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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

domingo, 11 de outubro de 2009

RBS e Incra/RS se aliam para combater o MST


Novos aliados fazem devassa policial e lavram sentença criminal simbólica contra o movimento social

Várias obras literárias e cinematográficas exploraram o argumento da prostituição embalada no celofane brilhoso da moral. É um truque manjado e fácil esse de tratar dos contrastes num tipo humano que já foi o paradigma burguês da indecência e da imoralidade. Foi. Hoje, os concorrentes são multitudinários. "Nunca aos domingos" é um filme dessa classe. Um grande filme de Jules Dassin, lançado em 1960, com a grega Melina Mercouri, no papel da prostituta que guardava o dia santificado. [Ver nas locadoras.]

Corte rápido.

Em 1998, foi lançado pela editora da Ufrgs, a obra "Campos em confronto: a terra e o texto", da professora e pesquisadora Christa Berger. O livro resulta de sua tese de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da USP, em 1996. Trata, em suma, da relação do jornal Zero Hora (grupo RBS) com o MST. Embora não tenha sido essa a intenção da professora Berger, o estudo dela mostra o quanto são envenenadas - por parte de ZH - essas relações. De um lado temos um meio de comunicação social porta-voz da hegemonia (Sartre dizia que as mídias desempenham o papel de "servidores da hegemonia e guardiães da tradição"), e do outro, temos um movimento social muito dinâmico e febril que situa-se na vanguarda da luta contra-hegemônica no Brasil - queiram ou não os que têm uma vida absolutamente regulada, previsível e cultivam pruridos contra os métodos hiperrealistas (e necessários) de luta do movimento.

"Campos em confronto" constata que o jornal Zero Hora, pelo menos até 1998, não publicava nada aos domingos, contra o MST. Nem a favor. Como a prostituta do Pireu, nunca aos domingos!

Não sei quando se deu essa dissolução moral de ZH, mas já faz alguns anos que o jornal da família Sirotsky dedica comumente os domingos para bater no MST. Não passa mês, que não saia matéria com pancadaria no movimento.

Hoje, neste belo domingo ensolarado de primavera, para o MST, entretanto, faz tempo feio em ZH. Desta vez, o jornal da Azenha tratou de buscar um parceiro para melhor bater no movimento dos sem terra: o Incra (Instituto Nacional de Reforma Agrária), secção do Rio Grande do Sul. Todos os argumentos e informações manipulados pelo jornal nessa matéria foram extraídos do Incra/RS, a partir de uma denominada "devassa no assentamento da fazenda Annoni". Não está informado no texto, mas é possível perceber pela narrativa do mesmo que o Incra/RS convidou a reportagem de ZH para acompanhar a chamada "devassa" no assentamento. O tom da matéria é ameaçador e policialesco, menciona-se que a área dos assentados será "vasculhada", "que está sob investigação", "devassa nas terras", "suspeita de crimes ambientais", "alvo de uma ação quase policialesca", "avisar as autoridades policiais", etc.
Se pode observar nitidamente que o Incra/RS está exorbitando da sua função pública. Antes de qualquer constatação formal de irregularidades na área do assentamento, o órgão federal, subordinado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, faz-se acompanhar pela reportagem de um jornal, e se arroga no direito de deter o poder de polícia e o de juíz, ao mesmo tempo. Assim, a aliança RBS-Incra/RS acaba constituindo uma devassa policial e um julgamento seguido de sentença informal aos olhos dos leitores dominicais de ZH.

O assentamento da Annoni foi efetivado em 1985, desde então o jornal ZH tem feito inúmeras matérias sobre o MST, as ocupações, as desocupações (sempre violentas da BM), etc. Em cálculo estimado chegam a quase mil matérias feitas por ZH sobre o MST, desde então, quase sempre por esse mesmo repórter da edição de hoje, agora especialista às avessas em MST. Essas matérias têm em comum, além do mesmo objeto (falar mal do MST), o fato de serem tramadas e costuradas com o fio invisível do discurso ideológico. Ora, esse discurso é a própria fala da lógica do poder econômico no seu afã de aplastar com imagens simbólicas a luta empreendida pelos que buscam a emancipação política e social. Porém, na edição de hoje, há uma novidade que surpreende e assusta: o Incra/RS presta-se a colaborar com a cruzada histórica que o grupo midiático RBS empreende há 25 anos contra o movimento social, em nome de uma posição de classe que procura apontar a luta dos excluídos como algo criminoso e moralmente reprovável.

À falsa moralidade das prostitutas idealizadas pelo cinema e a literatura, acrescente-se agora o moralismo policialesco e as falsas sentenças criminais-espetaculosas dos novos aliados RBS-Incra/RS.

10 comentários:

Juarez Prieb disse...

Feil, este é um modelo de como não se faz jornalismo. Não foram capaz nem de ouvir alguém do MST. A matéria é um lixo. Afirmam coisas sem nenhum argumento, sem sustentação alguma.
O carinha que escreveu diz que a Annoni sempre foi lugar de "confusão". Como assim? Que confusão havia lá? Confusão é um termo muito vago. Como bom repórter ele deveria se preocupar em explicar o mínimo do que entende por "confusão". Diz que o MST está decadente, mas isso a ZH diz toda a vida, só que essa decadência nunca tem fim, nunca tem derrota final, como queria a RBS.

Stringhini disse...

Se existe irregularidade lá na Anoni é porque os assentados não tiveram assistência técnica e financiamento pra tocar a produção. É um assentamento antigo, quando os governos da ditadura e os demais não tinham interesse em apoiar os assentados do MST. O Incra tem é que fazer a autocrítica pelo suas próprias omissões do passado. Aonde o Incra quer chegar com essa pol´tica de criminalização dos lutares? se nem eles cumprem com as próprias funções de órgão estatal. Essa unidade com a RBS é o fim da picada.

