seu portal Página 13. Optei por colocar no ar a nota do jornal dos Frias. Se fosse comentar outros trechos, a coisa ficaria menos barata.

É curioso que uma tendência político-partidária que se diz “revolucionária” (acreditem!, está lá no portal) tenha uma visão tão estreita e bisonha sobre o próprio terreno onde fincou suas raízes militantes. Chama a atenção este trecho do texto dos “revolucionários”: “Um governo Dilma se aproximará mais ou se afastará mais do programa e da estratégia do Partido?” – pergunta a AE.

Agora, quem pergunta é este blog DG:

1) Que programa, cara pálida?
2) Que estratégia, cara pálida?
3) Que Partido, cara pálida?

Quanto à reprodução de documentos de tendências petistas – revolucionárias e não-revolucionárias – aqui no blog, tenho a declarar o seguinte:

1) Este blog DG não é democrático, tem soluços democráticos, o que é diferente, por isso estamos abrindo esta exceção à tendência “revolucionária” petista. O correto seria publicar o artigo de Pomar na parte de comentários do blog, como fazem dezenas de gentis leitoras e leitores diariamente.

2) Nenhum blog unipessoal, como este, pode ser democrático em si, deve sim, propugnar pela democracia nas relações sociais, mas não pode contemplar/publicar as múltiplas vozes e polissemias da sociedade, sob pena de tornar-se esquizofrênico, populista, e anular a sua própria voz e personalidade política. Um blog não é um serviço público.

3) O soluço já passou.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A vazia fala lulista


A ditadura dos mercados prevalece no Brasil

A historiadora italiana Bruna Peyrot diz que “narrar é fundamental” quando se refere ao poder. Narrar é também falar. E falar é uma prerrogativa do poder. O homem de poder é sempre o homem que fala, a única fonte de palavra legítima.

O grande etnólogo político, Pierre Clastres, estudou povos indígenas da América, e concluiu que nessas sociedades sem Estado (“sem lei, sem rei, sem fé”), essa fórmula está invertida: falar é um dever do chefe, menos que um privilégio, fonte de legitimidade e poder, a fala é uma obrigação do líder. Eis a diferença: nas sociedades de Estado a palavra é o direito do poder, nas sociedades sem Estado é o dever do poder, segundo Clastres. O chefe fala muito, fala sempre, num discurso monótono e interminável. É para mostrar que não quer o poder. O poder está diluído na comunidade. O discurso do chefe é vazio justamente por não ser um discurso de poder.

As sociedades primitivas são as sociedades da recusa à obediência – a primordial fonte do poder, do Estado, do monopólio da violência, etc.

Isso remete aos discursos do presidente Lula, em fluxo, figurativos, inclusive quando critica a política monetarista de seu próprio governo. Numa sociedade com Estado, o presidente fala muito e sempre, mas o poder parece estar distante dessa fala. O poder está com os chamados “mercados” – o capital financeiro, mesmo que este, no plano internacional, esteja atualmente muito combalido. Assim, o voto, menos que um ato democrático, é um mecanismo de legitimação de toda essa ordem não-democrática.

A vacilação do presidente Lula, no que se refere aos rumos da política econômica que precisa abandonar o monetarismo teológico, constitui, pois, uma consagração à ditadura dos mercados financeiros.

Até quando?

Lição aos revolucionários de bolso


Marx e a literatura burguesa

Um conhecido revolucionário do século 19 chamado Karl Marx, a quem ninguém pode acusar de tendências pequeno-burguesas, recitava Shakespeare de memória, extasiava-se com Byron e Shelley, elogiava Heine e considerava o reacionário do Balzac um gigante admirável. E tanto ele como F. Engels lamentavam que um gênio como Goethe se rebaixasse a comportar-se como um filisteu e às honras de seu ministeriozinho ducal. Não ignoravam suas contradições humanas, sabiam perfeitamente até que ponto Goethe era um artista das classes reacionárias; mas, não obstante, o amavam e admiravam, consideravam-no uma contribuição defintiva para a cultura da humanidade.

Linda lição para certos revolucionários de bolso.

Penso que o sinal mais sutil de que uma sociedade já está madura para uma profunda transformação social é quando seus revolucionários se revelam capazes de compreender e reconhecer a herança espiritual da sociedade que termina. Se isso não ocorre, a revolução não está madura.

