Você está entrando no Diário Gauche, um blog com as janelas abertas para o mar de incertezas do século 21.

Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sábado, 10 de outubro de 2009

MST: não nos julguem pela versão apresentada pela mídia


Esclarecimentos importantes

Diante dos últimos episódios que envolvem o MST e têm repercutindo na mídia, a direção nacional do MST vem a público se pronunciar.

1. A nossa luta é pela democratização da propriedade da terra, cada vez mais concentrada em nosso país. O resultado do Censo de 2006, divulgado na semana passada, revelou que o Brasil é o país com a maior concentração da propriedade da terra do mundo. Menos de 15 mil latifundiários detêm fazendas acima de 2,5 mil hectares e possuem 98 milhões de hectares. Cerca de 1% de todos os proprietários controla 46% das terras.

2. Há uma lei de Reforma Agrária para corrigir essa distorção histórica. No entanto, as leis a favor do povo somente funcionam com pressão popular. Fazemos pressão por meio da ocupação de latifúndios improdutivos e grandes propriedades, que não cumprem a função social, como determina a Constituição de 1988.

A Constituição Federal estabelece que devem ser desapropriadas propriedades que estão abaixo da produtividade, não respeitam o ambiente, não respeitam os direitos trabalhistas e são usadas para contrabando ou cultivo de drogas.

3. Também ocupamos as fazendas que têm origem na grilagem de terras públicas, como acontece, por exemplo, no Pontal do Paranapanema e em Iaras (empresa Cutrale), no Pará (Banco Opportunity) e no sul da Bahia (Veracel/Stora Enso). São áreas que pertencem à União e estão indevidamente apropriadas por grandes empresas, enquanto se alega que há falta de terras para assentar trabalhadores rurais sem terras.

4. Os inimigos da Reforma Agrária querem transformar os episódios que aconteceram na fazenda grilada pela Cutrale para criminalizar o MST, os movimentos sociais, impedir a Reforma Agrária e proteger os interesses do agronegócio e dos que controlam a terra.

5. Somos contra a violência. Sabemos que a violência é a arma utilizada sempre pelos opressores para manter seus privilégios. E, principalmente, temos o maior respeito às famílias dos trabalhadores das grandes fazendas quando fazemos as ocupações. Os trabalhadores rurais são vítimas da violência. Nos últimos anos, já foram assassinados mais de 1,6 mil companheiros e companheiras, e apenas 80 assassinos e mandantes chegaram aos tribunais. São raros aqueles que tiveram alguma punição, reinando a impunidade, como no caso do Massacre de Eldorado de Carajás.

6. As famílias acampadas recorreram à ação na Cutrale como última alternativa para chamar a atenção da sociedade para o absurdo fato de que umas das maiores empresas da agricultura - que controla 30% de todo suco de laranja no mundo - se dedique a grilar terras. Já havíamos ocupado a área diversas vezes nos últimos 10 anos, e a população não tinha conhecimento desse crime cometido pela Cutrale.

7. Nós lamentamos muito quando acontecem desvios de conduta em ocupações, que não representam a linha do movimento. Em geral, eles têm acontecido por causa da infiltração dos inimigos da Reforma Agrária, seja dos latifundiários ou da policia.

8. Os companheiros e companheiras do MST de São Paulo reafirmam que não houve depredação nem furto por parte das famílias que ocuparam a fazenda da Cutrale. Quando as famílias saíram da fazenda, não havia ambiente de depredações, como foi apresentado na mídia. Representantes das famílias que fizeram a ocupação foram impedidos de acompanhar a entrada dos funcionários da fazenda e da PM, após a saída da área. O que aconteceu desde a saída das famílias e a entrada da imprensa na fazenda deve ser investigado.

9. Há uma clara articulação entre os latifundiários, setores conservadores do Poder Judiciário, serviços de inteligência, parlamentares ruralistas e setores reacionários da imprensa brasileira para atacar o MST e a Reforma Agrária. Não admitem o direito dos pobres se organizarem e lutarem.

Em períodos eleitorais, essas articulações ganham mais força política, como parte das táticas da direita para impedir as ações do governo a favor da Reforma Agrária e "enquadrar" as candidaturas dentro dos seus interesses de classe.

10. O MST luta há mais de 25 anos pela implantação de uma Reforma Agrária popular e verdadeira. Obtivemos muitas vitórias: mais de 500 mil famílias de trabalhadores pobres do campo foram assentados. Estamos acostumados a enfrentar as manipulações dos latifundiários e de seus representantes na imprensa.

À sociedade, pedimos que não nos julguem pela versão apresentada pela mídia. No Brasil, há um histórico de ruptura com a verdade e com a ética pela grande mídia, para manipular os fatos, prejudicar os trabalhadores e suas lutas e defender os interesses dos poderosos.

Apesar de todas as dificuldades, de nossos erros e acertos e, principalmente, das artimanhas da burguesia, a sociedade brasileira sabe que sem a Reforma Agrária será impossível corrigir as injustiças sociais e as desigualdades no campo. De nossa parte, temos o compromisso de seguir organizando os pobres do campo e fazendo mobilizações e lutas pela realização dos direitos do povo à terra, educação e dignidade.

São Paulo, 9 de outubro de 2009

Direção Nacional do MST

13 comentários:

Juarez Prieb disse...

