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Surf no lixo contemporâneo: a que ponto chegamos! E que mundo deixaremos de herança para Keith Richards?

sábado, 24 de outubro de 2009

Afinal, a Bienal ainda não aprendeu nada com a Bienal?


A Bienal de um não-lugar

Não se trata de defender a arte como função pedagógica, como quiseram Platão e Aristóteles, e muito menos de fazer proselitismo por uma perspectiva de arte engajada, como instrumento da revolução mundial, como quiseram os stalinistas, de resto, outro simulacro crivado de ideologia; mas da arte concebida como expressão alegórica e simbólica que parte do velho terreno do instituído para os novos horizontes do instituinte.

“Sem dúvida, o nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser.” (Ludwig Feuerbach in Prefácio da segunda edição de A essência do cristianismo).

Reflitamos um pouco sobre a Bienal do Mercosul, que se realiza em Porto Alegre. É um evento muito importante, por isso precisamos avaliar a sua expressão e significado; sem entrar em méritos formalistas ou conteudistas, e muito menos fazer juízo de gosto. Que mensagens nos traz? Millôr diz que quem traz mensagens são os Correios, pois bem, que mensagens simbólicas (e essas os Correios jamais trarão) a 4ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul podem nos oferecer. Mercosul? É em Porto Alegre ou no Mercosul? E Mercosul é uma geografia, um nome próprio de lugar? Não seria Cone Sul? Mercosul, até onde se sabe, tem a ver com mercado, com trocas comerciais de mercadorias e serviços, etc. Então, o que artes visuais e cultura tem a ver com mercado, ou com o nosso desmilingüido Mercado Comum do Cone Sul, apelidado de Mercosul?

Muita coisa, muito mais do que se pensa ou adivinha.

Para além de ser uma criação cultural, a arte é uma dimensão do pensamento do homem sobre si e sobre a natureza. Arte é, sobretudo, reflexão e expressão. Provoca, como diz Hegel, o “nosso juízo”, aguça o nosso sentido crítico, faz enxergar as contradições e até mesmo a essência das coisas, por trás das aparências. A arte é uma pedra de amolar a nossa intuição e a nossa percepção. Através da arte o nosso espírito faz malhação. Ficamos mais ativos (e menos passivos), mais agudos, mais negativistas (como antítese de positivista), mais afiados em face ao homem, à natureza, aos recortes da vida e à curva do tempo.

Mas será que podemos generalizar? Isso não é histórico, vale em qualquer tempo e lugar? Existe genuinidade e autenticidade nisso tudo? Tudo que se autonomeia “arte” é efetivamente arte? Jean Baudrillard diz que vivemos em um tempo de simulacro e semantização. Vivemos um tempo de falsificação e disfarce; um tempo de mudança no significado das palavras, dos enunciados e discursos. O excesso de realidade dissolveu o real. O real é um espaço inútil, cassado de realidade. A realidade não é o real, é uma representação do real, cujo objetivo é a produção de verdades (ideologia). As coisas engoliram seus espelhos. É a morte da ilusão, da imaginação e da criatividade.

Vivemos sob o império da lei do valor – seu ídolo e novo Moloch, a mercadoria. O dinheiro é a mercadoria divinizada do mundo globalitário. O sujeito central é o dinheiro - “a vida do que está morto se movendo em si mesma”, no dizer de Hegel.

Há mais de 50 anos, os estudos de Adorno-Horkheimer sobre o que eles denominaram indústria cultural já apontavam esse fenômeno da instrumentalização da obra de arte pela estrutura mercantil. O mercado – esse ente fantasmagórico, que desde o início do capitalismo tudo transforma, informa, desforma e conforma – adotou a obra de arte como mais um instrumento de realização da mercadoria. A arte esbatida em cálculo frio. A autonomia, condição da obra de arte genuína, perde-se nos desvãos heterônomos da imitação e do fingimento. Arte inautêntica, teu nome agora é kitsch, cuja função não é mais abrir portas fechadas, mas vagar errante por portas abertas. Sua espontaneidade e frescor estão corrompidos pela nova função social de valor de troca. Consome-se arte como se consome iogurte: com prazo de validade. É entretenimento e distração garantidos – ou o seu dinheiro de volta! Não é assim que os vendedores ambulantes operam o pregão?