Ernesto Sabato, em “O escritor e seus fantasmas”

Meirelles balança


Mas Lula vacila

Em Brasília, hoje, o babado é forte: Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central do Brasil, está balançando no cargo.

Hoje, no final da tarde, reúne-se o Copom - Comitê de Política Monetária –, uma espécie de sínodo dos representantes do capital financeiro que controlam de forma autônoma e livre a política econômica no Brasil, já há quase três décadas. Coincidentemente, o mesmo período que o País está estagnado, com taxas pífias de crescimento.

O presidente Lula foi eleito em 2002 e reeleito em 2006 portando as esperanças populares de que poria fim à hegemonia dos que querem ganhar dinheiro sem produzir, e que ao longo desses anos tornaram-se sócios compulsórios de todos os negócios no Brasil, seja agricultura, seja indústria, sejam serviços, seja comércio em geral.

O capital bancário-financeiro está metido – e lucra – em qualquer transação pequena ou grande que se faz neste País. Quando se compra uma porção de cebolas na quitanda da esquina, se está remunerando a própria mercadoria adquirida e uma fração dos juros embutidos no preço final que foi transferido por quem – na cadeia – um dia tomou algum recurso emprestado em bancos.

Para que servem mesmo os altos índices de popularidade alcançados pelo presidente Lula, se ele não dispõe de soberania nem para dispensar um dirigente do Banco Central e passar novas orientações macroeconômicas à Esplanada?
Foto do alto da página: Jean-Paul Sartre e mamãe Sartre, em 1946. Foto de Gjon Mili.

A teologia monetarista do presidente Meirelles


Belluzzo diz que não se justifica manter a política de juros altos

Ninguém deve dizer ao Banco Central o que ele tem de fazer para baixar a taxa básica de juros (Selic), porque “isso é uma questão de avaliação” da instituição. A afirmação foi feita ontem pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo, durante audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado sobre o aumento da autonomia do BC. A informação é da Agência Brasil.

“Às vezes, sinto que há uma espécie de teologia no BC; não é uma discussão racional”, destacou Belluzzo. Segundo ele, tal situação até se justifica em parte, porque “tudo que lida com moeda é um pouco complicado e leva a esse tipo de comportamento, mas é preciso submeter isso a uma discussão racional”.

O economista disse que não se pode subtrair ao debate público uma questão que é importante para o futuro da economia brasileira: “Às vezes, acho que há uma certa suposição de que é pecado falar sobre reduzir juros; mas não é bem assim; é uma questão prática, pragmática, e não podemos tratar isso de forma religiosa, teológica.”

Favorável aos dois projetos de lei do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) que versam sobre autonomia e reestruturação do BC, Belluzzo, que é professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), defende maior transparência nas decisões da instituição e acha que os votos individuais no Conselho de Política Monetária (Copom) “devem ser revelados e identificados”. Para o economista, os dirigentes do BC, formadores do colegiado, “têm que apresentar as razões dos votos à sociedade”.

De acordo com ele, “rapidez é fundamental nas decisões de governo”. Por isso é que está em discussão hoje em todo o país a questão da política monetária, na expectativa da decisão que o Copom vai anunciar no início da noite de hoje.

Embora tenha dito que ninguém pode determinar o que o BC deve fazer, Belluzzo comentou que, se o Copom entender que a economia desacelerou fortemente e que o investimento e o consumo caíram, “não seria justificável manter a taxa de juros” no patamar atual, de 13,75% ao ano.

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O insight do respeitado Belluzzo é perfeito. O capital financeiro (do Brasil) criou uma teologia em torno dos dogmas fixos do monetarismo de resultados. O Banco Central é uma espécie de Vaticano, com soberania própria e bulas papais portadoras de orientações aos gentios.

Aos brasileiros pagãos resta crer e seguir as orientações do presidente Meirelles neste enclave religioso fincado no território brasuca.

O presidente Lula é apenas o dirigente secular, mundano, profano do País.

Como se vê o neoliberalismo teve também a propriedade de anular o preceito constitucional de separação entre Igreja e Estado.