Alice disse...

O Domingo está terminando e como sempre até a essa hora não me animo em abrir o ZH. Pois, em especial, aos domingos esse jornal sempre me causa um mal estar. Então, mais uma vez esse serviçal da hegemonia e guardião da tradição,como diagnosticou Sartre,ataca o MST, que na perspectiva sociológica de Castoriadis, Touraine e tantos outros, o MST é um movimento social instituinte, isto é,com projeto, organização e práxis inovadoras e que radicalizam a democracia. É evidente que o ZH é o arcaico,o corroido, tradicional, o passado, o mantenedor do autoritarismo, da desigualdade, da injustiça...
Se fosse um jornal descente faria uma reportagem com todos os atores sociais envolvidos.
Quanto a fazenda Anoni, fazem alguns anos tive a oportunidade de ter como aluno no curso de Direito, um filho do Sr. Anoni, e ele fez questão de fazer um relatório sobre a interação entre o MST e a propriedade de sua familia. Destacou que houve conflito social, mas que acabou sendo amigo dos trabalhadores rurais sem terra.

Anônimo disse...

Confusão - ocorre em uma casa bem conhecida... Esta tem que ser ultra protegida... Mas voltando ao MST e o artigo, onde neste se fala que o Brasil é o campeão da desigualdade e da desigualdade da distribuição de terra? REFORMA AGRÁRIA JÁ!!!

Djalmo Santos disse...

Engraçado. a mesma zero hora que transcreveu diversos diálogos travados entre os suspeitos dos desvios do DETRAN.

A mesma zero hora que está sendo processada pela Yeda.

A mesma zero hora que abriu (e abre) espaço para o Lula, Marcos Rolim, Veríssimo, José Pedro Goulart, etc manifestarem sua opinião por meio de colunas semanais, dominicais, etc.

A reportagem contra o MST é muito superficial e não tem contraditório, o que eu considero grave nestes casos.

Mas ignorar o que lá está escrito (mesmo mal escrito) é muita cegueira ideológica.

Cazé disse...

Djalmo vc já ouviu falar que às vezes é inevitável ter que publicar uma notícia, sob pena de passar atestado de que o jornal não é neutro ou isento?
Me diga como que ZH não daria as notícias sobre as gravações escandalosas sobre o Detran? Se não desse se desmoralizava de vez como "imprensa livre, neutra e apolítica". Agora diga, quem falou pra vc meu rapaz que Marcos Rolim e JP Goulart são de esquerda? Quem lhe enganou tanto assim, rapá?
O Verissimo eles não podem romper porque é o álibi pra continuarem afirmando a sua pretensa pluralidade e não serem chamados de jornal do pensamento único.

van-poa-rs disse...

Há , pelo menos, 20 anos estes" formadores de opinião", influenciam maldosa e pesadamente os gaúchos! Se o estado chegou aonde chegou hoje, o mérito é de nossos meios de comunicação. 33% do povo está "contaminado" politicamente, 33% é indiferente e, outros 33% são bem informados! A tendência do "PIG" é reforçar os ataques, daqui até as eleições!

Djalmo Santos disse...

Cazé, alguém falou em direita ou esquerda? Existe direita ou esquerda no Brasil? Aliás, o governo Lula é de esquerda?

A zero hora não deu só as notícias do DETRAN, ela escancarou as gravações, coisa que ela podia sonegar dos leitores, extraindo apenas poucos trechos.

A zero foi processada pelo Olívio, Simon, Bisol, Yeda e outros tantos políticos de diversos partidos.

Em tempo, o grupo RBS não é isento, eles tem um claro posicionamento com relação a uma série de assuntos (por exemplo, contra invasão de terra...).

O que tem de ser feito por nós e filtrarmos aquilo que parecer demasiado superficial ou incoerente e não ter este jornal como única fonte de informação, mas, também, não ficarmos achando pelo em ovo e discordarmos daquilo que foi publicado apenas por causa de nossa cor partidária.

Cazé disse...

Não amola Djalma.
Isso quem inventou foram os neoliberais pra dizer que a história acabou, que o capitalismo é triunfante. Existe sim esquerda e direita, é o modo da gente entender a política. Que aliás o neoliberalismo também quis liquidar, já que para eles, só a economia que determina o mundo e a vida das pessoas.
Vá se informar melhor, rapá. O Olívio, Bisol e o Simon nunca processaram a ZH. Vc é mal informado ou está de má fé.
Uma das conquistas da cidadania é poder criticar, vc está sugerindo que não se pode criticar a ZH? Um jornal comprometido com a mentira e a enganação? Não pode ser criticado e apontado as suas lorotas?
ZH publica notícias porque não pode esconder a realidade, por isso "teve" que publicar as notícias da roubalheira no Detran.
Fez apenas a sua obrigação sob pena de estar brigando com os fatos que todos conheciam. Meu filho, eles também não rasgam dinheiro, sabia?

joão disse...

Tudo muito bem tudo muito bom. Mas o que se pode esperar da ZH? De lixo para pior. Agora o que me espanta e que o comparsa nessa reporcagem... quem é mesmo? Ora o INCRA. E quem manda no INCRA? E no Ministério aquele que era do Rosseto????? (me falha o nome do ministerio). Quem quem?? Ora a conhecida DS! Fantastico ver a DS aliada a ZH contra o MST! E isso, que pra mim é o mais importante por revelador do estado que chegou o PT no Brasil.

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