Quem tinha que ler esse texto é o jornalista Ricardo Kotscho que ontem no seu blog deu uma desbundada geral dizendo que o MST é formado de bandidos, marginais, depredadores e arruaceiros, que ele sempre admirou o MST mas agora não dá mais uma vez que o movimento não tinha motivo pra destruir as laranjas de uma empresa como a Cutrale.
Ele não fala nada sobre a grilagem da empresa Cutrale. Esse pequeno burguês desbundado que foi por muitos anos assessor de imprensa do PT e do Lula, agora deve ter achado a sua turma e resolveu se lambuzar do senso comum mais pilantra e direitoso.

Anônimo disse...

Valer ler o artigo do Kotscho. Ninguém mais em sã consciência, por mais que defenda a distribuição de terra igualitária, consegue compactuar com as ações do MST.

Gustavo Guglielmi disse...

O MST age de forma correta, luta pelos seus direitos legítimos. A Cutrale é uma empresa criminosa que roubou aquela terra da União Federal e eles próprios destruiram os tratores e picharam as casas, destruiram galpões, roubaram objetos pra por a culpa nos sem terra. Eles querem é desviar o assunto da reforma agrária pra transformar os lutadores sociais em simples ladrões e incendiários. Isso é uma farsa. Se existe ladrão nessa historia esse ladrão é a Cutrale, que está comprovado que se adonaram de terra pública, o nome disso é ROUBO.
Esse Kotscho se desqualifica dizendo o que disse.

Alice Mann disse...

Pensando bem: aquelas imagens de tratores derrubando pés de laranjas, no meio de um laranjal demonstram uma racionalidade contrária das estratégias, normalmente seguidas pelo MST e não me convenceram. Se alguem quer abrir uma área para plantação, certamente vai escolher as margens e não o meio.
Pensando bem: as filmagens foram feitas para causar um impacto, ao filmar a intervenção solitária, no meio do cenário.
Pesando bem: as intervenções do MST nunca são solitárias, elas são feitas de forma coletiva.As imagens, poderiam mostrar as pessoas envolvidas, o que não aconteceu nesse caso.
Perguntas: quem são os autores das imagens e quando (data, hora) foram feitas.
Sugiro ao MST que nas próximas ocupações estejam equipados com filmadoras, máquinas fotográficas, celulares... e que tudo seja registrado e documentado.

Nelson Antônio Fazenda disse...

A Alice colocou a pergunta correta a fazer.
Antes de acreditarmos nas notícias divulgadas pela mídia, é preciso que saibamos se a descrição das imagens confere com a verdade; se era realmente um trabalhador sem terra a se utilizar do trator para derrubar as laranjeiras.
O largo histórico de manipulações e mentiras perpetradas por aqueles que deveriam nos informar sobre os fatos da forma como realmente aconteceram - órgãos da mídia hegemônica e seus (de)formadores de opinião - não permite que a eles emprestemos uma credibilidade que estão muito longe de ter.
Portanto, os que são realmente de esquerda e lutam por um mundo melhor, não podem, de forma alguma, "engolir" uma história dessas sem antes buscar mais informações sobre o que, na verdade, aconteceu na fazenda grilada da Cutrale
Eu, prefiro acreditar na palavra dos companheiros do MST.

valeriobrl disse...

Apoio moral total pela luta do MST

João Carlos disse...

Sou da classe média (bem) alta, e sou favor do MST porque sei que a reforma agrária de verdade (com apoio tecnológico aos assentados e possibilidade de comercialização de seus produtos) criará muitos e muitos empregos. Mais empregos, menos pobreza e menos miséria. Menos pobreza e miséria, menos revolta, menos ódio, menos violência, menos criminalidade (a imprensa não fala isso abertamente, e pouca gente se dá conta deste fato).
Mas, a meu ver, o que aconteceu na Cutrale foi uma imbecilidade (idéia/obra de algum infiltrado?). De tão imbecil, me dá até a idéia de que foi uma montagem global, sem participação do MST.... Só deu munição para a cobertura global e jogar (ainda mais) o povo contra o MST. (quem pode com a força global?????)
Sorry.........

Alice Mann disse...

João Carlos,
Nós podemos!
Quem está nesse 'NÓS'? Todos os que lutam pela democracia, como: Sebastião Salgado, Chico Buarque, Saramago, Oscar Niemeyer, Feil...todos os movimentos sociais... a lista vai aumentando conforme aumenta o conhecimento sobre o Projeto do MST e o seu significado para a qualificação da sociedade, pelos cidadãos.
Sim, nós podemos! Podemos acelerar a concretização desse Projeto ao unificarmos as nossas forças sociais e políticas.

mário casado disse...

João Carlos, não faça conjectura, leia e acredite na nota do MST.
É simples. Foi sabotagem da polícia ou dos proprietários pra espalhar uma imagem péssima do movimento.

van-poa-rs disse...

Sou simpatizante do MST e, sofro muito com tudo o que é feito contra eles!

Sofia disse...

Se as imagens foram feitas pela BM de São Paulo, então a ordem foi do governo daquele estado, que adota o mesmo jeito autoritário do Estado do RS e em cumplicidade com os latifundiários.

JAQUES disse...

Não tenho dúvidas que foi tudo armação do SERRACARD em conluio com a mídia "PÔDRE" que temos aquí no Brasil!!

João Carlos disse...

Senhor Editor:

Não dá para colocar um marcador de visitas, para saber quantas pessoas estão acessando o site?

Acho que seria muito interessante, e estimularia as pesssoas a repassar, e, mesmo, postar comentários.

Obrigado.

Contato com o blog Diário Gauche:

cfeil@ymail.com

Arquivo do Diário Gauche

Perfil do blogueiro:

Porto Alegre, RS, Brazil
Sociólogo