A teologia monetarista é o inferno dos brasileiros.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O mistério do reitor que não pode ser preso


Futuro prefeito de Canoas faz papel de preposto ad hoc dos interesses da Ulbra

Nas dobras e concavidades da realidade guasca acontecem coisas curiosas. Vejamos o nebuloso caso da Universidade Luterana do Brasil, alcunhada de Ulbra, que filia-se a um ramo de luteranos norte-americanos do Missouri. Este complexo educacional e de investidores no lucrativo setor hospitalar e de previdência em saúde está praticamente insolvente. Existe uma execução de dívida do Eximbank (Export-Import Bank of the United States, uma espécie de BNDES norte-americano) no valor de 200 milhões de dólares e cerca de 70 milhões de reais da instituição sediada em Canoas (RS) já estão bloqueados judicialmente.

O caso é grave, mas não o suficiente para mobilizar o magnífico reitor Ruben Eugen Becker ou o venerável presidente da mantenedora (Comunidade Evangélica Luterana São Paulo – CELSP), Delmar Stahnke. Estes têm se mantido calados sobre a crise estrutural que se abate sobre uma instituição que afirma ter mais de 152 mil alunos matriculados em seus inúmeros cursos de terceiro grau, e centenas de milhares de segurados do sistema Ulbra Saúde.

Entretanto, hoje pela manhã, em programa da rádio Gaúcha (grupo RBS), o prefeito eleito de Canoas, senhor Jairo Jorge, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, e até semanas atrás, empregado da Ulbra, manifestou inúmeras considerações sobre a situação da entidade insolvente.

Jairo Jorge comportou-se como um preposto ad hoc da Ulbra. Emitiu opiniões, informou, foi medianeiro, advogou, ponderou, ajuizou, calculou e avaliou a situação de seus ex-empregadores. Cometeu uma inverdade: ou por malícia ou por olvido, ao dizer que a Ulbra é entidade filantrópica.

A Ulbra não é entidade filantrópica. Foi desqualificada como tal, pelo governo federal, por não contemplar as exigências requeridas para essa condição. Fato esse que está na raiz mesma da atual situação da entidade (que não pode ser chamada de Universidade, tout court).

JJ garantiu que a situação da Ulbra “pode ser contornada”, que a “crise é conjuntural” (mesmo sendo executada judicialmente em 200 milhões de dólares?), e que não é caso de intervenção. Para tanto, o ad hoc extremoso propõe a moeda de troca de sempre: que os hospitais da entidade “aumentem os serviços do SUS à população carente” e desassistida. Jogando com as misérias dos excluídos, JJ julga que vai encaminhar soluções definitivas para quem pratica gestão temerária continuada numa instituição que presta serviços públicos precários, haja vista que foi descredenciada há anos como entidade filantrópica.

Saiba o senhor JJ que a Ulbra pode e deve sofrer intervenção federal do MEC. JJ, antes de prestar serviços à entidade canoense, trabalhou no MEC e sabe que a intervenção é factível e necessária no caso de seus ex-patrões. Em Porto Alegre, por muito menos, a Faculdade São Judas Tadeu, sofreu intervenção federal, assim permanecendo por muitos anos. Um procedimento de intervenção exige o imediato afastamento de toda a direção da mantenedora e das instituições por ela operadas, exige auditagens contábeis e financeiras, bem como validação minuciosa de procedimentos e métodos de trabalho na instituição sob impedimento legal.

Segundo nota paga no jornal Correio do Povo de hoje (acima), o Sindicato dos Médicos, afirma que o “reitor da Ulbra não pode ser preso por sonegação de impostos por ter obtido habeas corpus preventivo” no Judiciário. Já se vê que o reitor Becker já cogitava dos riscos que corria, cotejando-os certamente aos feitos notáveis realizados na gestão de sua entidade.

Como se observa, a situação da Ulbra é gravíssima, não é o caso de deixar aos cuidados – ainda que zelosos – de um preposto ad hoc, futuro prefeito municipal, ex-cargo de confiança do MEC, ex-celetista da instituição ou algo no gênero. É caso, sim, de uma bem fornida banca de advogados com ânimo e expertise para defender o quase indefensável: a frustração e o ludíbrio dos milhares de cidadãos e cidadãs que buscaram saúde e educação numa entidade-arapuca que insiste em fraudar e re-fraudar a sua clientela.

Intervenção federal, já!

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