A revolução burguesa promoveu o desencantamento do mundo substituindo o mito pela razão e a magia pela ciência. E a arte, até então aprisionada na jaula de ferro das finalidades mitológicas e religiosas, conquista a sua emancipação. Infelizmente uma conquista que não foi definitiva e nem duradoura. Vê-se novamente submetida, agora a uma segunda servidão. O state of the art da arte contemporânea é a reificação rebaixada da mercadoria. Ao perder sua “aura” (W. Benjamin), se coisifica em objetos seriados, de moda e consumo. É de bom tom associar uma marca comercial, industrial ou financeira à arte e à cultura em geral. É o velho mecenato com roupa nova. Agora, numa situação invertida: outrora, o mecenas promovia a arte, patrocinando o artista; hoje, o mecenas instrumentaliza a “arte” para promover-se a si próprio e a seus produtos mercantis. A obra de arte é uma coisa lateral ao negócio em si. Assim, o mecenato reduz-se a um composto de marketing. Não raras vezes, recebe incentivos do Estado, através de renúncia ou diferimento fiscal. O Estado arbitra em socializar o custo do financiamento da cultura-arte-mercadoria entre todos os contribuintes, em nome de uma transcendência que não logra mais se realizar. A viagem da realização do capital tem mais paradas hoje do que nunca. Em cada uma dessas paradas, o capital transfigura tudo ao seu redor.

Em novembro de 1967, Guy Debord já alertava que “a cultura tornada integralmente mercadoria deve se tornar mercadoria vedete da sociedade espetacular”; constatou, igualmente, que “a cultura deve desempenhar na segunda metade do século 20 o papel motor no desenvolvimento da economia, equivalente ao do automóvel na primeira metade e ao das ferrovias na segunda metade do século 19”. Para Debord, o “espetáculo” é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: “o mundo que se vê é o seu mundo”.

Não se trata de defender a arte como função pedagógica, como quiseram Platão e Aristóteles, e muito menos de fazer proselitismo por uma perspectiva de arte engajada, como instrumento da revolução mundial, como quiseram os stalinistas, de resto, outro simulacro crivado de ideologia; mas da arte concebida como expressão alegórica e simbólica que parte do velho terreno do instituído para os novos horizontes do instituinte. E o agente dessa viagem ao mundo do novo, ao mundo do admirável, do terrível, do sublime e do espantoso é o artista, que no dizer de Kant é um “animal incomparável”. O artista autêntico é o visionário do novo e o tradutor do hoje. Seu trabalho de criação é o de transfigurar a realidade para termos acesso a ela. Como lembra Marilena Chaui, o artista “desequilibra o instituído e o estabelecido, descentra formas e palavras, retirando-as do contexto costumeiro para fazer-nos conhecê-las numa outra dimensão, instituinte ou criadora”. O artista é o inventor criativo de um outro mundo: o mundo das formas e dos volumes, das cores e das massas, dos sons e dos gestos, dos ritmos e das palavras. Esse outro mundo ilusório é o espelho traduzido em rude caligrafia do nosso mundo sensível. Um espelho por vezes quebrado, onde os infinitos fragmentos refletem os enigmas do nosso tempo.

A Bienal de Porto Alegre (esse deveria ser o seu orgulhoso nome) é resultado das veleidades de uma instituição chamada Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, cuja direção toda ela é formada por empresários de diversos ramos de negócios do Sul. Não é por descuido que o presidente da Fundação seja um banqueiro; ainda que não seja um banqueiro “federal”, apenas um banqueiro “municipal”, como diria Drummond. De qualquer forma, é simbólico que um punhado de negociantes sejam os formuladores de uma exposição dessa natureza e calibre, e de que a denominem de um lugar utópico, um não-lugar, chamado Mercosul, e não Porto Alegre, o que seria mais justo e, sobretudo, mais poético. Visitando a exposição e verificando a capacidade expressiva dos seus artistas fica-se com uma sensação de hiato entre a exposição em si e seus proponentes da Fundação. Não há convergência, os caminhos acontecem em direções opostas.

Quem sabe a próxima edição da Bienal já ocorra sem o atual nome kitsch, para não dizer “fake”; e que a Fundação Bienal deixe de ser um clube de milionários municipais para universalizar os seus conceitos culturais e artísticos e proceder a um aggiornamento dos seus estatutos.

Afinal, a Bienal ainda não aprendeu nada com a Bienal?

Artigo de Cristóvão Feil, publicado originalmente no portal da Agência Carta Maior, no dia 24 de outubro de 2003. Escrito há seis anos, o artigo ainda está atualíssimo.

8 comentários:

Hélio Sassen Paz disse...

Cristóvão,

Sensacional post. Fazia muito tempo que eu não lia algo tão interessante. Estou me aproximando do Grupo CEPOS, de Economia Política da Comunicação, que utiliza grande parte dos autores que tu usaste pra desenvolver esse texto.

A indústria cultural é a lógica que rege a sociedade midiatizada: quem não aparece na mídia não é cidadão e não é consumidor. O cidadão só é cidadão se for consumidor. Isso começou a ser pensado com maior empenho a partir da Escola de Frankfurt (que é multifacetada e não necessariamente marxista ou preocupada com a indústria cultural; basicamente, enquadraria apenas Adorno, Horkheimer e Walter Benjamin nesse grupo, mas não exatamente Marcuse, Schramm e outros - Habermas se assemelha em vários pontos e é até mais profundo do que Adorno e Horkheimer, mas a praia dele era outra).

Embora eu seja de esquerda e anti-neoliberal na economia, não sou comunista nem socialista: sou a favor de um capitalismo regido pelo estado, SUSTENTÁVEL (do ponto de vista do meio ambiente) e pacifista. Repudio o rentismo do dinheiro pelo dinheiro, que deveria ser apenas um objeto de troca sem poder valorizar a si mesmo. Apesar disso, faço a ressalva de que considero a economia popular solidária como um paliativo útil e necessário para tirar pessoas do estado de miséria limitado por não conseguir dar conta de um outro nível de consumo e de produção.

Também acho que perde-se muito tempo tentando valorizar, restaurar ou transformar um sistema político-partidário, sindical e empresarial positivista de origem militar (que originou o taylorismo-fordismo) em algo que não pode mais ser mantido "as is", pois trata-se de uma estrutura hierarquizada, burocrática, verticalizada e altamente sectária.

As TICs servem para mobilizar, se utilizadas com seriedade e método. A estratégia que pretendo desenvolver no doutorado (oxalá consiga entrar - são apenas 10 vagas, tentarei apenas na Unisinos e levo a desvantagem de ter passado o ano sem conseguir faculdade pra lecionar, sem dinheiro pra participar de congressos e sem um grupo de pesquisa coeso, além de ser relativamente velho) baseia-se em uma aproximação crítica da mídia de massa como instrumento de educação (para o bem e para o mal, pois legitimiza a hegemonia do status quo) em um momento em que a maioria dos professores das escolas públicas veem com muito preconceito didáticas que empregam o uso de filmes, documentários, blogs, podcasts (programas de áudio p/baixar no celular ou num MP3 player p/ouvir depois) e não se interessam em aprender a usar as TICs em uma sociedade midiatizada.

[]'s,
Hélio

Anônimo disse...

Há tempos eu não lia tanta besteira junta num mesmo texto.

Igor disse...

Parabéns, Feil.

Baita texto, mostrando esses oportunistas gigolô de arte.

O Museu do Iberê foi feito com dindim da Petrobras mas quem levou a fama foi o véio Gerdau João Pedro.

Leandro Bierhals disse...

Texto lúcido. Conteúdo e densidade transmitidos de forma clara. Coisa rara hoje em dia. Parabéns.

Anônimo disse...

Que pena que você não usou o seu direito de pensar e de sentir e não visitou a Bienal. Poderia ter visto obras de arte que convidam à reflexão sobre temas sociais e políticos, com as de Nicholas Floc'h, José Carlos Martinat e de Luis de Abreu, por exemplo. Mas é muito mais fácil ficar sentado na frente do computador citando o PRAVDA, não é?

Anônimo disse...

O mecenato não é nenhuma novidade no mondo da arte. O mais espantoso é um bando de auto-proclamados artistas, que fora da seleção do banqueiros e siderurgicos, desafiam o estabelishment, criam uma espécie de B-side da Bienal e em seguida são comprados pelo estabelishment. Esperar o quê, quê arte? Nem capacidade para contestar, como mostrou o anomino ali em cima...

Marcello Leinster

Anônimo disse...

porque parô, parô porque??

Douglas Bresolin disse...

Férias Feil?

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